Liila Forever
1 Lagoa Santa - GO
Quando eu tinha 11 meus pais resolveram se separar, e como quem sairia de casa era minha mãe eu viveria com meu pai, na hora que eles disseram que se separariam eu achei o máximo, pois as brigas acabariam, mas quando parei pra pensar vi que não era tão bom assim, eu viveria longe da minha mãe e mesmo morando junto com meu pai viveria longe dele também.
Minha mãe foi embora e eu passei o dia todo trancada no quarto chorando, não foi muito difícil me adaptar, mas foi estranho, fiquei 3 anos sem ter contado nenhum com a minha mãe e quando já estava quase completando 4 anos ela resolveu aparecer, quer dizer ligar, eu mal falei com ela, mas quando ela desligou meu pai disse que precisava conversar comigo, logo pensei, \"que merda, eles vão voltar e depois de uma semana as brigas vão voltar, não vai mudar nada.\"
Passei o dia no quarto deitada pensando em como o meu pai me achava uma estranha, e eu era, morava lá desde quando nasci e não falava com ninguém, não tinha amigos, não me encaixava em lugar nenhum, nem com os cdfs, cada manhã era uma tortura, ter que levantar e ir para aquele lugar onde eu não falava com ninguém e todo mundo vivia falando de mim sem nem me conhecer, na verdade eu não dava muita bola pra isso, mas mesmo assim era ruim, eu não fazia nenhuma questão de ter amigos ali, mas era meio chato estar sempre sozinha.
Por um milagre naquele final de semana o meu pai estava em casa, e quando deu umas quatro horas da tarde ele me gritou e disse que agente precisava conversar, eu levantei e desci, quando cheguei na sala ele já começou — \"Lilian agente precisa ter uma conversa séria.\", eu já sabia que não era coisa boa, ele me chamou de \"Lilian\" e depois disse \"conversa séria\", eu já tinha certeza de que eles voltariam e o inferno voltaria a ser o mesmo, sentei no sofá e disse fala.
- Sua mãe resolveu voltar pra Goiás. — Eu nasci em Lagoa Santa — GO, uma cidade agora com 1.346 habitantes.
Eu nem acreditei quando ele disse, fiquei sem responder nada, só olhando pra cara dele, e ele continuou a falar.
- E ela vem pra te buscar. Nossa quando ele disse aquilo eu quis acreditar menos ainda.
- Como assim ela vem pra me buscar? Vocês dois só podem ta ficando loucos. EU NÃO VOU. — gritei e subi correndo pro meu quarto.
Eu não tava acreditando que aquilo tava acontecendo, tava passando muitas coisas pela minha cabeça eu nem acreditava que pensava naquilo, mas talvez fosse bom ir morar com minha mãe, talvez eu deixasse de ser a estranha e tivesse amigos, é eu tava mesmo pensando naquilo, mas o que mais me assombrava era que podia ser pior que em Lagoa Santa, pelo eu já conhecia tudo aqui e mesmo que não falasse com ninguém já conhecia o jeito de todo mundo, minha vida viraria um inferno, pior que o de antes.
Resolvi ficar no quarto até a hora de dormir, acabei dormindo sem nem ver a hora e quando acordei no outro dia ainda era cinco da manhã, fiquei deitada até dar cinco e meia, me levantei tomei banho e me arrumei pra aula, foi a mesma bosta de todos os dias, cheguei em casa e dei de cara com a minha mãe sentada no sofá e logo que entrei meu pai veio da cozinha e parou na porta da sala, minha mãe se levantou e me abraçou, continuei do jeito que eu tava e quando ela me largou meu pai disse, senta precisamos conversar, e eu respondi, não quero conversar, e subi, quando estava no meio da escada minha mãe disse:
- Lila não vai adiantar fugir, uma hora agente vai ter que conversar, se trancar no quarto o dia todo não vai adiantar, ou ficar se excluindo e vivendo sozinha não vai te fazer bem, se você não ta feliz aqui, talvez as coisas melhorem em outro lugar. — Eu até ia subir sem dizer nada, mas não aguentei, comecei a gritar que nem louca.
- Eu não to fungindo de nada, agente não tem o que conversar eu já disse que não vou, e eu não fico me excluindo não fala o que você não sabe, e se eu não to feliz aqui, pode ter certeza que vou ficar pior se estiver em outro lugar com você.
Subi pro meu quarto e passei o resto da tarde lá, eu tava morrendo de fome, mas não desci, sabia que eles ficariam me enchendo, dormi morrendo de fome, e acordei umas duas da manhã com a barriga roncando, desci pra comer alguma coisa e vi meu pai dormindo no sofá, imaginei logo que minha mãe estivesse dormindo no quarto dele, então peguei dois pacotes de bolacha e subi correndo, comi um e coloquei o outro na mochila, e coloquei o celular pra despertar as cinco da manhã, voltei a dormir e quando foi as cinco o celular despertou, tomei banho correndo e saí de casa as seis da manhã e deixei um bilhete na sala, dizendo que tinha ido pra escola.
Quando cheguei em casa minha mãe tava sentada no sofá e meu pai sentado na escada, entrei e não tinha pra onde correr, logo meu pai já disse, senta pra gente conversar, sentei no chão encostada no sofá, e meu pai começou:
- Lilian, você não é mais uma criança, você já tem 15 anos então haja como uma pessoa de 15 anos e não como uma de cinco, para de ficar fazendo pirraça, de tudo gritar e nunca entender nada, você sabe que esse tipo de atitude pode te prejudicar muito. Você precisa ir morar com a sua mãe, você querendo ou não, eu vou ter que sair da cidade por causa do meu serviço e você não pode ficar aqui sozinha, e se você for morar com a sua mãe as coisas podem melhorar, você vive sozinha, sem amigos isso não é saudável, você vive trancada aqui dentro, você precisa de amigas, você precisa sair. — Eu não tinha nada o que dizer, mas como não tava afim de ficar ali ouvindo disse:
- Façam o que quiserem, pra mim tanto faz. — Eles logo perguntaram se eu tava afim de ir e começaram a falar um monte de coisas e eu nem dei bola só perguntei que dia que ela iria e ela disse que em dois dias, era só ir lá na escola pra conseguir a minha transferência.
Fui almoçar minha mãe e meu pai tinham saído então fiquei na sala assistindo, nem tava prestando atenção no que tava passando eu só ficava pensando em como eu podia ter aceitado ir morar com a minha mãe sendo que eu nem sabia onde ela morava, eu tava fazendo de tudo pra não pensar, mas não dava, fiquei a tarde toda ali, e quando eram umas sete da noite eles chegaram e minha mãe disse que faria uma macarronada, continuei deitada no sofá olhando pra tv, fingindo prestar atenção no que tava passando, e meu pai ficou sentado no outro sofá olhando pra mim, aquilo estava me incomodando, levantei e disse que iria tomar banho, tomei banho e fiquei lá no quarto no computador, eu não tinha amigos na rua, nem na escola, mas conversava com pessoas pelo msn, sei que é meio estranho uma pessoa sem amigos ter msn, mas eu só tinha pessoas que eu nem conhecia e nem uma era de Lagoa Santa, não demorou muito e minha mãe me chamou pra jantar, desliguei o pc e desci, quando cheguei na cozinha os dois estavam sentados a mesa, e tudo me lembrou como eram as coisas antes, eles brigavam muito, mas as vezes eu sentia falta de sentar na mesa junto com eles, nossa fazia tanto tempo que eu não comia a comida da minha mãe, quando levantei a cabeça, eles estavam me olhando com um sorriso eu nem retribui, só abaixei a cabeça e continuei comendo, apesar de sentir falta daquilo as vezes, aquela ceninha de família feliz estava me enchendo, e eu comecei a comer rápido pra sair logo dali, quando eu menos espero a minha mãe se levanta e sai, quando eu olhei ela voltou com um bolo de chocolate, eu até queria terminar de comer e subir logo pro quarto antes que eles começassem a querer conversar, mas aquele bolo estava me chamando e eu comecei a querer terminar logo a comida, pra poder devorar aquele bolo, acabei de comer e minha mãe já tinha tirado um pedaço enorme de bolo pra mim, eu sabia que se eu continuasse ali eles iriam começar, mas eu precisava comer aquele bolo, não demorou muito e minha mãe começou:
- Eu tenho certeza que você vai gostar de São Paulo... — eu a interrompi e perguntei:
- São Paulo? Você mora em São Paulo? Como assim? — eu não tava acreditando, eu até achava São Paulo uma cidade interessante, mas não sabia se tava preparada pra morar em São Paulo.
- É eu moro em São Paulo, e você também vai morar lá, o que foi não gosta de lá?
- Como vou gostar se nunca fui pra lá? Que pergunta idiota.
- Ta calma, perguntei sem pensar, mas não se preocupa eu sei que você vai gostar.
- Se eu fosse você não teria tanta certeza.
- Teu pai te contou que conseguimos sua transferência e nós vamos embora amanhã? — Eu levantei da cadeira e gritei:
- Como assim amanhã? Você nem me deu tempo de arrumar nada.
- Não se preocupe agente só vai de tarde, você vai ter tempo o suficiente para arrumar suas coisas. — Nem terminei de comer o bolo, subi pro meu quarto sem nem pensar, eu tava com tanta raiva por não terem me contado nada e pelo meu pai ter ficado o jantar todo quieto sem dizer nada, ele não podia me deixar ir embora sem nem falar comigo direito, que pai que era ele, aquilo tudo estava me atormentando, comecei a enfiar minhas roupas tudo na mala, e quando vi meu guarda-roupa estava vazio, resolvi arrumar o resto das coisas no outro dia, escovei os dentes e fui dormir, quando acordei, já era nove da manhã, e eu levantei desesperada achando que tinha perdido o horário da escola, e só depois fui lembrar que não iria mais pra lá, aquilo era um alívio, mas mesmo assim eu tava preocupada eu iria pra uma escola onde eu não conhecia ninguém, e sim faria diferença, em Lagoa Santa eu estudava com aquele povo desde pequena e em São Paulo eu não conhecia ninguém além da minha mãe. Desci e meu pai estava em casa, tomei café e voltei pro quarto pra terminar de arrumar as coisas, quando era meio dia e pouco já tinha terminado, então desci e avisei que minhas coisas estavam prontas, de repente meu pai começou a falar que me amava e que mesmo agente estando longe ele me amaria do mesmo jeito, e que assim que ele pudesse ele iria em São Paulo me visitar, ele me disse coisas que minha mãe não disse quando foi embora, mas achei melhor nem pensar nisso, fui tomar banho e desci pra almoçar, almoçamos e ficamos na sala assistindo tv, minha mãe levantou e foi tomar banho e pediu pro meu pai por as malas no carro, ele nos levaria até o aeroporto e de lá eu seguiria viagem com minha mãe e mais um monte de desconhecidos, meu pai logo se levantou e foi, resolvi subir pra me trocar e ajudei meu pai com as malas, minha mãe saiu do banho e já estava pronta, disse que se eu quisesse pegar algo que eu não tinha pegado ou ver se tinha esquecido algo era pra eu ver logo para não nos atrasarmos, eu já tinha pegado tudo então entramos no carro e fomos, chegamos lá e ficamos conversando um pouco dentro do carro, logo minha mãe desceu e eu e meu pai também, pegamos as malas e entramos no aeroporto, ficamos um bom tempo calados e alguns minutos antes de entrar no avião meu pai me abraçou e disse que me amava e eu disse o mesmo, entramos no avião e eu estava apavorada, mas não era medo de altura, mas viajar só com a minha mãe me assustava.
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