Like a Bird
2 A real Julliet
Notas iniciais
No capítulo anterior...
– Por que estão aqui? – perguntou Julliet. – O que querem comigo? Como arrombaram meu portão?
– Estamos aqui para salvar você – começou Ethan – E a levar para o Acampamento Meio-Sangue. Um lugar para pessoas como você. Como nós.
– Você é filha de Zeus, Julliet. – falou Melody – você é muito poderosa.
Julliet ouvia tudo em silêncio.
– E o caso do portão... – complementou Ian dando um lindo sorriso – Não foi muito difícil; não para um filho de Hermes.
E foi por aquele sorriso que eu me apaixonei.
Julliet continuou em silêncio. Um silêncio cortante, constrangedor. Era estranho, Julliet parecia estar compreendendo. Mas Julliet já sabia.
– Entrem. – disse ela, acenando com a cabeça em direção à porta de entrada. – Sejam rápidos.
Os quatro correram lá pra dentro, onde, descobriram uma verdadeira casa assombrada. Julliet, em vez de chave, usou um feitiço antigo, usado também por Hefesto em sua forja.
– Dura Lex, Sed Lex. – E a porta se trancou, uma passagem impermeável.
– Você...
– Sim. – disse Julliet sentando no sofá. – Eu sei.
Ethan ficou incrédulo.
– Hein? – olhou para Ian e para Melody, e fulminou-os com o olhar. – Quer dizer que viemos aqui pra nada?!
– Ainda temos que levá-la – disse Ian. – Não foi por nada.
Julliet olhou um de cada vez, suspirou, estalou o pescoço e disse:
– Não vou sair daqui.
Os três a fitaram com incredulidade.
– Como assim não vai?
– Não vou. Não posso sair daqui. É o meu lugar, entendem? Nunca saí daqui depois... – Julliet pensou em dizer “depois que minha mãe morreu” ou até “depois que me atacaram” mas ainda não confiava nos três.
– Julliet, você precisa...
– Eu não “preciso” não! Não vou e pronto.
O silêncio tomou conta da sala de estar. Julliet entrou pra cozinha para esvaziar a mente enquanto os três conversavam.
– Como vamos levá-la pra lá?
– Eu não sei, Ethan, de alguma forma – sussurrou Melody – Temos que levá-la.
– Mas como? – falou Ian – Ela é impossível! Não vai querer...
– Sorvete? – Julliet apareceu do nada.
– Eu quero! – Ethan sorriu.
– Ok...
Julliet entrou de volta pra cozinha e o grupo juntou-se novamente.
– Ela não vai querer ir. – terminou Ian.
– Não importa. – Melody disse – Ela vai, nem que seja à...
Julliet apareceu novamente.
– Castanhas?
– Hã? – disseram juntos, assustados.
– Castanhas no sorvete?
– Hã... não, obrigado... – disse Ethan.
– Ok, sem castanhas. – e Julliet desapareceu novamente.
Melody encolheu os braços.
– Sabe o que me dá mais medo do que essa casa? – os outros olharam pra ela – A garota! Ela me dá arrepios!
– Ela é só uma...
– Calda? – apareceu novamente a garota que causava arrepios em Melody.
– Por acaso você teria calda azul? – perguntou Ethan.
– Com sabor de caramelo. – responder ela.
– Perfeito!
Todos olharam para Ethan e voltaram a conversar.
– Como eu dizia... – Ian revirou os olhos – Ela é só uma criança.
– Uma criança que dá medo – Melody estremeceu – Já viram o olhar dela? Ela parece o Chucki dos filmes.
– Mas ela nem é ruiva... – e com esse comentário desnecessário de Ethan, eles formaram um círculo em silêncio.
– Temos que a levar. É nossa missão!
– Ah, Melody, não dá! Ela não quer ir.
– Ian, uma hora ela vai querer.
Julliet ouvia a tudo com a bandeja atrás deles.
– Sorvete! – alterou sua voz para que ouvissem.
Ethan já foi pegando um dos potes de sorvete, enquanto Ian brincava.
– Não tem arsênico aí não, né?
Isso fez com que Ethan cuspisse o sorvete que acabara de colocar na boca. Julliet olhou dele para o sorvete, do sorvete para o agora manchado tapete branco. Do tapete, transferiu o olhar para Ian, e de Ian novamente para Ethan.
– Meu tapete.
– Impulso, desculpe.
– A próxima vez que tiver um impulso, me avise – Jullie falou muito séria – Mas, esse, você vai limpar.
Ethan passou aquela tarde toda tentando tirar a mancha do tapete de Julliet.
**********
À noite, Julliet os apresentou a casa. Disse que poderiam ficar ali por um tempo. Que a casa era espaçosa, e que ela tomaria a decisão à noite. Apresentou os quartos para Melody, Ethan e Ian, e disse que gostaria de ficar sozinha. Mas Victor não a deixou sozinha.
Julliet, sentada na cama olhando para o céu através da janela gradeada, ouviu-o bater na porta. Foi até lá, mesmo dizendo que não queria ninguém ali.
– Ian? – ela se mostrou surpresa.
– Posso falar com você?
Julliet abriu a porta e deixou que ele entrasse.
– Eu gostaria de saber por que você não quer ir conosco.
– Meu lugar é aqui. – respondeu Julliet.
– Seu lugar é conosco – ele segurou a mão dela – Com Ethan, com Melody, comigo...
Isso a deixou sem jeito.
– Não posso.
– Que que é? Você tem medo? – perguntou Ian alterando a voz.
Julliet apenas o fitou.
– Eu só tenho medo de uma coisa.
– E o que é?
– Sei que, se existe o inferno... – ela se debruçou no parapeito da janela – Estou condenada a ir pra lá.
– E por que você tem tanta certeza?
– Eu sinto, sabe? – disse – Eu sei que o mundo se joga contra mim desde cedo. Não suportaria morrer e nada acontecer comigo. Acho que eu não estou acostumada à esse luxo.
Dito isso, Ian se calou. E era muito, muito difícil fazer Ian se calar.
– E se você for para o... céu?
– Eu estranharia. É muito difícil uma pessoa como eu ir pro céu. – Julliet começou – Eu nasci diferente. Não só por ser filha de Zeus, mas... por ter uma parte insignificante do corpo faltando.
Julliet levantou o cabelo do lado direito. E sua orelha não estava formada.
– Quando eu era menor, as crianças riam de mim. Era constrangedor, era... horrendo. Eu me isolei, principalmente por isso. É estranho saber que, por mais que você seja como eles... você sempre vai ser diferente.
Julliet olhou para Ian pela primeira vez, de verdade, que agora estava com uma cicatriz enorme no rosto. Talvez ela não tenha notado, ela não olhou ninguém de verdade. Apenas se guiou pela sombra do rosto.
– Eu sei que nada do que eu fale vai melhorar isso, mas... – falou Ian – Eu não me importo. Na verdade, você fica mais bonita assim.
Ele sorriu e ela corou.
– Mas nós somos diferentes...
– Está aí um erro. – disse Ian mudando de posição – Você não é diferente, Julliet. Você é única.
Fale com o autor