Like a Stone

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Notas iniciais

As opiniões do personagem, não refletem as opiniões da autora. Então não surtem,ok?

Ele entrou na casa, segurando a Bíblia em uma de suas mãos. O lugar ainda cheirava a lavanda, era como se a qualquer momento ela fosse aparecer, sorrindo e cantando como sempre fazia.

Então ele se lembrou do que tinha feito. Havia entregue a mulher que amava a Igreja, para morrer na fogueira e ser amaldiçoada eternamente. Por mais que lhe dissessem que havia feito o que era certo, ele não conseguia se perdoar.

Vê-la queimar na fogueira, foi o que faltava para duvidar de sua fé. Como aquela mulher, que sempre foi tão boa, poderia ser uma seguidora do Diabo? Perguntou-se, todos dias, até este momento.

Na casa, pouca coisa sobrou, fora saqueada antes que o corpo de sua dona pudesse esfriar. Ele sentou-se, abriu o livro que carregava e rezou pela alma dela. Enquanto lia, percebeu que tudo que estava escrito ali era sobre morte e punição, não havia uma palavra afável para consolar sua alma perdida.

Em um acesso de raiva, jogou o livro na parede, que caiu sobre um tapete, quando foi buscá-lo, percebeu uma irregularidade no chão. Puxou o tapete e viu um alçapão, sabia que não devia abri-lo, mas a curiosidade falava mais forte.

Tomou coragem, colocou a mão no puxador e fez força, a porta se abriu facilmente, como se o esperasse, e revelou uma escada de madeira que ele não hesitou em descer.

A cada degrau que descia, o cheiro de ervas se tornava mais forte, quase inebriante. Chegou ao chão e olhou a sua volta, ainda havia um pouco de luz fornecida pelas grossas velas que circundavam o local. À sua esquerda uma estante cheia de livros empoeirados, a direita uma grande bancada, com ervas que a esta altura já estavam se decompondo. E na parede a sua frente um altar, com jarros de vinho e uma estátua com formas femininas se destacava, perto dela um livro, com capa de couro, que ostentava uma escrita que para ele era indecifrável.

Ao ver isso, segurou a Bíblia com força, como se está ação pudesse lhe proteger do mal. Deu alguns passos vacilantes e pegou o livro do altar e levou até uma das velas, poderia queimá-lo naquele momento, junto a tudo que sobrou de sua amada, mas decidiu abri-lo e descobrir o que foi capaz de corromper o doce espírito daquela mulher.

Para sua surpresa, não encontrou nada. Nenhuma citação aos demônios, nenhum ritual de sacrifício que envolvesse beber o sangue de crianças, nada. Somente algumas receitas que levavam diversas plantas, para curar doenças, ou pequenos cânticos em que ela agradecia pela prosperidade de sua terra.

Foi até a estante e começou a ler cada um dos livros, não acreditava que havia sido enganado. Leu por todo dia, e, uma noite, dormiu em cima dos livros e acordou com a dor de um pingo de cera quente que caiu em seu braço. Abriu os olhos e sua visão se fixou no único livro que ainda não havia lido, ele tinha uma espécie de tranca. Irritado, pegou algo como um martelo e bateu contra a tranca diversas vezes, até que ela cedeu.

Após abrir a capa, achou um bilhete que dizia:

Minha querida, você sabe que não deveria abrir este livro, mas se abriu sei que deve ter um bom motivo. Mesmo assim, preciso lembrá-la, sua missão é proteger este conhecimento daqueles que possam utilizá-lo para o mal. Nunca entregue nas mãos dos homens que fazem o mal em nome de Deus, isso seria o mesmo que condenar a Terra ao inferno que eles tanto temem. Muitos irão te perseguir, tentarão dizer que você segue aquele a quem nós nem acreditamos existir, não dá forma que dizem. Mantenha a Deusa em seu coração e deixe que ela guie seus passos, não esqueça de ajudar a todos que puder e perdoe quem lhe fizer mal, o ódio não leva a nada.

E, por último, seja feliz.

Sentiu-se um idiota manipulado pelo medo. Havia sacrificado a única mulher que o amou, por um louco que dizia seguir a palavra de um Deus que só causava morte e distribuía a peste. Folheou as páginas até encontrar a palavra que procurava: vingança.

Juntou todas as coisas que o ritual pedia e se embriagou até a noite chegar. Quando a escuridão invadiu os céus, ele estava pronto para, cômodo a cômodo, incendiar aquele lugar. Ofertou seu sangue a aquele que aceitasse seu contrato, pediu em troca de sua alma que a desgraça caísse sobre a vida de todos aqueles que condenaram sua amada, levando deles o bem mais precioso. E, para sacramentar o compromisso, usou a Bíblia como tocha e queimou tudo enquanto recitava as palavras demoníacas.

A casa ardia em chamas quando ele, pela última vez, sentou-se naquela cadeira, que ainda tinha cheiro de lavanda, então, se deixou tomar pelas labaredas. Ao fim, seu corpo se tornou o mesmo que o seu coração, uma estátua de pedra, confirmando sua última súplica:

— I'll wait for you there. Like a stone.

Notas finais

As opiniões do personagem, não refletem as opiniões da autora. Então não surtem,ok?
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!