Notas iniciais
Lisztomania é uma música da banda francesa Phoenix, também foi a histeria que aconteceu com os fãs do compositor Liszt

Se há pouca oferta de um bem e muita procura deste mesmo bem, há uma valorização material do item. Basicamente, o bom e velho querer o que não se pode ter. Mercados de luxo funcionam na simples sensação de exclusividade – não necessariamente real. A questão é que às vezes não é a compensação financeira que nos atrai.

Não vou mentir, o dinheiro que me ofereceram era muito bom, mas não foi por ele que eu assinei aquele contrato.

Foi saber que meu coração subia na boca quando eu olhava para Fabinho. Foi a certeza de que eu me sentia muito mais conectada com ele – e não era só sexo, apesar de sermos compatíveis nisso – do que jamais me senti conectada com alguém na vida. Foi perceber que ele conseguiria quebrar meu coração em milhões de pedaços e eu acharia isso lindo.

Eu não vou ser uma vítima dos meus próprios sentimentos. Eu não posso ser, não fui feita para isso.

Apesar disso eu não poderia deixá-lo pensar que eu sou uma pessoa tão ruim assim.


- Se você acha que eu fiz isso pode ir embora e nunca mais olha na minha cara. – disse me erguendo e me vestindo segurando o choro.

- Eu não acho, só achei muito suspeito você ter dito isso. – ele tentou se defender.

Infelizmente para mim, eu sou muito boa em me autosabotar.

- Ninguém fala o que não pensa. Sabe que esse tempo em Paris vai ser uma boa para mim? Ficar longe desse drama de merda de um moleque mimado que não faz nada da vida. Vou focar em trabalhar porque eu, ao contrário de uns e outros, não nasci herdeira podre de rica.

- Giane, para com isso. – ele me implorou. – Achei estranho você dizer isso, só isso. Eu não sei qual a vantagem que você ganha em botar a irmã da Amora na conversa, dúvido que isso afete aquela lá. – ele tentava em vão me trazer de volta para a conversa.

Eu via a minha liberdade desse sentimento. Se eu quebrasse o encanto ali, poderia me salvar, não? Não? O desespero era enorme e eu achava que deixá-lo escapar de mim seria menos doloroso. Infelizmente já doía – e muito.

Planejava as respostas mais venenosas e destruidoras, quando senti as mãos dele no meu rosto. Os olhos vermelhos como se também controlasse o choro. Já estávamos consumidos por sentimentos, que eu não queria aceitar.

- Olha para mim, porra. – ele rosnou e me fez parar a litania de mentiras que eu pensava em contar. – Eu sei que você é uma mulher muito melhor do que acredita ser e eu sei que você não é uma criminosa.

Mentira.

- Vamos fazer o seguinte, vamos guardar a informação da irmã por enquanto. Mesmo porquê capaz que ela use isso para sair por cima. – Ele desceu as mãos para meus braços e segurava forte o suficiente para que eu não escapasse, mas com delicadeza como se não quisesse me machucar. – Enquanto isso, vamos para Paris.

- Eu não te convidei. – soltei num murmúrio.

- Você não é a dona de Paris. – ele me lembrou e eu senti minha raiva e minha dúvida se esvaziando como um balão. Ele era a primeira pessoa que eu conheci que podia me fazer acalmar, nem Bento conhecia apaziguar minha fúria. Este era o maior talento de Fabinho.

Eu só queria ser a mulher que ele merecia. Talvez em um outro universo, eu teria sido uma pessoa melhor, uma pessoa mais honesta com ela mesma e os próprios sentimentos.

- Eu ainda posso impedir que você fique perto de mim por lá. – desafiei e ele riu me soltando, como se soubesse que eu não fugiria dele. Ele sabia me ler como ninguém mais. Era assustador. Era tudo que eu sempre quis de alguém.

- Tenho quase certeza de que conheço alguém que conhece alguém. – ele deu de ombros. – Eu sou, realmente, um moleque mimado que não faz nada da vida. Mais je peux parler un petit peu de français, ma chérie. – seu sorriso me derreteu um pouco mais. – Eu vou com você, se você quiser, até o fim do mundo. — Eu o amo. Não como um amigo. Eu o amo como um homem e não há como eu mentir para mim mesma.

Engoli em seco e tentei matar as borboletas no estômago. Amar alguém só acaba mal e eu não queria deixar esse sentimento realmente escapar pelos meus lábios, mesmo que até meu cérebro começasse a aceitar a certeza de Fabinho na minha vida.

- Ai, Fabinho. – só fui capaz de dizer isso.

Ele beijou meu ombro.


X


Unidade Fraternal Mais Velha: Quer alguma coisa de Paris?

Malu encarava a mensagem de Fabinho incrédula. Achava que finalmente o irmão ficaria mais tempo por perto. Mordeu os lábios e repetiu para si mesma que ele era adulto, que ele sabia se cuidar.

- O que foi, Maluzita?

- O Fabinho vai para Paris.

- Garotão decidiu viajar de novo? Será que ele brigou com a Giane? – Madá sugeriu e o coração de Malu encolheu. Mesmo que não achasse Giane alguém merecedora do amor de Fabinho, sabia que ele estava apaixonado por ela. E isso não ia sumir da noite para o dia.

- Eu não sei, vó. Ele não anda se abrindo muito comigo. – ela admitiu sem graça.

- Também pudera, né, Maria Luisa! Você foi arrumar justo treta com a namoradinha dele. Sabendo como ele é!

- Justamente por isso que eu fiz, ué. Mas às vezes é até bom que ele tira a Giane da cabeça de vez.

Duchamp carregou o ar de Paris em uma ampola como uma forma de encapsular sua essência. O que restava para Malu era desejar que o ar de Paris pudesse trazer a mesma joie de vivre para Fabinho.


X


Ele esperava abrirem a porta, ele carregava flores nos braços – era necessário, afinal. Giane lhe providenciou um buquê de margaridas brancas – lindas e delicadas, como ela. Abriu o maior sorriso que conseguiu quando ela abriu a porta.

- Meu filho. – ela lhe disse com os olhos marejados, abrindo espaço para que ele entrasse. O jeito que ela falava meu filho lhe trazia uma sensação de chegar em casa que nunca pensou que fosse sentir perto de Irene. Plínio era um pai excelente, mas o tom caloroso e ao mesmo tempo reconfortante dela, era como receber colo.

- Tudo bem por aqui? – perguntou se sentando no sofá e assistindo as mulheres cuidarem das margaridas com um sorriso. Ele deveria confiar mais em sua florista favorita. – Vocês estão precisando de alguma coisa?

Margot lhe assegurou que estavam muito bem e que os vizinhos eram extremamente prestativos. Disso, Fabinho tinha certeza. Ele entendia o que fazia Giane querer continuar por ali, mesmo podendo partir. Ela tinha um lar na Casa Verde.

E ele tinha um lar com ela.

- Então, essa visita é para avisar que Giane e eu vamos ter que viajar por um tempo e… — era difícil encontrar palavras, ele nunca precisou se explicar para seu pai. – Eu não queria que vocês se preocupassem. Eu vou, mas eu volto.

Um lado amargo em si mesmo lhe lembrou que a própria mãe partiu sem nenhum tipo de despedida. Um anel e um bebê sem mãe aos cuidados de uma mulher mal-intencionada e um homem emocionalmente destruído pela ausência da mulher que amava. Não lhe escapou que ele estava quebrando o ciclo ao ir com Giane para Paris.

- Mas por quê? – Margot perguntou ao notar o olhar cabisbaixo de Irene. – Está tudo bem?

- É coisa de trabalho. Eu não posso falar nada porque vou de namorado troféu. – ele brincou sem jeito.

Margot – santa mulher! – conduziu o assunto para coisas mais leves. Fabinho agradeceu mentalmente o talento da mulher em dissipar momentos de desconforto. Este era um talento extremamente útil que gostaria de ter, mas ele só sabia fazer as coisas ficarem pior.

Fabinho não viu a pessoa que fotografou sua entrada na casa de Irene e Margot. Se tivesse visto, muito provavelmente teria acabado – de novo – nas páginas policiais.


X


- Alô? – ela atendeu o telefone.

- Boatos que você vai fazer 20 shows nesta semana de moda de Paris. Não é muito pra uma mulher aposentada? – a voz de Caio a surpreendeu do outro lado. Ela não sabia como ele sabia ou porque ele se importava.

- Decidiu assumir o negócio da família, foi? – ela perguntou, analisando as unhas.

- Estou mais para adquirir uma repórter especial direto da Paris Fashion Week pro Luxury, o que você acha? – o tom de Caio a fez morder o lábio inferior. No passado, ele foi um dos primeiros a verem beleza nela e um dos maiores apoiadores que tinha.

- Não é a Amora que faz esta cobertura? Até onde eu sei, ela também pega desfiles por lá. – disse, tentando pescar alguma informação.

- A Amora está descansando a imagem por assim dizer. – ele disse críptico e ela sabia que aceitaria, ela devia uma a ele. – O que você acha? Não é como se você não estivesse indo para lá.

- O que você precisa, exatamente?

Caio começou a lhe explicar suas ideias, enquanto afirmava que a produção entraria em contato com informações mais precisas e um contrato de trabalho.

Giane estava de volta e ela claramente era muito boa no que fazia.


X


Ele entrou em casa e encontrou o pai na sala com rolos de filme de 35mm. Estranhou, afinal seu último filme ainda não havia estreado, até notar que eram filmes caseiros. Da sua infância com Malu.

- Pai? Está tudo bem? – perguntou e o pai se assustou levemente. Contudo, Plínio abriu um sorriso e lhe abraçou.

- Meu filho. – disse, lhe segurando o rosto.

- Pai… — disse de novo e Plínio sorriu.

- A saudade de quando você e sua irmã eram pequenos bateu. Quando eu conseguia segurar os dois nos meus braços… — ele respondeu distraidamente.

Foi então que Fabinho finalmente percebeu o quão solitário o pai era. O quão assombrado pela ausência de um amor que desapareceu, deixando-lhe somente o coração partido e um filho para criar. Uma história incomum quando quem fica com os pedaços para colar é o homem.

Plínio foi um excelente pai mas agora – mais velho – ele conseguia ver a melancolia e o esgotamento de quem sempre esperou Irene estar pronta para voltar. Ele se corroeu um pouco em pensar que poderia sanar esta dor de seu pai.

- Acho que poucas crianças têm tantos momentos eternizados. – disse fracamente e sorriu ao sentir os braços do pai ao seu redor mais uma vez. – As vantagens de ser filho de diretor de cinema.

O pai soltou um riso tímido.

- Eu tenho uma coisa para contar… Duas coisas, na verdade. – começou incerto. – Eu vim buscar meu passaporte, vou para Paris com a Giane – ao notar a expressão do pai mudar, complementou. – É coisa rápida, só a semana de moda, sabe? – engoliu em seco tentando se preparar para o que diria a seguir. – Pai, eu encontrei a minha mãe.

Plínio não teve reação.

Notas finais
Traduções que ninguém é obrigado a saber francês, mas os significados eram óbvios. Mais je peux parler un petit peu de français, ma chérie. - Mas eu posso falar um pouco de francês, minha querida. joie de vivre - alegria de viver, uma suposta maneira de viver francesa, encontrando motivos para viver bem.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.