"Eu morri todos os dias te esperando

Amor, não tenha medo

Eu te amei por mil anos

E vou te amar por por mais mil"

Nikki estava definitivamente ferrada.

Ela SABIA que era dia dos namorados. Quer dizer, não tem como não saber. Mas ela talvez tenha esquecido que era hoje.

...Nem ela sabia o sentido daquela frase.

A questão era que Shu estava dormindo lá no quarto dos dois.

No andar de cima.

E ela não conseguira comprar um presente.

Melhor dizendo, ela esquecera de comprar um presente.

Lua, Vic, Sarah e seus devidos "parceiros" estavam fora de casa fazendo sabe-se-lá o que. Marie ainda estava dormindo, de acordo com Laito. Ayato estava fora de casa e Sofie estava no seu quarto lendo. Mas Nikki não queria incomodá-la pois de acordo com seu celular ela estaria naqueles dias.

E como uma boa mulher, ela sabia que se Sofie tinha se trancado no quarto, ela queria ficar lá. Sozinha.

E acordar Marie ou pedir ajuda pra algum dos Sakamaki estava fora de questão.

Ela chegou a mandar mensagem pra Jackson, Sol e Mao. Nenhum respondeu. Claro, deviam estar passando tempo com suas namoradas.

Anna, Priya e Daayene responderam todas praticamente a mesma coisa:

"Não sei, amiga, ele é seu namorado. Você que conhece ele melhor que geral."

O que era verdade. Era quase injusto pedir ajuda pra elas.

Mandou mensagem pra Victoria, então, que respondeu:

"Compra um travesseiro. Sei lá. Tô na casa do meu pai com o Heisuke, sister. Não tenho muito tempo."

Seguido de um áudio de Heisuke falando um monte de onomatopeias sem sentido.

Nikki respondeu pra mandar um beijo pro Stephan e pro Heisuke. Também falou que se visse o pai dela ou Ian, era pra mandar beijo também.

Vic respondeu com um simples emoji de joinha.

Nikki se afundou no sofá.

Ela ia ter que ir pra rua comprar. Mas aí ia outra questão. O que comprar?

Mas ela não queria deixar isso abalar ela e chamou um táxi que a levou até o centro de Okyo.

E foi só ela pisar lá que Shu começou a mandar mensagens perguntando onde ela estava.

Nikki mentiu, dizendo que ia dar um pulinho na Vic pra ver o sobrinho e o pai.

Shu acreditou, é claro. Porque isso é algo que ela faria em circunstâncias normais.

Mas ela ainda rejeitou uma ligação dele dizendo que ia emprestar o celular pro bebê ver desenho.

Shu também acreditou nisso.

Nikki amava que ele confiava tanto nela. E se sentia mal por mentir.

Olhou pro céu, quase orando.

Ela só queria um sinal do que deveria comprar.

Mas não recebeu nada. Nem uma plaquinha indicando uma seta.

Valeu, Deus.

Nikki pensou no que seu namorado podia querer, na face da terra. Certeza que se ela perguntasse falaria que um dia fora da casa dos dois dormindo estaria bom pra ele.

Mas não pra ela. Nikki não estava disposta a assumir derrota a um feriado capitalista romântico.

Os dois haviam passado por desafios maiores que isso. Um presente seria moleza.

E assim começou a jornada da de cabelos azuis.

Pensou em ir comprar um kit de sonhos pra ele. Sabe, um travesseiro confortável, uma coberta gostosa, talvez uma máscara de dormir...

Mas isso era só ela esteriotipando seu namorado. Ele era mais que um bicho-preguiça, por mais que isso fosse inegavelmente parte da sua personalidade básica.

Ela precisava de algo mais íntimo. Que provasse que ela conhecia ele bem.

Seus olhos passaram por uma loja de lingerie...

Da qual ela foi bem rápida em desviar. Meu Deus. Não. Ainda não. Isso já era demais. Até pra alguém desesperada que nem ela estava.

Do que Shu gostava?

Se fosse qualquer um de seus irmãos, ela saberia o que fazer. Reijii, um conjunto de chá. Ayato, ela daria uns ingressos pra algum jogo de basquete e Takoyaki. Kanato, vários doces e muitos mimos. Laito, sem comentários. Subaru...

Nikki teve mais dificuldade nesse.

Ok, a questão era que Subaru e Shu eram difíceis demais de presentear.

E como seu namorado estava nessa dupla, Nikki estava completamente perdida.

O estômago de Nikki roncou, a prova do café da manhã perdido.

Bem, ela não tinha tempo para comer, tinha que buscar o presente perfeito.

Ela então entrou numa loja de música.

Não podia estar mais perdida. Haviam discos nas prateleiras, instrumentos musicais na parte de trás e uma parte mais moderna especializada em tecnologia com música do lado esquerdo.

Suspeitava que Shu não gostasse de discos. E não arriscaria comprar um violino não sabendo nada do assunto.

Nikki bufou, considerando seriamente comprar um vale-desconto pra ele na loja e só entregar com um sorriso torto e um "Feliz dia dos namorados!"

Será que ela conseguia ser cara de pau assim?

—Bom dia, precisa de ajuda?- Um rapaz que parecia uns quatro anos mais jovem que ela a ofereceu.

—Ah, só caçando uma coisa pro meu namorado.- Nikki foi rápida em responder, e se sentiu uma trouxa.

Meu deus, ela havia se tornado a namorada grudenta que tanto temia.

O moço a acompanhou:

—Eu posso te ajudar a escolher. Como ele é?

Bizarro, pervertido, levemente pirado da cabeça, um baita de um preguiçoso...

—Ah, um cara normal.- Nikki conseguiu dizer- Ele gosta muito de música, então eu pensei que eu pudesse comprar algo desse gênero pra ele.

—Que tipo de música ele gosta?- Ele foi gentil em me perguntar.dq

—Ah, clássica.- Essa resposta Nikki sabia- Ele vive ouvindo no MP3 dele. Deve ajudar ele a dormir.

—Ele usa MP3 ainda?- O garoto riu- Esse é dos bons mesmo. Você disse que ele usa pra dormir?

Nikki concordou com a cabeça.

O garoto pediu pra ela o seguir pro lado esquerdo da loja, onde se abaixou e pegou uma pequena caixa de plástico:

—Cá está. Fones de ouvido com cancelamento de ruído.

—Tipo...- Nikki pegou a caixa das mãos dele.- Ele não deixa som externo passar?

O garoto concordou.

Nikki achou que era uma ideia maravilhosa.

Foi por isso que falou que ia comprar e pediu pro menino fazer um embrulho bem bonito.

Ela estava até que orgulhosa de si mesmo.

—Nikki?- Alguém a chamou.

Ela sentiu sua alma sair do seu corpo quando viu Shu parado a encarando.

—...Oi?- Nikki ainda se sentia meio morta.

—Imagina como eu fiquei quando eu liguei pra Victoria porque você não recebeu minhas ligações e descobri que você não estava lá...- Shu parecia com raiva.

Ele a encarou dos pés á cabeça.

Observou suas botas escuras, e o short de cintura alta preto que combinava com a blusa do Queen que ela usava. Além da jaqueta jeans clara e os cabelos azuis curtos que estavam partidos pro lado.

E a pura expressão de medo que vidrava em seus olhos vermelhos.

—Por que mentiu pra mim?- Shu questionou.- O que está fazendo de tão errado que sentiu a necessidade de mentir pra mim?

—Eu...- Nikki se sentiu ficar fria.

—Agora não tem resposta?- Shu a olhou friamente.

—Moça, tá aqui.- O menino voltou com o embrulho nas mãos- Débito ou crédito?

Ele meio que congelou quando viu Shu.

—Pode ir na bancada que daqui a pouco eu pago?- Nikki sugeriu, e ele concordou e depressa.

—Agora você sai com caras mais novos?- Shu estava assustado.

—Cara, ele tem uns quinze anos, relaxa.- Nikki revirou os olhos- Se eu estivesse te traindo, eu não ia atrás de um pré adolescente.

—..Isso era pra me consolar?- Shu parecia devastado.

—Se você fosse um pouco mais inteligente, notaria coisas óbvias que estragaram sua teoria.- Nikki colocou as mãos na cintura- Ele estava me dando um embrulho e me perguntando se eu quero pagar no crédito ou débito. Acha que esse é o tipo de coisa que um amante fala pra outro? Além disso, por que diabos eu ia te trair numa loja de músicas?

Shu não respondeu nada.

Nikki faltou jogar o embrulho na cara dele.

—Eu esqueci que o dia dos namorados era hoje, ok? Eu queria fazer uma surpresa- Ela deu na mão dele.- Mas se você não confia em mim talvez não devêssemos mais trabalhar com surpresas.

Nikki tentou ir embora, mas Shu a pegou pelo braço:

—Espera.

—EU NÃO VOU ESPERAR MERDA NENHUMA SEU C...

Nikki parou de gritar quando viu que estavam recebendo olhares.

Shu a puxou num abraço.

—Desculpa.- Shu hesitou- Eu não devia desconfiar de você. Nunca. Sei que você não é desse feito.

—Devia ter notado isso antes.- Nikki retribuiu o abraço com raiva- Você sabe que quando eu me apego a alguém é tudo ou nada.

—Eu sei.- Shu respondeu.

—Então por que eu ia fazer isso com você?- Nikki questionou.

—É pira da minha cabeça.- Shu murmurou- Que vão tentar roubar você.

—Se tentarem me roubar eu dou um murro neles.- Nikki retrucou.

—Eu sei.- Shu riu.

Os dois ficaram um tempo abraçados.

—Eu vou... pagar sua surpresa.- Nikki se afastou.- Você fique parado aí.

—Vou pra frente da loja.- Shu respondeu.

—Não foi isso que eu...- Nikki revirou os olhos.- Tá, vai lá.

Depois dela pagar e se desculpar com os meninos, Nikki encontrou ele na frente da loja.

—O que é?- Shu guardou o embrulho na bolsa de Nikki.

—Fones de ouvido anti-ruído.- Nikki respondeu .- De nada.

—Vai me ajudar muito quando eu quiser dormir e meus irmãos barulhentos estiverem reclamando. Obrigado.- Shu acenou com a cabeça.- Também tenho um presente pra você.

Do bolso ele tirou uma caixa preta de veludo pequena.

Nikki queimou da cabeça aos pés:

—Não precisava...

—Mas eu queria.

Nikki pegou a caixinha numa mistura de ansiedade e hesitação.

Quando ela abriu, sentiu de novo que havia morrido.

O anel era fino e delicado, dourado. A parte da frente parecia meio trancada e tinha quatro pedras menores brancas, duas de cada lado de uma pedra branca maior.

Não era muito chamativo, mas era perfeito.

—Coloca na sua mão esquerda.- Shu disse com cautela.

—Shu, isso deve ter custado uma fortuna!- Nikki estava abismada- Eu não posso aceitar isso!

—Você é minha noiva.- Shu segurou a mão dela.- Se eu não puder pagar um anel perfeito pra você, que tipo de marido eu serei?

Ele pegou a mão esquerda dela e o anel. E então deslizou a bijuteria pelo dedo anelar dela.

Coube perfeitamente.

—Combina com você.- Shu sorriu e beijou a mão dela.

—Eu...- Nikki ainda estava sem palavras.

—Você vai ser uma Sakamaki, Nikki.- Shu mexeu no cabelo dela.- Vai ter que aguentar esse tipo de mimo.

Nikki não teve outra reação, só se jogou nos braços dele e o beijou com força.

Queria sentir o amor que só ele poderia providenciar no coração dela.

E se sentiu tão feliz que poderia chorar.

"Virando e retornando

Pra algum lugar secreto

Observo em câmera lenta

Você se virar e dizer

Tire o meu fôlego"