Like a Vampire 4: Endgame Volume 2
10 Capítulo 9 - Sangue vermelho
Narração Marie
Eu corri tão rápido que mal conseguia sentir minhas pernas.
Nos corredores vi vários soldados e até mesmo criados, entregando armas e até armadura.
Minha grande maratona foi interrompida quando uma criada veio e me puxou, quase me obrigando a colocar uma armadura toda preta com detalhes prateados e vermelhos.
Prendi meu cabelo longo o mais rápido que pude. Eu precisava encontrar o resto do pessoal. Se possível, daqui a uns 2 segundos.
Mas antes que eu cogitasse descer, passei no armazém de armas e peguei minha espada especial.
Como se eu pudesse deixar ela pra trás.
Com a espada em mãos e sentindo meu corpo mais pesado, desci algumas escadas, encontrando um monte de criados e soldados no terceiro andar.
E logo atrás dele, uma figura que me deu alívio só de ver.
—Laito! — Eu gritei, e só depois passei a vergonha de ter gritado na frente de tanta gente- Eu tava te procurando! Cadê o resto do pessoal?
Laito olhou na minha direção assim que gritei seu nome, e automaticamente parou de conversar com uma das pessoas, andando meio rápido até mim.
—Mah! — Ele cantarolou suavemente, um pequeno sorriso no seu rosto- Sentiu tanto minha falta?
—Não tá na hora. – O repreendi- O que tá pegando aqui?
—Essas são as criptas- Ele apontou pra pesada porta de aço que estava sendo fechada- Aqui deixamos todas as crianças, pessoas frágeis e que não lutam. E não se preocupe, fiz questão de deixar seus pais e seu sobrinho o mais confortáveis possíveis.
—Meu pai e meu padrasto, você quis dizer. – Corrigi- Quem mais?
—Lilith e Igor, por ainda estarem frágeis. E Oliver e Mun, por serem crianças. Alguns criados também.
—Suas parentes deixaram você prender elas?
—Eh, elas aguentam. — Laito sorriu.
—Onde está o resto do pessoal? — Insisti na pergunta.
—A maior parte dos soldados já está em campo. Se o resto do povo não tá lá junto com eles, provavelmente estão se preparando.
Respirei fundo, não sabendo se isso me deixava mais calma ou mais nervosa.
—Ei, vai dar tudo certo.- Laito segurou meu rosto entre as mãos frias- Já enfrentamos coisas piores que um bando de bruxinhos religiosos, não? Vai dar certo.
—Tem que dar.- Concordei- Porque se não, eu não sei o que eu faço.
Laito me deu um beijo na testa, antes de segurar meu rosto e me beijar nos lábios.
Me perdi um pouco no beijo até notar que os guardas nos encaravam.
Pigarreei:
—Devíamos ir.
—Claro, claro.
Descemos as escadas rapidamente, nos encontrando com todos da patrulha reunidos no salão principal.
Cousie conversava com um dos guardas, seu olhar semicerrado. Pude ver seu suspiro de longe, e ela se virou pra nós na hora:
—Pessoal, más notícias. Uma dúzia dos nossos homens foram encontrados no meio da floresta, mortos. Aparentemente morreram sufocados.
—Sufocados? — Kino questionou- Do nada? Ninguém morre sufocado do nada.
—Sim, Sakamaki, eu sei disso. Muito obrigada pela sua dose diária de sabedoria. — Cousie ironizou- Foram os homens que mandamos para buscarem Daayene, provavelmente.
—Os do exército do Tio Edward. — Sofie pensou alto- Deveríamos falar com ele.
—Agora não, Sofie. Estamos no meio de uma batalha, isso deve só piorar a situação. – Victoria segurou a nossa irmã pelo ombro.
—Exato. — Cousie concordou. — Dada a situação, é visto que precisamos do máximo de soldados possíveis dando o máximo de si. Dito isso, irei para campo junto de vocês.
Haruka, que estava calada até o momento, se pronunciou:
—O quê?!
—Ela vai pro campo de guerra junto com a gen... — Sarah repetiu.
—Eu escutei! O meu ‘’o quê’’ foi mais de indignação, no caso. — Haruka respondeu- Cousie, você não pode ir pra batalha.
—...Existe alguma coisa que a gente deveria estar sabendo? — Priya a observou de olhos semicerrados- Porque eu tô me sentindo meio por fora aqui.
—Acredite, você não é a única. — Sarah respondeu baixo.
—Não existe nada pra contar. – Cousie insistiu- Além disso, eu sou muito melhor no arco e flecha do que vocês.
—Correção: Você é a única que usa arco e flecha daqui. — Kino bufou.
—Não é pra tanto assim, também. – Sarah franziu o cenho.
—Podemos, por favor, parar de enrolar e só sairmos daqui? Tem gente morrendo lá fora! — Nikki brigou.
—Claro, iremos. Eu só preciso...- Cousie então parou- E, pelo amor de tudo que vocês podem considerar sagrado, por que vocês estão aqui?
Olhamos pra trás, dando de cara com Shin, Eliza, Carla, Brunna e Anna.
—Eu achei que tinha pedido pra você. — Ela apontou pra Shin- Levar eles pra cripta.
—Vossa majestade, eu até tentei. Mas um deles é meu irmão mais velho, a outra é minha noiva, e as outras duas ameaçaram me comer na porrada.
—Eu não ameacei nada. — Anna falou baixo.
—É, foi eu que fiz isso. — Brunna confirmou.
—Shin, acontece que seu irmão é meu marido e sua noiva é minha irmã. Ambos estão doentes. As outras duas são humanas sem habilidade pra luta. O lugar dessas pessoas é na cripta. — Cousie respondeu.
—Irmã, com todo o respeito. — Eliza se aproximou- Você está precisando de pessoas que lutem. Eu luto, e muito bem por sinal. Você sabe disso. Não pode se dar o luxo de me recusar.
O climão entre Cousie e Eliza continuava, por sinal.
—Eu odeio ter que ficar contra você, minha esposa. — Carla respondeu- Mas temo que meu irmão e Eliza tenham razão. Não estamos em posição de negar ajuda, por mais frágil que seja. Se algo acontecer conosco dois, tomaremos toda a responsabilidade possível.
Cousie suspirou, claramente desistindo:
—Certo, vocês podem ir. Não me responsabilizo por nada. Vocês duas?
—Olha, Cousie. Podemos não ser as melhores lutadoras do mundo. — Brunna retrucou- Isso eu admito. Mas eu não quero ficar trancada num cômodo com pessoas que realmente não tem capacidade de se defender. Não enquanto pessoas morrem aqui fora.
—O que eu puder ajudar, quero ajudar. — Anna falou mais baixo.
—Aí, ok. Só porque vocês são teimosas e vão me assombrar até a morte se eu falar não. — Cousie ajeitou a roupa de malha- Carla, Eliza e Brunna vão ficar no fundo da batalha, e isso não é negociável. Anna, vou te encarregar de cuidar dos feridos. Não faça eu me arrepender.
—Mas isso não era tarefa da Yui...- Anna começou- Er. Esquece o que eu disse. Farei o meu melhor!
— Nikki, quero que fique na vanguarda do exército junto com os comandantes. – Cousie prosseguiu- Victoria e Sofie, busquem seus drakons e aguardem do teto. O resto sabe o que fazer.
Todos foram se espalhando aos poucos. Eu me senti nervosa ao ver minhas irmãs se preparando pra guerra.
—Devemos ir. — Victoria chamou Sofie.
Quando ela ia se virar pra ir embora, me deu um pequeno aceno, que eu retribuí.
—Já vou! — Sofie respondeu- Ah, Sarah!
A gêmea mais velha, que já estava pronta pra sair, parou.
Sofie deu uma leve corrida até ela, antes de tirar seu colar de borboleta do pescoço, prontamente envolvendo a corrente prateada no pescoço da irmã.
Sarah encostou no pingente de borboleta, confusa.
—Vai servir mais pra você do que pra mim. — Sofie explicou.
—Ah, claro. Você vai tá voando, nem precisa de proteção. – Sarah sorriu- Muito obriga...
—Sofie!- Victoria a repreendeu- Lindo momento, mas a gente precisa ir!
Quando eu consegui sair da patrulha, parte minha desejou que eu nunca tivesse feito isso.
A porta mal havia sido aberta e eu me senti engasgando com pura fumaça e poeira.
Minha garganta imediatamente secou e meus olhos lacrimejaram, mas eu me forcei a correr pra frente sem nem me preocupar muito com quem estava atrás de mim.
Os meus arredores formavam um cenário assombrante. Soldados corriam em agonia, tentando abafar as chamas que dominavam seus corpos.
Conseguia ver pedaços de pedra e madeira caindo, o chão parecia se rachar embaixo dos meus pés.
Depois que o chão parou de tremer ao meu redor, eu consegui ver bem claramente quem era a culpada disso, voando pelo ar.
—Você...- Eu senti meu próprio cenho se franzindo.
—E então, nos encontramos de novo. Destino é uma coisa divertida, certo?- Meg flutuou até mim.
—Você tirou tudo de mim! – Eu brandei minha espada em chamas pra ela- É culpa sua que eu estou assim!
—Ah, culpa minha? Não, não, não, acho que você entendeu errado. – Meg deu de ombros- Eu não crio seu futuro, florzinha. Eu só falo o que está escrito nele. Sua maior mentira viraria sua pior verdade, isso não foi influência minha.
Eu balancei minha espada na direção do seu pescoço, e ela desviou prontamente:
—Pra que tanta agressividade? Se quer culpar alguém, não é com a gente. Nós, inclusive, salvamos sua vida.
—Vocês mataram...- Eu engoli em seco- Mataram o meu filho!
—Marie, seja sincera com você mesma. Tem muita gente aqui que precisa ouvir suas mentiras pra ainda ter o mínimo de sanidade, mas eu não sou uma delas.- Meg utilizou suas mãos pra tentar empurrar minha espada pra longe, me fazendo escorregar – Aquele ‘’filho’’ que estava crescendo na sua barriga estava te matando por dentro, não só fisicamente. Te deixaria miserável.
—Você não sabe nada sobre mim!
—Ah, mas eu sei. Mais do que consegue imaginar, cavaleira da morte. – Meg desenhou um círculo com os dedos, e me empurrou com o escudo de névoa que criou.
Com dificuldade, eu larguei minha espada e empurrei de volta o escudo, sentindo a magia da profeta fazer meus dedos formigarem com uma certa familiaridade.
—A gente te deu um dom, rainha do fogo. Faça bom uso dele.- Meg sorriu. – Mas enquanto você ainda aprende isso, devo te avisar que não viemos por você.
Ela paralisou a magia bruscamente, me fazendo cair no chão.
—E por quem vieram? — Perguntei, meio com raiva.
Meg não me respondeu, sumindo no meio do campo.
—Meg! – Briguei – Vocês não vão descobrir quem é Eve, não mais do que qualquer um.
—Ah, mas eu não preciso descobrir. – Meg sorriu – Eu já sei.
Ouvi um rugido assustador de cima de mim, me deixando levemente surda por alguns segundos.
A fumaça foi afastada de uma região do céu, e observando bem eu pude ver minhas duas irmãs chegando em suas criaturas voadoras.
Que, inclusive, pareciam um pouco menos ameaçadoras de longe.
Percebi que Sofie parecia tentar gritar algo pra Victoria, mas os berros ao meu redor me impediram de sequer tentar escutar algo.
Um homem tentou me agarrar por trás, mas quase como se eu tivesse um quinto sentido, consegui me virar antes dele chegar muito perto.
Eu golpeei a cabeça de um rapaz, seu sangue pintando a minha lâmina de vermelho.
Quase como se fosse gasolina, o sangue se esquentou, transformando minha espada em puro fogo.
Não pude deixar de dar um sorrisinho:
—Agora a brincadeira começou.
Shin e Carla já estavam lutando ao meu lado, e com a chegada de novos soldados, eu vi Cousie ajeitar sua armadura, com um leve sorriso:
—Eu vou fazer o que eu sei de melhor.
Cousie estendeu sua mão trêmula, seus olhos fechando.
Nada aconteceu.
Ela abriu os olhos bronze, claramente confusa.
—...Olha, eu não queria estragar seu clima, mas eu tenho a impressão de algo meio errado rol...- Shin começou
—Cala a boca, Shin!- Cousie brigou- Meu arco... deve só estar longe.
Mas o arco não estava longe.
Cousie permaneceu com a mão erguida por breves segundos, até parecer entender que seu arco simplesmente nunca chegaria.
—...Meu arco... – Cousie olhou pra própria mão.
—Cousie? – Carla a questionou.
—Eu não... eu não sou mais digna. – Cousie percebeu, e pela primeira vez eu vi uma emoção específica naqueles olhos dourados:
Medo.
Pareceu em slow motion, a cena. Um arpão de metal voava em linha reta, chegando a perfurar de leve a armadura de Cousie na região abaixo dos seios.
Eu já esperava ouvir um berro agoniante de dor e ver sangue jorrando pra todos os lados, mas minha expectativa foi refutada quando vi o arpão tremer, ainda encostado na Creedley.
Quase como se algo o barrasse.
Antes de alguém ali poder falar qualquer coisa. Eu senti uma onda de choque me empurrar pra trás junto com dezenas de soldados e profetas.
No meio da arena, uma figura encapuzada de preto pousou, com uma das mãos apoiada no chão.
Quando ergueu o rosto, o capuz caiu pra trás, exibindo um cabelo platinado e olhos vermelhos que eu conhecia bem demais.
A batalha ainda continuava, com soldados caindo no chão a cada segundo. Mas dessa vez, eu tenho certeza absoluta que muitos haviam parado pra ver a nova convidada.
Com um simples movimento no dedo, o arpão caiu da barriga de Cousie até o chão.
Daayene se levantou, arqueando uma sobrancelha pro rapaz que havia lançado o arpão, direto da estrutura de madeira:
—Cheguei atrasada pra festa?
Ela rapidamente pegou o arpão com sua magia vermelha, enviando diretamente pro meio da sua cabeça.
Ao mesmo tempo, sua outra mão enlaçava alguns soldados em fios translúcidos, e parecia os apertar sem limites.
Quando todos que estavam em suas mãos morreram sem chance de revidar, ela deu um salto e voou pra próxima parte.
Depois ela pousou no meio do campo, correndo enquanto usava sua magia para criar armas, fazer escudos e atacar. Tudo sozinha.
Eu estava prestes a ir conversar com a pré-desaparecida. Perguntar alguma coisa, qualquer coisa.
Tudo que eu sabia era que eu queria conversar com a garota que sumiu por seis meses depois de salvar minha vida.
Mas fui mais lenta do que outra pessoa.
—Eu não acredito que você está aqui. – Lua chegou atrás de Daayene, não muito suja de sangue mas ainda com uma espada na mão.
Daayene suspirou:
—Apesar de eu adorar reencontros, Lua, não acho que estejamos numa situação boa pra isso.
—Por que? Vai fugir de novo depois disso? — Lua brigou.
Os dedos de Daayene fraquejaram, fazendo um pilar que ela segurava cair em cima de um profeta.
—Como é que é?
—...Você... Você me ouviu bem! – Lua parecia decidida. – Ou você acha que pode sumir por seis meses e voltar como se nada tivesse acontecido!
—Eu voltei pra ajudar vocês! – Daayene tentou voltar ao seu foco, soltando grandes faíscas nos inimigos profetas.
—Não precisamos da sua ajuda! – Lua pareceu fraquejar – Não depois do que você fez! Abandonou a gente... Abandonou sua família.
—Ah, por favor, Lua! – Daayene finalmente se estressou, se virando completamente pra minha irmã – Você não tem moral nenhuma pra me julgar! Até porque, se o problema fosse eu ‘’abandonar’’ vocês, ninguém tentaria me mandar pra esses filhos da puta! E olha que surpresa, a gente tá lutando contra eles agora!
—É diferente!
—Não, não é! – Daayene brigou, elevando sua voz- Eu fugi pra me salvar, porque sabe-se-lá o que ia acontecer comigo naquele lugar! Vocês tentarem me mandar sem a minha permissão pra um lugar que me odeiam é baixo, é uma facada nas costas, é desonesto!
Ela gritou a última palavra, e uma parte do chão começou a se rachar numa parte da arena.
—Vocês eram minha família! Eu amei vocês! Vocês... eu confiava em vocês. Em você! – Do meu ângulo, eu conseguia ver os olhos dela enchendo de lágrimas- Você era a minha melhor amiga, mais do que todo mundo aqui! E eu precisava de você!
Enquanto algumas lágrimas escorriam pelo rosto pálido de Daay, o chão estremeceu. Claramente Lua também havia sentido.
—Você era a minha irmã de coração, mas nem isso foi suficiente pra você ter o mínimo de consideração por mim! – Daayene berrou – Você acha que eu gostei de fugir? Acha que eu gostei de passar seis meses sozinha, sem teto nem comida? Sabendo que todo mundo dessa merda de patrulha me abandonou? Sabendo que todo mundo me acha incontrolável e perigosa?
Um buraco se abriu num dos cantos da arena, tremendo e saindo poeira.
—Você acha que eu gostei, Lua?!- Daayene berrou, e o mundo pareceu tremer.
Lua estava trêmula, claramente emotiva.
Ela fungou:
—Quando a gente dizia incontrolável, a gente tava falando disso, sabe. Você é muito emotiva.
Daayene respirou fundo:
—Você não sabe como eu tenho saudades da Lua de 16 anos. Ela teria vergonha de você.
Daayene se afastou, limpando os olhos marejados e respirando fundo. Ela parecia estar murmurando algum mantra.
Antes que ela pudesse ir embora, claro, outra pessoa a chamou.
—Daayene! – Cousie se aproximou, e eu xinguei mentalmente se Deus estaria mandando todo mundo conversar com ela pra eu não poder ter essa oportunidade.
Daayene a encarou, claramente já exausta.
—É... bom te ver. – Cousie engoliu em seco. Era a primeira vez que eu via Cousie hesitar perto de alguém – Fico feliz que esteja viva e bem. E agradeço vir ajudar.
Os olhos de Daayene pareciam muito mais escuros do que antes, notei.
—Eu não vim por você. – Ela respondeu- O único motivo de eu estar aqui é que ninguém inocente merece morrer. Principalmente para os profetas.
—Claro... – Cousie hesitou.
Daayene encarou a Creedley de cima a baixo, seus olhos demorando em seu tronco. Ela arregalou os olhos e depois os semicerrou:
—Não deveria estar aqui, deveria?
Cousie não teve tempo de responder.
—Se cuida, Cousie. Lute bem, pelo menos pelo seu... futuro. – Daayene disse com um sorriso fraco antes de sobrevoar os ares.
Encarei Cousie com um olhar estranho. Ela deve ter notado, pois rapidamente assumiu uma carranca de novo e voltou a lutar sem sequer me dar o ar da graça.
Não me importei, e corri de novo até Daayene..
—Daay! – Não pude deixar de sorrir quando a Hudison finalmente me notou. Corri até ela. – Eu tô... tentando falar com você a um tempão!
Perfurei um tronco humano com minha espada em chamas na minha corrida até ela, mas Daayene nem pareceu reagir.
Quando eu finalmente cheguei até a garota, meu corpo já estava todo sujo de sangue e eu arfava por ar.
—...Fico feliz que esteja bem. – O sorriso de Daayene foi minúsculo, quase imperceptível.
—Depois que você vai e volta da morte, descobre que muitas coisas se tornam problemas menores. – Tentei dar um sorriso forçado. – Mas eu estava preocupada com você. Faz... tempo que eu não te vejo.
Daayene não parecia ferida. Seu capuz preto estava coberto de sangue, e ela parecia ter uns dez quilos a menos do que a última vez que a vira. Eu conseguia ver seus ossos por baixo da pele em alguns pontos do seu corpo.
Mas além disso, ela não estava tão diferente assim. Os olhos estavam um pouco mais escuros, e absurdamente cansados.
Ela movimentou de leve os dedos ossudos, e pude ver pequenas chamas vinho surgirem dos seus dedos, antes dela erguer os braços e simplesmente acertar um grupo de soldados na barriga.
Daayene não me respondeu, mas sua cabeça baixa me deu a confirmação que ela havia me ouvido.
—Daay, eu não tô aqui pra te dar lição de moral. Nem perguntar os motivos de você ter ido embora. Não é meu dever saber disso. – Fui sincera, arrancando da garganta tudo que eu queria ter dito a meses atrás. – Mas você não precisa fazer isso sozinha. Nem fugir, nem derrotar os profetas. Nada.
Daayene respirou fundo, e eu sabia que no fundo, ela estava ignorando cada palavra minha.
—Eu sei que deve ser o inferno todo mundo vir te procurar e querer falar com você. Sério. – Desabafei – Quando eu... voltei, tudo que eu queria era sentar na minha cama e comer cinquenta caixas de chocolate. Sozinha. E em silêncio.
—É. Eu meio que só queria vir, fazer o meu trabalho e voltar. Sem reencontros. Abraços. Choros e frases de efeito. – Daayene deu de ombros – Eu acho que eu cansei.
Assim que ela falou isso, eu fui basicamente jogada pra trás por uma força da natureza.
Eu pisquei e Priya estava basicamente em cima da irmã, sendo segurada pelos braços finos e trêmulos da mais nova.
—Você... tá viva!- Priya falava de forma quase inaudível, já que sua boca estava coberta na pele da outra Hudison e seus olhos não paravam de deixar lágrimas escaparem.
Daayene mal retribuiu o abraço, mas deixou a mais velha se aconchegar em si.
—Eu achei que tinha te perdido! – Priya estava fungando- Eu... eu fiz um memorial e... aí destruíram... Daay, eu senti tanto a sua fal...
Ela não conseguiu terminar de falar, pois foi interrompida por mais uma onda de choro imensa.
—Irmã. – Brunna sorriu, claramente com os olhos marejados, porém bem mais calma do que Priya – Eu... eu sempre senti que você não tinha ido embora de verdade.
Dessa vez Brunna só estendeu os braços, e esperou que Daayene fosse lentamente até ela antes de a engolir num abraço intenso.
Quando um profeta ousou ameaçar estragar o momento, enfiei minha espada pela sua traqueia, até atravessar pelo outro lado.
—Fico feliz que esteja de volta, Daayene. – Ruki deu um sorriso sincero, apesar de pequeno. – Foram longos, longos meses sem você.
—Eu... eu imagino. – Daayene franziu o cenho. – Olha, gente, não me levem a mal, mas tem meio que... uma chacina acontecendo aqui. Então, será que dá pra deixar pra dep...
—Você devia ir... ver a Anna. – Azusa recomendou – Sentiu... muito sua falta... também.
—Claro. – Daayene forçou um sorriso, um pouco irritada- Posso fazer isso, se eu conseguir fazer com que as pessoas não morram antes.
—Daay! Se dê uma folga! – Priya só apertou a mão da irmã – A gente só... eu só tô tão feliz de te ver aqui... eu achei que você tinha morrido, e eu não ia poder... ter feito nada!
Daayene estava olhando pra todos os lugares, menos pras pessoas ao redor dela.
—Daay, relaxa. Tem mais 200 pessoas no mínimo aqui do nosso lado, você não precisa, tipo, surtar, achando que abraçar a gente vai fazer o mundo acabar. – Yuma retrucou.
—Surtar? — Daayene finalmente o olhou.
—N... — Priya se assustou – Daay, ele não quis dizer isso. Foi modo de falar, expressão. A gente só tá feliz que você tá aqui, lutando do nosso lado.
Eu tentei olhar ao redor, vendo o que podia estar preocupando tanto a Hudison.
—Não, o problema não é vocês. Eu só... eu vim por uma visão... e a qualquer momento...
Daayene estava recuando, preparando uma onda de névoa vermelha em seus dedos, antes dela bater de costas com Kou.
—Kou!- Daayene arregalou os olhos – Eu sinto muito, não queria ter trombado em você! Seguinte galera, foi lindo aqui, mas eu só preciso... resolver coisas antes de nos encontrarmos.
—O que aconteceu?- Kou perguntou, segurando Daayene pelos braços antes dela poder ir:
—Ai, mas você só pode tá brincando comigo. Kou! Não tá na hora!
—Tem alguma coisa que você não tá contando pra gente. – Kou notou.
—Sim, muitas coisas! Uma das desgraças da profecia, se você não notou! – Daayene o encarava nos olhos – Pessoal, é sério! Eu... amo vocês. Mas agora não.
—Depois da batalha, então? — Brunna questionou, preparada pra voltar em campo.
Daayene mordeu a bochecha e me olhou de canto de olho:
—É. Isso aí.
Senti meu coração doer com a realização de que Daayene não pretendia reencontrar sua família depois da batalha.
Nem em nenhum momento depois.
Todo o resto parecia um borrão. Eu estava quase no automático: enfia espada, mata, corre, enfia espada, mata, corre...
Perto de mim, ouvi um barulho alto de algo... ou melhor, alguém, caindo.
Vi de relance Ayato indo até o chão. O Sakamaki se levantou, mas um dos profetas usou névoa para segurar seu pé e arrastou seu rosto pela pedra áspera.
Eu estava mais do que preparada pra correr e ajudar o rapaz, porém fui totalmente interrompida por um rosnado que parecia vir do meu lado.
Um vento forte bateu em mim, quase me jogando pra longe (outros que estavam do meu lado não tiveram tanta sorte) e uma fumaça horrível parecia quase me cegar.
Abri meus olhos, piscando algumas vezes pra não chorar, e o que vi me deixou ainda mais apavorada.
Sofie estava voando montada em seu drakon, um olhar quase mortífero quando ela estava próxima a parar perto de Ayato e o pequeno grupo de profetas que o atacava.
Obviamente, a boca aberta de () e suas centenas de dentes pontiagudos eram bem ameaçadores por si só, e já fazia um bom trabalho em assustar os inimigos.
Mas o que fez meu coração se apertar foi quando Sofie olhou pro seu namorado no chão e estendeu a mão pra ele.
Ayato provavelmente estava sorrindo torto, estendendo sua mão pra receber a ajuda da minha irmã.
Uma corda vermelha e brilhante se laçou no pescoço do drakon, e eu pude ver lentamente o rugido de agonia vindo da criatura branca e azul.
() começou a se debater, abrindo as asas violentamente enquanto um berro ensurdecedor passava pelos nossos ouvidos.
Enquanto isso, Sofie havia desistido do Sakamaki pra tentar se segurar, apertando as penas na sua frente enquanto seu corpo lentamente deslizava pro lado.
—SOFIE!- Me ouvi gritando, mas ela não pareceu me ouvir.
Um calafrio me percorreu toda quando, por trás da fumaça, eu vi o que parecia um grande arpão de madeira mirando na distância para o bicho.
O drakon pareceu se agitar mais ainda, batendo suas asas enquanto sua dona escorregava pelas suas penas azuladas.
Respirei fundo, erguendo as mãos trêmulas e tentando ao máximo ignorar o desespero que crescia dentro de mim, olhando para o arpão que agora viajava rapidamente pelo lugar.
O grito de Sofie me fez fechar os olhos de medo.
Até eu sentir como se eu estivesse carregando um peso em minhas mãos.
Abri minhas pálpebras com cuidado, conseguindo ver a pequena névoa vermelha que escapava dos meus dedos e segurava o arpão em pleno ar.
Me assustei, fazendo o arpão cair livremente no chão.
Sofie soltou mais um grito, dessa vez quando caiu direto no chão e começou a falar com seu drakon:
—Calma, calma!
Sofie tentou passar os dedos nas penas de novo, que só rendeu mais um rugido e a grande boca do bicho se abriu. Eu conseguia sentir seu hálito quente mesmo de uma considerável distância.
—Sofie! – Ouvi o grito de Sarah, que correu do outro lado da arena e agarrou sua irmâ num pulo, as fazendo cair no chão junto com Ayato. Bem a tempo da boca do bicho se virar e ele soltar fogo por cima deles.
Uma pequena aura azulada surgiu, os protegendo do ataque.
Alguns soldados, plantas e pedras não foram sortudos o suficiente pra escapar das chamas violentas.
Griffin parecia raivoso e agitado, seus inúmeros dentes afiados buscando o que seria o alimento da noite, antes dele abrir as asas e alçar voo sozinho.
—Griffin! – Sofie berrou, olhando pra ele do alto.
Fui correndo até os três:
—Tudo legal?
—Depende, você considera que isso foi legal?- Ayato se levantou. Sua perna estava machucada, e sua espada suja de sangue ainda estava em mãos.
—O Griffin... – Sofie parecia meio em choque – Drakons sentem a emoção das suas donas, ele deve estar...
Ouviu-se um rugido vindo de perto do castelo.
Sarah pareceu se assustar:
—A enfermaria! Ele deve estar indo lá!
Nos entreolhamos.
—Anna está lá! – Sarah então segurou seu pingente de borboleta – Quer saber? Vocês lutam, ok? Eu vou tirar o pessoal de lá!
—Sarah! – Sofie chamou – Toma cuidado!
Sarah não ouviu.
—Tenta se acalmar, pelo amor. Se os drakons sentem as emoções das suas donas, quanto mais você estar instável mais ele vai ficar furioso. – Ayato segurou o rosto de Sofie nas mãos, que concordou a cabeça em choque.
Percebi que no rosto da minha irmã haviam pequenas manchas vermelhas, parecidas com queimaduras.
—Vocês se cuidem. – Eu suspirei profundamente – Sofie, qualquer coisa vai pra enfermaria. Ayato, se minha irmã se machucar mais eu te mato.
—Mas eu nem... – Ayato então bufou – Tá certo. Pode deixar comigo.
Os olhei enquanto eles iam embora juntos.
Ouvi uma gritaria generalizada, e não me assustei muito quando vi da onde vinha.
—Cousie, com todo o respeito, dá pra você ir EMBORA dessa merda? – Shin rosnou.
—Eu já estou aqui correndo perigo, não estou? – Cousie tinha uma alabarda toda preta em mãos – Ir embora agora ou não, não faz tanta diferença assim. Então eu escolho lutar. Pelo meu povo.
Cousie enfiou a alabarda pelas costelas de uma garota que passava, claramente meio desengonçada.
—Shin, proteja as Irmãs Creedley. – Carla comandou. Em suas mãos tinha uma longa foice de cabo preto e lâmina prateada e vermelha, com o símbolo Tsukanami como um broche.
Shin suspirou:
—Como vocês dois são perfeitos um pro outro, eu mereço.
Automaticamente, Shin se curvou e em meros segundos seu corpo ficou coberto por um grosso pelo rosado, sua silhueta se tornando a de um lobo.
Shin rosnou, correndo mais ágil que todos lá em sua forma animal.
Encarei o homem que estava no controle da grande besta, e fui até ele sem nem pensar duas vezes.
Ele nem conseguiu se defender.
—Isso é só por você ter quase matado minha irmã. – Rosnei, enfiando minha espada pela jugular do rapaz, que caiu instantaneamente no chão.
O sangue rapidamente evaporou nas chamas da minha lâmina, a fazendo ficar mais forte e emanando uma leve fumaça.
Observei a chama por alguns segundos, antes de eu dar um leve chutinho no corpo, agora totalmente morto.
—Marie! – Ouvi a voz de Nikki me chamando, e quase pulei de susto.
Ela veio correndo até mim, com sua perna quase toda exposta e sangrando, e um belo corte no seu rosto. Na sua mão esquerda, sua espada manchada de vermelho estava bem segurada.
—Cadê seu fuzil? – Eu perguntei, preocupada.
—Eu... eu sei lá, tá? – Nikki reclamou – Uma galera avançou em mim, eles pisaram no meu braço e quando eu vi ele não tava mais lá!
—Você perdeu uma arma de fogo no meio da batalha?! – Me assustei.
—-Não é esse o ponto! – Nikki então puxou uma Lua, levemente aterrorizada e cheia de hematomas – A Lua perdeu a espada! E o profetas eles tão... insanos! Nem eu sei explicar direito, parece que eles guardaram tudo que tinham pra hoje!
—A gente vai morrer!- Lua estava com os olhos arregalados.
—Não enquanto eu estiver de pé, pelo menos. – Tentei girar a espada na minha mão, fingindo não estar morrendo de preocupação. – Nikki, procura os Sakamaki. Os 6 são muito bons na esgrima, muito mesmo. E eles tem obrigação de proteger a Lua, se não sabem que eu mato eles... E... se você ver que alguém precisa de ajuda, manda pra enfermaria. A Anna tá lá, ela pode ajudar.
—Eu? Levar as pessoas pra enfermaria? Pirou de vez? A Cousie me botou no comando! – Nikki retrucou.
—Ela te botou no comando com outra pessoa por um motivo, não é? – Eu respondi, rapidamente me distraindo com um berro de agonia de alguém. – Enfim, aqui não é lugar pra isso exatamente. Se protejam. E lutem com o que tiverem.
—O nada, no caso. – Lua murmurou.
—Certo, Marie! – Nikki girou sua espada, como se imitasse o que eu fiz antes – Lua, você vem comigo!
Lua não teve tempo de retrucar.
Esperei que Nikki e Lua chegassem perto dos Sakamaki para me sentir segura, estava arfando de cansaço. Olhei pro meu pescoço, não muito assustada quando vi um grande corte sangrando.
Eu olhei pro alto, buscando qualquer sinal divino. Como se Deus me atendesse, consegui ver Daayene em cima de algumas pedras, correndo enquanto colunas se desmontavam aos seus pés, suas mãos brilhando em vermelho vinho.
Ela me olhava meio preocupada, e com um gesto da sua cabeça apontou pra Lua, ainda correndo atrás de mim.
Eu dei de ombros, no sinal mais sincero de ‘’eu sei lá’’.
Ela claramente respirou fundo, e deu um berro quando o brilho de suas mãos intensificou, atingindo uma horda de soldados com fogo e magia.
Olhei pras minhas mãos rapidamente, mas desisti de fazer o que quer que fosse.
Mais dezenas de soldados foram perfurados pelas minhas mãos. Quanto mais sangue banhava minha lâmina, mais forte o fogo parecia ficar.
Me assustei quando um homem com o que parecia ser um bastão se aproximou de mim.
Tentei fincar minha espada nele, que conseguiu segurar com sua própria mão, mesmo que ela estivesse sangrando e queimando enquanto fazia isso:
—Vai voltar pro caixão, cavaleira!
Ele bateu o bastão com tudo contra minha barriga.
A porrada me fez voar e cair de costas, batendo numa pedra ao lado de Eliza.
—Meu deus, Herbert, você tá bem? – A ruiva me perguntou, girando uma das facas de arremesso entre os dedos.
—Tô... – Encostei na minha cabeça, sentindo um pequeno calo aonde eu havia batido- Ótima, eu acho!
—Bom! – Ela respondeu, levemente esbaforida- Porque você precisa se levantar e lutar, agora!
Eu com dificuldade saltei e me pus em dois pés, bem quando Eliza jogou uma faca de arremesso, que fincou bem na nuca de um profeta.
—Ótima mira! – Percebi, meio assustada. Quando vi um soldado correndo na minha direção, girei minha espada até a lâmina cortar metade do seu pescoço, o matando instantaneamente.
—Bem... – Eliza deu um leve sorriso – Eu sou uma Creedley, né? Não dava pra eu sobreviver até aqui só com beleza e belos vestidos.
Sorri pra ela:
—Bem, eu nunca achei que você fosse só beleza e belos vestidos.
Eliza deu um sorriso de lado.
Uma outra faca de arremesso atingiu o olho de um rapaz, enquanto Shin atacava vorazmente em sua forma de lobo, deixando rastros de sangue e marcas de mordida pra trás.
—Sabe o que eu acho, Eliza? – Shin questionou ao lado dela. Preferi não me assustar com sua forma loba falando.
—O que? – Eliza o encarou, meio assustada.
—Eu acho que tá na hora de você chamar aquela... – Ele deu uma leve rodada de cabeça – Coisinha que você faz.
Eliza suspirou:
—Não é assim que funciona! Eu nunca... eu nunca ‘’chamei’’, ela só vem!
—Bom, se existe momento bom pra tentar, eu diria que é esse!- Shin reclamou.
—..Desculpa, existe alguma coisa que eu devia saber? – Questionei, assustada.
—Só me dá cobertura, Marie! – Eliza decidiu. – E se proteja, no pior dos casos.
—O que diabos isso signif... – Eu fui prontamente interrompida.
E então eu fui de novo jogada pro lado, como se uma força superior me impedisse de me levantar
Abri os olhos com dificuldade, mas senti que eu estava sendo cegada.
Era como se a aura de Eliza brilhasse em dourado. Puro, quase cegante de tão luminoso.
Olhando mais atentamente, era como se o seu cabelo estivesse colorido em todas as cores do mundo e nenhuma ao mesmo tempo. Sua pele estava quase translúcida, e seus grandes olhos agora estavam num tom de ouro brilhante.
O seu arredor pareceu se normalizar, mas Eliza ainda parecia um sol de tão brilhante:
—Não encosta na minha família!
Dos seus dedos, pareciam sair faíscas amarelas, suaves e rápidas, se prendendo como um laço no pescoço de um dos soldados e o enforcando, até ele estar tão vermelho e agonizado que Shin o finalizou pela noiva.
Eliza andava pelo campo, de forma tão leve que parecia quase levitar.
Olhei ao redor, conseguindo dar de cara com uma Haruka chocada.
—Eliza? – Haruka a encarou, completamente encharcada e molhada. – O que caral...
—Harukinha, eu se fosse você se afastava! – Shin avisou – Ninguém sabe direito o que esse poder dela f...
Logo que ele falou isso, Eliza com um gesto da mão derrubou um muro inteiro, que só não fez Daayene cair porque ela conseguiu voar antes.
Mesmo daquela distância, eu conseguia ver sua cara: não exatamente surpresa, mas com um olhar confuso e um pequeno sorriso.
—Ok, mudança de planos! – Priya gritou, ainda com a espada nas mãos. – Shin, leva a ruivinha pra linha de frente! Acho que ela vai ser... importante lá.
—Você acha? – Kino exclamou, e só então eu notei seu tronco e braços cheios de cortes e o rosto sujo de sangue. – A garota encarnou algum tipo de divindade ou infernidade! Do nada! Tipo, como a gente perde a guerra com 2 drakons e agora 2 bruxas?
—Pelo amor de tudo que você acha sagrado, Sakamaki. Cala a boca. – Cousie revirou os olhos – Sem conversar, podemos discutir sobre os poderes da minha irmã quando estivermos seguros dentro do castelo.
—É... sobre isso... – Lua apontou pro castelo, que estava tendo uma das suas torres completamente destruída.
—Se mais um castelo nosso pegar fogo, a gente devia aceitar nosso destino e viver como nômades, sério.- Yuma bufou.
—De todas as coisas, você tá preocupado com ISSO? – Kou brigou.
—A Anna... – Priya pensou alto – É a parte da enfermaria! A Anna tá...
—Ei, você não precisa se preocupar com isso. – Afirmei. – Sofie e Sarah vão salvar todos que estão lá. Eu vou me garantir disso.
Priya concordou com a cabeça.
Ouvi um barulho de algo se quebrando, e me assustei quando vi Daayene derretendo um bloco de pedras para chegar mais perto de Meg.
—Você. – Daayene parou bem na frente da profeta.
Eu estava prestes a correr pra ajudar a Hudison, mas fui impedida quando um homem me deu um rasteira, me fazendo rolar no chão.
Meg se virou pra Daay:
—Olha só, a mulher da hora. Chegada triunfal, realmente impressionante. Você sempre foi boa em causar uma impressão.
—Ser chamativa é minha especialidade. – Daayene retrucou.
—Disso eu nunca duvidei. Talvez seus tão chamados amigos, sim. Mas eu? Nunca.
—Então tire meus tão chamados amigos de fora disso. – Daayene brigou – Vamos terminar isso do jeito que começamos Meg. Eu e você. É por isso que veio.
Meg deu um leve riso:
—Eu? Vir por você? Por favor, Daayene, nós duas sabemos que isso não é verdade. Você tem... algo especial, isso é um fato. Mas o potencial dos profetas... Vai muito, muito além disso.
—Então vai ter que passar por mim primeiro. – Daayene grunhiu, antes de estender os braços e fazer crescer algum tipo de vinha vermelho-vinho brilhante, que parecia voar da terra para prender os braços de Meg.
Meg vôou pra longe, seus dedos se movendo até ela conseguir segurar as vinhas com as mãos. As entrelaçando, Meg amarrou em seus punhos e com seus dedos livres, fez Daayene chegar mais perto.
Num golpe com os antebraços, As vinhas golpearam o próprio rosto de Daayene, que fraquejou em seu vôo e seus olhos piscaram.
—Você precisa saber da verdade. – Meg rugiu, e de repente, eu vi os olhos de Daayene se vidrarem, pulsantes mas sem se mexer.
Os olhos de Dayeene piscaram lentamente de novo, até ela alcançar o chão com o corpo mole.
—DAAY! – Eu gritei, correndo até ela.
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Daayene não estava mais em campo de batalha. Na verdade, ela mal sabia onde estava.
Só sabia de uma coisa: Estava frio, e incrivelmente solitário.
O escuro se transformou, de repente se tornando um local iluminado familiar, cheio de mochilas e adolescentes passando.
Daayene olhou pra si mesma no corredor, apoiada nos armários, a mochila cor-de-rosa nas mãos.
Um grupo de meninas que Daayene reconhecia muito bem passou juntas, e a pequena Daay deu um aceno fraco e sorridente.
Foi completamente ignorada pelas garotas.
—Não podemos. – Uma das garotas sussurrou – Você sabe o que a minha mãe falou? Que a Daayene e a família dela são más influências.
—Ouvi que ela foi expulsa de casa. – Outra respondeu.
—Foi bem merecido. Fiquei sabendo que ela dormiu com todos rapazes da nossa sala. – Uma deu uma leve risada – E com professores!
Daayene puxou sua longa saia pra baixo, como se isso pudesse cobrir mais da sua pele.
Era mentira. Daayene dormiu com 2 garotos da sua sala. Um professor tentou ficar com ela. Todos seus outros parceiros da vida pagaram pra passarem uma noite com ela.
—Acha que ela vai ser expulsa da escola? – Outra garota perguntou.
—Acho que sim, não faz sentido. Imagina como os garotos vão ficar só com ela voltando? – A primeira menina retrucou.
—Ouvi que a mais velha engravidou. E a segunda teve uma overdose. – Um garoto passou, sussurrando pra seu amigo enquanto encarava Daayene.
—A mais nova é a menos encrenqueira. – Ouviu um professor da frente da secretaria. – Todas as outras se mostraram bem... opostas aos valores da Escola Católica de Kamakura.
Daayene franziu o cenho, notando que estava escutando dezenas de vozes. Talvez centenas, ao mesmo tempo.
E todas falavam seu nome. Sua família.
—Eu sempre soube que ela não era flor que se cheire. Uma garota bonita dessas, claro que ia se corromper pela vaidade.
—Precisamos falar com os responsáveis dela. Acha que a tia falará conosco.
—Daayene Hudison é uma grande vadia.
—Daayene é minha heroína. Consegue imaginar, quebrar as regras da escola e virar a protagonista do dia só por dormir com muitos caras?
—Onde foi que eu errei em não notar como essas crianças eram problemáticas?
—Não existe futuro pra essas quatro garotas. Pelo menos não aqui. Eu recomendaria mudar de cidade.
A visão parou de novo. Dessa vez Daayene estava estressada.
—Qual o propósito disso? – Daayene gritou pro alto
—Não sei o que está insinuando. — Meg apareceu detrás dela.
—Eu sei o que eu fiz no meu passado. Eu sei dos meus erros. Não precisa ficar me lembrando ou me mostrando! Essas coisas não me definem!
—Ah, eu sei que não. — Meg confirmou- Mas não muda o fato de que você só é a mulher que é hoje por causa dessas coisas.
—Eu não precisava disso pra ser forte. Eu sei muito bem do que eu sou capaz, e eu era só uma criança!
—Não estava me referindo a sua força, Daayene. Isso sempre existiu dentro de você, e nenhuma força exterior teria o poder de mudar.
—Então o que é?!- Daayene brigou.
—Você não precisa fingir que é forte o tempo todo Daay.- Meg disse de forma calma- Eu sei que nos últimos anos você não teve a oportunidade de ouvir isso, mas eu posso te dizer: Você passou por muita coisa, e tá tudo bem agir como se tivesse passado por muita coisa.
—Não, não. Eu não vou escutar você, de todas as pessoas daqui!
—Pode não querer me escutar, mas é verdade. — Meg se aproximou dela, e Daay recuou. — Pode não parecer, mas você não é uma bomba-relógio, Hudison. Ter emoções não te faz incontrolável.
Daayene não respondeu e tentou ir embora, levando um susto quando bateu de cara numa parede.
—Você está frágil e sensível, o que faz suas emoções parecerem mais fortes e podem agir contra sua vontade. Mas isso pode ser ajudado!
—Eu não vou deixar vocês me domarem!
—Domar suas emoções? — Meg quase riu- Isso é uma tarefa bem difícil, pra não dizer impossível. Sua magia é o seu coração, Hudison. Controlar isso é tirar todo o cerne dos profetas.
—Eu não sou uma de vocês.
—Ah, isso é verdade. Você é muito mais forte do que qualquer um que ousou se tornar um profeta. Você só precisa abrir sua mente pra isso.
Daayene hesitou, como se pensasse no caso.
—Não, não. Eu vou derrotar vocês, e depois me isolo de novo. Do jeito que deveria ser.
—Por que você precisa se isolar? Trabalhamos bem em equipe, e eu sei que você adora conversar. Até demais, eu diria.
—Não existem condições que me façam voltar pra Patrulha. Se me capturarem, eu prefiro morrer de fome.
—E deixaria suas irmãs aí?
—Minhas irmãs sempre foram mais inteligentes que eu, elas aguentam.
—Mais inteligentes, talvez. Mas não há ninguém nessa patrulha que saiba tanto quanto você.
Daayene parou.
—Eles podem não ter notado isso ainda, Daayene. Mas sua força é incomparável a qualquer um de lá. Te afastar é burrice deles, e você sabe disso.
—...Eu não sei de nada. – Daayene negou – Eu nem sei quem eu sou, pra falar a verdade. Já fui tanta coisa.
—Isso é uma pergunta bem fácil de se responder, Hudison. – Uma voz masculina a chamou atenção.
Tudo ao seu redor ficou preto.
Ela se virou, dando de cara com um homem encapuzado:
—...Eu te conheço?
—Não te culparia se não me conhecesse. Foram dias difíceis, não há memória que aguente. – Ele comentou – Você acredita em destino?
Daayene respirou fundo:
—É uma pegadinha?
O homem pareceu confuso.
—Como?
—Tipo, se eu disser não, você vai ficar ‘’ah, mas como, se você é profeta’’. Mas se eu falar sim, vai me perguntar porque eu recusei meu chamado.
—Qual chamado?
—Ah, o de virar a profeta suprema. Fala sério, você sabe?
—Profeta suprema? Ah, Hudison, Profeta suprema nem começa a resumir o que você é. – Ele se aproximou – E não é uma pegadinha. Eu sou Fatum, o Destino. A entidade profeta responsável pelos fins e meios.
—...Quando eu acho que esse rolê não tem como ficar mais confuso... – Daayene se assustou.
—Guerra. – Fatum continuou – É essa a palavra que rege seu destino, não é?
—Oi?
—Guerras mentais, emocionais, guerras de verdade. Lutou bravamente desde o dia que nasceu até aqui, Hudison. Não são muitos que conseguem tal feito.
—Eu não sou uma guerreira.
—Mas talvez seja uma heroína.
Daayene ficou em silêncio:
—Isso é idiota. Eu tô aqui pra lutar e evitar que mais pessoas morram na minha conta. Não preciso de mais profecias bestas pra eu me matar de pensar sobre quem cada palavra é. Eu cansei.
— Poder ou moral? Amor ou justiça? Culpa ou inocência? – Fatum não ligou pra garota – Tantas respostas na sua mão, Daayene. Tantas coisas que pode resolver. Você só precisa ter coragem de falar.
—Eu não sei quem é a Eve, se é isso que quer de mim.
—Eu não quero nada de você, mas acho que você pode querer. Isso é, se aceitar o destino que preparamos pra você.
—Qual? Me render? Passar uma eternidade nos seus joguinhos mortais? Não, valeu!
—Salvar vidas. Como salvou a da outra garota. – Fatum a corrigiu – Derramar sangue pelos seus valores. Pois isso é guerra.
Daayene abaixou a cabeça.
—Você sabe de tudo, dentro de si. Tem tudo que precisa pra fazer sua decisão. Seu sacrifício, se precisar. Você sabe o que deve fazer, cavaleira.
Os olhos de Daayene se arregalaram.
—Morte, guerra, peste e fome. Me pergunto quem seria a próxima. – Fatum sussurrou.
De repente, Fatum sumiu em névoa:
—Espera!
Como num passe de mágica, milhões de palavras pareceram surgir nas paredes do breu que estava. Daayene as olhou, apavorada.
‘’Três montarias: sexo, amor e terror.’’
‘’Três fogueiras: morte, vida e amor’’
‘’Três traições: amor, ouro e sangue’’
‘’A rainha do fogo é beijada por fogo’’
‘’A rainha do gelo é beijada por fogo’’
‘’Quando as Quatro Cavaleiras do Apocalipse forem reunidas, o mundo poderá se renovar ou acabar com despedidas
Adam e Eve serão completa harmonia, o passado se desvendaria
As mentiras descobertas, pra o futuro entender, o passado deve ficar em alerta
A vida paga a morte e a morte paga a vida’’
‘’Na última noite de lua vermelha da década, a Eve da nova raça será desvendada
Grandes poderes terá recebido, porém seu ventre não será dominado
Por Adam ou qualquer outro homem, quando grandes mudanças se assumem
Eve terá grande poder, e todo o resto poderá se absolver’’
Todas as palavras se apagaram, e Daayene se sentiu sem ar.
—Morte... Guerra... – Ela contou nos dedos – Peste e fome. Eve e Adam.
—Você não tem noção do quão perigosa é, né?- Meg estendeu os braços, da onde surgia névoa vermelha-viva.- Você deveria ser um mito, um fruto de uma profecia antiga. Um ser capaz de construir vida do zero e de destruir universos.
Daayene se assustou quando a profeta surgiu do nada, mas não respondeu a provocação.
—Quando nosso grande criador morreu a anos atrás, disse que alguém receberia seu manto. Que um cometa vermelho passaria pelo céu no nascimento do herdeiro. E cá está você. — Meg prosseguiu.- Não te chamam de monstra por ser incontrolável, Daayene, mas sim pelo poder imensurável que você tem. O segundo ser mais poderoso de todos os quatro reinos, dentro de uma humana.
—Eu não entendo. – Daayene estava arfando.
—Seu poder será completo. Sua decisão é inabalável e ultimata. Não há o que fazer contra a sua escolha. – Meg respondeu – Sua mente está fora da compreensão humana ou mágica. Sua dor e suas emoções não são sua fraqueza, são sua fonte de poder. É o que te faz única.
Daayene engoliu em seco.
—Mas pra isso, precisa aceitar seu chamado.
A Hudison finalmente encontrou os olhos da outra mulher:
—O que eu preciso fazer?
—A resposta virá. Você sabe.
Daayene se sentiu zonza, como se sua visão falhasse.
Respirar estava difícil, e suas pernas tremeram. A única coisa que ela viu antes de apagar foi a marca de garras na sua mão brilhando.
Narração Marie
Ajudei Daayene a se levantar, seus olhos vermelhos piscando lentamente:
—Eu apaguei?
—Mais ou menos isso, é.- Respondi- Você parecia estar paralisada num transe, ou alguma coisa assim. Tem certeza que tá tudo bem?
Pude ver claramente como a Hudison hesitou em me responder.
—Claro. Eu tô ótima.- Ela deu um sorriso falso.
—Eu não tô falando só sobre o desmaio, Daay.- Segurei ela pelo antebraço antes que ela sonhasse em ir embora.- Sério.
—Eu tô bem, Marie!- Ela recuou o braço de mim.- Sério!
Assim que ela se afastou de mim, senti as marcas de garra no meu braço queimando.
Corri atrás dela.
—Daayene, espera, eu preciso te contar uma coisa!
—Tem que ser agora?
—É que eu não sei. Talvez isso importe pra o que pode acontecer aqui. Talvez não.
Daayene me encarou.
—Lembra de quando eu morri e revivi? Então, eu não acho que foi uma experiência de quase morte! – Admiti – Você me salvou com sua magia, e me fez viver de novo! Por isso eu fiquei... assim.
Apontei pra mim mesma.
—Sim, isso eu já imaginava. Não sei o quanto considera isso uma salvação. Eu tirei a vida do seu filho. – Daayene retrucou.
—Pra salvar outra pessoa! – Eu respondi – Mas não é essa a questão... Quando eu ‘’acordei’’, eu tava num tipo de limbo. E uns profetas falaram comigo. E eu recebi, sei lá, um chamado.
—Você...- Daayene piscou- Espera um segundo. Você recebeu um chamado quando virou profeta?
—Cavaleira da morte, aparentemente. Quer dizer, não só aparentemente – Falei alto – Eu estava literalmente morrendo... Ei, não espalha pra ninguém. Vão me achar estranha.
—Mas eu...- Daayene recuou- Eu acabei de receber o da guer...
Daayene não precisou falar mais nada. Eu havia entendido.
—Então faltam mais duas.- Concordei.- Não precisa falar mais nada. Estou do seu lado.
—Agradeço. – Daayene concordou, claramente estupefata.
Nós duas nos olhamos por um tempo, até Daayene pigarrear e voar pra longe.
Me senti intimidada, e ao mesmo tempo, meio inútil por não conseguir lutar ao seu lado.
Meus devaneios foram interrompidos por um grito.
—CORRE! – Ouvi a voz de Sarah, e fiquei extremamente confusa quando a vi rolando no chão.
—Eu não vou rolar no chão! – Anna corria por cima de algumas pedras – Meu físico não é lá essas coisas!
—Como se o que você estivesse fazendo fosse muito mais seguro! – Sarah tentou, sem muita graça, enfiar sua espada no pescoço de um rapaz.
Anna parou em uma das pedras, fazendo Sarah parar e atacar um rapaz que tentou atacar a mais nova. Vi seu colar pulsar levemente em azul.
Sarah escalou algumas pedras e ficou ao lado de Anna:
—Eu peguei isso pra você.
Numa pequena mochila das suas costas, estava um arco e flecha de madeira.
—...Tá brincando? – Anna se assustou.
—Se eu tivesse brincando nem teria pegado, né. – Sarah fez um gesto pra ela pegar as coisas- Vai, mete bala. Ou flecha.
—Por que arco e flecha? Achei que fosse a especialidade da Cousie isso...
—Bem, dona Creedley está enfrentando alguns problemas técnicos. – Sarah apontou pra Cousie, que atualmente estava enfiando sua arma na cara de um rapaz caído de forma feroz – Não que isso a atrapalhe muito. E eu sei que você treinou com ela.
Anna corou:
—C...como você sabe que eu treinei arco e flecha com a Cousie?
—Você me contou, ué.
—Não contei, não. – Anna a encarou – Além disso, você tava naquela sua fase emo. Por que você lembrar...
Foi a vez de Sarah corar.
—Olha, não importa como eu lembro ou não, falou? O importante é que você é a única aqui que sabe usar essa arma.
—Eu sou péssima!
—E todas as outras pessoas aqui são desastrosas. – Sarah retrucou- Ei, relaxa. No pior dos casos, você acerta um soldado nosso. Ou uma das minhas irmãs. Ou uma das Creedley. Dependendo de quem for, eu até perdôo.
—Você não tá ajudando! – Anna resmungou, preparando uma flecha no arco.
—Eu não quero ajudar, quero te encorajar a mandar flecha no povo! – Sarah arqueou uma sobrancelha. – E eu vou descer e procurar os pobres garotos que não conseguem lutar direito sem minha ajuda.
Sarah realmente desceu, pegando um pequeno escudo nas suas mãos e saindo correndo.
Vi um grupo de homens perto do lago, e fui direto ataca-los.
Na primeira esfaqueada, eu quase empurrei sem querer Haruka, que estava surpreendentemente graciosa.
Haruka respirou fundo:
—Você está me atrapalhando.
Observei como ela usou a grande lagoa que havia no exterior do castelo pra segurar e afogar uma horda de soldados:
—..Não sei como você define ‘’ser atrapalhada’’, sério.
—Eu não posso sair do controle nem me estressar. No momento, você está dificultando essas duas tarefas. – Haruka criou uma grande onda, quase absorvendo toda a água, antes de conseguir prender diversos soldados em bolhas de água diferentes.
—...Seus poderes. São emocionais. Que nem os da... – Eu comecei, encarando Daayene no alto, que criou uma espécie de manopla com sua magia vermelha para socar um rapaz violentamente.
Bem, ela parecia bem... nada desestressada.
—Somos muito diferentes. – Haruka retrucou – Agora sai da frente, antes que eu acabe te machucando.
Antes mesmo de eu conseguir desviar direito, todas as bolhas de água estouraram, fazendo homens sem consciência caírem no chão, quase estourando suas cabeças.
Me assustei completamente, e foi suficiente pra eu me mandar pra longe da Creedley.
Encontrei Priya no meio da batalha, e fui correndo na sua direção
Eu a encarei quando de repente, ela parou no meio do campo.
Ela se agachou, pegando algo do chão muito familiar pra mim.
Um fuzil.
Ela encontrou meu olhar do meio do campo, e minha única resposta foi um dar de ombros.
Foi mais do que o necessário pra ela.
Priya encaixou uma parte do fuzil em seu ombro, mirando com as mãos meio trêmulas antes de apertar o gatilho.
Muitas vezes.
Crânios foram completamente estourados, e muito sangue jorrava de diversos corpos enquanto Priya urrava, quase girando e atirando.
—MULHER! VOCÊ SURTOU? – Brunna assobiou bem no ouvido dela.
Priya encarou a arma em suas mãos:
—Nossa. Isso é tipo, muito mais legal e prático do que essas espadas. Como nenhum exército usa isso ainda?
—Algo que você devia agradecer, não questionar. – Brunna respondeu.
—Irmãzinha, nossa família está em perigo. – Priya segurou seu ombro – Sabe o que isso significa? Você luta como puder e souber, e dá seu sangue se for preciso.
Brunna engoliu em seco, antes de concordar:
—Mas eu não sei lutar.
—Não. Mas você é a mulher mais inteligente que eu conheço. Isso deve servir de algo.
Priya voltou a correr, fuzilando todos os inimigos que achava com uma maestria surreal. Brunna parecia muito confusa, mas correu. Na outra direção.
Acabei perdendo Brunna de vista na sua correria, mas Priya estava nada discreta. Tão nada discreta que acabou tombando em Nikki.
—Ai! Foi mal! – Nikki então olhou pra arma nas mãos de Priya, assustada. E depois pra todos os homens fuzilados ao seu redor.
—Ah, isso é seu? – Priya respondeu – Foi mal, eu meio que não me dou muito bem com minha espada.
Nikki a olhou abismada:
—Quer saber de uma coisa? Fica com isso por enquanto. Você é... surpreendentemente boa nisso.
—Sério mesmo? – Priya sorriu – Valeu!
— Vocês são muito estranhas. Muito mesmo. – Yuma arfou – Cuidado com essa arma, baixinha, foi feita pra pessoas grandes.
—Tenha menos inveja de mim, Mukami. – Priya sorriu – Nikki disse que eu sou ‘’boa’’, ouviu? E ela é treinada!
— Você esqueceu a parte do ‘’surpreendentemente’’. – Yuma retrucou.
—Enfim! – Nikki os interrompeu, tirando seu cinto – São as munições, caso acabe.
A vi prender o cinto na cintura de Priya, que parecia surpreendentemente feliz.
—E agora? – Priya perguntou.
—Agora você... mete bala. – Nikki sorriu.
—Daora! – Priya saiu correndo, já com a arma preparada em mãos.
Não pude deixar de dar um leve sorriso vendo como Priya parecia genuinamente feliz.
Estava exausta, notei. Já desejava só um copo de água e uma boa noite de descanso.
Resolvi olhar meus arredores e tomar nota de tudo que estava acontecendo.
Os Sakamaki todos lutavam de forma maestral com suas devidas espadas reais, de diferentes materiais e formatos. Igualmente perfeitos em técnica, até eu podia dizer.
Lua fora dada uma espada improvisada, mas ela estava claramente mais como protegida do que como atacante.
Os Mukami estavam mais espalhados, mas todos tentavam de alguma forma estarem próximos das Hudison, numa forma de as proteger com suas... outras espadas. Quer dizer, pelo menos Ruki e Kou. Yuma parecia ter gostado mais de usar seus próprios punhos, e Azusa usava uma adaga.
Enquanto isso, Carla lutava ao lado de Cousie, não tão ágil quanto os outros rapazes, mas igualmente poderoso. Shin em sua forma de lobo estava ao lado de Eliza, ainda consumida por brilho.
Haruka estava mais próxima do lago, afastada da batalha. Victoria sobrevoava os ares, derrubando algumas torres e atacando quem ousava voar para perto de si.
Sarah estava com um escudo em mãos, e corria enquanto tentava esmagar novos soldados, chegando ao lado de Sofie, que improvisava com uma faca qualquer enquanto dava. Nikki atacava de forma bela com sua lâmina, trocando entre a mão direita e esquerda.
Daayene ainda sobrevoava os ares, Priya atirava para todos os lados, Anna flechava inimigos e errava alguns tiros. Kino parecia meio perdido, escondido atrás de árvores, mas era rápido e bom de espada como todo bom Sakamaki. E Brunna...
Olhei ao redor do campo, assustada por não achar a segunda Hudison.
Mas ela estava... logo lá... a tipo, 10 segundos.
Pigarreei, atacando mais uma pessoa que achou que era uma boa ideia me atacar desprevenida. Olhando pra trás, eu vi Haruka. Seus poderes estavam falhando um pouco, e suas pernas levemente trêmulas.
Haruka estava cercada, claramente. Ela criou um escudo de água para si, prendendo os profetas e os jogando pra longe.
Ela olhou pra trás, dando de cara com Kino, que havia acabado de finalizar um rapaz com uma rasteira.
Ela pareceu pensar por alguns segundos, antes de olhar pras próprias mãos e pras pernas.
Arfando, Haruka fez um laço de água nas mãos e prendeu o bastardo, o arrastando pra perto de si.
—AI! Ariel, mais calma aí! Eu sei que tenho olho vermelho, mas eu não sou um desses vira-tempo ambulante, nã...
—Eu sinto muito. – Haruka o interrompeu – É pro meu próprio bem.
Os soldados estavam se levantando, prontos pra ir direto pra Haruka de novo.
Sem pensar duas vezes, Haruka envolveu Kino numa bola de água e o rolou, o fazendo encontrar com os soldados, formando uma bolha ainda maior de água.
Eles foram girando, deixando um rastro de sangue por onde iam.
Me assustei ao ver que a própria bolha estava se enchendo de sangue, os sufocando no líquido vermelho.
Eu encarei Haruka, totalmente assustada.
Ela me olhou, ainda arfando:
—Foi uma medida desesperada.
—Medida desesperada? – Me aproximei dela, segurando a espada com força – Está matando ele!
—Eu só faço a bolha de sangue de vez em quando, e eu preciso de uma pessoa perto de mim pra dar a alavancada, ele só deu o azar de ser o mais próximo! – Haruka retrucou – Eu já tô ficando fraca, Marie. Eu já estive em mais batalhas do que você, e acredite quando eu digo que eu morreria.
—O mais próximo? – Eu repeti – Por que? Se fosse eu ou uma das minhas irmãs, nós seríamos as escolhidas?
Haruka não respondeu.
Com raiva, eu corri, pronta pra estourar a bolha.
—Eu não faria isso, se fosse você! – Haruka gritou – Vai criar uma tempestade de sangue, e isso nem é exagero.
Não me importei, só fui.
A bolha já estava quase totalmente vermelha, mas eu fui tomada de surpresa quando uma flecha voou nas alturas e acertou a bolha em cheio, a estourando.
Fui tomada por uma onda de sangue e água, mas nem me importei quando vi Kino tossindo, todo manchado e molhado de sangue, caído no chão.
—Sakamaki!- Corri até ele.
Kino cospiu sangue, que provavelmente ele havia engolido.
—Ai. Isso foi horrível. Sufocado em sangue? Sério? Nem podia ser só água?
—Você tá vivo, isso que importa. – Respondi.
—É bom saber que alguém da família ainda se importa comigo – Kino deu um leve sorriso.
—Mais de uma pessoa, eu acho... – Olhei pra trás, e vi de longe Anna, ainda mirada com seu arco na nossa direção.
Dei um joinha pra ela, e pareceu que ela sorriu.
Ajudei Kino a se levantar, ao mesmo tempo que meus olhos estavam vidrados buscando meus aliados.
Me assustei quando, não muito longe de mim, vi Kou se aproximando de Daayene, que ainda lutava ferozmente.
—Daayene. – Kou a encarou, mergulhado em sangue.
Daayene o olhou de cima a baixo:
—Jesus, se soubesse como é difícil tirar sangue de roupa, teria mais cuidado.
—Não foi minha escolha. – Kou a observou com raiva, enquanto ela ainda lutava – Cara, você sumiu por 6 meses. Será que dá pra gente conversar?
—Por que todo mundo quer conversar comigo? Óbvio que não dá, Kou! A gente tá em batalha! – Daayene retrucou.
—É claro que todo mundo quer conversar com você! Tem ideia de como os últimos meses foram? – Kou questionou – Achávamos que estava morta!
—Sim, eu sei, fui uma egoísta, tananá! Já ouvi tudo isso, hoje, inclusive!
—Quê? Egoísta? – Kou questionou – Você fugiu da patrulha pra não ser enviada pra um bando de malucos, e se acha egoísta?
Daayene abriu a boca, hesitante:
—De acordo com algumas pessoas, eu abandonei e desonrei a patrulha.
—São pessoas burras. – Kou comentou.
Daayene quase escorregou e caiu.
—Não faz diferença agora, né? Eu tô aqui. E vou lutar, antes de ir embora.
—Não... não precisa ir embora. – Kou comentou – Eu, suas irmãs e meus irmãos compramos um lote. Um sítio. É bem legal lá, você vai ver. Tem até uns patos.
Daayene segurou a risada.
—E tem tinta rosa o suficiente pra dois quartos.
—Eu agradeço a oferta, Kou. Mas não vai dar. Mesmo. – Daayene o olhou.
— Hudison. Não estou te ofertando. A casa é sua. Pode ir, se estiver bem. Você está bem?
Daayene o encarou seriamente, antes de falar, trêmula.
—Claro. Estou bem.
Um dos olhos de Kou brilhou em vermelho.
Daayene bufou:
—Sabe, eu até esqueci que você ainda tem essa coisa.
—Talvez devesse ter pensado nisso antes de mentir pra mim. – Kou questionou. – Daayene, o que tá rolando.
Daayene se virou pra ele, antes de se assustar:
—Kou, atrás de você!
Daayene lançou uma névoa vermelha atrás do loiro, o jogando pro lado enquanto estourava a cara de um rapaz que estava chegando por trás.
Kou desviou, quase caindo no chão.
Antes que ele pudesse falar mais algo pra Hudison, ela fugiu nos céus.
—Daayene! – Ele chamou.
Olhei aos arredores, ainda procurando algum sinal da segunda Hudison. Qualquer loiro de olhos azuis que não fosse Shu.
Me assustei profundamente quando vi Brunna correndo, totalmente desarmada e tentando se esconder.
—Brunna? – Eu tentei gritar, mas ela não pareceu me ouvir.
Um soldado agarrou ela por trás, a levantando. Brunna tentou o chutar várias vezes:
—SAI... DE... MIM! – Brunna berrou.
Brunna esticou os braços pra trás e puxou o cabelo do homem, que começou a reclamar e a balançar.
A Hudison respirou fundo e parou de se mexer, o que pareceu acalmar o profeta, que a tentava a levar pra outro lugar.
Foi aí que Brunna deu uma cabeçada na cara do rapaz.
O homem urrou de dor e caiu, soltando Brunna, que saiu correndo.
Ela encontrou outros 2 caras no caminho, e eu não consegui evitar e fui atrás dela pra ajuda-la.
Um dos homens tentou socar sua cara, mas ela conseguiu desviar mais rapidamente.
—Dois contra uma é sacanagem! – Brunna reclamou – E eu tô desarmada ainda!
—Brunna, cuidado! – Eu avisei.
Brunna olhou pra mim rapidamente, saindo do lugar para eu conseguir enfiar minha espada nos dois homens.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Quando um deles ousou tentar sair, Brunna se jogou no chão e o puxou pela perna, o prendendo com seu corpo.
Enfiei minha espada nele, fazendo jorrar sangue na garota.
Brunna nem pareceu se importar, já que saltou no segundo homem, se prendendo nas costas dele e prendendo seu pescoço, enquanto usava suas pequenas mãos pra tentar enforcar ele.
—Você acha que aguenta sozinha? – Questionei.
—Eu acho... AI... Que sim... – Brunna socou o rosto do rapaz – Fica quietinho!
—Sai de cima de mim! – O homem mandou.
—Nem fudendo! – Brunna desferiu outro soco. Dessa vez foi tão forte que o olho do rapaz ficou roxo, e uma parte da sua pele pareceu se rasgar com a unha dela.
Corri pra outro lado, enfiando de novo minha lâmina de fogo em dezenas, talvez dúzias de soldados. Não parecia suficiente.
Victoria abaixou um pouco seu drakon:
—Queime-os todos.
Um fogo infernal tomou conta de alguns destroços que estavam espalhados, fazendo alguns soldados berrarem e fugirem. Alguns não tiveram sucesso.
Daayeene por pouco escapou, voando mais alto.
Eu olhei ao redor, vendo todo o caos que havia se tornado aquela batalha.
Os corpos no chão já viravam pilhas, e havia tantas torres destruídas no chão. Tanto fogo, cinzas e fumaça fazendo meus olhos arderem.
Parecia que alguém havia explodido o que antes era a nossa área externa.
Um barulho de algo se abrindo me assustou.
—Sarah, você abriu as criptas? – Sofie questionou de forma fervorosa, gritando pra nossa irmã.
—Como assim se eu abri as criptas? – Sarah retrucou de volta- Claro que abri! Pra onde eu ia levar os feridos da enfermaria?!
Respirei brevemente, com muito nervosismo. O bater de asas do drakon de Victoria fez cinzas arderem em meus olhos.
Cocei meus olhos, me sentindo quase cega pelas cinzas que voavam no meu rosto.
Foi então que eu vi.
Mun Sakamaki em cima de algumas pedras, com uma espada na mão.
E um olhar mortal nos orbes vermelhos.
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