Like a Vampire 4: Endgame
18 Capítulo 18- Quebrando Promessas
Notas iniciais
Narração Victoria
Eu estava amarrada em uma cadeira.
Minhas mãos estavam dormentes, minha boca amarrada com um pedaço de tecido. Não sentia meu cabelo em minha cabeça.
Sangue deslizava pela minha barriga nua e meu peito. Eu mal conseguia respirar.
—Agora… que tal a gente brincar mais um pouquinho?- A voz era desconhecida. Ouvi um choro de bebê.
Acordei suada na minha cama.
Minha franja estava grudada na testa, molhada. Me sentei e senti minha respiração ofegante ir se acalmando aos poucos.
Coloquei meus pés pra fora da cama e fui até a janela.
Bem, pelo menos meu pesadelo me acordou na hora certa. Já estava com cara de fim da manhã.
Estava quase saindo do quarto, quando senti algum nervosismo preencher meu coração.
Não pensei muito, só peguei o celular e disquei o número do meu pai.
Esperei nervosamente o telefone começar a tocar.
O celular vibrou contra minha orelha, indicando que estava chamando.
Arranhei levemente minha coxa com a ansiedade me dominando a cada "Piiii" que o telefone fazia.
Depois de mais alguns segundos, o barulho virou um "Tu tu tu", indicando que não havia sido atendida.
Desliguei a chamada.
Bem, ele deve só ter saído. Estava ocupado. Pensei em ligar pra Ian e Chronos, mas desisti assim que notei que: Primeiro, eu não tinha o número deles. Dois, quão desconfortável seria a quase-enteada deles ligar do nada só pra perguntar do filho?
Quer dizer, bebê.
Troquei de roupa bem rápido e prendi o cabelo ao invés de penteá-lo como um ser humano normal. Calcei meus pés com meias grossas e desci.
Assim que cheguei, encontrei todos reunidos. Cookies, café, água e suco estavam na mesa de centro.
—Ah, Vic!- Marie sorriu- Estávamos te esperando, pode se sentar!
O único lugar disponível era em um dos sofás, ao lado de Yuma e Priya.
Suspirei antes de me jogar lá.
—Tira o inferno da máscara, Eliza!- Haruka brigou.
Eliza usava uma máscara médica que cobria seu nariz e boca:
—Não quero ser contagiosa, de nada.
—Se você tossir sangue não só vai sujar a máscara como é capaz de engasgar no sangue…- Kino retrucou.
—Talvez não engasgar...- Sofie começou.
—Com todo o repeito, Sofie. Ninguém liga.- Brunna riu- Mas olha, eu peguei cadernos e canetas pra todos. Me dei a liberdade de fazer minhas próprias anotações...
—E depois eu que sou impaciente.- Ruki murmurou.
—Eu vou ignorar o que você acabou de falar.- Brunna olhou pro namorado.
—Por que no meu caderno diz "beber até ela ficar linda"?- Anna questionou.
—Talvez seja porque os cadernos foram roubados de uma papelaria barata.- Priya debochou- Talvez.
—Pela última vez, eu não ROUBEI.- Nikki grunhiu- Eu paguei.
—E os seguranças chegaram perto de você pra que? Pedir seu número?- Sol riu.
Nikki revirou os olhos.
—Voltando ás anotações da Brunna...- Carla pediu.
—Bem, é um resumo… bem resumido.- Cousie leu os papéis em cima da mesa.
—Tenho quase certeza que "Robert merdeiro chega e estraga tudo" não foi exatamente o que aconteceu.- Sarah apontou pro papel das que haviam ido pro Mundo Feiticeiro.
—Provavelmente não. Mas é um bom resumo da vida dele.- Ayato bufou.
—Kino e Haruka, vocês acharam alguma coisa de importante enquanto estavam viajando sozinhos?- Jackson perguntou.
—Não. Porque ele estava ocupado sendo sonso.- Haruka suspirou- E eu estava ocupada ficando com raiva e brigando por ele ser sonso.
Mordi a bochecha, meio indignada.
Como diabos todo mundo se atrevia a fingir que tudo estava normal? Que não havia um traidor entre nós.
—Então a Rebelião é dividida em colônias?- Akira pensou alto- Devíamos fazer...
—Uma ameaça.- Sol completo- Se dominarmos as colônias menores que nem as meninas fizeram, a gente tem mais chance de ir contra eles.
—Eu sei lá, a parte que elas saem do fogo vivas e queimam os machos parece a melhor parte do plano.- Mao deu de ombros- Não é só… muito mais simples tacar fogo nas colônias e zarpar?
—Cara, acredita em mim, matar pessoas queimadas não é legal.- Nikki estremeceu.
—Bem, eu não quero repetir a dose tão cedo também.- Sofie concordou.
—Credo.- Yui fez um sinal da cruz.
—Bem, eu acho que estamos na vantagem. Aqui nesse grupo temos pessoas resistentes á fogo, donas de drakon, uma mega profeta, uma dobradora de água, uma arqueira…- Lua ia listando.
—E uma grávida e uma doente, se você não notou.- Daayene comentou- Todas nossas chances devem ser contadas. Não podemos correr nenhum risco. Nem acharmos que estamos um passo á frente.
—Dois doentes.- Shin corrigiu, fazendo Carla bufar lentamente.
—Bem, todas as pessoas estão certas.- Brunna afirmou- Temos sim, pessoas super poderosas pra batalha aqui, mas nem todos são assim. Além disso, precisamos de mais do que… trinta e uma pessoas, se quisermos vencer.
—Trinta e quatro.- Shu corrigiu.
—Trinta e quatro se contarmos com Lilith, Mun e Igor.- Kanato respondeu- É o que as meninas falaram. Eles chegarem aqui a tempo da batalha seria sorte.
—Bem, pelo menos os Herbert lutariam pela gente.- Marie retrucou.- Eu ainda acho que eu…
—Se você falar que quer lutar de novo…- Sarah bufou.
—Mas Marie está certa!- Eliza brigou- Eu não sei sobre ela, já que está com uma criança na barriga, mas eu…
—Eliza, preciso te lembrar que você está com uma doença que é contagiosa por sangue?- Cousie bufou- Quer lugar mais cheio de sangue que uma batalha? Você não vai. Nem a Marie, se isso te consola.
As duas se afundaram em seus respectivos lugares.
—Desculpa, mas eu tenho que falar uma coisa.- Interrompi a conversa, engoli em seco.
Brunna me olhou estranho, mas permaneceu em silêncio. Usei isso como permissão pra falar.
Bati algumas vezes no caderno em minha mão antes de me levantar:
—Olha, eu não quero dar uma de Sarah aqui…
—Rude.- A gêmea mais velha sussurrou.
—Mas eu não vou pra batalha com vocês. Ou pra qualquer outro lugar. Não até o impostor se revelar.- Desabafei.
Olhei pra cada um dos rostos. Marie ao lado de Laito. Nikki ao lado de Shu. Subaru ao lado de Lua. Ayato, Sofie, Brunna e Ruki no mesmo sofá. Haruka estava sentada na poltrona, onde Eliza e Cousie se sentavam nos braços e Kino no chão a sua frente.
Carla e Shin estavam em outro sofá. Sol, Akira, Jackson, Yui e Mao todos estavam sentados em cima do balcão da sala. Ao lado do meu lugar vazio, estava Yuma e Priya. No chão, Daayene, Kou, Azusa e Anna estavam sentados espalhados. Sarah e Kanato estavam em pé, apoiados na parede.
Brunna e Ruki dividiam uma segunda poltrona.
—Essa situação toda já perdeu a mão e precisa acabar.- Continuei falando, me sentia em círculos.- Gente, eu tô falando sério! Eu não aguento mais, tá acabando comigo e alguém nesse lugar tá brincando comigo e eu quero saber quem é!
—Quem for, só fala logo.- Eliza pigarreou, limpando a garganta.
—E se não for ninguém que tá aqui?- Lua questionou.- Talvez seja blefe, tinha muita gente que tava no nosso casamento mas não…
Chutei a mesa, que fez um barulho estrondoso.
Todo mundo deu um pequeno pulo de susto.
—Que porra! Querem questionário agora, pra falar?- Briguei.
—Vic, relaxa. Eu sei que isso te irrita, mas…- Marie olhou pra mim, sem sair da sua cadeira.
—Ninguém vai admitir agora, por medo de ser assassinado.- Daayene revirou os olhos.
—Eu confiei nessa pessoa e ela me traiu. Eu quero saber quem é. — Retruquei.
—Victoria, sabemos que está irritada…- Shu começou, mas o interrompi:
—Não, não sabe. Quem é?
Silêncio.
—Não sou eu.- Subaru falou.
Mais silêncio.
—Ok, se ninguém vai falar nada, eu vou ter que investigar.- Briguei, furiosa- Querem me mostrar os celulares de vocês?
—É sério isso?- Cousie cerrou o cenho.
—O impostor deve ter falado com alguém, né? Me mostrem as mensagens que mandaram! É só buscar meu nome!- Chutei a merda da mesa de novo- Sério!
—Quem quer que seja, fala logo.- Kino pediu.
—Quem é?- Ruki insistiu.
—Sou eu!- Yui basicamente saltou.
Todo mundo encarou ela ao mesmo tempo.
—Eu sou a impostora!- O rosto de Yui estava caído. Culpa.
A encarei, sem reação.
Jackson abaixou a cabeça. Mao e Akira pareciam nervosos. Sol a encarava.
—O que?- Finalmente achei força pra falar- O que você…? Mas... você jurou que era fiel a gente. A muito tempo. Você namora meu irmão. Te conheço a mais tempo até que as…
—Eu sinto muito.- Yui parecia quase chorar.- Não queria que isso acontecesse.
—Vai com calma, Victoria, ok?- Jackson se levantou, ficando na frente da namorada.- Não era sério de primeira. As coisas só tomaram outro rumo.
Ri de nervoso:
—Está defendendo ela? É uma brincadeira?
—Ela é minha namorada.- Jackson retrucou.
—E eu sua irmã!- Briguei- A gente não tinha toda uma moral sobre família vir antes de todo relacionamento?
—Bem, Yui também é minha família.- Jackson olhou pra ela.- Então não xingue ela daquele jeito que você ama xingar quem te desafia. Por favor.
Olhei ao redor. Ninguém se atrevia a falar nada.
—O que tem de errado com vocês?!- Questionei, furiosa.
Peguei minhas coisas, indo embora da sala.
—Vic.- Nikki me chamou, sem sucesso.
—Yui, isso foi horrível.- Ouvi Priya dizendo.
—Realmente.- Yuma concordou.
Corri pro meu quarto, batendo a porta. Me joguei aos pés da cama e chorei tanto que senti a lágrima ardendo na minha bochecha.
—Princesa?- Era a voz de um criada.- Precisa de algo?
Quase vomitei de raiva.
—Me dá umas garrafas do melhor vinho que tiver aqui.- Nem me importei em fingir dignidade- Ou do pior. Não importa.
Ela concordou rapidamente e correu, parecendo sentir a minha raiva. Meu ódio.
Passei o resto do dia com uma garrafa de vinho. Uma garrafa que virou duas, depois três e depois três e meia.
Eu precisava de uma coisa mais forte. Mas infelizmente vinho era a coisa mais alcoólica que tinhamos, já que Cousie fazia questão de ter um estoque da bebida.
Não vi ninguém. Só encarei a minha janela, bebendo e esperando que eu parasse de chorar.
Infelizmente, eu não conseguia. Chorava de raiva, principalmente. Com um pouco de tristeza e decepção no meio.
—Eu queria ver como estava.- Yuma cruzou os braços, fechando a porta com o pé.- Foi bem… ruim, lá embaixo.
Limpei os olhos, como se não estivesse chorando.
—Estou melhor agora, que você está comigo.- Deslizei minha perna pelo lençol.
Yuma não pareceu nem um pouco afetado.
—Mas acho bom que você não estava lá. O pau torou depois que você saiu.- Yuma olhou pras garrafas na minha .- Victoria, você bebeu tudo isso?
—Estou beeem.- Sorri pra ele.- Mas é legal ver que alguém ainda se preocupa comigo.
—Estamos todos preocupados com você.- Yuma estava parado na minha frente- Mas toda aquela gritaria não ajudaria em nada, realmente.
Brinquei com a barra da blusa dele.
—Por favor, você acha mesmo que eles me querem lá?- Ri, meio seca.- Acho que tem pena de mim. Ou talvez me achem forte e perigosa pra ficar em outro lado que não o nosso. Mas não é por carinho.
Me levantei, tendo que levantar meu rosto pra ficar cara a cara com Yuma.
—Diferente de você. Você sente algum carinho por mim.
—É claro. Eu sinto carinho por tod…
O beijei, tentando impedir qualquer ínicio de racíocinio.
Yuma correspondeu o beijo por breves segundos, antes de se afastar:
—Não. Você tá bebâda.
—Tudo bem. Eu quero.- Tentei o voltar pra mim.
—Não. Você não tá entendendo.- Yuma retrucou- Victoria, a pouco tempo atrás você brigou comigo por causa da...
—Não fala o nome dela.- Murmurei.- Eu te quero, Yuma. Agora.
—Não vou transar com você bêbada.- Yuma quase me jogou na cama- Além disso, você claramente tá abalada emocionalmente.
—Eu não vejo como isso é um problema.- Ri- Você poderia me animar.
—Victoria. Eu disse não.- Yuma parecia começar a se estressar.- Não insista mais, por favor.
—Eu não te entendo.- Revirei os olhos- Achei que a gente tinha alguma coisa. Mesmo se você gosta da Priya, não vejo qual o problema de ficar comigo…
—Ok, Victoria. Vamos falar a verdade.- Yuma se exaltou- Isso nunca teve alguma coisa a ver com a Priya. Nem comigo. Foi sempre sobre você e o Reijii.
Fiquei em silêncio com a menção do nome dele.
—E eu aguentei por muito tempo. Porque eu realmente te acho linda e legal.- Yuma desabafou- Mas existe um limite sobre quanto um homem pode aguentar. Quando você deita comigo, não pensa em mim. Você pensa no Reijii. Um Reijii que não traiu sua confiança. Um Reijii de quem você nunca se separou.
—Isso é mentira!- Retruquei, me sentindo tremer.
—Você vem com toda uma bagagem que eu respeito. Sei que está com raiva. E chateada. Mas aí você fala e faz coisas horríveis. Fica insegura e coloca a culpa em todas as pessoas.
Me levantei e comecei a arrumar qualquer coisa no meu quarto.
—Você pode fingir o quanto quiser, Victoria, mas nós dois sabemos que nosso lance nunca foi real.- Yuma brigou- A gente não se ama. Você não gosta de mim. Nem deve me achar tão atraente assim. Somos só duas pessoas solitárias tentando nos odiar um poyco menos.
—Você não sabe NADA sobre a minha vida!- Eu briguei, quase chorando- Não finja que passou por alguma dificuldade quando toda a sua vida foi bancada por um rei de merda!
—Aí que tá, Victoria.- Yuma retrucou- Todo mundo naquela sala te adora. Mas fica insuportável conviver com alguém que só briga. Só xinga. Só acusa. Inclusive acusando a pessoa que foi basicamente a única que deu a cara a tapa por você lá embaixo.
Olhei confusa pra ele.
—Priya.- Yuma respondeu- Ela ainda acredita em você. Mas não, você cisma em dizer que eu…
—Diz na minha cara que você não sente nada por ela.
—Eu sentir ou não não é a questão! Mesmo se eu sentisse, você não é minha namorada! Você só está projetando todas suas inseguranças e medo de ficar sozinha numa menina por quem você já se sentiu atraída!
Meus olhos se encheram de lágrimas.
—Eu só não entendo por que do nada todo mundo virou contra mim!- Briguei.
—Do nada?- Yuma questionou- Victoria, preciso te lembrar que você chamou a Daayene de vadia a poucos dias atrás? E injustamente, como podemos acabar de ver.
—E lá vão vocês. Defendendo as Hudison. Deviam adotar elas de uma vez.- Resmunguei.
Yuma soltou os cabelos com raiva:
—Acho melhor a gente acabar isso. De vez.
Olhei pra ele.
—Antes que a gente acabe isso se odiando.- Yuma continuou.
—Nada te garante que eu não te odeie agora.- Grunhi.
—Realmente.- Yuma deu de ombros- Mas eu gosto de ser honesto. E acho que você precisava ouvir isso de alguém.
Yuma nem se despediu de mim.
—NÃO VEJA SE RASTEJANDO QUANDO ESTIVER COM AS SUAS "NECESSIDADES"- Eu berrei, cheia de raiva- DESGRAÇADO!
Bati na mesa, deixando uma das garrafas se espatifarem no chão.
Gritei de ódio contra o travesseiro.
Estava tremendo. Meu rosto chegava a queimar com as lágrimas
Peguei uma garrafa e joguei contra a parede. Um resto de vinho manchou a parede.
Soquei a cama e acertei a cabeceira. Gemi de dor.
Virei a mesa, deixando as garrafas de vinho restantes quebrarem no chão. Alguns cacos pararam nas minhas mãos, mas eu nem chorei quando vi o sangue começando a se espalhar.
Mas podia infeccionar.
Corri até a cozinha sozinha, pronta pra só passar uma água e enfaixar.
Encontrei Priya, comendo em cima do balcão.
—Ah.Oi.- Priya limpou a boca quando me viu.
—Oi.- Eu respondi, já com meio raiva por não ter limpado meu rosto inchado.
—Você… Ai meu Jesus, sua mão!- Priya se assustou.
—Vou ficar bem.- Olhei pras mãos e dei de ombro.
—Bem, ainda está toda suja e sangrando.- Priya se levantou e foi até o banco da cozinha.
—Grande diferença dos outros dias.- Zombei.
—Vem cá. Eu cuido de você.- Priya ofereceu.
Me sentei no banco. Nem tentei esconder o quanto eu estava acabada.
Priya foi até a gaveta e puxou um pano, o molhando na pia.
Então se sentou na minha frente e passou a limpar o sangue das minhas mãos.
Sua trança caía pelo seu ombro, moldando seu rosto.
Observei ela calmamente, passando o pano entre meus dedos e nas minhas unhas.
—Você tem a mão delicada.- Opinei- Já pensou em ser enfermeira?
Priya riu de leve:
—Acho que teatro é mais minha praia. Tenho a impressão que ás vezes sou brava demais pra ser enfermeira.
Percebi que ela estava hesitante e cautelosa, mal olhando pra mim.
Meio no impulso, cheguei perto dela e taquei um selinho nos seus lábios macios.
Priya soltou um guincho agudo, antes de me empurrar.
—QUE ISSO, VICTORIA?
Arregalei meus olhos, assustada com o grito.
—Hã… Eu senti só um clima, e…
—Clima?- Priya pareceu indignada- Eu tô literalmente só cuidando de você! Como amiga!
—Ah, seus sinais foram meio… bagunçados. Eu…
—Sinal? Que sinal?- Priya se levantou- Só porque a gente já ficou uma vez não significa que eu queira repetir a dose. Muito pelo contrário, eu te vejo apenas como amiga.
Fiquei calada, percebendo que ela estava furiosa de verdade.
—Victoria. Eu sou literalmente a única nessa casa inteira que ainda deve acreditar no seu potencial.- Priya jogou a toalha em mim- Mas me beijar? Isso cruza um limite que é demais pra mim.
—Priya, me desculpa. Eu só tô.
—Meio bêbada. É. Percebi.- Priya revirou os olhos- Então talvez você devesse ir dormir e quando você ficar sóbria, a gente conversa sobre uma terapia pra você.
—Terapia?
—É. Você claramente está cheia de dor. E não quer admitir isso.- Priya cruzou os braços- E aí fica fazendo merdade atrás de merda pra ver se consegue se sentir melhor. Ou se pode estragar sua vida. Eu não sei, de verdade.
Priya então foi saindo da cozinha.
—Só por favor, não confie mais que eu vá presente em todos os passos.
Assim que ela saiu, fiquei alguns segundoas apenas absorvendo tudo. Estremeci. Meu corpo parecia fraco.
De repente tudo parecia tão frio. Tão… preto no branco.
Essa é Victoria. Chorando por causa de rejeição. Acho que o casamento não me acostumou bem.
Fui casada. E amei cada segundo, não dava pra negar.
Fui andando sem rumo pelos corredores. Abri a porta do quarto que eu havia parado, sabendo muito bem que não era meu.
Olhei pra ele, quase caída do lado da cama.
—Eu me odeio ás vezes.- Murmurei- Por que eu não consigo parar de gostar de você? Por que mesmo depois de todo esse tempo eu ainda te amo?
Estava frustrada. Por que ele tinha que estragar tudo? E por que eu tive que estragar mais ainda em cima de tudo?
Era triste, sinceramente. Eu era a menina no topo do mundo. Caras babavam aos meus pés quando eu passava. E aqui estou eu, acabada. Bêbada. Chorando por 3 pessoas diferentes.
Quer dizer, mais por uma do que pelas outras.
Segurei a mão de Reijii.
—Eu vou te salvar.- Murmurei- Eu não ligo o que acontece. Eu não tenho nada a perder. Mas você…
Não consegui terminar a frase.
Reijii pode ter todos os defeitos do universo. Mas eu sei mais do que ninguém quais são as suas qualidades. E não são poucas.
E diferente de mim, ele participava ativamente na criação do Heisuke.
Meu filho. Nosso filho.
Talvez já fosse tarde demais pra mim, mas não era pra ele.
Me acomodei no tapete ao seu lado, ainda segurando sua mão.
Era meio mórbido. E ao mesmo tempo me dava um conforto que eu não sentia a meses.
Apaguei, já cansada de tanto chorar.
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