Like a Vampire 4: Endgame

25 Capítulo 25- A estrada do rei


Narração Cousie

Eu estava tomando banho quando uma das criadas me chamou de forma urgente.

Coloquei um vestido lilás no meu corpo ainda molhado e corri para o quarto, onde vários dos meus empregados estavam reunidos.

Abri a porta, sentindo meu folêgo se prender em meu peito quando vi meu marido deitado na cama, praticamente nu e suando.

—O que houve?- Cruzei os braços.

—Sr.Carla teve uma crise convulsiva, minha senhora…- Minha criada mais nova tentou explicar- Foi de repente, todos levamos um susto.

—Crise convulsiva?- Respirei fundo- Não sabia que era um dos efeitos colaterais.

—Tenho quase certeza que não deveria ser.- Outro criado respondeu.

—Senhora, precisamos conversar com o médico…

Senti meus joelhos praticamente tremerem por baixo do vestido.

—Carla ficará bem logo.- Os encarei- É um rei. E forte. Vamos precisar de mais pra que ela caia.

Encarei os criados, que ainda me olhavam:

—O que estão esperando? Vão buscar tudo que é necessário pra que meu marido descanse!

Em menos de cinco segundos, todos já haviam sumido.

—Você… não precisa.- Carla disse, interrompido por tosses secas.

—Se eu não cuidar de você, quem vai?- Peguei seu cachecol do canto da mesa e passei em sua testa suada.

—Você não precisa fingir que se preocupa.- Ele tossiu de novo- Eu te conheço melhor que isso.

—Talvez.- Dobrei o cachecol de novo- Mas eu ainda sou uma rainha. E preciso de cuidar de você.

—Deveria estar se preocupando com o baile.

—Acredito eu que os criados e Daayene já tem tudo planejado.

—Ou com as suas irmãs.- Carla tentou se sentar, sem muito sucesso- Você não vai deixar Haruka casar com qualquer um, certo? Não pode fazer isso.

—Estou enviando convites pra todos os lordes que conheço ou já ouvi falar. Não é possível que nenhum deles seja de boa criação.

—Mas também não pode forçar Haruka a se casar.- Carla opinou, sua voz ficando rouca.- Sabe disso, né?

Ofereci a jarra de água pra ele. Ele concordou com a cabeça.

—Eu farei o que for preciso pra proteger a honra da nossa família.- Servi um pouco de água num copo- Custe o que custar.

Ouviu-se uma batida na porta, interropendo Carla, que parecia prestes a falar algo.

—Pode entrar.- Pedi.

De lá surgiram Haruka e Shin.

—Não sabia que ia ter visitas.- Carla se ajeitou na cama.

—Ia ser díficil não notar os criados perdidos correndo pra lá e pra cá.- Haruka suspirou.

—Exato. E Eliza não conseguiu vir.- Shin concordou.

—Como…- Me recuperei.- Como assim "não conseguiu vir?"

—Ela acordou bem cansada e quase não conseguiu chegar até a mesa de café.- Haruka explicou- Está sem fôlego então pedi pra que não fizesse o esforço de usar magia ou os pés pra vir até aqui.

—Elizabeth realmente deveria descansar.- Carla bebeu um gole da água que eu havia lhe dado.

—Acha que não sei?!- Shin brigou- Eu falo isso pra ela todo dia, mas a família dela é teimosa feito um burro!

—Ei!- Haruka pareceu ofendida.

—Não vou retirar o que eu disse. Vocês duas sabem que é verdade.

—A sua delicadeza me surpreende a cada dia, Shin.- Arqueei as sobrancelhas.

—É. Foi assim que eu consegui pegar sua irmã.- Shin não pareceu nem um pouco arrependido.

Haruka escondeu uma risada.

—Espero que queira dizer "noivar" minha irmã.

—Você sabe muito bem o que eu quis dizer, Cousie.- Shin revirou o olho- Irmão, diga pra sua esposa parar de fingir ter uma pureza inexistente.

—Eu sinto que eu não deveria estar nessa conversa…- Haruka opinou.

—E realmente não deveria.- Forcei um sorriso- Haruka, acredito eu que o alfaiate chegue hoje, e pedi que fosse a primeira a ser atendida. Por que não vai lá?

—Hã?- Haruka colocou as mãos na cintura- Pro baile?

—Sim. Pra que mais seria?- Fiquei confusa.

—Sei lá. Eu só ainda tenho esperança que você desista dessa ideia idiota.- Haruka sorriu.

Dessa vez Shin segurou a risada.

—Haruka!- A repreendi.

—Haruka, eu tenho uma ideia melhor.- Carla interrompeu- Por que não procura Sofie e vocês duas vão… alimentar os drakons?

O encarei feio.

—Ué, mas aí até eu quero.- Shin murmurou.

—Invejoso.- Haruka debochou- Eu já vou ind…

Mais uma batida na porta.

Dessa vez, quem surgiu foi Kino.

—O que você tá fazendo aqui?!- Haruka praticamente guinchou.

—Ai, desculpa, não sabia que era festa particular.- Kino resmungou.

—Tem um motivo pra se chamarem quartos particulares, sabe?- O encarei de cima a baixo.

—A porta estava aberta, então…- Kino deu de ombros- Enfim, eu acho que as meninas tão esperando vocês duas.

—Pra que?- Haruka questionou.

—Eu sei lá. Mas eu tentei ir tomar café e elas me jogaram pra fora. Tipo, literalmente, a Nikki me pegou no colo e me jogou porta afora.- Kino dissociou- Acho que eu ter sequestrado você ao invés dela foi um sinal divino. Ela é forte.

—Kino.- Haruka disse entredentes- Chegue ao ponto.

—Ah, sim.- Kino arregalou os olhos de repente- Sarah gritou algo sobre apenas meninas serem permitidas, aí eu ainda estou com fome. Então sejam rápidas pra eu poder comer.

Cerrei o cenho pra ele:

—Era só isso?

—Bem, eu poderia falar sobre meu rolê no estábulo, mas acho que isso não seria interessante pra vocês então…

—Sakamaki!- Haruka brigou- Vaza!

—Mas eu…

—Só. Vai!

Kino arregalou os olhos, sem parecer notar que estávamos em uma reunião de família.

Ele foi embora sem fechar a porta.

—Cara sonso.- Shin opinou.

—Olha quem fala.- Haruka cruzou os braços- Você tem moral pra falar da capacidade mental dos outros desde quando?

—Ih, tá protegendo o namoradinho bastardo?!- Shin provocou.

Haruka abriu a boca, mas o som não saiu.

—…Haruka?- Insisti.

—Não enche!- Haruka finalmente brigou.

—Você não negou nada. Há! Cousie, ela apaixonou no bastardinho Sakamaki!- Shin estava tendo crise de riso.- Primeiro foi o Masa lá. Agora…

—Shin. Menos.- Carla pediu.

—A culpa não é minha se ela tem gosto questionável pra homem!

—E você?- Haruka se virou pra ele.

—O que? Vai falar que eu tenho gosto questionável pra homem?- Shin brigou.

—…Eu tava mais indo falar que você era o homem questionável. Tadinha da Eliza.- Haruka debochou.

—Escuta aqui…

—Vocês dois!- Briguei.- Se não entenderam, Carla está tentando descansar.

—Certo. Desculpe, Cousie.- Haruka pigarreou- Carla, fala pro seu irmão parar de ser um idiota pé no saco.

Haruka marchou pro lado de fora.

—A Haruka se irrita tão fácil.- Shin riu- A Eliza tem a paciência de uma deusa, e eu preciso irritar alguém aqui.

—Não precisa se explicar.- Franzi o cenho.- Ela não vai olhar o vestido, né?

—Com toda a sinceridade?- Carla segurou meu ombro- Não.

—Tenho certeza que ela a cada segundo busca uma interrupção nova pra não ter que se envolver com o baile.- Shin respondeu.

—Eu… imaginei.- Pigarreei- Vou encontrar as meninas. Qualquer coisa…

—Eu te avisarei, sim.- Carla me interrompeu.

Dei uma andada rápida até eu finalmente chegar á sala de jantar. Como Kino havia dito, apenas meninas.

—O que diabos está acontecendo?- Questionei quando vi Daayene fechar a porta e expulsar umas criadas.

—Ótimo questionamento.- Nikki respondeu.

—Ninguém sabe.- Eliza se levantou da mesa.

—Sh!- Anna pediu.

—Ela está vindo!- Sofie sussurrou.

Me assustei quando depois de uns minutos, vi Brunna abrindo a porta e entrando sem nenhum problema.

—Então…- Priya parecia cheia de expectativa.

—…Quê?- Brunna estava com um rosto exausto e sonolento, além de ainda estar de pijama.

—Você disse sim?- Anna insistiu.

—Ah!- Brunna então enfiou a mão no decote, tirando de lá uma correntinha com um anel- Eu acho que a resposta é meio óbvia.

Daayene berrou da forma mais aguda possível.

—Pera, que?- Sarah pareceu confusa.

—Ai.Meu.Deus.- Marie cobriu o rosto- O Ruki…?

—É. Eu sei. Eu tô pirando.- Brunna soltou um sorriso.

—Deixa eu ver o anel!- Eliza se aproximou correndo- Uuuh, é lindo!

—É claro que é. Eu que ajudei a escolher.- Sofie retrucou.

—Sofie, você está usando o Ruki como forma de projetar seu verdadeiro desejo de se casar com a Brunna?- Haruka questionou. Sofie revirou os olhos pra menina.

—Como que foi o pedido?- Lua perguntou.

—Foi bem romântico, eu diria.- Os olhos de Brunna brilhavam- Nada do que eu normalmente esperaria dele. Normalmente eu sou a romântica. Mas foi…

Ela suspirou.

Victoria cruzou os braços, ainda sentada.

—Ela tá apaixonadinha!- Daayene apertou a irmã.

—Brincadeiras á parte, fico bem feliz por vocês dois.- Nikki deu um breve sorriso- É bom saber que amor e felicidade ainda estão vivos, mesmo aqui.

—Eca, quem é você e o que fez com a Nikki?- Haruka riu. Eliza se juntou á irmã na risada.

—Com… licença.- Victoria se levantou- Eu preciso falar agora ou me calarei pra sempre.

Todos ficaram em silêncio.

—Hãm… Normalmente a gente guarda essa parte pro casamento.- Eliza riu de nervoso.

—Você não aprendeu nada comigo e com o Reijii?- Victoria perguntou- Somos jovens demais pra nos casar! Todas nós.

—Hm…- Sarah levantou a mão- Como alguém que passou a vida atacando a vida e felicidade dos outros por inveja, nem eu odeio esse noivado. Vocês dois são perfeitos juntos.

—Valeu, Sarah.- Brunna sorriu.

—É. Valeu, Sarah.- Priya encarou Victoria cheia de raiva.

—Bem, eu como mais velha deveria me pronunciar.- Pigarreei.

Brunna me olhou.

—Vocês já sabem da minha opinião dos meninos. Todos eles. Não levem pro lado pessoal.- Rangi de leve os dentes.- Brunna, você tem certeza absoluta que quer isso?

Não dei tempo da Hudison me responder.

—Casamentos requerem maturidade, comunicação e respeito.- Retruquei- Bem mais do que amor e paixão. Você e Ruki são realmente jovens. E você tem o destino e a chance de ser uma das mulheres mais inteligentes e fortes que eu já vi.

Todas as garotas absorveram meu discurso com atenção.

—Só nunca deixe que esse rapaz te diga quem você deve ou não ser. A escolha é totalmente sua.- Continuei.

—…Cousie, eu acho que esse foi seu recorde de palavras ditas sem ofender ninguém.- Marie comentou.

Revirei os olhos.

—E ainda tinham elogios!- Eliza riu.

Haruka franziu o cenho pra mim, mas relaxou por segundos.

—Quando você vai querer casar?- Lua questionou.

—Uia, eu quero ajudar a escolher o vestido!- Daayene sorriu.

—Pessoal, deixem ela respirar.- Haruka a afastou.

—Eu ainda tenho que ver tudo isso com Ruki.- Brunna molhou os lábios- Mas eu posso dizer que estou SUPER feliz.

—Notamos!- Sarah riu.

Todas as garotas pareciam animadas com a notícia logo de manhã. Tão animadas que iam andando e discutindo, até esquecendo do café da manhã.

Menos Victoria, que havia acabado de comer um pote de biscoitos de canela agressivamente.

—Victoria.- A chamei.

—Se você quer me dar sermão, me poupe.- Victoria se levantou.- Poupe sua saliva.

Ela foi saindo pra longe da mesa, e eu fui atrás dela.

—Eu não acho que você esteja apoiando.- Franzi o cenho.- Apenas isso.

—Está certa. Eu não estou. E você não deveria estar também.- Victoria retrucou, andando ao meu lado pelo corredor- Não vou apoiar algo que sei que, por experiência própria, é uma decisão horrível da qual elas vão se arrepender.

—Ah, Vic. Posso ter uma palavrinha?- Priya chegou atrás de mim.

—Eu vou indo.- Acenei com a cabeça.

—Não, você fica.- Priya me encarou.- Vic. Eu levei em consideração o que você falou e pensei bastante sobre isso. E me ocorreu que você talvez esteja certa.

Victoria olhou pra mim, parecendo assustada.

—Ok, talvez Ruki e Brunna sejam novos demais pra casar. Afinal, foi por isso que você e o Reijii não deram certo, não foi?

Victoria engoliu em seco.

—Ou talvez não tenha dado certo porque você é uma fetichista crítica e linguaruda.- Priya cruzou os braços- Talvez Reijii tenha se cansado de ouvir seu estridente sermão super presunçoso sobre você ser o ápice do movimento feminista toda vez que vocês cozinhavam juntos ou peidavam.

Foi minha vez de fazer uma careta.

—Talvez Reijii não quisesse estar com alguém que não parece ter os dentes de cima quando sorri. Ou quisesse estar com uma pessoa que não se vestisse como um figurante saindo de um sonho erótico de um maluco que tem fetiche em pernas e pés bem específico.- Priya continuou- Talvez ele tivesse cansado de sair com uma Daayene Hudison mais despida e ofegante.

Victoria desviou o olhar.

—Talvez ele finalmente tenha surtado por causa da sua estranha obsessão por sexo casual que te faz farejar prostíbulos que nem aqueles gatos que farejam câncer.- Arqueei a sobrancelha com aquela parte- Talvez tenha se cansado de você se grudando em qualquer mesa próxima pra entreter um total de zero pessoas com alguma performance da Judy Garland que engasgou com sua língua ou um velho número da Broadway que fez sucesso na voz de outra pessoa alcoólatra e morta.

Um grupo de criadas que passou por perto fez uma expressão estranha.

—Talvez o Reijii tenha acordado um dia e falado "Quer saber, não quero continuar casado com uma mina egoísta e egocêntrica. Talvez eu precise de alguém que saiba mais que três passos de dança. O que você mexe o dedo, o que você mexe os ombros e aquele onde finge que está rodando duas fitas arco-íris nos quadris! Então sabe, vai ver é por isso que não funcionou.

Nem eu sabia como ela não havia esgotado de oxigênio.

—Talvez não tenha nada a ver com Brunna e Ruki, e sim com o fato que você é totalmente e TOTALMENTE insuportável.- Priya sorriu- Talvez seja por isso.

Ela se virou e foi embora. Deixando Victoria chocada.

—Legal.- Ela pareceu morder a bochecha- Isso aconteceu.

—Você devia pelo menos fingir melhor.- Murmurei- Finja apoio. Faça que nem eu faço até hoje.

Victoria me olhou confusa:

—E depois sou eu que preciso de terapia.

Revirei os olhos pra ela.

—Não é sobre isso. Mas você não quer piorar mais ainda a situação aqui, não é?

—…Não.

—Exato.- A virei na minha direção.- Eu não apoio muitas das coisas que vejo aqui. Aí você guarda pra si mesma.

—Tenho quase certeza que isso fez a Sarah surtar ano passado.- Victoria se afastou- Cousie, por que você não tenta ficar só nas tarefas de rainha mesmo e sem a parte da conselheira?

E assim ela foi embora, me fazendo grunhir.

Essas meninas não entendem nada mesmo.

—Senhora Cousie!- Uma criada correu na minha direção, quase perdendo o controle dos pés e se batendo contra mim- Sua irmã…

—O que aconteceu dessa vez?- Arqueei a sobrancelha.

—Uma emergência! Um acidente!- Ela parecia realmente desesperada. E pálida. Como se estivesse prestes a desmaiar.

A segui sem questionar muito.

Cheguei no quarto a tempo de ver Haruka expulsando Carla da cama e Shin colocando sua namorada, meio desmaiada, no lugar dele.

—O que vocês dois pensam que estão fazendo?!- A criada brigou.

—Dando prioridade pros quase mortos.- Haruka retrucou.

—Expulsando o Sr.Carla da cama?!

—Tudo bem, fui eu que ofereci.- Carla respirou fundo

—É uma cama de casal, vocês podiam só ter colocado ela do lado do meu marido.- Afirmei.

—Minha noiva não vai se deitar ao lado do meu irmão!- Shin brigou.

Antes que a discussão escalasse, ouvimos a respiração rasa e áspera de Eliza, o ar parecendo entrar com dificuldade pelas suas narinas.

Estava mais pálida e suada do que jamais a havia visto.

—Não existe absolutamente nada que possamos fazer?- Senti minhas unhas apertarem minha pele.

—Você está preocupada com isso agora?- Haruka debochou- Devíamos estar gastando tempo e dinheiro cuidando da nossa irmã, não num baile idiota!

—Respeite a Sra.Cousie!- A criada brigou.

—Senhora, pode ir embora, você só está piorando a situação.- Shin pediu pra moça.

Ela hesitou, mas ao ver os nossos quatro olhares em cima dela foi rápida em ir mesmo.

—Eu estou evitando que nossa família caia em desastre!- Briguei assim que a porta se fechou.

—Você está tentando disfarçar o fato que sua gravidez foi uma mentira, isso sim!- Haruka brigou.- Não suporta o fato de que cometeu um erro, e por isso mentiu pra todo mundo da fortaleza falando que perdeu o bebê quando na verdade nunca teve um bebê!

—Haruka…- Carla tentou a acalmar.

—Eu só quero o seu bem!- Senti minha voz aumentar- Tudo que eu faço… tudo que eu fiz durante toda minha vida foi com o único propósito de proteger vocês duas!

—E olha onde isso nos levou!- Haruka parecia furiosa- Eliza está de cama, você está… seja lá o que você esteja fazendo! E eu pareço feliz pra você? Por que eu não estou!

Eliza tossiu, mas dessa vez não foi notada.

—Por favor, Cousie, me fala quem foi o monstro que te transformou nisso. Porque essa não é você!- Haruka bateu a mão na mesa sem querer- Você podia ser a cretina que fosse, mas ainda assim realmente nos protegia. E nos ouvia. Mas agora está pegando uma estrada muito perigosa. A mesma estrada pra loucura que os mesmos que juramos destruir pegaram.

—As coisas mudaram. Eu sou uma rainha agora. Eu presciso estabelecer prioridades.- Engoli em seco. Metade porque eu sabia que ela estava certa.

—Se uma coroa de um reino te fez ficar assim, que Deus nos ajude quando você conquistar os quatro.- Haruka me olhou, completamente desacreditada.- Eu tenho dó de você. E do seu filho.

Haruka foi embora.

—Eu vou... tentar ajudar ela.- Shin tentou evitar uma discussão.

—Não.- Olhei pro teto, tentando fingir que meus olhos não estavam cheios de lágrimas.

—Não… o que?- Shin pareceu na dúvida.

Carla fez um carinho nas minhas costas, como se soubesse exatamente o que estava se passando pela minha cabeça.

E pra ser bem sincero, ele sabia.

Olhei minha irmã, com a boca suja de sangue e os olhos caídos.

—Só… fica aqui com a Eliza.- Eu pigarreei- Eu vou pra biblioteca.

Eu saí antes que eu pudesse ser questionada.

—Cousie.- Ouvi Carla me chamando. Ele ajeitava suas roupas recém-postas.

Abri a porta da biblioteca com força, mas não consegui a bater já que Carla impediu com seu braço.

Tive que me apoiar na mesa com os dois braços trêmulos.

Eu chorei.

A última vez que havia conseguido tal feito fora quando eu descobri do meu filho não-fecundado. E mesmo assim, nem sei se havia chorado tanto.

Carla tentou me puxar pra um abraço, mas fiquei paralisada no lugar.

—Cousie, ela não sabia…

—E não vai saber.- Eu consegui falar entre lágrimas- Ninguém vai saber. Até ficar totalmente óbvio. Já discutimos sobre isso.

—O que eu acho que é uma decisão estúpida.- Carla admitiu- Victoria, Marie e Priya poderiam te ajudar…

—Está insinuando que eu preciso da ajuda de alguém?- Limpei meu rosto.

—Estou insinuando que se quer ser uma boa rainha, precisa se abrir pros sentimentos.- Carla segurou minhas mãos- Se não vira essa bomba prestes a explodir.

—Eu não posso me dar esse luxo. Você sabe que não.

—Você foi ensinada a não se dar esse luxo. É diferente.

—Se eu for uma rainha que sente, acha mesmo que me darão qualquer tipo de credibilidade?- O segurei pelos ombros- Acha que meu filho ou filha vai herdar os quatro reinos sentindo?

—Nosso filho ou filha.- Carla me corrigiu- E sim, gostaria de pensar que sim.

—Você é ingênuo demais pra alguém que fez as coisas que você fez.

—Eu tenho meu bom senso.

—Nós dois não somos boas pessoas, Carla.- Retruquei- Sabemos disso. Estamos dispostos a matar pelo que queremos. E nós dois já fizemos isso.

—Realmente.

—Então por que você acha que eu mudaria de opinião agora?

—Talvez porque…- Carla estava prestes a apontar pra minha barriga quando Lua surgiu na porta.

—Ah. Aí estão vocês dois.- Ela pareceu esbaforida- Reunião de emergência. Todos pra sala.

—O que é dessa vez?!- Briguei.

—Mensagem. Dos profetas.- Lua respondeu.

—De novo?- Questionei.

—Herbert, pode dizer a eles que dessa vez Cousie e eu não iremos pois…

—É urgente!- Lua insistiu.

—O que que os profetazinhos podem nos falar que ainda não ouvimos?- Questionei.

Lua engoliu em seco:

—Dessa vez é um aviso.

—Sobre?- Carla se interessou.

—Sobre…- Lua respirou fundo.- Sobre a Daayene.

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— A senhora tem certeza que é nessa direção?- Mun questionou, sua voz mais grave.

—É claro. Por que eu te enganaria?- Uma mulher esquelética e mais velha disse com voz rouca. Seu cabelo preto e olhos profundos da mesma cor a deixavam levemente assustadora.- Menino está buscando apenas sua família.

Mun analisou suas roupas cheias de sangue:

—É… claro.

As duas pararam na frente de uma estrada de neve.

—Cá está. A estrada que vai até a fortaleza.

—Daora.- Mun mordeu o lábio- Ah, a senhora pode me explicar como…

Mun olhou pra trás, vendo que ela havia subido num rastro vermelho.

Franziu o cenho e encarou a estrada.

Pegou sua faca de ouro roubada, a prendendo bem entre os dedos.

E assim seguiu jornada.