Like a Vampire Extra: Be my Valentine?

8 Capítulo 8- Victoria e Reijii


"Deve ter sido amor, mas já acabou

Deve ter sido bom, mas eu perdi de algum jeito

Deve ter sido amor, mas já acabou

Do momento que nos tocamos até o tempo que acabou"

Com certeza aquele seria um dos dias dos namorados mais inusitados de todos.

Nunca passara muitos dias dos namorados sozinha. Sempre tinha um acompanhante em festas românticas. Sempre era a garota popular e bonita da escola que recebia flores e chocolates na escola.

Mas aqueles dias passaram. Agora ela era estudante de jornalismo, separada e com um filho.

Por isso ela aproveitou a oportunidade que tinha de um dia inteiro livre pra visitar seu filho.

Fazia meses que não o via, e estaria mentindo se não sentisse um pouco de saudade. Além disso, seu pai e os dois quase-padrastos estavam dando duro demais em cuidar de Heisuke. Eles mereciam uma folga.

E Victoria necessitava se sentir uma boa mãe antes que qualquer tragédia acontecesse com ela.

...Ela chegava a arrepiar só com o pensamento.

Ela havia chegado linda. O cabelo trançado, maquiagem, um vestido longo com um corte na perna, além de bem decotado e tropical do jeito que ela gostava. Era num tom meio pêssego, com umas flores meio brancas e azuladas. E ela usava salto alto, obviamente. Mais marrons, pra combinar com o look do dia.

Só que as coisas já começaram dando errado.

Claro. Victoria tinha entregado seu filho pro seu pai quando ele tinha poucos meses. E agora ele tinha um ano e... quatro meses?

Ela não sabia nem a idade da criança.

Victoria estava realmente se sentindo péssima.

Heisuke pelo menos ainda parecia reconhecer ela como mãe. Aceitava o colo dela. Dava umas risadinhas quando ela fazia uma careta. Gostava do carinho dela.

O problema era só que Victoria não conseguia enxergar ele como seu filho.

Se sentiu uma babá esquisita. Sabia que aquele ser havia saído de dentro dela, e que havia amamentado e cuidado dele. Mas ela não tinha ideia de como... cuidar dele. Agora.

Quando ele chorou pela primeira vez no dia ela quase chorou junto. Ela havia perdido o costume de ouvir um chorinho estridente de criança.

Também não sabia o que crianças daquela idade deviam comer. Teve que pesquisar no Google.

Quando se passaram três horas que ela estava lá, Victoria já sentia exausta e dolorida. Estava com os cabelos bagunçados, uma cara péssima e sinceramente... Cansada. Com dor de cabeça.

Havia chegado ao nível de tentar botar a criança pra dormir ás três da tarde. Obviamente não havia funcionado, já que Heisuke não estava com sono. Pior ainda, ele estava eufórico.

Victoria havia simplesmente desistido da tarefa impossível caso feita sozinha.

Então ela começou a vasculhar sua lista de contatos em busca de um parceiro ou uma parceira praquela tarefa.

Não ia chamar nenhuma das irmãs. Injusto fazer elas perderem um dia com os namorados pra bancarem as tias legais.

Brunna também estava fora da lista por esse motivo.

Daayene e Priya estavam saindo, e o celular provavelmente sem bateria já que nem recebiam as mensagens.

Anna provavelmente estava em casa, mas Victoria não teve coração de atrapalhar ela.

Jackson, Sol ou Mao? Não. Dois tem namorada e Victoria não ia confiar seu filho nas mãos de Mao.

Yui? Ah, é. Ela é namorada do Jackson.

As Creedley? Pensou bem nesse, mas resolveu que melhor não. As três provavelmente tinham coisas melhor pra resolver e... só eram estressadas demais.

Victoria bufou. Ela sabia qual era a decisão mais sensata.

Mas não queria.

Mas ela sabia que ele era a única pessoa que não tinha compromisso e que é madura o suficiente pra cuidar de um bebê.

Além disso... Era dele.

Victoria estava prestes a discar quando ouviu um "BAM!" vindo da sala.

—Heisuke?- Victoria se levantou depressa, e saiu correndo pra ver onde ele estava.

Ela só viu ele no chão, chorando enlouquecidamente.

Quando viu sangue, nem pensou direito, só discou o número.

E assim resultou nela sentada no sofá, chorando e estressada, se questionando sobre a sua maturidade e responsabilidade pra ser mãe.

Reijii saiu do quarto, e Victoria foi rápida em se levantar:

—Como ele está? Ele tá bem? Eu matei ele?

—Não, não matou.- Reijii estava calmo- Foi só um corte na boca. Ele deve ter caído e machucado.

—Meu Deus. Eu sou uma mãe terrível.- Victoria sussurrou.

—Não, você só teve um momento de descuido.- Reijii respondeu- Podia acontecer com qualquer um. Estou feliz que tenha me ligado.

—Me desculpa, eu nem sei se você tinha compromisso ou alguma coisa assim.- Victoria estava quase sem ar- É só que eu vi sangue e aí eu... eu...

Victoria sentiu os olhos se encherem de lágrima.

—Tudo certo. Acontece nas melhores famílias.- Reijii colocou uma mão no ombro dela.- Você podia ter me falado antes. Eu ia te ajudar tranquilamente.

—Eu...- Victoria teve que controlar pra não chorar- Eu não sabia se você queria. Né, já que...

—Victoria, só porque não estamos mais juntos não significa que você é a única responsável pelo Heisuke.- Reijii ajeitou os óculos- Na verdade eu sou o maior responsável por ele. Mas eu sou o pai dele, acima de tudo. Se tem uma coisa que nós dois vamos querer, é o bem dele. Tudo bem?

—...Tá.- Victoria engoliu em seco- Ah! Eu sou uma péssima mãe mesmo! Ele tá... dormindo?

—Ficou cansado de tanto choro.- Reijii suspirou- Mas não deve durar muito, daqui a pouco ele deve acordar.

—Desculpa ter te atrapalhado. De novo.- Victoria estava nervosa.- E obrigada pela ajuda?

—Não quer que eu fique?- Reijii questionou- Você parece cansada, devia dormir um pouco. Eu faço chá. Seu pai tem chá?

—Eu só não dormi bem essa noite.- Victoria respondeu- Ansiedade. E eu também cansei de correr procurando e pesquisando coisas sobre bebês e com ele puxando meu cabelo pra brincar... Sabe. Filhos.

Reijii a olhou seriamente:

—Pode descansar. Eu tomo conta das coisas.

Ela não teve coragem de dizer não.

Estava tensa, cansada de tanto chorar. Se sentia como sua alma houvesse deixado seu corpo. Milhares de dúvidas na cabeça.

Mas ela conseguiu dormir por uma hora e meia antes de ouvir um choro.

Ela foi rápida em correr até o quarto. Reijii estava com Heisuke no colo.

—Você não gosta de mim?- Reijii questionou baixo pro bebê- Eu sou seu pai. Vamos lá, nós dois não queremos acordar a mamãe só pra te dar colo. Eu entendo que ela é mais bonita e legal e carinhosa do que eu, mas mesmo assim...

De repente ele parou:

—É por quê ela te carregou por nove meses? Sabe, eu te carrego por mais tempo se você me deixar...

Victoria se denunciou com uma risada.

Reijii se virou pra ela com os olhos arregalados:

—Quer dizer que agora a senhorita observa o sofrimento dos outros e não faz nada?

—Desculpa. Foi fofo até.- Victoria riu- Quer uma ajuda?

Reijii ofereceu o pequeno Heisuke nos braços da mãe. Foi quase magia que o fez parar de chorar no mesmo instante.

—Impressionante.- Reijii admirou- Realmente impressionante. Por que ele me odeia?

—Deve ser porque você não emana calor.- Victoria sugeriu com risadas.

—Faz sentido.- Reijii pensou alto.- Eu vou te fazer chá.

Ele então saiu pra cozinha, e Victoria conseguiu ouvir o barulho de armários e gavetas sendo abertos.

—Seu pai é completamente louco.- Vic sussurrou pra Heisuke, que riu- Mas pelo menos ele não é pirado que nem eu.

Victoria se sentou na cama com ele no colo, e começou a observar suas orbes vermelhas a encarando.

Eram idênticas as de Reijii.

Victoria estaria mentindo se falasse que não o ama. Sentia isso no seu corpo, quando via os olhos ou o sorriso dele. Sentia a dor de amar alguém que te magoou.

Ela se sentia estúpida. Como podia amar alguém que quebrou sua confiança daquela forma?

Mas Reijii a conhecia e sabia lidar com ela melhor do que ninguém. E ele estava certo, ele era pai daquela criança. E mesmo que cordas do seu coração se apertassem com a visão dele, ela não tinha direito nenhum de impedir ele de ver e cuidar do Heisuke.

Os dois não iam voltar. Sabia disso do fundo do seu coração.

Ou pelo menos ia demorar anos pra isso acontecer. Anos.

Victoria estava perdida. Passou os últimos anos achando que sua identidade toda estava em ser uma Sakamaki. O que ela fazia quando aquilo havia sido tirado dela de uma forma tão dolorosa?

Mas sabia que, no pior dos casos, Reijii era um bom pai. Ele ia ajudar Heisuke com matemática e química quando ele tivesse dúvidas, e ia encorajar ele a se candidatar pra presidente de classe. E ia ajudar ele a escolher o terno perfeito pra formatura.

Victoria não sabia se era uma boa mãe, pelo contrário. Nada a fez sentir mais péssima e fracassada do que olhar praquele ser humano e perceber que não ensinaria ele a andar ou a falar. Talvez não estivesse lá pra ver seus primeiros passos e comemorar mesmo quando ele caísse.

Talvez não estivesse lá pra deixar ele na creche pela primeira vez, nem pra conhecer a primeira pessoa que ele namorasse ou gostasse. Talvez não pudesse ver ele com medo de receber um castigo por uma nota baixa e poder só falar pra ele fazer melhor da próxima vez.

A ideia de não ver Heisuke crescendo a amendrontava. Mas ela não sabia como ajudar ele a crescer.

Reijii sempre estaria lá. Era imortal. E inteligente. E Victoria podia odiar os piores defeitos daquele homem, mas sabia amar as melhores qualidades. Ele talvez conseguisse fazer Heisuke crescer e se tornar um homem bom. Na medida do possível.

—O chá tá pronto!- Reijii falou alto da outra sala.

Victoria sentiu uma única lágrima sair pelo seu rosto.

Não queria perdoar Reijii. Realmente não.

Mas se ele não tinha mais espaço no coração dela, podia deixar ele entrar no de Heisuke.

Ela olhou pra baixo, percebendo que seu filho havia dormido de novo em seus braços.

Victoria sorriu e o colocou de novo na cama, o cobrindo.

Ela só sentou na beirada e observou ele, cansada e feliz e triste ao mesmo tempo.

Nunca havia se sentido tão vazia e completa ao mesmo tempo.

Reijii apareceu com duas xícaras de chá.

—Acalmou a fera, pelo visto- Ele brincou e a ofereceu a xícara- Toma, laranja com canela. Seu favorito.

Victoria agradeceu e tomou um gole.

—Reijii.- Ela perguntou, não desviando o olhar de Heisuke. Ele também não havia desviado o olhar do filho.- Você me amou?

Reijii não demorou nada pra responder:

—Sim. Principalmente agora.

Os dois tremeram com a resposta.

—Victoria, não vim mendigar o seu perdão.- Reijii sentiu a necessidade de se explicar- Você deveria saber que vocês dois são mais importantes que tudo nessa vida pra mim. Eu fiz um erro idiota e arrogante, estou arrependido e quero me redimir. Mas sei que você não quer me perdoar. E você não precisa. Pode viver sua vida sem mim, pode viver sua vida me odiando. Mas eu preciso de alguma razão pra viver.

Victoria finalmente olhou pra ele.

—Eu preciso de alguma prova que existe humanidade e amor em mim.- Reijii estava com a voz embargarda.- Mesmo que seja só um pouco. Então se não me quiser por perto, só não tire ele de mim também, por favor.

—Eu nunca conseguiria fazer isso- Victoria choramingou- Não importa o quanto eu te odiasse. E você tá certo, eu não quero te perdoar. Acho que não consigo te perdoar. Não consigo voltar pra você sem uma voz na minha cabeça me lembrando do que fez e relembrando aquela noite fatídica com aquele detalhe...devastador.

Victoria fungou:

—Mas eu preciso que me prometa uma coisa.

Reijii concordou:

—Tudo que precisar. Eu faço.

—Se acontecer alguma coisa comigo. Na batalha ou sei lá.- Victoria escondeu que estava chorando- Promete pra mim que vai pegar ele e ensinar tudo que nós dois ensinariamos juntos pra ele?

—Victoria.- Reijii pareceu assustado- Nada vai acontecer com v...

—Me promete.- Victoria olhou nos olhos dele- Por favor.

Reijii se sentou na borda da cama que nem ela. E segurou a mão dela:

—Eu prometo. Custe o que custar.

Victoria sentiu alívio. E se deixou parar de chorar.

Estava em paz.

"Nada que confesse

Me faz te amar menos

Vou ficar do seu lado

Não vou deixar ninguém te machucar"