Like a Sky
1 Capítulo único
Notas iniciais
"É fevereiro outra vez, o período das festas já passou e boa parte da neve de dezembro e janeiro se foi, deixando apenas o friozinho típico do fim do inverno. Isso só me lembra que está chegando aquela época outra vez, aquela bem cor de rosa, com cheiro de chocolate e repleta de cartinhas, rubores e sorrisos.
De uns tempos para cá, a bendita vem me deixando bem mais inquieto do que o normal, o tão esperado Valentine's Day acabou se tornado um enorme problema para mim e o motivo disso tem nome, sobrenome e apelido – um que eu dei e só eu uso, por sinal – Kacchan.
O loiro de olhos vermelhos altivos e expressão quase sempre carrancuda que eu tenho como melhor amigo de infância, sempre foi uma das pessoas mais próximas a mim. Colegas, parentes, outros amigos, e até mesmo estranhos, nunca deixaram de ficar intrigados e me perguntar o porquê, afinal para eles nós éramos tão incrivelmente diferentes um do outro que não fazia sentido sermos tão próximos. No entanto, o fato é que não somos tão diferentes assim, quero dizer, não do meu ponto de vista, temos alguns gostos parecidos, ambos somos competitivos, instintivos e emotivos, apesar de preferimos tomar as escolhas de forma raciocinada e refletida, gostamos de estratégias, de jogos de ação e filmes de heróis – inclusive somos fans do mesmo herói desde muito pequenos e colecionamos hqs, figures, álbuns e tudo o quanto podemos do mesmo –, ambos somos esforçados ao máximo, fosse nos estudos ou em qualquer outro caso que nos engajamos, protetores e zelosos com as nossas amizades, não muito flexíveis quanto ao que achamos certo ou o que queremos, e somos teimosos também, tenho que admitir.
Não estou dizendo que sempre nos demos super bem, nós já brigamos muito, tivemos várias desavenças e recentemente até mesmo chegamos a nos odiar, ou pensar que sentíamos isso, mas sempre acabávamos voltando à estaca zero, onde eu e ele éramos de alguma forma forçados a estar juntos e nos encarar.
Isso sempre me fez sentir como se estivéssemos ligados e, não, definitivamente não é como se fossemos irmãos, mas nós temos esse elo distinto, essa coisa estranha e inquebrável que não conseguimos ver ou explicar, porém nos mantém unidos, nos impedindo de nos afastar definitivamente um do outro.
Não é algo recente ou banal, acho que desde que eu consigo me lembrar eu e o Kacchan somos amigos, nossas mães eram amigas e, de certa forma, desde a barriga fizeram questão de que fôssemos também. Na infância, praticamente morávamos na casa um do outro, a Tia Mitsuki – como faz questão que eu a chame até hoje – sempre convidava a mim e a minha mãe para jantarmos ou passar uma tarde lá, minha mãe fazia o mesmo e não foram poucas as vezes em que nós viajamos juntos. Quase 90% das minhas fotos nessa época tem o Kacchan junto e ainda que sem parentesco sanguíneo, os Bakugou eram praticamente parte da família para mim.
Então você pensaria "Oh, claro que você se sente ligado a ele se o relacionamento da família de vocês é próximo assim!", mas é diferente, com o Kacchan é diferente, não é como um vínculo familiar ou só amizade, é mais, sempre foi mais. Acho que só quando parei para analisar a situação de um ângulo diferente, é que eu percebi isso.
Sabe aquela pessoa que está a tanto tempo na sua vida, que você já não consegue se imaginar sem ela? Não é necessariamente como se todos os seus pensamentos fossem sobre ela ou levassem a ela, mas como se ela fizesse parte de todos eles, mesmo implicitamente, e tudo o que era normal, natural, a física que mantinha as leis do universo agindo do jeito certo, já não seria o mesmo sem ela lá. Assim era o Kacchan para mim, como um céu sobre a minha cabeça, ele sempre esteve lá, algumas vezes escuro, muitas outras, nublado e turbulento, mas sempre lá, presente, uma parte integrante de qualquer horizonte que eu pudesse olhar.
Eu o conhecia como conhecia a mim mesmo, inconscientemente tinha decorado cada gesto, catalogado na minha mente até mesmo o que um mero movimento das sobrancelhas ou um estalar de língua num determinado tom poderia significar, quase podia antecipar suas reações, tinha ficado bom nisso, se ele era o céu, eu automaticamente conseguia fazer a previsão do tempo. Sabia bem qual olhar penetrante e posição dos ombros significava uma tempestade, enxergava qual tensão no maxilar e qual respiração indicavam que logo choveria, decifrava o arrastar dos pés que indicava tempo nublado, lia o erguer do queixo e a concentração que sugeriam calor intenso, entendia o sorriso e o jeito de andar que eram sinal de um clima ameno.
Do mesmo jeito que Kacchan me mostrava seus raios quando estava furioso por ter discutido com a mãe em casa ou perdido para alguém em algum tipo de disputa interna que ele próprio havia estabelecido, ou a chuva dolorosa de quando chorava nos momentos em que se sentia falho e fraco, o loiro também me mostrava os arco-íris mais vívidos quando dava a volta por cima e vencia, os céus mais estrelados, mais lindos, nos seus sorrisos sinceros que, raramente apareciam e, até uns pores-do-sol bem fofos quando ficava constrangido ou envergonhado. E, bem, convenhamos, azul, cinzento, alaranjado ou completamente escuro, assim como o céu, Kacchan era bonito, não havia como negar isso.
E então, como um estalo, me veio em pensamento: "Desse jeito parece até que eu estou apaixonado pelo Kacchan..."
Oh, sim, é, eu estava apaixonado por ele. Que grande clichê, não?
Essa fatídica epifania me atingiu como um soco no estômago há alguns anos atrás, eu quase pirei na época, passei muito tempo enrolando até finalmente aceitar a inegável realidade, desde então tenho lutado para não revelar esse segredo.
Por que eu escondia? Bem, isso nos leva de volta à razão de o Valentine's Day ter se tornado um problema.
Veja, o caso é: Kacchan detestava a fatídica data e tudo o que a mesma envolvia. Chocolates? Ele tinha nojo. Cartinhas? Todas iam parar no lixo sem ele nem mesmo olhar para elas. Confissões? Todas rejeitadas sem pestanejar. Até o humor dele ficava pior nesses dias, parecia que havia uma nuvem negra pairando sobre a cabeça dele.
Enfim, a situação inteira estava devorando a minha sanidade e eu decidi que minimamente precisava saber se eu tinha alguma chance ou não. Para isso, eu precisava conseguir alguma reação dele que me desse aquela luz que eu precisava para seguir em frente. E eu tentei, ah, como tentei!
Comecei dando algumas dicas, dizendo que gostava de alguém, que eu me sentia bem com essa pessoa, que tínhamos gostos parecidos, que éramos amigos e que eu planejava me declarar. Mas diferente do que eu esperava, enquanto os outros da turma ficavam querendo saber quem era, Kacchan simplesmente calava de um modo estranho, ficava quieto, desviava os olhos para algum canto aleatório e ficava assim, parado, olhando fixamente para o nada como se ali estivesse a resposta de todas as questões do universo e logo depois se distanciava, fingindo não ter ouvido ou simplesmente não dando importância. Aquilo para mim era um nevoeiro, eu não conseguia ver nada ali, entender nada, prever nada, era pior do que ser deixado no escuro, pois não haveria lanterna ou farol que resolvesse o meu problema, eu sequer sabia para que lado dar o próximo passo, ou se eu deveria arriscar dar um próximo passo. Ainda haveria um chão sob os meus pés se eu o fizesse? Eu não sabia.
Isso acontecia todas as vezes, o que me levara a pensar que talvez o loiro sequer sentisse atração por pessoa alguma ou simplesmente repudiasse a ideia de estar num relacionamento e isso, para alguém, que estava na minha posição de pessoa totalmente apaixonada pelo Kacchan era ruim, era péssimo. Porque com uma declaração eu podia não só levar um pé na bunda ou desagradar a pessoa que eu gostava, eu podia quebrar, destroçar, estilhaçar, simplesmente foder todo o maldito elo que nós tínhamos e estragar de vez essa "amizade" que agora, depois de muito tempo e esforço, parecia estar funcionando direito. E afinal, como é que você se declara para uma pessoa dessas? O que fazer? O que dizer? O que merdas eu podia dar de Valentine's Day para alguém como Kacchan? E que não me venha mais um com as ideias sem nexo da Uraraka "Dê seu corpo nu", porque a coisa não é tão simples assim. E se eu fosse rejeitado e largado numa situação dessas? A humilhação ia ser mil vezes pior!
Eu devia ter desistido, uma pessoa normal e sã certamente teria desistido, mas quem disse que eu consegui, a maldita flecha do cupido tinha vindo para mim contaminada com uma dose extra do vírus do amor e aquilo estava me matando aos poucos agora.
Dia após dia, noite após noite eu continuava remoendo as mesmas dúvidas, as mesmas ideias, os mesmos pensamentos, todos sobre o mesmo sentimento que fazia meu coração bater desregulado e um verdadeiro panapaná tomar conta do meu estômago. E a cada dia que se aproximava da bendita data, os sintomas pareciam piorar, de noite, eu não conseguia dormir, durante os dias ficava tendo pensamentos constrangedores nos momentos mais inoportunos, eu estava ficando louco, não conseguia nem olhá-lo nos olhos sem sentir meu rosto esquentar, era ridículo.
Então, desta vez, logo que o natal e as festas da passagem de ano findaram eu me decidi, precisava acabar com isso e meu ponto final vai ser no Valentine's Day. É isso ou eu não me chamo Izuku!"
Colocando a caneta dentro do copinho do All Might junto com as outras, fechei meu diário e o guardei como sempre em seu esconderijo, longe de onde qualquer pessoa poderia ter acesso ao mesmo. Já é tarde e ainda haveria aula amanhã, então apaguei a luminária da escrivaninha e sob o olhar do herói em meus pôsteres, me enfiei debaixo das cobertas quentinhas.
"Será que a minha mãe ia gostar de ter um filho chamado Cláudio?" Pensei antes de fechar os olhos tentando dormir, não que eu de fato fosse ser capaz.
Amanhã seria o grande dia.
Após meses de preparo psicológico e ensaios constrangedores de cantadas e declarações em frente ao espelho, que podem ou não ter feito com que a minha mãe achasse que eu estava maluco, quando a aurora chegasse, eu não poderia mais escapar.
Eu tinha conseguido com muito custo juntar uma graninha e comprar antecipadamente dois ingressos para a estreia do novo filme de ação do All Might, nosso herói favorito, e ainda, deixar uma boa parte para nós comprarmos algo no cinema, adquirir algum brinde e irmos num lugar legal, comer algo depois. Isso tinha me custado a venda de um figure que eu gostava muito e pior que na hora, só de pensar que era pelo Kacchan, eu nem liguei – o que só pode significar que eu estou muito, mas muito apaixonado pelo cara.
Seguindo o plano, eu iria me declarar e depois convidar o Kacchan para irmos assistir ao filme juntos no fim de semana, como um encontro, e já que cartas e chocolates não iam servir de nada, ia ter que ser tudo dito na lata. Como eu faria isso? Mesmo após ensaiar vários discursos, eu não faço a mínima ideia.
Minha mente não parava de cogitar possibilidades e calcular probabilidades, impedindo-me de dormir, então eu posso dizer que vi os minutos se passarem naquela noite até que os raios do sol se fizessem presentes na minha janela. Farto de ficar deitado encarando o teto e as paredes, levantei-me e me coloquei em frente ao espelho encarando minha própria imagem, destruída. Enfim era a tão esperada data, o bendito dia, o ponto que marcaria o início ou o fim das coisas entre mim e Kacchan.
"Credo, eu vou surtar!"
Nas horas em excesso que eu tive para me arrumar, busquei dar um jeito na minha cara acabada pela falta de sono – eu não queria me declarar para o crush parecendo um zumbi ou um psicopata maluco – e logo que eu saí de casa, vi Kacchan me esperando no portão, eu senti meu coração disparar e os meus joelhos tremerem, mas eu precisava enfrentar isso e o dia era hoje.
Então eu ergui a postura, respirei fundo enchendo os meus pulmões de ar, olhei para a frente e me preparei, eu ia falar, ia me declarar, ia dizer tudo para ele... Mas não agora.
— B-Bom dia, K-Kacchan! — Me encolhi sentindo as bochechas esquentarem e gaguejei ao saudá-lo.
O loiro respondeu minha saudação com um resmungo – como eu disse, humor de Valentine's Day –, nada fora do esperado.
"Mais tarde quem sabe seja melhor para eu dizer tudo. Vou esperar ao menos a gente sair da frente da minha casa..." Pensei o olhando de soslaio.
"No caminho podia ser que desse..."
"Quando a gente chegar na escola aí eu podia chamar ele num cantinho..."
"No intervalo! No intervalo é ótimo, com certeza ia dar mais certo..."
"B-Bem, vai haver um momento certo, não é? Eu vou saber quando aparecer aquela oportunidade perfeita e aí..."
Aff! Como era difícil!
Eu estava nervoso, incrivelmente nervoso, tão nervoso que nem consegui falar com o Kacchan direito durante o caminho de casa até a escola, nem quando chegamos na escola, nem durante o intervalo, nem consegui me concentrar na aula – perdão, sensei –, porque eu só conseguia ficar imaginando o que eu diria e como as coisas poderiam se desenrolar, ficava criando e recriando cenários, diálogos, situações, hipóteses. Pior que toda hora o loiro me pegava o encarando e eu desviava os olhos para os meus dedos, que logo eu começava a mexer freneticamente como uma criancinha tímida, tendo a certeza de que o meu rosto devia estar parecendo um tomate. Eu quase praguejei alto contra um lápis quando ele encostou aquilo no lábio inferior. Céus, eu precisava mesmo dormir!
Então antes que eu me desse conta, o dia foi passando, as aulas terminando e os benditos "momentos certos" foram se esvaindo, as "oportunidades perfeitas" foram desaparecendo. Agora cá estamos nós, eu e o Kacchan em frente aos nossos armários após o término de mais um dia de aulas, com ele soltando xingamentos ao vento e resmungando irritado enquanto termina de jogar fora, um a um, todos os papéis perfumados e doces que haviam deixado ali.
Eu sinto um pouco de pena ao ver todas essas coisas serem despejadas no lixo sem a mínima consideração, é um tanto cruel se você for pensar que são os sentimentos de alguém ali. Também me deixava mais apreensivo, se os meus sentimentos estivessem ali eles também seriam despejados na lata de lixo debaixo de xingamentos, como um chiclete velho que grudou no seu sapato e estava incomodando, como algo inútil. Eu entendo que ele não gosta dessas coisas, ainda assim é um pouco triste.
Eu também recebi alguns, bem poucos na verdade e a maioria eram só de amizade, vou fazer questão de retribuir todo o carinho depois, mas mesmo aquele que não era, aquele único e anônimo que aparecia aqui sempre, eu não teria coragem de jogar fora desse jeito. Eu gostaria de poder dizer a essa pessoa que agradeço os seus sentimentos, que eles foram importantes para mim, e pedir desculpas por não poder aceitá-los, pois já gosto de alguém. Que eu a invejava, queria ter ao menos a mesma coragem que ela, de deixar ainda que anonimamente, alguma prova do que eu sinto pela pessoa que eu estou apaixonado.
"Kacchan, será que um dia eu vou conseguir dizer que eu gosto de você?" penso o encarando.
"Eu perdi noites pensando em algo que você fosse gostar, gastei o meu dinheiro, pedi conselhos, ensaiei minhas falas milhares e milhares de vezes, elaborei todo um plano para saber como agir perto de você no dia de hoje, e tudo isso ruiu no momento em que meus olhos encontraram os seus. Naquela hora, não haviam mais falas ensaiadas, conselhos, nem planos que pudessem me ajudar, eram como folhas soltas que um vento forte carregou para longe de mim. É tarde demais para correr atrás delas agora."
Já estava começando a ficar desanimado, era mais um fracasso, mais um ano que deixei tudo passar.
"Talvez eu ainda possa te chamar para vermos o filme amanhã, como amigos mesmo, ainda ia ser divertido, certo?" Pensei tentando me animar, mas a melancolia não passava por completo e eu apenas podia te encarar assim, tão perto e ainda assim tão distante.
"Oh, Kacchan, se você soubesse!"
— Qual é nerd, você não vai parar de ficar mexendo os dedos assim, não? Tá fazendo isso o dia todo e essa merda já tá me irritando! O que é que te deu?
Nem percebi que eu estava fazendo isso. Ah, que vergonha!
— A-ah, m-me desculpa, Kacchan. Eu não quis te incomodar.
— Tsc! Você vai falar o que tá acontecendo ou não? — Me encara inquisitivo.
"Oh, Kacchan, por favor, não me olhe assim. Eu tenho o coração fraco sabia? Desse jeito não posso mentir. Mas o que quer que eu diga afinal? Se eu despejar toda a verdade aqui, o que você vai fazer com ela?"
— B-bem, eu... só estou meio nervoso. Sabe, eu comprei ingressos para o novo filme de ação do All Might e... E eu tinha decidido chamar a pessoa que eu gosto para ir assistir comigo nesse fim de semana. Esperava que ela gostasse, mas acabei deixando a oportunidade passar e já nem sei se eu devo fazer.
"Perfeito, agora chamá-lo como amigo já não é mais uma opção. Parabéns Izuku!" Ironizava minha mente. Sinceramente, tem horas que eu queria meter a mão na minha própria cara.
— Ah... — Soou um tanto cabisbaixo, desviando os olhos para o próprio armário — Você devia chamar.
— Sério?!
Quais as probabilidades de o seu crush secreto te incentivar a convidar ele próprio para sair?
— É... Eu acho que a pessoa vai gostar. — disse monótono e ficou quieto.
— Ah... Certo, então eu vou fazer isso.
— Boa sorte — Desejou, logo pegando os sapatos e se virando.
E aí está aquela atitude esquisita de novo, a mesma que sempre acontece quando entro nesse assunto ou qualquer outro relacionado a ele. Um nevoeiro, me impedindo de ver, de saber o que o caminho a seguir reserva para mim.
— Obrigado. — Agradeci, agora estava mais decidido que nunca, se eu não conseguia prever o caminho então apenas fecharia os olhos e seguiria em frente.
E quando Kacchan se virou, andando em direção à porta, foi exatamente o que fiz. Fechando os olhos, eu respirei fundo e tomei coragem. Podia sentir as minhas bochechas corarem e meu coração disparar, mas eu não ia desistir ou recuar mais e, assim sendo, ergui a voz e deixei a pergunta escapar.
— E-ei, Kacchan, posso te perguntar uma coisa?
— Fuu... — Suspirou soltando o ar audivelmente ainda de costas para mim — Fala, nerd.
— Você quer ir na estreia do novo filme de ação do All Might comigo nesse fim de semana?
O loiro se virou me encarando de uma forma que eu nunca tinha visto, havia um misto de coisas ali, coisas demais para que eu pudesse identificar todas, ou talvez seja só o meu nervosismo que não está me deixando fazê-lo.
— É sério isso? — Inquiriu parecendo incrédulo.
— B-bem, sim. Sabe, eu consegui economizar uma grana para dois assentos bons e eu pensei que você ia gostar, porque, bem, nós dois gostamos dos filmes do All Might e como é a estreia, eles vão ter aqueles brindes exclusivos para fãs, dá pra comprar alguma coisa se quiser, e, talvez depois, a gente pudesse sair e ir comer algo, pode ser naquele restaurante de okonomiyaki a duas quadras da estação ou sei lá, acho que ainda tem aquelas barraquinhas de takoyaki perto do parque, com aquela maionese super apimentada que você gosta, a gente podia comer e dar uma volta, ou comer andando, c-claro, se você quisesse e...
— Cala a boca, Deku! Eu achei que você ia chamar a cara de panela ou o meio a meio maldito ou... Sei lá.
— A Uraraka-san ou o Todoroki-kun? Por quê?
— Oras, porque você disse que... Você disse... Tsc! Fala sério, nerd. — Um leve rubor estava assentado no topo de suas bochechas e eu já não tinha total certeza de que era apenas por conta da brisa fria.
— Kacchan, todo esse tempo, quando eu falava da pessoa que eu gostava, você pensava que eu estava falando de um deles?
— Tsc! Cala a boca! Que inferno! — E lá vinha um pôr-do-sol mostrar as cores na sua bochecha, ainda tentou escondê-las dos meus olhos, mas era tarde, eu já tinha visto e era tudo o que eu precisava ver.
"Ah, Kacchan, Kacchan! Você tem ideia do que faz comigo quando age assim?!"
Instintivamente meus pés se moveram e minhas mãos tomaram as suas. Nossos olhos se encontram, sem escapatória. Eu não queria fugir mais.
— Kacchan, eu gosto de você. — Dito alto, claro, sem medo, sem deixar dúvida.
— Tsc! — Estalou a língua e se virou me puxando pelo braço para fora do prédio da escola.
Aquilo não era uma resposta, estava bem longe de ser uma. Por sinal do que eu classificaria aquilo, vendaval?
— K-kacchan...?
— Nerd... E eu pensei... Esse maldito... Me fazendo... Inferno... Todo dia... A pessoa que eu gosto... Fodido... — Resmungava enquanto me puxava com pressa, tudo o que eu conseguia captar eram pedaços desconexos, quase sempre com xingamentos.
— A-ai! — Reclamei quando minhas costas bateram contra a parede externa da lateral do edifício escolar — Kacchan! Por que fez iss... Hm!
Os lábios foram pressionados contra os meus de forma abrupta, e meu coração parecia que ia explodir a minha caixa torácica de tão forte e descontrolado que batia.
"O que eu deveria fazer? É assim mesmo que isso tinha que ser? Será que estou fazendo certo? O que faço com as minhas mãos?!"
Sem saber o que fazer eu paro e olho para você só para perceber que você está tão nervoso quanto eu.
Seus olhos firmemente fechados, suas mãos, segurando meus ombros – eu quase posso senti-las tremer – e, céus, Kacchan, você nem mesmo está respirando. Aquela apreensão que eu sentia passou e naquele momento, ainda que não fosse o certo, eu até senti vontade de rir, éramos dois idiotas, mas aquilo era uma resposta.
Aquele contato inicial, meio seco, mas ainda assim quente, ele significava que você sentia o mesmo, o que o tornava de alguma forma, lindo, especial – era nosso primeiro beijo – com uma mescla de engraçado e fofo ao mesmo tempo, como os primeiros raios de sol iluminando a terra no raiar do dia. Eu não poderia estar mais feliz.
Minhas mãos se guiaram até o seu rosto num carinho e fui eu quem tomei a iniciativa de mover os meus lábios.
Você para e me olha, tentando me decifrar, nossos olhos se fixam, mas é por pouco tempo, pois logo os lábios parecerem mais interessantes novamente.
Úmido, suave, fluido, como o orvalho da manhã banhando a terra, dando nova vida e cor à toda a vegetação, diferente do primeiro, esse parecia mais certo. Livres do medo, nos permitíamos sentir um ao outro, você me abraçou e eu contornei seu pescoço por sobre os ombros, levando uma das minhas mãos ao seu cabelo. A sua língua fez o próprio caminho até encontrar a minha, ainda tímidas se conhecerem e depois de se conhecerem dançaram juntas e depois de juntas era como se não quisessem mais se afastar uma da outra, era bom. De repente eu me sentia numa espécie de torpor, mas não algo ruim, era como se eu estivesse mais leve, como se eu pudesse flutuar, eu estava bem perto do céu agora, voando.
Paramos quando o ar fez falta, mas continuamos ali, abraçados, recuperando o fôlego, senti você cheirar os meus cabelos e eu, com a cabeça apoiada entre seu ombro e seu peito, sorri, eu tinha o céu inteiro nos meus braços agora e quando enfim saímos dali para ir para nossas casas, eu ainda me sentia levitando.
— Você preparou um primeiro encontro inteiro só para se declarar? — Perguntou entrelaçando nossas mãos enquanto andávamos por uma calçada vazia.
— B-bem, sim. Você odeia chocolates e cartinhas então eu pensei em algo que você fosse gostar.
— Tsc! Nerd... O próximo é por minha conta.
— N-Não precisa Kacchan, eu já tinha separado o dinheiro para isso há um bom tempo e...
— Cala a boca, nerd, eu insisto. Não vou perder para você, tá legal. Esse chocolatinho besta que eu te dou todo fodido ano nem se compara com a porra de um encontro.
Meus pés travaram no chão e eu o encarei incrédulo, seu rosto vermelho não deixava dúvidas de que só agora tinha percebido a bomba que soltou. Acho que vou ter que me acostumar à taquicardia, porque se continuar desse jeito ela nunca vai passar.
— Era você?! O chocolate anônimo que eu recebo todo Valentine's Day é seu?
— Tsc! E-e de quem você pensou que fosse, seu idiota? Vai dizer que agora tá pagando de gostosão na escola e tem algum pretendente por aí que eu não saiba?
— Não, Kacchan. Espera, você... está com ciúmes?
— Não, claro que não, porra! Pare de se achar, nerd!
— Pff! — Sim, ele estava com ciúmes.
Eu ainda posso sentir o meu rosto quente e não consigo parar de sorrir, eu olho para ele e suas bochechas também mostram algum rubor, o loiro tem uma espécie de biquinho enfezado, mas eu vejo o sorriso em seus olhos, é o bastante para mim.
— Kacchan — Eu o chamo calmamente.
— Hum? — Resmungou amuado.
— Eu te amo.
— Não mais do que eu, seu idiota. — Responde e sinto sua mão apertar a minha.
Nossas mãos unidas vão balançando juntas à medida que andamos em direção às nossas casas e, apesar dos tons rosados que toda a situação parecia ter, a sensação que aquilo me passava era azul, uma imensidão clara, brilhante, vívida e totalmente azul, exatamente como esse céu acima das nossas cabeças.
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