Like a Vampire 4: Endgame Volume 2

11 Capítulo 10 - Sangue vermelho (Parte 2)


Narração Marie

Mun saltou de uma altura bem considerável, parando agilmente de pé antes de sua pequena e fina espada atravessar a traqueia de um homem.

Apesar de ela ser bem menor e mais magra do que 90% das pessoas naquele lugar, foi impossível não notar como a agilidade da garota mais nova a permitia correr com muito mais rapidez.

Seus golpes eram velozes e ela era discreta, passando até pelas menores brechas pra conseguir um bom golpe.

Eu não pude não olhar pra Kino no meio de todo aquele caos, que encarava a sua irmã.

—O que... diabos... você tá fazendo aqui?! – Ouvi Kino berrando do outro lado da briga.

—O mesmo que todo mundo aqui! – Mun marchava na direção oposta do seu irmão, não parando de brigar.

—Garota, você não tem noção? – Kino correu atrás da garota – Isso aqui não é brincadeira, isso é coisa séria, se você não notou todo mundo que já morreu!

—E mesmo assim vocês pareciam estar perdendo, não é? – Mun brigou – Eu sou muito melhor nisso do que você, irmão. Você só não consegue ver isso.

—Você tem quinze anos! – Kino agora parecia estar com raiva – E eu sou seu irmão, e eu te proíbo de continuar nessa luta por mais dois segundos sequer!

—MEIO-IRMÃO! – Mun o corrigiu, cheia de raiva.

O mundo pareceu parar por alguns segundos. Sem brincadeira, até mesmo o profeta que Mun estava prestes a matar congelou, observando os dois.

Eu encarei Kino, que parecia à beira de um surto:

—Em casa a gente conversa sobre isso.

Ele deu meia volta, claramente mais irritado, antes de enfiar sua espada pelo crânio de um profeta e chutar seu corpo ferozmente.

—Parece que temos problemas de família... – Um profeta sorriu – Garota Sakamaki, você é tão grandiosa, o que diria se eu...

Não pode terminar de falar, pois Mun cortou sua garganta.

Cheguei a quase me assustar.

Ouvi alguns dos Sakamaki tentando chamar Mun, mas ela não pareceu ouvir.

Se ouviu, ela preferiu ignorar, e saiu correndo.

Respirei fundo. Maravilha, agora além de tudo, ainda temos uma criança de quinze anos no meio da briga.

Surreal. Quando você acha que não pode piorar, o universo arruma um jeito de te provar como errada.

Ouvi uma multidão de passos. Mais macios do que os de um humano, porém muito mais velozes.

Me assustei quando olhei pra trás, a tempo suficiente de ver uma multidão de lobos rosados de olhos dourados, rosnando e correndo.

Alguns pulavam no rosto de profetas pra arrancá-los brutalmente, outros apenas continuavam a correr.

—Boa ideia chamar os lobos, irmão. – Ouvi Carla murmurar. Só aí fui notar que eu já havia dado a volta no campo todo, e agora eu estava de volta ao lado dos Tsukanami e Cousie.

—Quê? – Shin parecia confuso – Mas eu não...

Ele encarou de novo os lobos, percebendo que eles estavam quase em bando circulando Eliza.

Shin suspirou:

—Sério? Até isso ela tem que ter?

—Daqui a um tempo você vai poder substituído por ela, irmão.

—Ah, cala a boca! – Shin brigou.

Extremamente confusa, eu resolvi correr quando percebi minha irmã, Sofie, correndo sozinha pelo campo.

Fiquei mais perdida ainda quando ela passou quase diretamente por mim, não me vendo.

—Brunna! – Ouvi Sofie gritando.

Brunna estava completamente sangrenta, manchando todo seu corpo, rosto e cabelo. Sua barriga estava quase aberta, não parando de jorrar sangue.

Ah, então era isso que ela estava arrumando quando sumia.

—Brunna! – Priya correu até ela – Mas que merda você fez?

—Eu... ai! – Ela mancou até a irmã. – Lipoaspiração.

Priya revirou os olhos:

—Não tá na hora de brincadeira, irmã! Ruki! Me ajuda aqui!

Ruki correu, claramente preocupado com a noiva.

Brunna foi rapidamente pro colo do seu noivo, choramingando de dor quando ele encostou na ferida.

—Vou levar ela pra enfermaria. – Ruki comentou.

—Não v... AI, não! – Brunna gemeu – Eu vou lutar!

Ruki segurou com mais força a noiva, que reclamou tentando se debater.

—Você nem consegue ter força pra lutar! – Ruki notou.

—Não! Eu quero lutar! Eu finalmente descobri uma coisa que eu sou boa em campo de batalha!

Ruki analisou os punhos roxos da Hudison.

Ele suspirou, sabendo a batalha perdida que estava se metendo.

—Você não sai de perto de mim, ouviu? – Ruki repreendeu – Eu não vou deixar mais nada acontecer com você, se quiser mesmo continuar aqui.

—Eu não preciso de...ai... proteção. – Bruna murmurou.

Priya a olhou de cima a baixo:

—É, eu acho que ela precisa. Cuida dela pra mim por enquanto, Mukami.

—Você nem precisa pedir uma coisa dessas. -Ruki respondeu. – Todos sabem...

A conversa foi interrompida por um barulho agudo e um vento forte, que espalhou poeira por tudo quanto é canto.

Do alto, eu pude ver uma grande pedra. Quase uma joia preciosa, só que gigante. O seu brilho era ofuscante.

Totalmente vermelha, ela parecia pulsar. Como se tivesse vida.

Era quase... hipnotizante. Quando a poeira baixou e eu me peguei olhando pra ela, era como se me... chamasse.

Os poucos segundos que eu passei encarando aquela pedra, era como se eu me sentisse mais forte. No fundo da minha mente, eu ouvia sussurros. Vozes que não eram minhas.

Pisquei algumas vezes, me quebrando do transe.

Eu olhei pra Daayene, e percebi ela encarando a recém-aberta joia gigante acima de nós.

Parei automaticamente de lutar quando eu percebi quão profundamente ela a fitava.

—Daayene? – A chamei.

A Hudison piscou algumas vezes, finalmente me olhando.

Foi aí que finalmente pude prestar atenção na sua expressão.

A boca contraída, os olhos num tom de vermelho vinho que quase beirava ao preto, olheiras profundas.

Ela abriu a boca pra falar uma coisa, mas nenhum som saiu.

—Daayene, o que você está planejando? – Questionei, começando a ficar preocupada.

Ela ajeitou o capuz por cima dos ombros e não falou mais nada, só voltando a voar pra luta.

—Daayene! – Eu gritei.

Ela claramente não havia me escutado.

E o que quer que tenha passado na sua cabeça, eu não gostava nem um pouco.

Tentei correr, buscando lutar numa área que eu pudesse encarar a Hudison.

Eu continuava de olho em Daayene, que dessa vez estava claramente arfando.

Percebi como em alguns momentos seus joelhos pareciam fraquejar, mas ela ainda tentava permanecer em pé ou levitando, bloqueando ataques com um escudo de névoa vermelha, ou só explodindo a cara de alguém que se atrevia a cruzar o seu caminho.

Apesar disso parecer bem descolado, eu podia garantir que era menos gostoso de assistir.

Eu finquei minha espada no rosto de outra pessoa, não descolando os meus olhos da profeta.

Daayene finalmente me olhou, seu rosto estava completamente sujo de sangue. Seu corpo estava com um corte do pescoço até a costela, que parecia levemente superficial.

Quase que pela primeira vez, eu senti uma emoção pura vindo dela, que ardia todo meu corpo.

Cansaço.

Os olhos vermelhos da Hudison estavam tão escuros que mal se via sua pupila. Não tinham brilho. Quase como se fosse um buraco negro imenso, sem sentido.

Sem nada, só o vazio.

—Daayene. – Eu quase gritei pra ela, percebendo que ela não havia desviado o olhar de mim – Ainda podemos vencer essa batalha! E a guerra! A gente só precisa...

—Não, Marie. – Daayene engoliu em seco. – Acabou.

Olhei pra ela, abismada:

—Acabou? Como assim ‘’acabou’’? Estamos todos bem! Quer dizer, na medida do possível! – Retruquei – Mas estamos em pé, lutando.

Daayene negou com a cabeça, finalmente desviando os olhos de mim.

—Acabou? O que acabou? – Eliza simplesmente voou na minha direção, me assustando um pouco.

Eu olhei pra Hudison, buscando algum tipo de resposta.

—Eu não sei ainda. – Ela respondeu. – Mas o que for, eu vou arrumar um jeito de consertar. Custe o que custar.

Percebi o calafrio que me percorreu quando ela disse isso, e encarei meu braço quase todo exposto, e as marcas de dedos quase queimadas nele.

Os dedos de Daayene. Do dia que eu, bem literalmente, morri e voltei à vida.

A minha marca profeta. Que de alguma forma, me ligava eternamente á ela. Que salvou minha vida, mesmo se não quisesse.

—Daayene! – Priya tentou correr na direção da irmã, com Anna logo atrás. Brunna... bem, ela e se esforçou bastante, mas seus passos mais rápidos faziam suas pernas fraquejarem. – O que está... fazendo...?

Daayene prosseguiu fazendo símbolos de círculo com as mãos:

—Eu não sei ainda!

—Daay! – Yuma se aproximou, um pouco mais escandaloso. – Olha, sei lá qual bruxaria você vai aprontar agora, mas tem que ser bem rápida! E poderosa! Acha que consegue fazer isso?

—Não encoraja ela a fazer alguma coisa idiota! – Brunna chegou, quase se arrastando no chão.

—Não é bem uma coisa idiota se ela é bem literalmente nossa única chance de sair vivos daqui. – Yuma retrucou.

—A única... que conhece... os profetas... – Azusa concordou.

—Pessoal, será que podemos dar um espaço pra ela respirar? – Ruki retrucou – Essa batalha já é claustrofóbica o suficiente por si só.

—Verdade. – Anna estava esbaforida. – Daay, o que... o que devemos fazer?

Daayene olhou as seis pessoas na sua frente, a mandíbula claramente tensionada e os olhos incertos.

—Neko-chan. – Kou não cantarolou o apelido, dessa vez – Você é a nossa última chance de derrotar eles.

Daayene concordou com a cabeça.

—Mas não precisa carregar o peso do mundo nos seus ombros por isso. – Kou afirmou.

Daayene parecia incerta, até seu olhar cruzar de novo com o meu.

Ela claramente também olhava pra Eliza, que estava bem ao meu lado.

Tentei entreolhar a Creedley pelo canto do olho, mas era quase como se a tensão que Daayene sentisse viesse pra mim, me impedindo de encarar qualquer outra coisa.

Daayene finalmente conseguiu falar algo, e eu consegui notar sua voz embargando:

—Eu sinto muito.

—Daayene, não! – Eu berrei, mas já era tarde demais.

Todo o resto pareceu um borrão. Mais porque talvez, realmente fosse.

Eu me senti lançada pelo ar, como se eu estivesse voando. Muito rapidamente, mas ao mesmo tempo não rápida o suficiente.

Não distinguia meus arredores, eu mal sentia meu corpo.

Até eu atingir o chão com toda a força possível.

O baque do meu corpo contra a pedra foi incrivelmente doloroso, mas agradeci aos céus que eu não havia realmente perdido a consciência.

—Marie? – Ouvi a voz de Laito me chamando – Marie!

Percebi que eu estava levemente zonza, já que meus olhos se abriram com dificuldade e vi seu rosto, erguendo a mão pra mim.

Peguei sua mão com força.

—Você está bem? – Laito questionou.

—Eu tô... – Olhei ao redor.

Pude ver todos. Ou pelo menos algo parecido com isso. Fiz algumas contas mentais. Minhas irmãs. Os Sakamaki, incluindo Mun e Kino. Os Mukami. As Creedley. Os Tsukanami. As Hud...

Eu senti meu corpo simplesmente gelar quando a conta deu vinte e seis.

Repeti a conta mentalmente. Dessa vez notei alguns soldados, todos pareceram arremessados no chão.

Vinte e seis.

—O que... o que aconteceu? – Eu perguntei, assustada, ainda buscando uma reação de alguém ao meu redor. Todos pareciam ainda atordoados pela queda súbita.

—O que aconteceu eu não sei. – Eliza me respondeu, chegando do meu lado. Estava pálida, e seu rosto mostrava preocupação – Mas eu sei que não deve ser coisa boa.

Ela apontou pra minha frente, e foi aí que vi.

Uma enorme doma vermelha, feita de névoa e algo que beirava ao liquido, cobrindo todo o espaço do campo de batalha e os destroços.

Algo parecia se mover lá dentro, mas era quase impossível de ver do lado de fora.

Daayene sentia como se sua alma estivesse sendo sugada do seu corpo.

A doma ao seu redor cobria tudo que ela podia chamar de horizonte num vermelho-sangue, escurecendo tudo o que via.

Seus joelhos estavam fracos, a magia que saía de seus dedos e pés pra alimentar a barreira mágica a fazia berrar de dor.

Quando ela caiu com o corpo todo no chão de pedra, sentiu que estava se contorcendo. Convulsionando.

Seus olhos estavam cheios de lágrimas. A Hudison não sabia medir tudo o que estava sentindo naqueles segundos, mas sabia que o seu corpo não aguentaria mais que isso.

Palavras se repetiam sem parar na sua mente nublada: guerra, cavaleira, Eve. Morte, injustiça, poder.

—Daayene Hudison. – Uma voz falava e seu tom parecia ecoar por toda a doma. Daayene demorou poucos segundos pra entender que a voz estava em sua cabeça. – Sua missão está quase cumprida. Os poderes de profeta supremo que vivem em você estão prontos pra serem acordados. Seu sofrimento acabou.

Daayene tentou olhar pro céu vermelho acima de si, com os olhos vermelhos marejados.

Ela cerrou o olhar, fechando sua visão pra tudo ao seu redor. Respirou profundamente algumas vezes, até sentir que sua dor simplesmente...

Parou.

Ao abrir os olhos, se viu de novo em outro lugar. Dessa vez, Daayene se viu num jardim. Com uma porta vermelha atrás de si e uma macieira ao seu lado, estava sentada na grama. Usando suas roupas cor-de-rosa de sempre, parecia um pouco mais velha.

Uma figura se sentou ao seu lado. Bem mais velha, de cabelo e olhos negros e uma roupa meio larga.

—Eu sei que meditar na natureza costuma ajudar, mas acho que meio da noite não seja uma hora boa pra isso.- Tia Yoko sorriu, olhando pra sobrinha.

—São só 19h.- Daayene respondeu.

—Tarde demais!- Ela brincou- Não se sabe os mistérios que a noite pode esconder... lobisomens, bruxas...

Daayene deu uma risada fraca.

As duas passaram um tempo em silêncio.

—O que está passando pela sua cabeça, pombinha? — Tia Yoko questionou, arrumando o cabelo da sobrinha.

—Nada demais! — Daayene tentou convencer, em vão- Eu só... eu só tava pensando que...

Daayene engoliu em seco:

—Tia Yoko, você que é mais velha... Já olhou pra trás e percebeu que tudo que você fez é... qual a palavra certa? Desprezível?

—Está se sentindo assim?- Tia Yoko perguntou.

—Bem... digamos que aqui em casa teríamos funções sociais. Priya é forte e admirável. Brunna é inteligente. Anna é compassiva e gentil . Eu seria... a irmã bonita. Ou a irmã sociável. Apesar de uma coisa incluir a outra.

—Você é linda e simpática. Mas não acho que vocês sejam simples assim de definir em um adjetivo apenas.

—Eu gosto de ser bonita. Gosto de me arrumar, e maquiar. Cresci mais rápido que todas as minhas amigas. Gosto de me sentir bonita. E gosto de conversar, fazer amigos. Mas às vezes eu fico pensando se isso é... o suficiente?

Tia Yoko a encarou confusa:

—Como assim?

—Todas minhas amigas foram embora. Eu nunca namorei. Onde quer que eu vá, caras babam por mim. Mas tipo, por quem eu pareço ser. Eu não consegui nenhum amigo no último ano que vivi aqui, como se eu tivesse tipo um cartaz atrás de mim escrito... desculpa o palavrão... ‘’puta’’.

A tia sentiu um leve tremor quando ouviu o palavrão.

—Desde o começo do ano os professores só ficam falando de faculdade, mas eu nem sei se quero ir pra uma faculdade! Eu não sou uma pessoa de muitos hobbies, não sei o que eu quero fazer da vida. Dá pra entender?

A tia não respondeu nada.

—Eu acho que eu só estou na dúvida de... qual o meu papel? Do que serviu todos os anos que eu passei cuidando da minha aparência e sorrindo se isso foi embora em dias? Enquanto eu estava ocupada pintando as unhas, Priya se posicionava, Brunna estudava... Até Anna tem seus hobbies. Todas elas têm algo pra fazer, um futuro legal. E o que sobrou pra mim?

Tia Yoko segurou a mão da sobrinha.

—O que sobrou de mim, agora? — Daayene suspirou.

—Se quer saber minha opinião, muita coisa. Por experiência própria, a gente descobre nossas maiores forças quando perdemos algo. E você e suas imãs, só por sobreviverem até aqui, são alguns dos seres mais poderosos que eu já encontrei.

Daayene parecia estar segurando o choro.

—O que fizeram com você não foi certo, e nunca vai ser. Mas você está em processo de cura, e pode demorar o quanto quiser nesse caminho. E isso nunca vai te definir. — Tia Yoko apertou a mão da garota- Você não é ‘’Daayene Hudison, a garota com um cartaz a chamando de puta nas suas costas’’. Você é ‘’Daayene Hudison, a garota que usa rosa em qualquer ocasião, que ama fazer os outros se sentirem amados, que adora transformações de moda e obrigou seus pais a fazerem todos os vestidos da Barbie quando tinha 8 anos’’.

Daayene soltou uma leve risada com a última parte.

—O que sobrou pra você é seguir seu coração e ser você, mesmo se não seja o caminho mais tradicional possível. Seu poder mora aqui dentro, Daay. Seu poder é se reconstruir mesmo estando impossivelmente destruída. E mesmo que alguns não vejam isso e só considerem o rostinho bonito e o sorriso grande, você usa esse poder pra provar que eles estão errados.

Daayene absorveu tudo que ela tinha falado:

—Eu só... eu só não quero me sentir sozinha nem isolada. Eu só quero me sentir amada.

Tia Yoko sorriu.

—Daay, querida, enquanto você ainda estiver viva, eu te garanto que nunca haverá um segundo onde você não vai ser amada por alguém.

A visão mudou de repente, e Daayene sentiu um aperto no coração ao ver sua tia desaparecer na escuridão.

Dessa vez ela estava numa sala comum. Piso de madeira, paredes brancas, sofás e um tapete simples.

—Daayene?- Ouviu uma voz ainda muito familiar ressoando pelo cômodo.

Quando se virou pra trás, seus olhos se arregalaram quase sem querer ao ver sua mãe. Ainda tinha o cabelo loiro preso num coque e os olhos azuis eram quase cobertos por uma camada pesada de maquiagem. Assim como se lembrava, e o vestido longo de cor neutra que Daayene sempre odiou ainda estava no seu corpo.

Sua mãe sorriu:

—Olha pra você! Tão linda! – Ela deu alguns passos á frente, e Daayene recuou por costume – Ah, o que foi? Teve uma longa viagem, não é? Não se preocupe, não está sozinha.

—Não é real... não é real... – Daayene sussurrou pra si mesma – Você morreu pra mim. Não é real.

—Daayene chegou! — Foi interrompida por outra voz familiar. Daayene quase grunhiu pra si mesma.

A Hudison mais nova quase saltou de susto quando sentiu dois braços a abraçando. Tocou hesitantemente, e se sentiu tremer ao sentir uma pele de verdade. Carne. Quente.

Olhando a dona dos braços, percebeu que Brunna a olhava com um grande sorriso. Não parecia muito diferente, exceto por uma coisa dolorosamente óbvia.

Daayene encarou a barriga protuberante da irmã com os olhos e a boca escancarados.

—Ah, isso. – Brunna sorriu- Muita coisa aconteceu enquanto estava viajando, irmãzinha. Parece que você vai virar titia logo, logo.

—Não uma tia melhor que eu, esperamos. – Priya surgiu detrás das escadas, sorrindo grandemente – Porque diferente de certas pessoas, quem aguentou a Brunna berrando e surtando em 5 línguas diferentes fui eu.

—Meninas, sem discutir. — A Sra. Hudison repreendeu, ainda com um sorriso no rosto.

—Impossível, mamãe. Juntas Brunna e Priya é receita pra desastre. — Anna chegou, abraçando a senhora por trás. Mas Daayene estava prestando atenção em outra coisa.

Anna estava usando uma regata azul-claro.

Mas a parte estranha não era essa. Era que nenhuma cicatriz estava visível nos seus braços e ombros.

Daayene puxou Anna pelo braço, tocando a pele do seu punho, orando pra que sentisse a textura da pele cicatrizada por baixo do que ela esperava que fosse maquiagem.

Não sentira nada. A pele da sua irmã mais nova estava suave e delicada, como fora durante os primeiros anos da sua vida.

—Daay, você tá bem? — Brunna perguntou.

—Acho que ela só deve estar com saudades demais da irmãzinha. — Priya riu, rendendo um sorriso tímido de Anna.

—Falando em saudades, eu acho que ela está é pensando em outra pessoa. Deve ser por isso que está toda... vaidosa, não? — A mãe questionou.

—Oi? — Daayene falou pela primeira vez.

—Esperando um certo alguém, né? — Brunna sorriu. – Relaxa, irmãzinha, todas estivemos no seu lugar.

—Eu não. – Priya respondeu.

Extremamente confusa, Daayene olhou seu reflexo no espelho redondo da sala. E engoliu em seco ao ver o reflexo.

Estava de volta ao seu peso normal. Os olhos estavam castanhos e com grandes cílios, como sempre foram. Seu cabelo parecia macio, e estava castanho claro com um corte bem definido. Além disso, ela usava um vestido rosa claro suave.

Passou os dedos no rosto, esperando sentir algum dos cortes da batalha. Não sentira nada, e ainda se assustou ao ver as unhas bem-feitas da sua mão.

Estava bonita. E normal, como era antes.

—Ah, minha princesinha chegou- Uma voz masculina ressoou, e Daayene se sentiu estremecer mais uma vez.

Dessa vez foi a hora de encontrar seu pai. Extremamente parecido com ela e Anna, sua expressão sempre séria havia sido substituída por um sorriso, mas ele ainda usava as roupas sociais costumeiras.

Daayene tentou proferir uma palavra, mas não conseguiu.

—Eu senti tanto a sua falta, filha. — O pai sorriu, estendendo os braços para abraça-la.

Foram interrompidos pelo barulho de um suave ‘’ding-dong’’.

—Eu atendo! — A Sra. Hudison avisou, correndo até a porta e a abrindo- Ah, Daayene! Seu par chegou!

Quando a porta se escancarou, Daayene oficialmente achou que tivesse infartado.

Kou estava parado com roupas da moda, com um leve fundo brilhante e até algumas tatuagens e acessórios. Tirou os óculos escuros, revelando seu olhar penetrante e orbes azuis.

Daayene paralisou antes de berrar:

—Ok, pessoal. Isso é ridículo. Tatuagem? Sério?

A visão parecia ter congelado com a repreensão da Hudison.

—Da próxima vez façam uma coisa original! — Daayene riu de nervoso- Mandem, sei lá, o Leonardo Dicaprio jovem ao invés dele, ou algo assim!

Quando ela falou isso, Kou virou um vulto, e começou a parecer ser redesenhado.

—...Eu tava brincando. — Daayene sussurrou. – Meg, sério, isso aqui tá parecendo cena de sitcom. E eu não assisto Friends a um bom tempo.

—Hm... Eu não sei o que você quer dizer. – Meg apareceu de repente sentada num dos sofás, comendo pipoca – Eu só sou sua espectadora. Você que dirige a cena.

—Er, não. Eu não quis fazer nada disso... só apareceu. – Daayene retrucou.

—Pra você ver. Imagina o que poderia fazer se quisesse. – Meg deu de ombros- Isso tudo é seu subconsciente, Daayene. Seus desejos, medos. Suas memórias. Suas dores.

Daayene olhou pros cantos, levemente desejando que o sofá mostarda virasse vermelho.

Ela quase caiu dura no chão quando a cor realmente mudou.

—Imagine tudo que consegue fazer, Daayene. Imagine tudo que seria capaz se chegasse ao seu auge. – Meg a segurou pelos ombros- Tudo que quisesse seria realidade. Poderia salvar e matar como quisesse. Controlar a mente. Mudar o tempo. Seria um ser imbatível.

Daayene deu uma leve recuada, seu medo rapidamente escurecendo o ambiente ao seu redor.

—Seria um dos seres mais poderosos dos quatro reinos. Talvez o mais poderoso, se o destino seguir seu trajeto correto.

Dessa vez Daayene hesitou. Mas não exatamente por medo.

Por dúvida.

—Você conseguirá ter a vida que sempre quis, Cavaleira da Guerra. Tudo que precisamos é que aceite o chamado.

A Hudison olhou ao redor, mentalizando o que a alguns momentos era sua pequena casa. Sua família. Sua vida e aparência de verdade.

Daayene engoliu em seco antes de erguer o rosto, seus olhos brilhando de forma estranha.

—O que fará depois é totalmente sua escolha. Você sempre foi longe do controle dos profetas. Mas é o seu destino.

Daayene encarou Meg:

—O que mais eu preciso fazer?

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Narração Marie

Tudo estava péssimo. Não que precisasse ser dito isso, pois estava dolorosamente claro.

—Ei, Priya, se acalma, nem tudo está perdido. – Nikki tentou acalmar a Hudison mais velha.

Ela nem parecia escutar, ocupada demais andando em círculos com as mãos cobrindo o rosto e murmurando alguma coisa repetidas vezes.

Não que ela fosse a única. Brunna estava derrubada no chão, claramente chorando. Se as lágrimas eram por conta da sua irmã ou da grande ferida na sua barriga... A resposta era quase óbvia demais.

Anna também não estava nada bem, sentada num canto com respiração claramente irregular, tendo que ser acalmada por Azusa.

Os outros Mukami também pareciam bem abalados, tentando dar o mínimo apoio para as garotas.

O resto do pessoal também não parecia estar muito melhor. Nikki estava sentada, mas sua perna parecia extremamente inquieta, já que não parava de ser balançada. Sarah estava tentando cuidar de algo no rosto de Sofie. Lua estava parada, sem reação. Victoria olhava pra muralha de vermelho de forma triste.

Seu drakon estava sobrevoando no teto do castelo, longe o suficiente pra nossa segurança.

Laito estava me abraçando de lado, enquanto os outros rapazes se espalhavam pelo ambiente aberto. Kino estava ao lado de Mun, o mais longe possível das Creedley e dos Tsukanami.

Falando neles, Carla ajudou Cousie a se sentar no chão. Haruka estava parada, olhando pro chão e pensando.

Eliza olhava a barreira, com Shin ao seu lado.

—Não pode estar tudo perdido. – Kou quebrou o silêncio – A gente tem que fazer alguma coisa.

—E o que você propõe? – Ruki estava tentando limpar a ferida da sua noiva com sua blusa branca. Brunna estava claramente pálida a esse ponto, e seu corpo tremia levemente.

Foi aí que eu notei quanto sangue a Hudison estava perdendo.

—Sei lá, alguma coisa! Qualquer coisa! – Kou estava um pouco exaltado – Eu só sei que a Daayene tá lá, sozinha. E sabe-se-lá o que vai acontecer!

—Você acha que eu não sei disso?! – Priya estava se descabelando – Eu não tô aqui parada por escolha!

—Por que vocês brigam... o tempo todo? – Kino bufou, claramente frustrado.

Enquanto essa conversa acontecia, Eliza tentou se aproximar e encostou o seu dedo na barreira vermelha.

Uma leve faísca dourada penetrou a camada de magia, mas a Creedley tirou sua mão de lá rapidamente com um gemido.

Andei até ela, pegando sua mão direita.

Percebi uma queimadura no dedo, onde sua unha estava escurecendo.

—É perigoso. – Eliza comentou

Ficamos mais um tempo em silêncio. Uma angústia me consumia, como se fosse uma dor de verdade, enquanto minha marca brilhava em vermelho.

—Eu vou entrar. – Victoria pareceu decidida.

—Oi? – Eu me virei rapidamente pra minha irmã. – Não vai, não! Pirou de vez?

—Marie, eu não posso ficar aqui parada enquanto ela faz... sei lá, coisa de profeta. – Victoria me impediu antes de eu correr na direção dela. – Ninguém aqui sabe o que essas pessoas são capazes de fazer com a Daayene. Se eu posso fazer alguma coisa, eu tenho que fazer!

—Você quer morrer?!- Ayato questionou.

—Se eu não morrer, a Daayene morre! – Victoria retrucou – Não é uma troca justa, mas eu preciso tentar! Todo mundo aqui deve isso pra Daayene! Ela não merece morrer achando que essa patrulha odiava ela!

Victoria encarou Cousie, que ainda estava de cabeça baixa.

—Não é justo. – Victoria arfou.

E eu sabia muito bem que, quando minha irmã decidia uma coisa, não havia força sobrenatural que a fazia mudar de ideia.

///

Ykhar pousou no muro de pedra, descendo uma das suas longas asas até o chão.

Victoria foi de forma rápida e cuidadosa, se agarrado nas penas e subindo até conseguir chegar em suas costas, o montando de forma ágil e ajeitando sua postura.

—Estaremos de olho. – Cousie afirmou de repente, encarando Victoria.

Minha irmã concordou com a cabeça brevemente, não desviando os olhos da barreira.

E sem dizer mais nenhuma palavra, Ykhar alçou voo, como se soubesse exatamente o que passava na cabeça de sua mãe.

­­­­­­­­­­­­­­­­­­

Victoria alçou vôo antes de atravessar a barreira.

Se isso sequer fosse possível, a visão lá de dentro era ainda mais estranha do que do lado de fora.

A doma era quente, como se fosse feita de puro fogo. Parecia que uma neblina enchia os limites mágicos daquele lugar, fazendo ser impossível de ver qualquer coisa.

A Herbert gemeu de dor, e encarou sua mão já levemente queimada.

Ignorando as feridas que pareciam se abrir em seu corpo, Victoria segurou seu drakon pelo pescoço.

Mas foi interrompida por um calafrio na espinha.

Algo parecia errado.

Mais errado do que aquela situação inteira, isto é.

Foi a última coisa que Victoria conseguiu pensar antes de ver uma flecha de besta gigante voando na sua direção.

A última coisa que conseguiu falar foi apenas um grito agoniante, quando viu a ponta perfurar a cabeça de Ykhar, atravessando-a.

Os olhos mel da Herbert se arregalaram, quase vermelhos de tão ardidos.

Num guincho agoniante, Ykhar tentou bater suas asas mais vezes. Vezes suficientes pra voar pelo menos mais um pouco.

E de repente, Victoria se sentiu cair.

Seu corpo todo queimava, ardia. Sentia que o metal das suas roupas estava começando a mesclar com a sua pele. E agora, estava montada em cima de seu filho sem vida, caindo pelo ar vermelho.

Victoria fechou os olhos. Esperando o impacto das pedras contra a sua cabeça.

Já estava começando a perder a consciência, zonza pela altura.

Mas a queda nunca chegou.

A última coisa que Victoria viu foi uma figura masculina de olhos vermelhos. E braços a segurando pela cintura enquanto ela voava.

Se sentiu atravessar de novo a fronteira mágica, e quando seu corpo se arrepiou pelo alívio do ar gelado, ela finalmente apagou.

Daayene não sentiu o drakon morto caindo atrás de si. Não ouviu o grito de agonia da Herbert que tentou a salvar, mesmo que custasse sua vida.

Ela estava, bem, ocupada.

Não se sentia tão cansada quanto antes, apesar de tudo aquilo ao seu redor ser dela. Sua magia, seu sangue.

Era como se uma força a renovasse, e ela aguentasse mais do que jamais poderia.

—Nossa profeta suprema. – Meg surgiu detrás dela – Por fim, chegaste.

Daayene se virou para encarar a mulher:

—Eu sempre estive aqui, babaca.

—A Daayene Hudison, sempre esteve aqui. Claro, seria bom demais pra ser verdade se você e seu temperamento estivessem longe daqui. Mas agora, você é outra. Uma nova mulher.

—Eu não sei o que mais vocês querem de mim. Eu aceitei meu chamado. Profeta suprema, Cavaleira da guerra, sei lá o que mais. – Daayene retrucou – Eu estou cansada! O que mais precisam pra me deixar em paz?

—Bem, foi você que criou uma doma e nos prendeu aqui. – Meg deu de ombros – Como termina esse capítulo, Hudison, é sua escolha. Você está longe do nosso controle agora.

Daayene encarou a joia brilhante do profetas que pulsava lá do céu, parecendo mais forte do que nunca.

—Esse é o seu destino, Daayene. E eu fiz minha parte em completar ele. – Meg deu um leve sorriso – Eu sei como a minha história acaba. Eu fiz essa escolha pra me libertar. Chegou a hora de fazer a sua.

Daayene olhou ao redor, onde milhares de olhos negros pareciam encará-la. Se era coisa da sua mente ou não, nunca poderia saber.

—Pode fugir se tem medo. – Meg prosseguiu – É normal. Mas eu sei o que você quer fazer. Eu sei. A minha morte, o meu destino. Escreva o seu, ou pode...

—Meu Deus, Meg! Será que dá pra você calar a porra da boca por um segundo? – Daayene brigou.

Meg não pareceu muito surpresa pela reação.

—Tudo bem! Você quer que eu escolha? Pois eu escolhi. – Daayene a encarou de volta – Vamos acabar isso do jeito que começamos. Você e eu.

Daayene apontou pra marca de garras em seu braço.

—Que linda, você ainda lembra que eu te dei isso. – Meg deu um leve sorriso – É o ciclo sem fim. Passamos marcas mesmo sem querer para os que são da nossa tribo. A minha foi gasta em você. Mas eu acredito que a sua já foi gasta. Na Herbert.

Meg mostrou a sua própria marca de mãos, no seu pescoço:

—São nossas marcas de nascença como profetas.

—Eu não tô nem aí pra essas marcas! – Daayene brigou – Vocês já estragaram muita coisa na minha vida, e eu tô farta!

Daayene avançou em Meg, não sabendo se ficava surpresa ou não com o fato dela mal ter reagido.

A Hudison hesitou, mesmo com o punho tremendo, pronto pra dar um soco:

—Por que você não luta?!

—Ah, você quer que eu resista? – Meg comentou – Estranho, achei que gostaria de me dar uma morte fácil. Mas se quer se divertir, eu aguento.

Meg deu uma joelhada em Daayene, que a agarrou pelo pescoço, a enforcando em seu braço.

Num salto, Meghanny energizou suas duas mãos com magia vermelha e enfiando as palmas na cabeça da cavaleira, como se preenchesse seu cérebro com energia.

Daayene urrou de dor, e se lembrou que precisava de se concentrar. Ainda precisava manter a doma.

Daayene ergueu as duas mãos, e a magia que surgiu não era mais vermelha. Era quase negra, crescendo como vinhas e as cercando.

Daayene fez as caudas negras se prenderem em Meg, e voou até ela enquanto desferia socos.

Um, dois, vários, inúmeros. Cada impacto da pele dela com a da profeta parecia emanar um choque, queimando a pele da outra mulher. Fazia o punho de Daayene arder. Os olhos de Meg estavam cada vez mais vermelhos.

Dessa vez não de magia, de sangue.

Sua boca jorrava sangue.

Daayene usou as caudas para enforcar a mulher.

—Você tirou! Tudo! De! Mim! – Ela dava um soco a cada frase, e sua voz parecia emanar um choro.

Meg a olhou, claramente viva, apesar do rosto quase desfigurado.

—Por que você não me responde? Por que nenhum de vocês me responde? – Daayene chorou – Eu chamei por vocês! Mesmo criança, eu chamava por alguma força divina! Pra me ajudar! E ninguém nunca chegou! Mesmo... mesmo vocês sabendo!

Daayene estava chorando, ainda chutando e socando Meg, sem parar nem pra respirar.

—Ninguém nunca me ajudou! A vida toda ficaram me observando! Até o KarlHeinz sabia de mim! Mas nunca me ajudaram!

Meg ainda a encarava, a boca levemente aberta, como se quisesse a responder.

—E quando vieram até mim... Não demorou nem três anos pra me abandonarem de novo! – Daayene estava ficando sem fôlego – Agora eu cansei!

Daayene ergueu suas mãos, criando uma espécie de fogueira em cada palma.

Meg a encarou. Pela primeira vez, a Hudison viu algo diferente em seu olhar.

Paz de espírito.

—Meu dever... foi cumprido.

Essas foram suas últimas palavras antes de Daayene lançar suas chamas negras na profeta.

Viu sua boca se abrir, como se um grito fosse dado. Mas não houve som. Uma das caudas perfurou a cabeça da mulher.

Depois, ela só virou cinzas.

Daayene recuou suas caudas, cessou seu fogo. Olhou pro céu completamente dominado de vermelho.

—Parece que fez sua escolha. – Ouviu uma voz masculina.

O mesmo homem de antes. Do seu chamado.

Dessa vez parecia real, não uma ilusão ou visão.

—Desde quando nasceu, esteve destinada a grandes coisas. Um cometa no céu no dia do seu nascimento, é a nossa marca para todos os profetas que nascem. – Fatum prosseguiu – Foi uma criança muito á frente de seu tempo também. Entendia as pessoas, as lia perfeitamente. Teve sonhos, sonhos com pessoas desconhecidas.

Daayene não o respondeu.

—E algumas também sonharam com você. – Fatum prosseguiu – Guerra, poucas pessoas têm acesso ao seu poder e sabedoria. Os que tiveram, se perderam em loucura. Uma mente tão jovem como a sua, não merece um destino tão cruel.

Daayene o encarou:

—Acho que isso cabe a mim decidir.

E assim ela voou, decidida, até a joia profeta.

Os raios negros que surgiram de suas mãos pareciam mais potentes que nunca. Fatum tentou dizer algo, mas sua voz foi abafada pelas vozes que surgiram na cabeça de Daayene.

Preces, gritos por socorro, contos de terror, histórias de amor.

Eram como se milhares vivessem na sua mente ao mesmo tempo.

Daayene gritou de agonia, vendo sua magia começar a rachar a joia vermelha.

Junto com a joia, o céu parecia começar a se tornar azul de novo.

Se lembrou imediatamente de Kou. Sobre o que sabia dele, pelo menos. Sobre como seu maior sonho de infância era ver o céu azul.

A única coisa que ele conhecia na época.

E provavelmente, a última coisa que veria.

Quando a pedra finalmente se quebrou, Daayene se sentiu preenchida. Até demais. Era como se a sua vida se tornasse ínfima perto de tudo que estava sentindo.

Poder demais. Infinito.

Daayene berrou de novo, sentindo seus olhos, nariz e boca jorrarem sangue. Sentiu seu corpo queimar, sentiu dor. Sua mente parecia querer explodir, como se pulsasse loucamente.

Viu um milhão de coisas ao mesmo tempo.

Passados, futuros, presentes. Dias que nunca existiram.

Viu crianças nascerem, idosos serem enterrados. Viu casamentos que nunca mais presenciaria. Viu os primeiros passos de uma criança.

Castelos foram queimados ao seus olhos. Guerras travadas. Segredos e promessas sendo criados. Coroações de reis e rainhas.

E de repente, não estava mais no campo profeta.

Nem no jardim de sua casa da porta vermelha, o que foi triste.

Mas era um lugar familiar.

Um corredor de uma casa escura. Uma mulher familiar parada no meio, com uma faca em mãos:

—Eu não tenho medo de você!

Ela apertou um pingente de borboleta que tinha pelo pescoço.

Porradas fortes eram ouvidas do andar debaixo.

Ela respirou fundo.

Se manteve firme, por segundos.

Foi aí que Daayene reconheceu onde estava. Já vira aqui antes, em uma visão.

—Molly. – Uma voz masculina foi ouvida do corredor. – Não faça isso ser mais complicado do que já é.

E foi aí que Daayene viu.

KarlHeinz. Do outro lado do corredor.

Daayene não pode segurar seu grito:

—NÃO!

Molly se virou, como se tivesse ouvido alguma coisa.

—Eu faço as coisas serem complicadas? – Molly retrucou – Quem está atrás de mim mesmo depois de todos anos aqui é você, seu maníaco.

—O que deve ser feito, vai ser feito. – KarlHeinz retrucou – Suas filhas são as escolhidas, não há o que fazer.

—Se você ousar chegar perto das meninas, eu vou acabar com você. – Molly grunhiu – E você sabe do que eu sou capaz.

—Vai queimar sua casa? Ensinar suas filhas desde cedo como se brinca com fogo? – KarlHeinz sorriu – Três casamentos, sete filhos, e você ainda não mudou.

—Acho que posso falar o mesmo de você. – Molly retrucou – Só aumentando o número de filhos, você sempre fez questão de me superar nessa parte. São o que? Seis? Sete, contando com a garota?

—Oito. Ou nove, dependendo da conta que quiser fazer. – KarlHeinz deu de ombros – Molly, eu tentei negociar diplomaticamente com você...

—Desiste, Sakamaki. Eu nunca vou entregar as minhas filhas pros seus filhos.

—Está no destino delas, não é algo que se muda.

—Elas são crianças! Só porque você trata seus filhos como bodes, não significa que eu faça o mesmo!

—Se é uma mãe tão boa, por que nunca as contou a verdade? – KarlHeinz questionou – Uma hora ou outra, vão descobrir. São suas filhas, são mágicas e inteligentes. Você querendo ou não, é o destino delas.

—Eu prefiro morrer do que deixar uma das minhas filhas pisar naquele reino seu! Ou do Robert! – Molly retrucou – Quanto mais... quanto mais participar desse seu plano doentio.

—Meu plano preza pela saúde do meu povo e o fortalecimento de uma raça. Você é mais inteligente do que minhas outras mulheres, deveria saber disso.

—Seu plano envolve mentir e manipular crianças, na verdade. – Molly riu, debochada – O que? Nenhuma das suas outras esposas te contou isso? Ah, é verdade, eu esqueci que elas estavam ocupadas morrendo por sua causa.

—Meus filhos, na verdade. – KarlHeinz comentou – Reijii e os trigêmeos são melhores nisso do que se esperava. Subaru, nem tanto mas ele vai aprender.

—Você é cruel. – Molly bufou – Seu plano é fajuto, e você é um ser horrível. Eu não tô nem aí o que minhas filhas são no seu tabuleiro, mas eu sei de uma coisa: você vai falhar. Porque é isso que você faz. Você erra.

—Suas filhas são... só algumas peças. Uma delas é rainha. Nós dois sabemos qual. – KarlHeinz sorriu – Mas não significa que eu não possa... me divertir com as outras. Mandar algumas peças falsas, confundir. Causar ciúmes e rivalidade é minha especialidade.

—Você realmente é horrível.

—E você deve ser tão horrível quanto eu. – KarlHeinz comentou – Foi você que aceitou ser minha primeira esposa e a mãe do meu filho.

Molly engoliu em seco:

—Isso foi um erro.

—Querida Molly, deveria saber desde a muito tempo... Sua opinião não importa pra mim. O que aconteceu, aconteceu. Eu tenho 6 filhos. Você tem 6 filhas. A matemática não poderia ser mais perfeita. E ainda, nossos genes sempre se atraíram um pelo outro.

—Mesmo se seus filhos se apaixonarem pelas minhas filhas, vai ser por eles, não por você. Não conte vitória tão cedo. – Molly retrucou.

—Não importa qual for o caminho, Molly. Eu já venci. E você perdeu. Uma das suas filhas é a esperada, e escolherá um dos meus filhos. Talvez seu noivo, talvez se apaixone por outro. Mas não se preocupe, eu tenho certeza que eles serão maridos maravilhosos.

Molly o encarou com raiva.

—Você só precisa sair do caminho, primeiro.

Antes da Herbert mãe retrucar, um homem encapuzado chegou por trás. De si, saiu um feitiço vermelho, que atravessou o peito da mulher.

—NÃO! – Daayene tentou correr, mas já era tarde demais.

Ela ficou imóvel por alguns segundos, encarando o Sakamaki de forma vazia, antes de cair sem vida no chão.

Daayene sentiu como se estivesse sendo puxada pra milhares de lugares ao mesmo tempo. Sua mente estava em colapso, como se milhares de informações fossem inseridas nela ao mesmo tempo.

Era como se sua cabeça se rachasse ao meio, e tudo ao seu redor ficou turvo, como um bug na tela de um computador.

Sentiu seu corpo queimar de novo, dessa vez dez vezes mais intensamente, enquanto seu rosto era sufocado por sangue.

Seu coração estava acelerado. Não conseguia respirar, nem reagir direito, de tanta dor. Ouviu berros ao seu redor, enquanto convulsionava com a magia vermelha que entrava no seu corpo.

Foi a última coisa que sentiu antes de sentir que seu corpo simplesmente havia parado de se mexer. Em poucos segundos, percebeu que não sentia mais nada. Seu corpo estava estático, sua respiração havia parado, e por fim, seu coração bateu lentamente.

Sua última visão foi o céu azul que se abria acima de si. Seus olhos não fecharam, mas o mundo em sua mente ficou negro.

Quando Reijii trouxe minha irmã em seus braços, totalmente desacordada e com o corpo queimado, eu senti que poderia gritar.

O Sakamaki não estava também muito bem, já que sua roupa e seu óculos estavam brevemente derretidos.

Ele apoiou Victoria no chão, ao lado de Brunna. Ela pareceu acordar de leve, tossindo e gorfando sangue.

—O que está acontecendo? – Eliza questionou, e antes que eu pudesse responder, percebi que ela não estava olhando pra minha irmã.

Olhei pra trás, vendo que a doma aos poucos estava se desfazendo, junto com um cheiro de queimado e uma fumaça infernal.

Encarei o céu, percebendo que, no lugar da joia vermelha de antes, estava apenas um buraco negro, levemente queimado e quebrado.

Percebi Laito do meu lado, fungando o ar.

—Cheiro de... sangue. – Ele comentou.

Finalmente eu notei a poça de sangue bem no limite, onde estava a barreira.

Entreolhei minha irmã, começando a abrir os olhos fracamente.

Respirei fundo, antes de correr até a direção do campo de batalha.

—Marie! – Eliza gritou, correndo atrás de mim.

Outros me seguiram na corrida, também.

Eu paralisei quando cheguei no meio do caminho.

—NÃO! – Priya gritou, acelerando muito mais o passo, choramingando.

No chão, jazia Daayene completamente estatelada. Seu rosto e corpo estavam queimados, algumas partes em pura carne. Seu cabelo simplesmente não existia mais. Seu rosto estava totalmente coberto por sangue puro, cobrindo olhos, nariz, boca e ouvidos.

Completamente imóvel.