Like a Rolling Stone
17 Holier than thou
Notas iniciais
— Não sabia que você era tão artístico. — Giane comentou, enquanto mexia com alguns dos meus desenhos.
— O que você sabe sobre mim não cobre quem eu sou, maloqueira. — disse ainda deitado e percebi que ela estava encantada com alguns desenhos de paisagem dos lugares que visitei. — A veia artística da família Campana ficou só para mim, sabe. Acho que a canastrice da Bárbara anulou os talentos artísticos de Malu.
— Ah, você desenhou retratos dos seus irmãos! — ela riu enquanto observava desenhos a caneta.
Eram puros rabiscos em folhas de papel. Nada muito complicado.
— Não é nada, sua curiosa. — disse a puxando para mim, enquanto ela segurava um monte de desenhos que se espalharam pela cama.
— Ia dizer que você tem bom gosto, mas você desenhou a Amora! — ela se virou para mim, cutucando minhas costelas.
— E desenhei você. — lembrei. Giane corou e eu queria conseguir transformar essa Giane, descabelada e corada em uma pintura.
Pena que não tinha tanto talento assim.
— E quem não desenharia? — ela brincou e eu roubei um beijo de seus lábios.
— Agora eu te quero de modelo para desenhos, moleque metido. — disse e vi Giane pegar uma folha qualquer de papel e procurar uma caneta.
Assistir Giane desenhar o desenho mais tosco que eu já vi na minha vida era impagável. Mas então ela começou a rabiscar palavras no canto da folha. Supus que era um poema.
Claramente não era. Giane tinha escrito: “Fabinho precisa de um banho.”
E eu não sabia como tinha me apaixonado por aquela pessoa, sinceramente. Antes que eu dissesse alguma coisa, Giane pegou um dos desenhos de Irene que eu fiz. Minha mãe.
— Quem é essa, Fabinho? — ela perguntou parecendo confusa.
— Minha mãe como eu a imagino. — respondi e ela ficou encarando o desenho com uma expressão indecifrável.
— Ela é linda. — ela me disse depois de um tempo. A felicidade de ouvir Giane falar de minha mãe no presente me deu esperança de que ela ainda estivesse por aí.
Mesmo que minha mãe não quisesse nada comigo, no fim.
— Ela é.
— Fico feliz que você aceitou esse café comigo, Camila. — Malu disse com um sorriso educado que a outra mulher retribuiu.
— Posso não ter sido sua amiga, Malu. Mas fui íntima do seu irmão. — ela lembrou.
— Eu queria primeiro agradecer pelas peças que você doou para o bazar, o dinheiro das peças vai ajudar muitas crianças…
— Mas o assunto que você veio tratar comigo está bem longe de ser sobre o Bazar que vai acontecer amanhã, certo? — Camila interrompeu com um sorriso esperto.
— Eu queria saber mais sobre a Giane. — Malu disse sem rodeios.
— Pergunte a ela. Ou acha que ela vai mentir para sair melhor do que é. Dica, Malu: essa é a Amora. — a outra lembrou com uma risada bem-humorada.
— Eu queria uma pessoa que tivesse tido contato com ela quando ela era modelo. O que eu conheço dela e o que eu vejo falarem dela é totalmente desencontrado.
— E eu com isso? — Camila perguntou sem paciência. — Olha, o lance das drogas sobre ela é mentira. Isso eu sei porque ela ficava incomodada com as meninas desesperadas para perder peso e ficarem “mais atraentes” para empregos na indústria. O que eu vivi sendo modelo era bem legal, mas eu nunca precisei daquilo para viver. Era só diversão no meu caso, mas não para todas as garotas.
Malu arregalou os olhos e Camila quis rir da menina protegida. Tão pronta para cuidar de todos, mas mantida num mundo bem mais leve e delicado que o que Camila tinha visto por escolha própria.
— Como você sabia que… — Malu não pôde completar outra questão, pois Camila a interrompeu mais uma vez.
— Que você ia ficar assustada com as coisas que dizem de uma modelo como Giane? — ela sorriu cínica. — Você deveria conversar com ela em vez de ficar revirando a vida da garota, sabe?
Malu teve a graça de corar e Camila se levantou da cadeira com um sorriso debochado.
— Mas sabe que eu adorei essa conversa? É tão bom ver que a Princesa Malu Holier-than-thou Campana também se importa com fofoca. — a modelo colocou os óculos escuros. — Beijo, querida. Até mais tarde.
As caixas de roupas chegavam ao salão de exposições sob a supervisão de Emília e Amora se aproximou com uma caixa com suas roupas.
— Vim entregar pessoalmente minhas contribuições para o Bazar da Malu. — ela disse com um sorriso meigo forçado.
Emília só pegou as caixas de Amora e entregou para uma de suas assistentes sem nem piscar.
— Não vou te deixar entrar antes da hora, Amora. Não vou deixar nada de ruim acontecer com esse evento. — a mais velha lembrou enquanto Amora tentava controlar a raiva.
— Nunca faria nada de ruim para um evento desses, Emília. — disse com um sorriso amarelo.
— Eu sei que é horrível não ter certeza, mas eu queria te dizer que você pode ser o pai dessa criança, Érico. — Renata lembrou e Érico a encarou com dor estampada nos olhos.
— Se for meu, eu serei um bom pai, Renata. Tenha certeza. — ele afirmou e Renata sorriu desejando mais uma vez que a criança que esperava fosse do ex-noivo.
— Oi, Emília. Aqui é a Giane. Você tem o contato da Margot e da Rita de Cássia? Elas não quiseram ir na festa, mas vou tentar convencê-las. Elas merecem ser celebradas no Bazar.
— Giane, podemos conversar? — Érico me encarava na porta da Acácia, hoje tínhamos que fechar mais cedo por conta do Bazar, então o trabalho estava mais corrido para entregarmos as encomendas.
— Fala enquanto eu trabalho. — ordenei não tirando meu olhar do arranjo que eu fazia.
— É sobre a proposta que eu te fiz no jogo do Corinthians. — ele continuou e eu lembrava vagamente sobre me chamar pra fazer publicidade quando ele tivesse a própria agência.
— Abriu uma agência, foi? — perguntei o encarando por alguns segundos. Pela expressão dele, podia ter certeza de que não estava longe da verdade.
— Estou quase. Um dos fatores decisivos é saber que eu posso contar com você, qualquer coisa. — ele me respondeu e eu quis mandá-lo se foder pelo que fez com a minha melhor amiga, mas tinham formas melhores de se ofender uma pessoa.
— Eu cumpro minha palavra, Érico. Você cumpre a sua? — ele corou e eu percebi que Bento e Wesley fingiam não prestar atenção na nossa conversa.
— Sobre a Renata, eu quero que saiba…
— Que se o filho for seu vai cuidar dele com todo amor? — completei com uma expressão monótona. — Isso a lei tecnicamente exige, querido. Manda outro discurso piegas, vai.
Nesse ponto, Bento quis evitar mais um barraco na loja e se intrometeu.
— Érico, estamos com pressa aqui. A loja vai fechar daqui uma hora, que tal você e a Giane conversarem com mais calma. — ele disse com um sorriso, apoiando a mão no meu ombro.
Sempre o pacificador, meu amigo.
Irritantemente pacificador.
Érico se despediu e saiu da loja, enquanto eu sentia o peso do olhar de Bento sobre mim.
— O que foi? — perguntei e ele me encarou como uma mãe irritada.
— Você precisa puxar briga quando ele te convidou para trabalhar com ele, Giane?
— Você fica pensando que ele está fazendo isso por bondade no coração, Bento? Sabe quanto ele vai lucrar porque eu aceitei fazer publicidade com a agência dele? — respondi cínica e Bento pareceu considerar o que eu disse.
— O quê? — Bento não entendia o quanto eu valia, ao que parece. Ele achava que eu era só a sócia dele que largou uma pequena carreira para trás e decidiu ser feliz no bairro que cresci.
E eu me senti como a menina que aceitou ser fotografada para mostrar para ele que eu também podia ser bonita. Eu me senti tão nova e inocente que quase esqueci que eu não era essa garota.
E meu coração não podia ser quebrado mais uma vez por ele, porque eu tinha certeza de que Bento não possuía meu coração. Não mais.
— Achou mesmo que só a Amorinha querida é que tem um nome forte? — perguntei sem paciência. — Além do mais, esse meu namoro com o Fabinho só aumenta meu valor na praça.
— É que você não viu meu valor na rua hoje em dia, maloqueira. — Fabinho me disse da porta da loja.
— Fazendo o quê aqui, garoto? Tem casa não? — perguntei e ele me encarou com um sorrisinho debochado.
— Se eu disser que senti saudades de você, você me deixa ficar ou eu vou ter que acampar do lado de fora da loja?
— Pode acampar do lado de fora da loja. — mandei e ele me respondeu com uma mesura.
— Como quiserdes… — ele pareceu considerar o que ia dizer. — Ei, você é o maior moleque de rua que eu conheço, não vou sair.
Eu ri porque Fabinho me deixava mais leve, mesmo quando não sabia que eu estava tensa. Alguma coisa nele só me deixava mais calma.
Uma pena que ele não me garantiria a vida reclusa que eu queria.
Eu queria mesmo uma vida reclusa?
Fabinho percebeu que eu não diria mais nada e que tanto Bento quanto Wesley estavam só assistindo nossas reações um com o outro.
— Enfim, lembra de se vestir como uma garota essa noite, ouviu? Malu já está uma bola de nervos achando que tudo vai dar errado e que não vamos conseguir nada com isso e que as crianças vão sofrer.
— Como se você não tivesse o plano de comprar algumas peças escondido dela para que ela receba algum dinheiro com isso. — eu comentei entredentes e percebi as pontas das orelhas de Fabinho ficarem vermelhas.
— Como se você não fosse fazer a mesma coisa, Giane. — Bento se intrometeu e foi a minha vez de corar.
— Eu não sei, Malu. Tem certeza de que vai fazer isso? — Madá perguntou coçando o pescoço. A neta parecia pronta para uma batalha que a avó não tinha certeza se o certo era entrar.
Principalmente porque ela duvidava que o resultado que a neta esperava fosse o que obteria.
— Eu preciso saber a verdade, vó. O Fabinho não merece ser usado por uma garota problemática! — Malu disse e Madá encolheu os ombros a encarando.
— Malu, seu irmão não é o príncipe no cavalo branco que você pensa e pinta. Ele nunca foi.
— Ele sempre foi uma pessoa boa.
— E você acha que a Giane não é?
— Eu acho que ela é, mas dizem coisas sobre ela que eu não sei.
— Malu, meu anjo, talvez o mundo não seja tão preto-no-branco. — a avó lembrou com um sorriso compreensivo.
— Te vejo mais tarde? — ouvi Giane perguntar para Renata no telefone. — Não importa, Rê. Você vai. Vai ser divertido!
A careta de Giane dizia que ela duvidava muito de que fosse se divertir. Pessoalmente, eu achava que me divertiria: beijar Giane para mostrar uma causa parecia bem interessante.
Percebi que ela me encarava e que já tinha finalizado a chamada.
— O que foi? — perguntei e ela sorriu debochada.
— Sabe, assim, você até parece gente. — ela respondeu.
— Sabe, se você não tivesse que aparecer toda bonitona na festa, eu te beijaria aqui e agora. — ao me ouvir dizer isso, Giane delicadamente removeu o batom de seus lábios.
— Melhorou?
Eu gostava muito dessa Giane direta que eu podia estar junto. Deus, como eu gostava.
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