Like A Bird
6 Capítulo 6
Notas iniciais
-Onde que é a sala da aula da violão?-eu perguntei para o recepcionista. Ele me apontou um corredor e eu segui andando. Enquanto andava comecei a pensar. Desde o dia em que Alice me explicou o por que de ela ter ficado tão puta com o Leo e falou todas aquelas coisas sobre como ela odiava que as pessoas se confessassem para ela do nada e ficassem chateadas quando ela as rejeitava ( que eu alias achava um pouco de criancice dela mas quando disse isso ela só balançou a cabeça e falou “você não entende”) ela tinha ficado meio fria comigo. Quando eu perguntei o motivo ela falou que não tinha nada haver e que era tudo da minha cabeça. Só sei que eu estava meio perdida quanto a esse assunto da Alice: eu não podia me confessar por que ela provavelmente iria me dispensar e a nossa amizade ficaria extremamente abalada e eu tinha certeza de que ela me rejeitaria.
- É aqui a sala da aula de violão?- eu perguntei para a moça que estava mais á frente dando a entender que era ela a professora.
-Aki mesmo meu bem. Pode entrar.-ela sorriu e me apontou um lugar.
Eu sentei quieta e comecei a prestar atenção nela. Era uma sala realmente pequena que não cabia mais do que vinte cadeiras meio que jogadas. Éramos dez pessoas ao todo, contando com a professora. Eu estava realmente exitada. Acontece que eu sempre quis aprender a tocar violão mas eu nunca tive coragem de tentar. Sei lá, eu tinha medo de não ter talento nenhum, não conseguir aprender nada e acabar pagando o maior mico da minha vida. Mas isso tinha sido antes. Antes de eu me apaixonar pela Alice, antes de eu ficar amiga dela e do Leo. Agora eu era uma pessoa diferente e se fosse necessário pagar o maior mico do mundo para aprender algo que eu tinha tanta vontade eu estava disposta a paga-lo. Não é como se aquilo fosse me matar. Eu tinha pesquisado uns cursinhos por ai mas acabei optando por um que ficava pertinho da minha casa e por isso eu poderia ir apé. Quando eu disse á minha mãe que queria fazer aula de violão ela ficou super animada e até comprou um violão para mim como presente de natal adiantado. Ele era simplesmente maravilhoso. Era de madeira em um tom muito escuro, quase preto, com detalhes brancos no braço. E o som dele era maravilhoso. Sério mesmo, eu já tinha escutado violão em rodinha e já escutei muito violão com o som muito pior do que o do meu. Enfim, eu estava completamente apaixonada com ele. Isso era bom por que tirava a minha cabeça de outros problemas.
Naquele dia a professora explicou um monte de coisa sobre escala e tons e eu achava difícil que eu fosse conseguir decorar aquilo tudo. Mais tarde ela nos ensinou a ler as tablaturas e passou vários exercícios para gente treinar, o que eu achei ótimo já estava doida para tocar o violão. Quando falei isso ela me respondeu:
-Ah, mas isso é por que você só está começando agora. Tem que ver todo o básico antes de sair tocando por ai- ela ficou me encarando por um tempo- mas se você realmente quiser ter mais contato com o seu instrumento tem uma aula que acontece daqui a pouco em que os alunos vão para tocar e serem supervisionados por um professor.
Eu achava aquilo meio estranho mas eu iria tentar mesmo assim. Queria agarrar qualquer chance de melhorar. Esperei durante um tempo, revisando a escala que ela tinha passado e tentando fazer os acordes (o que era extremamente difícil). Quando deu a hora eu me direcionei para a tal da sala. Assim que eu entrei meus olhos caíram sobre as duas outras pessoas que estavam lá dentro. Uma era um jovem que devia ter a idade do Leo, com a cabelo meio comprido, loiro dos olhos azuis, muito branquinho e magrinho de modo que a primeira impressão que eu tive era de que ele era muito frágil e delicado. A segunda era uma menina que parecia ser mais velha. Tinha o cabelo liso muito preto e longo, e usava um piercing no canto dos lábios. Alta com o corpo bem definido ela era até bem bonita.
-Você veio para a ula?- perguntou um cara que acabava de chegar e devia ser o professor. Eu fiz que sim com a cabeça-ótimo. Esses são Matheus- apontou para o menino que sorriu para mim e eu pude perceber umas covinhas lindas aparecerem no rosto dele- e a Sara- seu sorriso também era bonito.- e você é?
-Camila
-Ok Camila. E o que você toca?
-Violão. Só que acabei de começar então ainda não sei nada.
-Violão, ok ok...então por que você não senta ali e faz uns exercícios? Tenho certeza que a professora deve ter passado alguma coisa para você-eu fiz um aceno com a cabeça.
Dando uma olhada pela sala eu vi que havia um baixo, um piano e uma bateria. Me perguntava o que que os outros dois iriam tocar enquanto eu me sentava e abria a pasta com os exercícios. Tive a resposta quando eu escutei o som de batuques preencherem o ar e o som de uma voz masculina. Naquele mesmo momento eu senti como se uma chama esquentasse o meu corpo e os pelos da minha nuca arrepiaram. Eles eram realmente muito bons.
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Depois disso eu praticamente tinha substituído o meu ipod pelo meu violão. Mas era ainda pior. Em qualquer momento que eu estive dentro de casa ou dentro da escola de música eu estava com o violão nas mãos, dedilhando alguma coisa. Tinha virado um vício e a minha mãe já estava começando a se preocupar com a minha saúde mental. Acontece que quando eu tocava eu me sentia completamente bem, exatamente como quando eu me fechava no quarto e ficava escutando música . Só que a sensação era ainda mais prazerosa: era mais intensa. E ficava ainda mais incrível a medida que eu ia melhorando e ganhando mais liberdade com o instrumento. Um dia eu estava no recreio, pensando num acorde extraordinariamente difícil, meio que dedilhando no ar, quando a Alice falou.
-Nossa, atualmente você não faz outra coisa que não seja pensar nesse violão-ela falou meio irritada- Nem conversa direito comigo mais- sua voz foi abaixando, o que significava que ela estava falando sério.
A Alice estava com ciúmes do meu violão? Eu nem podia acreditar no que estava ouvido. Eu ri e cheguei mais perto dela.
-Eu tenho conversado sim é você que tem estado sumida- e era verdade, atualmente ela parecia estar com a mente ocupada o tempo todo.- o que está acontecendo ?- eu estendi a mão para tocar na dela.
Só que ela fez menção de afastar o toque e olhar para outra direção
-Não tem nada, já te falei isso.-
Mas eu sabia que tinha alguma coisa. Só que ela parecia decidida a não me contar então eu desisti e disse;
-Você anima de ir ao cinema esse sábado agora?
-Unnh...acho que não vai dar. Eu tenho outro compromisso.
Droga. Eu iria perguntar para o Leo então. Desde a festa ele e a Alice não voltaram a se falar direito por isso atualmente era comum eu passar o recreio só com um deles. Não parecia que o cenário iria mudar tão cedo.
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Estava em outra aula em conjunto de música. Eu ainda tocava bem mal, mas visto que praticamente passava o dia inteiro com o meu violão eu estava fazendo progresso bem rápido. Já era capaz de acompanhar os outros na maior parte das vezes. Como eu tocava violão, a Sara tocava bateria e o Matheus cantava agente meio que formava uma banda. Sem falar que eu adorava escuta-los e só de pensar em fazer parte daquilo eu sentia um arrepio percorrer meu corpo todo.
-Ok. Ótimo meninos-falou o nosso professor- Camila você melhorou um bocado nesses últimos dias hein? Muito rápido mesmo. Daqui a pouco você já vai estar no nível dos outros dois- ele sorriu para mim e eu me senti realmente feliz com aquele comentário.
-Que isso a Camila é muito mais talentosa do que eu! Daqui a pouco ela vai estar é me passando- o Matheus falou enquanto ria com aquela risada meio de criança. Ele era um doce de pessoa.
-Não sei não loirinho...essa menina aí ainda vai demorar para me acompanhar-a Sara falou enquanto sorria para mim. Ela adorava me provocar mas eu não ligava por que já tinha sacado que era só o jeito dela e no fundo eu sabia que ela realmente gostava de mim. Não era que nem a Melissa que eu estava convencida de que me considerava o ser mais podre do universo.
-A banda do meu namorado demorou um ano para conseguir tocar alguma coisa direito...sei lá, eles eram até amigos, mas na hora de tocar simplesmente não se entendiam- Matheus falou terminando com uma risada
Eu tive vontade de pedir para ele repetir de novo. NAMORADO ? O Matheus tinha um NAMORADO? Ele era GAY? Tudo bem que ele era todo miudinho e delicado mas eu nunca tinha suspeitado. Eu fiquei olhando com uma cara de tacho para ele.
-Que foi?-ele olhou para mim e logo percebeu- Você não sabia que eu era gay não é mesmo?-ele falou com uma voz mais baixa e foi ficando meio sem graça. Ficou quieto como para esperar alguma reclamação da minha parte. Nesse momento até a Sara começou a me encarar com cara feia.
-N-n-n-não Matheus de modo algum.-ai eles começaram a ficar realmente preocupados- n-n-não, o eu quero dizer é que eu não tenho absolutamente nenhum problema com isso. Juro! É só que eu fiquei meio surpresa. Eu, eu nunca tinha encontrado uma pessoa assim antes!
Eles me olharam com uma cara de aliviados mas eu pude perceber que ainda tinha um pouco de desconfiança no olhar deles. Ai meu deus, que burra que eu sou! Não acredito que fiz uma coisa dessas.
-Matheus, por favor, acredite em mim, de todas as pessoas desse mundo eu sou uma das que mais vai te apoiar! Eu nunca pensaria menos de você por uma coisa dessas! Desculpa, é só que eu realmente fiquei surpresa. Nunca tinha tido um amigo g-g-gay- a palavra saiu estranha da minha boca.
Ele finalmente abriu um sorriso- Tudo, bem acho que a culpa é minha também. Desde que eu assumi eu acho que todo mundo sabe...não é como se as pessoas tivessem a obrigação de saber da minha vida.
-E quando foi isso?
Ele ficou surpreso com a minha pergunta. Droga, era natural que eu tivesse curiosidade não era mesmo? Tinha tanta coisa que eu queria perguntar para ele, tanta coisa que eu queria ouvir, tanto coisa sobre a qual eu queria pedir conselhos.
A Sara deu um sorriso malicioso para mim
-Tá curiosa é?
Eu fiquei com muita vergonha desse cometário dela.
-Desculpa. Acho melhor eu ir embora- eu agarrei as minhas coisas e sai sem dar tempo de eles falarem nada. Afinal nós ainda não éramos realmente próximos e e não queria que eles saíssem descobrindo coisas. Não antes que eu estivesse preparada para contar para eles.
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As férias de Julho finalmente estavam chegando e eu e a Alice já tínhamos combinado um monte de coisas para fazer. Também tinha combinado com o Leo mas não era tão importante assim.
-Como assim você vai viajar durante as férias todas?-eu fiquei realmente decepcionada quando ela falou aquilo. Eu tinha feito tantas planos...
-Ah Camilinha- ela tinha começado a me chamar assim e eu simplesmente achava lindo- meus pais decidiram que vão voltar para a cidade em que eu morava, eles têm que resolver umas coisas que ficaram pendentes. E eu também gostaria de ver meus antigos amigos...-
-Tudo bem Alice, mas você precisa ficar lá as férias inteiras?- eu deixei claro para ela o meu desapontamento.
-Preciso- ela falou decidida dando a entender que a conversa acaba ai.- Mas agente podia fazer alguma coisa antes de eu ir...Quinta-feira que tal?
-Eu tenho aula de música- quinta feira eu ficava a maior parte da tarde primeiro tendo aula de violão e depois tocando com os meninos.
-Ai camila assim não dá...você e esse violão...-eu ri.
-Sexta então?
-Eh...eu tinha outra coisa marcada...mas dá para desmarcar-ela abriu um sorriso para mim.-Você não quer ir ver filme lá em casa? Agente podia fazer uma maratona de filmes...-ela falou animada com a idéia.
-Ok, Combinado então- eu ainda estava chateada com o fato de ela ir viajar mas estava realmente animada com a idéia de passar uma tarde inteirinha com ela vendo filmes.
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Sexta-feira chegou e eu estava indo para a casa dela. Como era realmente perto da minha eu fui apé mesmo. Cheguei lá, toquei a companhia e logo ela me atendeu. Ela estava de moletom, chinelos e um rabo de cavalo frouxo. Mesmo assim ela estava linda.
-Eu troce refri-levantei a garrafa para ela
-Pode colocar ali na geladeira- meu levou para a cozinha dela e eu pus lá. Pude ver uma enorme bacia de pipoca e de brigadeira em cima da mesa- Unh-adoro pipoca e brigadeiro.
Ela riu- Eu sei que você gosta por isso fiz muito-voltamos para a sala. Não era muito grande mas tinha um sofá que cabia confortavelmente quatro pessoas e uma tv enorme pendurada na parede de frente para ele. De quebra as janelas ainda tinham blackout (um especie de cortina mais grossa que não deixa o sol passar). O lugar perfeito para assistir filmes.
Ela começou a mexer nos dvds que estavam jogados em cima da mesa.
-Então, o que você quer ver?-ela perguntou
-Não sei, tanto faz- desde que você assista comigo tanto faz mesmo.
-Eu que escolho é?-ela sorriu como se fosse aprontar alguma coisa- então vai ser esse aqui-ela abriu a caixinha e foi colocando o filme no dvd. Quando ela deixou a caixinha em cima da mesa eu pude ver a capa “Evocando espíritos”.
-Aaahh não Alice, eu odeio filme de terror !!- eu falei. Eu realmente não gosto de filme de terror. Eu já era meio medrosa, com um filme para ajudar então.
-Ah, mas você falou que eu podia escolher e você sabe que eu adoro filme de terror!-ela falou rindo de mim.- O próximo você escolhe.-e voltou a sentar do meu lado com o controle na mão
-Se eu não conseguir dormir de noite juro que vou te ligar- eu ia mesmo ligar para ela se eu
ficasse apavorada a ponto de não dormir mais tarde. Ela só deu uma risada gostosa para mim.
O filme começou e a história era sobre uma família que tinha acabado de se mudar para uma casa por que tinham descoberto que o filho adolescente estava com câncer. Ótimo, odeio filmes de casa assombradas.
-Alice, eu tô com frio. Será que eu podia pega um casaco seu?- Naquele dia estava realmente frio e eu tinha até vindo com uma blusa de manga comprida mas aquele cômodo estava mais frio do que o normal. Ela pausou o filme
-Vou fazer uma coisa melhor ainda-saiu e me deixou sem intender. Depois ela voltou com edredom de solteiro e eu compreendi. Ao mesmo tempo meu coração começou a bater mais forte. Eu ia dividir o edredom com ela e agente ia ficar juntinho vendo filme. Era bom demais para ser verdade.
Ela sentou de novo, cobrindo nós duas com o edredom. Nossos corpos ficaram muito próximos e eu senti o perfume dela invadindo todos os meus sentidos.
O filme continuou. A medida que o filme passava iam acontecendo umas coisas estranhas na casa, o protagonistas via umas coisas assustadoras e parecia estar ficando louco. Logo revela que a casa tinha sido um centro de pesquisas paranormais e tinham acontecido umas coisas realmente sinistras no passado. Eu realmente não estava gostando, por isso fui me encolhendo cada vez mais, meio que escondendo o rosto atrás do edredom. A Alice percebeu e por isso ela passou os braços sobre mim para me acalmar. Mas o efeito foi justamente o contrário e o meu coração começou a bater mais rápido ainda. Estava tão acelerado que eu fiquei com medo dela perceber. Mas eu não era boba e por isso aproveitei a oportunidade para apoiar a cabeça no ombro dela. Agente ficou assim por um tempo, e eu estava curtindo muito, só que teve uma cena em que o espírito do menino que tinha morado lá apareceu do nada. Eu simplesmente pulei no sofá e virei o rosto no pescoço da Alice por que eu não queria ver aquilo. Ela assustou mais com a minha reação do que com o filme propriamente dito.
-Ai meu deus, como você é exagerada-ela falou.
-Sou mesmo- falei meio com raiva. Eu sei que eu sou medrosa, mas sou assim e pronto. Ela não tem nada que caçoar de mim por causa disso.
Nessa hora ela começou a passar a mão no meu cabelo. Eu não consegui prestar atenção em mais nada além da curva do pescoço dela, do toque gentil dela, do perfume dela. Deu para ver que ela também não estava mais prestando atenção no filme já que estava olhando para mim. Estávamos tão perto que era só uma questão de eu virar um pouco o rosto e ir um pouco para frente que eu conseguiria tocar os lábios dela. E agora? Eu devia fazer isso? Será que ela não ia ficar brava comigo? Será que ela ficar com nojo de mim? Mas ela também era culpada por agente estar naquela situação. Foi ela quem trouxe o edredom, que chegou perto de mim e começou a fazer cafuné em mim, sem falar que ela não fez questão de me afastar hora nenhuma. Isso tinha que dizer alguma coisa, não tinha? Então eu tomei toda a coragem que eu tinha (na realidade mais coragem do que eu tive na vida inteira) para virar o rosto e encara-la. Quando fiz isso nossos olhos se encontraram e eu pude ver um monte coisa naquele olhar : hesitação, confusão, dúvida, incerteza, mas também tinha desejo. Ela também queria alguma coisa e agora eu tinha certeza disso. Por isso me impulsei para frente para beija-la. Só que aí ela fez uma expressão de quem tivesse subitamente se lembrado de algo muito importante e simplesmente se afastou de mim. SIMPLESMENTE SE AFASTOU DE MIM NO MOMENTO MAIS IMPORTANTE DA MINHA VIDA.
-Eu vou pegar mais pipoca- ela falou enquanto se levantava com a bacia vazia. Era óbvio que ela queria uma desculpa sair dali.
Eu não estava entendendo mais nada. Eu tinha certeza que ela queria alguma coisa comigo. Eu tinha visto nos olhos dela! Não tinha? Não foi coisa da minha cabeça não é mesmo? Então por que ela fez aquilo? Será que ela tinha percebido que eu gostava dela e não queria se envolver? Será que tinha ficado com medo de me magoar? Será que pela primeira vez na história da humanidade eu tinha tido mais coragem do que alguem e ela simplesmente tinha se acovardado e voltado atrás?
Depois ela voltou com a bacia cheia de pipoca, sentou do meu lado e voltou o filme para a cena antes dela ter se levantado. Agiu como se absolutamente nada tivesse acontecido. Eu fiquei indignada com essa atitude dela mas quando eu tentei falar algo, sugerir que algo tinha rolado e ela não podia ignorar isso ela simplesmente me cortou.
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Depois disso ela viajou e eu tive de aceitar que ficaria duas semanas sem ver ela e com aquele tanto de pergunta sem resposta. Eu não tinha idéia do que se passava na cabeça dela e não tinha a quem recorrer.
Como as férias começavam eu finalmente podia me entregar 24 horas por dia ao meu violão e era exatamente isso que eu fazia. Tinha até combinado com os meninos da gente se encontrar mais vezes para tocar junto. Para nossa sorte a sala ficava bem vazia naquele período e nem o Matheus nem a Sara iriam viajar. Como eu tocava muito o dia inteiro eu já tinha melhorado consideravelmente (lógico que eu ainda não era do nível deles, mas mesmo assim) e os nossos “ensaios” (por que agente não era exatamente uma banda só tocava junto) estavam ficando cada vez mais divertidos. Eu também ia me aproximando cada vez mais deles e já os considerava amigos.
-Uhhuuu- o Matheus gritou quando agente tinha acabado de tocar uma música – Caramba meninas, vocês foram ótimas!
-A tá e você foi horrível Matheus. Estragou tudo, sério mesmo.- a Sara disse. Ele fez uma cara de mágoa fingida e logo estava fazendo cosquinhas nela. Ele tinha isso de ficar tocando na gente mas eu não me importava .
-Aiai, adora vocês sabiam?- ele falou quando parou de rir junto com a Sara e se jogou no chão.-Alguns anos atrás eu nunca acreditaria que poderia ter amigos assim, ou que pudesse rir de umas coisas bobas assim- ele falou enquanto assumia uma expressão de sério e olhava para o nada como se estivesse relembrando alguma coisa.
-Como assim?-eu não entendi por que um garoto fofo como ele estava falando uma coisa daquelas.
Ele olhou para mim como se ponderasse se ia responder ou não. Acabou decidindo que sim
-Eu falei que tinha assumido a minha sexualidade não é mesmo?-eu fiz que sim com a cabeça- Pois é, e foi uma merda. Não me entenda mal, eu não me arrependo. Tenho um namorado maravilhoso e estou muito feliz com ele. Mas tudo aconteceu quando eu tinha 15 anos e eu não tinha maturidade para entender essas coisas direito quanto mais para assumir qualquer coisa- eu me sentia exatamente da mesma forma- E eu realmente não ia falar nada, só que uns carinhas do meu colégio viram eu e o meu namorado juntos , agente era super discreto só que eu tinha me descuidado e tinha dado um selinho nele num lugar meio público. Enfim, esses caras tiraram foto, postaram no face e tudo e logo a escola toda ficou sabendo. Ai começaram a me chamar de nomes e a me excluir de tudo. Até as pessoas que eu achava que eram meus amigos se afastaram de mim.-nesse momento ele começou a chorar e a Sara pegou a mão dele – Lógico que os meus pais perceberam que tinha alguma coisa errada. Eu não dormia direito mais, ia mal na escola, passava o dia inteiro trancado no meu quarto e estava emagrecendo a olhos vistos. Ai eles me pressionaram e eu não agüentava mais daquilo por isso acabei contando para eles- ele parou- eles reagiram da pior maneira possível. Minha mãe começou a chorar e o meu chegou a me dar um tabefe no rosto.-ele chorou mais forte e a Sara apertou o toque- E me expulsaram de casa. Nessa hora eu realmente comecei a pensar em suicídio- aquilo me chocou- todo mundo me considerava um lixo e tinha nojo de mim. Eu não queria viver aquele sofrimento todo. Só que ai a minha avó interviu. Assim, eu tenho certeza que ela também ficou muito chocada mas ela tinha decidido que não ia perder um neto por causa de preconceito. Ela me acolheu na casa dela e garantiu para que nada me faltasse. Depois eu me mudei de escola. Já tinha tudo ido por água abaixo mesmo então não valia a pena eu tentar esconder de novo. Só que nessa outra escola eu achei pessoas que me aceitaram do jeito que eu sou e foi ai que a coisas começaram a melhorar de novo. O meu namorado também foi um anjo naquela época. Sério, se não fossem essas pessoas eu acho que nem estaria aqui mais.-ele enxugou as lágrimas e deu um sorriso tranqüilizador para a Sara- Atualmente eu ainda moro com a minha avó. Os meus pais acabaram aceitando a coisa toda mas eu não quis voltar para casa. Alguns amigos da minha antiga escola também chegaram a me procurar mais tarde e pedir desculpas por como as coisas tinham acontecido-ele passou a olhar para mim também e abriu o sorriso ainda mais- então agora eu sou a pessoa mais abençoada e feliz do mundo!- e deu ma gargalhada meio infantil, típica dele.
Quando ele acabou eu não fiz nada além de me levantar e abraçar ele bem forte. Só ai eu me dei cota de que estava chorando. Ele me abraçou de volta.
-Ai meu deus, como vocês são gays!- a Sara falou enquanto levantava e abraçava agente também. Só que ela o fez de uma maneira que agente perdeu o equilíbrio e logo estávamos jogados no chão num embaraço de pernas e braços e mãos, rindo da situação
-Então tá- falou o Matheus se sentando de novo. Respirou fundo para recuperar o fôlego depois daquele risaiada toda- Vamos lá gente, eu não quero ser o único a falar coisas embaraçosas aqui. Podem desembuchar-
Eu não sabia o que fazer. Não era por que o Matheus tinha tido um momento de desabafo que agente devia fazer o mesmo... E não era como se eu tivesse algo importante para falar como a história do Matheus. Mas eu também queria saber mais sobre a Sara. Eu olhei para Sara meio que perguntando o que ela ia fazer. Ela ficou me encarando de volta e pensando. Enfim ela deu um suspiro.
-Ok, eu vou falar. Mas depois você vai ter que falar também viu chata?-disse para mim- Eu não tenho uma história parecida com a do Matheus. Tipo assim, eu também já fiquei com meninas e meio que me considero bissexual -ela olhou para mim esperando a minha reação. Se eu não tivesse sentada acho que tinha caído. A pouco tempo atrás eu estava me culpando e me sentindo a pior pessoa do mundo por gostar de alguem do mesmo sexo. Achava que eu era a única e que era uma aberração por isso. E de repente eu faço DOIS amigos que estão na MESMA SITUAÇÃO. Era tipo bom demais para ser verdade! Eu me sentia como se tivesse ganhado na loteria-Você devia parar de ficar tão surpresa! Tem muita, mas muita gente assim por ai sabia?-não, eu não sabia.-Enfim. Eu não sou daqui. Eu morava numa cidadezinha no interior com meus pais e meu irmão mais velho. Meus pais trabalhavam com Licença Ambiental e essas coisas. Um dia eles estavam caminhando e foram atropelados. Os dois morreram na hora- meu deus do céu.- Foi muito estranho como as coisas aconteceram por que não era um lugar propicio para o carro correr daquele jeito, então ficou parecendo que tudo tinha sido planejado. Bom, eu não preciso dizer que o meu mundo ficou de cabeça para baixo preciso? -ela começou a olhar no vazio igual o Matheus tinha feito- Eu tinha só dez anos na época e não entendi muito bem. De um dia para o outro eu não tinha mais nem mãe e nem pai. -ela começou a chorar e eu e o Matheus chegamos mais perto – Como o meu irmão só tinha 17 anos na época agente teve que se mudar para cá e viver com uma tia minha. No início foi horrível, terrível mesmo. Eu me sentia completamente perdida e não conseguia prestar atenção em nada e nem conseguia conversar com as pessoas direito. O meu irmão também ficou muito mal e fez muita coisa errada. Levou muito tempo, muito tempo mesmo de terapia, de acompanhamento psicológico, mas agente enfim conseguiu enfrentar as coisas e voltar ao normal. Eu voltei a tirar notas boas na escola, também fiz amigos maravilhosos e tive minha paixonites. A minha tia também foi um anjo na minha vida. Atualmente o meu irmão está no último ano do curso de Medicina.-
Novamente eu estava chorando. Eu chorava mais que a Sara até, que tinha ficado até muito de boa com aquilo tudo. O Matheus deu um abraço carinhoso nela e rapidinho ela se recompôs.
-Agora você- eles ficaram olhando para mim.
De repente eu percebi que eu era uma garota realmente mimada e mau agradecida. Sério, se os dois, que tinham passado por aquilo tudo estavam ali, felizes da vida, que que eu estava fazendo me pondo para baixo só por que eu gostava de uma menina e tinha medo das pessoas me tratarem mal por causa disso?
-Ai gente, eu realmente não tenho nada para contar. Vocês passaram por coisas tão difíceis...
-Mas todo mundo já teve prolema Camilinha, qualquer coisa tá bom, anda-Matheus
-Ah Matheus...tipo assim, eu era uma pessoa meio negativa e estressada com tudo. Eu me preocupava com o que os outros achavam de mim e parecia que eu vivia exclusivamente para agrada-los. Sério, eu sentia que se não gostassem de mim eu ia simplesmente morrer. Sei lá,acho que é por que eu tinha uma auto-estima meio baixa e era meio covarde. Por causa disso, a uns meses atrás aconteceu uma coisa que realmente colocou o meu mundo de cabeça para baixo-eu mordi os lábios- uma menina que foi amiga minha quando éramos crianças voltou para ká e eu simplesmente comecei a gostar dela. Ela era perfeita : bonita, gentil, confiante, segura, falava tudo o que pensava e não estava nem ai para a opinião dos outros. Ela era tudo o que eu queria ser. Só que foi muito difícil para mim aceitar isso. Ainda é, na verdade. Acho que não para aceitar, mas para encarar isso, por que eu sei que vai ter muita gente que não vai gostar. Só de pensar na reação da minha mãe...cara, eu tenho certeza de que ela me expulsaria de casa e nunca mais ia olhar na minha cara. Só que a Alice e um outro amigo meu me ajudaram muito, mas muito mesmo desde então, e agora eu me sinto mais segura e tô tentando correr atrás do que eu quero. Só que eu não sei se ela senti alguma coisa por mim. Uns dias atrás meio que rolou um clima entre agente só que ela cortou. Por um momento eu tive certeza de que ela gostava de mim também e agente ia ficar. Só que ela ignorou e passou a agir como se nada tivesse acontecido-falei meio chateada.
Eles ficaram me encarando. Acho que não esperavam que eu, que tinha parecido meio preconceituosa, estivesse na mesma situação de que eles.
-Sabe, as vezes é complicado mesmo de aceitar essas coisas. Dá um tempo para ela que eu sei que ela vai enxergar a verdade. Se não, da um pé na bunda dela que ela não mereci a seu amor querida.-o Matheus falou e em seguida sorriu para mim.
-E não esquece que agente sempre vai estar aqui- Sara- Para qualquer coisa ouviu?
Ela me deu um olhar estranho que eu podia jurar era meio provocador. Nessa hora aconteceu uma coisa mais estranha ainda : eu senti um arrepio pequeno percorrer a minha espinha. Lembrei da Alice no mesmo segundo e não sei por que me senti um pouco culpada com aquilo. O que estava acontecendo?
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