Lightweight.
35 Backseat.
Notas iniciais
"I throw you up against the wall, we've seen it all before"
Dois integrantes da equipe de Poseidon saíram para comprar comida para Nico e Ethan enquanto Poseidon se trancava em seu escritório. Eu e meus primos adentramos a casa do meu sogro para conversar e comer.
Minha mãe estava radiante, feliz, quase pulando quando disse que iria fazer uma fornada de cookies. Sentamo-nos na sala principal com cafés diante do clima ameno que fazia lá fora.
Encolhi-me em minha jaqueta enquanto Luke verificava as horas.
– Será que Kaya vai demorar?
Thalia bufou.
– Não acredito que você ficou aqui para vê-la.
Luke revirou os olhos.
– Não é da sua conta.
– Isso... – pigarreei – Entre vocês está sério?
Meu primo mordeu o canto da boca, bebericando seu café logo em seguida.
– Eu falei sério sobre uma quase-noiva.
– Vocês estão noivos?! – Thalia gritou, colocando sua xícara na mesinha de centro
– Não! Ainda não.
– Luke! – Thalia continuou falando alto – Você viu aquela garota quando ela tinha, sei lá, seis, sete anos?
– É, eu sei. Eu coloquei isso em minha cabeça quando a vi no Rise, pode ter certeza.
– No Rise? – perguntei, aprumando-me ao lado de Thalia, ambas inclinadas em sua direção – Por que lá?
Ele passou a mão pelo rosto, dando um sorriso nervoso.
– Você não viu o vestido que ela estava? Poderia deixar qualquer homem louco.
– Ah, faça-me o favor! – minha prima afastou-se – Está escrito em sua cara que não foi por isso. É algo com o caso. A delegacia.
Ah. O fato de Kaya ser uma mercenária. Luke sabia disso e ele soube daquilo no Rise, estava na cara dele.
Eu troquei um olhar com ele, apenas para ter certeza que era sobre aquilo, em seguida, encostei-me contra o sofá, sentindo-me um pouquinho mais relaxada por não ser a confusa e a bobalhona da ocasião.
Thalia nos olhou, com a boca entreaberta.
– Ah, não! O que vocês sabem que eu não sei?
– Nada. – respondemos juntos, rindo em seguida
– Nossa! Somos o melhor trio do esquadrão, eu salvei vocês da guerra daquele velho e vocês me tratam assim?
– Sim, Thals, você merece um troféu por ter falado daquele jeito com o diretor supremo da CIA.
– Que já foi nosso avô. – lembrou
Luke deu de ombros, coçando a nuca.
– É, foi. – soltou um suspiro pesado e focou os olhos em nós – Eu sinto falta dele, sabe. Vez ou outra, quando participamos das rondas, passamos pela casa dele e... Eu sinto falta de pedir conselhos.
– Sinto falta dos jantares dele. – sussurrei, abraçando-me – Ele saberia o que fazer caso tudo isso estivesse acontecendo. Ele me daria uma luz em meio a tudo isso.
Pelos movimentos de minha prima, ela não queria ter aquela conversa. Não queria detalhar o que sentia falta do vovô e pelo que conhecemos dela, apenas a deixamos em silêncio quando ela desfez o coque e o refez rapidamente.
– Não mudem de assunto. O que a Kaya estava fazendo no Rise? Como você descobriu? – apontou para mim – E por que eu não sei?
– Você não vai descansar, não é? – perguntei com um meio sorriso
– Não sei porque me pergunta isso. Desembuchem.
– Ela é uma mercenária. – Luke sorriu, inseguro – Eu sei, péssimo tipo de mulher para pedir em casamento.
– Não tente desviar de assunto. – minha prima rugiu
– Ok, desculpa, querida e majestosa prima. Ela estava resolvendo um caso no Rise, pegando uma informação, pelo que me disse. – ele abaixou o tom de voz – Não que eu acredite nela.
– Então, você quer se casar com uma mulher em que não confia? – retruquei
– Eu confio nela. – disse, parecendo insultado – Só não acredito. É diferente.
– Olhe para o casamento de Annabeth, sem ofensas. Trate de mudar isso logo. – Thalia mandou – E como descobriu isso?
– Annie só se casou com o cara errado. Percy? – ele bufou – Sempre soube que ele explodiria uma hora e eu sempre disse que ele era da família errada.
– Não posso voltar no tempo e pela milésima vez, eu não sou casada com ele.
– Pura idiotice, aliás. – Thalia cruzou os braços – Continue.
– Ela apareceu nas investigações, digo, Kaya. – minha prima franziu o cenho junto comigo – Nosso contato no grupo de Jay a viu dezenas de vezes com outros capangas que faziam parte da quadrilha de Jay.
– Como você sabe que ela não está com ele?
– Porque Jay quer a cabeça do irmão dela. E ela pode ser uma louca deslavada, mas ama e defende o irmão com unhas e dentes.
– Eu que o diga. – revirei os olhos, fazendo Luke rir
– É. Então, eu meio que a prendi por mentir em um depoimento e ela meio que me bateu e nós meio... Bem, brigamos e daí eu a convidei para jantar.
– Nossa. – eu e Thalia resmungamos juntas
– Uma bela história de amor, é, eu sei. Mas ela é encantadora.
– Quando não quer me odiar, claro. – dei de ombros
– Ela não te odeia. – Luke interviu – Ela só tem ciúmes de você. Não que seja uma coisa boa.
– Está vendo? – apontei pra ele, virando-me para Thalia – Em menos de um mês, ele já a defendeu, em um ano, ele virará as costas para nós.
– Eu que o diga. – concordou
– Ah, parem de fazer charminho. O que vocês queriam? Que eu ficasse pra titia? Quero me casar, quero ter filhos e já passou do tempo pra isso.
– Você acha que ela quer se casar? – Thalia perguntou – Olha, eu tenho um filho de dez anos e sei muito bem como passar por estresse. Acha mesmo que Kaya com, sei lá, vinte e cinco anos quer passar por isso?
– Vinte e três. E ainda não conversamos sobre isso, mas posso adotar um garoto.
– Claro e quando ele perguntar quem é a mãe, você vai apontar pro Ethan.
Soltei uma gargalhada, Thalia deu um sorrisinho e Luke continuou boquiaberto.
– Eu desisto de ter uma conversa sensata com vocês.
– Ela foi sincera! – concordei
– Achei que estivesse traumatizada. Ah, deixe pra lá. Onde estão os cookies?
– Não, sério, isso foi ótimo, mas, Luke, nós te apoiamos acima de tudo. Kaya é uma boa garota quando não quer me matar. E se ela ficar longe de mim, e de minha casa, tudo certo.
Thalia assentiu.
– Bem, bem, bem longe de sua casa.
– Isso. – assenti, confirmando
Luke arqueou as sobrancelhas e crispou os lábios. Ele balançou o indicador entre nós.
– Há algo aí que eu não sei e me cheira muito mal. Desde quando Annabeth sabe tudo e nós ficamos de lado? – virou a última parte para Thalia
– Sim, isso é novidade. Acho que nossa garotinha está, definitivamente, crescida.
– Eu desisto de vocês. – ergui as mãos, voltando a pegar meu café – Realmente. – revirei os olhos
Meus primos gargalharam. Senti-me acolhida, em paz, entre eles. A raiva que havia me consumido instantes atrás pareceu uma péssima sensação que tomara conta de mim, mas que estava bem longe.
– Então... Você vai mesmo viajar para Hampshire? – Luke comentou
– Saindo uma fornada de cookies! – minha mãe gritou, trazendo uma bandeja cheia de cookies com gotas de chocolates
– Nossa, tia! Isso está com cheiro delicioso. Eu nem tomei café hoje, isso é um paraíso. – Thalia murmurou, pegando um com os dedos e sorrindo quando deu a primeira mordida – Nossa, o Ian iria adorar isso.
– Por que não o traz hoje? Daqui a uma hora, ele vai sair da escola, posso pedir para o motorista ir pegá-lo...
– Ah, não se incomode! Eu o pego pessoalmente, ele não entra no carro de nenhum estranho, mas não se preocupe, eu o trago diretamente para cá. Ele vai adorar!
– A casa está precisando mesmo de um ar infantil. E meus netos, Annie, eles vão vir?
– Muito provavelmente. – ponderei – Te disse? Devolvi o carro de Paris.
– Ah, finalmente! – minha mãe bateu palmas – Eu estava pronta para tirar todo meu dinheiro e dar um novo carro para ele.
– Por isso que eu agradeço que meus pais morem tão longe. – Thalia revirou os olhos – Está vendo, majestoso primo? Avós é tudo que atrapalha uma educação.
– Não fale isso, Thalia. – minha mãe cruzou os braços
– Ela está certa, mãe. Céus, você mima muito aqueles garotos.
– Meus pais estão na Carolina. Não vou ter problemas com isso.
– Claro que vai. – Atena revirou os olhos – Vai ter problemas comigo. Imagine mais um bebezinho rondando pela casa com aquelas bochechas gordas! Kaya não está grávida, está?
O rosto de Luke ficou vermelho como um tomate, ele desviou o olhar, cutucando os cookies.
– Bem... Ainda não.
– O relacionamento está sério, então? Ainda bem que ela largou daquele namorado misterioso. Ninguém o conhecia antes. Acho que era só uma aventura.
A notícia fez meu coração perder algumas batidas, até Thalia pisou no meu pé para ter certeza que eu havia entendido. Não me mexi. Luke afastou alguns fios que caiam em sua testa, franzindo o cenho.
– Namorado misterioso? Antes de mim?
– Acho que não deveria ter dito isso. – minha mãe colocou dois dedos sobre os lábios, procurando por nossa ajuda, desviei o olhar
Queria gritar com ela. Kaya estava longe de Paris. Meu filho iria superá-la e meu primo seria feliz. Eu tinha certeza que Paris já havia superado tudo aquilo. Talvez com um calo no pé, mas tudo iria ficar bem, no final das contas.
– Como você sabe, tia? – Luke voltou a perguntar
– Ah, ela sempre dizia. Mas acho que deve conversar isso com ela. Não era nada sério, tenho certeza. Só alguém que ela via ocasionalmente.
Luke mordeu o lábio inferior.
– É. Vou ver como os caras estão lá fora.
Meu primo levantou, deixou a xícara vazia ao lado da bandeja e saiu. Minha mãe passou a mão pelos seus cabelos grisalhos.
– Céus, eu sempre falo a coisa errada.
– Na hora errada. Não se preocupe, eles vão resolver isso. – murmurei
– Claro que vão. Casal feliz. – Thalia resmungou – Não concordo que ele fique com a Kaya.
– Nós não definimos a vida dele. – retruquei
– Se pudéssemos, ele casaria com uma jornalista, amiga minha.
– Mia?
– Waldorf, sabe quem é?
Balancei a cabeça.
– Conheci no iate. Ela é sua amiga?
– Aham, jantamos juntas algumas vezes. A empresa do meu cliente foi roubada, grande mistério a parte, ela foi me entrevistar e acabamos saindo juntas.
– E deixando a melhor prima do mundo de lado?
Thalia arqueou a sobrancelha, com a boca cheia, fazendo minha mãe rir.
– Bem, Mia não tem um maníaco atrás dela, não vive trancada em casa e tem uma vida...
Arregalei os olhos diante do que ela havia dito. Sabia que não deveria ter me sentido atingida por aquilo e parte de mim, gritava aquilo, mas ouvir aquilo de minha melhor amiga me fez perceber o quão distante eu estava de todos que eu amava.
– Sinto muito. Você sabe que eu falo as coisas sem pensar. – Thalia soltou uma risadinha e bateu na própria testa – Me desculpe, de verdade.
Sorri, dando de ombros.
– É, ela realmente não tem. Isso não é um problema, é?
Thalia limpou os cantos da boca e deu um suspiro pesado, verificando o relógio.
– Vou precisar pegar Ian agora. Quer vir?
Pisquei e sorri.
– Acho que vou ficar aqui. Dar uma olhada como Nico e Ethan estão se saindo.
Thalia arqueou a sobrancelha para mim, respirou fundo, como se pensasse no que falar, em seguida saiu.
Fechei os olhos, tentando afastar aquelas palavras de minha mente.
***
Havia um dia que estávamos ali.
Os jardins de Poseidon lembravam os meus, exceto pela falta de flores. Lembrava-me do almoço onde o conheci. Havia mesas ao redor, uma grama aparada e verde, além de uma piscina no meio de tudo como se quisesse provar que havia soberania ali.
– Ok. Vamos começar de novo.
Percy soltou a respiração, como se quisesse ser paciente.
Havia uma pequena plateia escondida atrás de mim e eu tinha muita noção disso.
Luke estava se escondendo na porta da cozinha junto com Kaya, Liv estava tentando ver pela janela e Poseidon sorria da janela do andar de seu escritório. Perguntei-me a que momento Thalia irromperia da sala e riria.
Paris engoliu em seco, afastou-se levemente do pai e passou a mão pelo rosto suado.
Percy havia tido uma incrível ideia sobre defesa pessoal. Paris pediu para ir a uma festa no final de semana, todos nós fomos contra, dissemos veemente que eles deveriam ficar perto dos seguranças que Poseidon nos mandou e evitar lugares onde pessoas poderiam se disfarçar facilmente, no entanto, Paris é um adolescente com um pavio bastante curto e como Percy tentou ficar ao lado dele, decidiu que aulas sobre defesa pessoal – como o pai dele o deu quando ele era mais novo – seria uma boa lição para esvaziar a cabeça de Paris e o deixar mais relaxado.
Não estava concordando com isso agora, mas ainda sim, me mantive sentada.
– Foco em mim! Está me entendendo?
– Não sou a porra de um surdo, pai.
Percy fingiu socar seu queixo.
– Olhe o vocabulário, garoto.
Eles estavam perto o suficiente para eu ouvir a conversa e perto o suficiente caso eles se batessem até sangrar.
Paris projetou um soco para a barriga de Percy, ele empurrou-o até que Paris estivesse apenas cambaleando.
– Não invista até ter certeza que pode se defender.
Ele bufou.
– E se ele tiver uma arma?
O pai ergueu os ombros.
– É melhor você não mijar nas calças.
Paris voltou a investir, Percy defendeu, bateu em sua coxa com um chute e voltou a se afastar. Tinha absoluta certeza que Paris estava se irritando e que não demoraria muito para ele extravasar tudo no pai.
Fiz uma careta quando Percy o derrubou mais uma vez no chão.
– Você não quer me machucar porque sou seu pai ou o quê? — ele ajudou Paris a se levantar — Desde quando se tornou tão fraco?
– Só estou cansado.
– O inimigo não quer saber se está fraco, cansado ou... Own, você ainda está de coração partido. Você quer cantar, então? Quer virar High School Musical?
Paris grunhiu, afastando alguns fios da testa.
– Qual o seu problema?
– Levanta. — Percy se afastou e ergueu os punhos em forma de ataque — Quem é a garota?
Paris não respondeu. Segurei a respiração quando ele avançou, socando os braços firmes de Percy que afastou-se, defendeu seu rosto e continuou fingindo.
Senti duas presenças ao meu lado. Olivia se sentou e cruzou os braços.
– Por que ele não me chamou pra lutar?
– Você cairia no primeiro soco. — Kaya resmungou ao meu outro lado
Ela prendeu os cabelos e suspirou.
– Você não vai fazer nada? — sussurrou
– Ele ainda não passou do limite.
Olivia fez uma careta, Kaya continuou impassível com as pernas cruzadas e o rosto sério, percebi porque ela era uma mercenária.
Percy tinha acabado de derrubar Paris bem a nossa frente novamente e tinha um sorriso no rosto.
– Quem é a garota?
– Dá pra calar a porra da boca?
Percy gargalhou. Franzi os lábios, preocupada, Paris levantou. Irritado.
– Você vai deixar isso acontecer? — Kaya murmurou
Virei-me para ela.
– Você vai?
Ela franziu os lábios e se manteve séria enquanto Percy erguia os braços, desviava de um soco de Paris e agarrava seu pescoço em uma gravata.
Levantei-me. O movimento tirou a atenção de Percy que afrouxou o aperto, balançou a cabeça e deu duas batidinhas na costela de Paris.
– Controle sua raiva. Sintonize-a. Sua raiva só torna tudo mais engraçado, Paris. Foque em mim, garoto.
– Por que ele está fazendo isso? — Olivia perguntou, o tom de voz preocupado
– Ensiná-lo a se defender.
– E por que ele não me ensina?
Kaya bufou.
– Liv, por favor. Você precisa do seu pai até pra ir a esquina.
– Porque ele nunca me deu autonomia! E você sabe disso!
Suspirei.
– Falamos sobre isso depois. — resmunguei de volta
Paris fechou os olhos e respirou fundo. Percy ainda tinha aquele sorriso esnobe no rosto que me fazia ter raiva e tinha certeza que tinha o mesmo efeito em Paris. Finalmente, ele abriu os olhos. Os movimentos deixaram de ser bruscos passando a ser lentos e ofensivos, mas fortes. Percy agarrou o braço dele no ar e antes que pudesse pensar foi derrubado por sua perna. Dessa vez, Paris riu e eu tive vontade de pular. Antes que ele pudesse comemorar, Percy o derrubou e em seguida, os dois estavam rolando na grama.
Soltei um suspiro de alívio.
Olivia estava sorrindo e Kaya estava boquiaberta.
– Você sabia o que ia acontecer. — acusou
Dei de ombros.
– É minha família. Claro que eu sabia. – forcei-me a me manter confiante, embora eu não tivesse muita certeza se era verdade.
Levantei e forcei minhas pernas a andarem em direção a um Paris que ajudava o pai a levantar.
– Se você treinar mais um pouco, pode ficar melhor que eu.
– Se você inventar de treinar, eu fujo de casa.
Percy fingiu considerar e eu soquei seu braço.
– Sou um saco de pancadas ultimamente. Na verdade, estou precisando de muitos quilos de gelo.
– Por que Paris pode treinar e eu não posso?
Paris revirou os olhos, tirando sua camisa suada do corpo.
– Cale a boca, pirralha.
– Estou falando sério!
– Você não iria aguentar o primeiro golpe. — Percy resmungou, franzindo o cenho para ela — E não tente argumentar contra isso, garota.
– Você está sendo um bruto!
– Own! — Paris beliscou as bochechas dela
– Paris! Vocês dois estão sendo uns idiotas sobre isso. — argumentei, embora estivesse prendendo uma gargalhada
– Mãe! Você deveria me defender!
Sorri. Paris voltou a mexer em seu cabelo devidamente arrumado em uma trança enquanto Olivia tentava se defender, batendo em sua mão. Percy gargalhou, dizendo como ela estava linda no penteado, beliscando sua costela. Em seguida, Paris agarrou-a pelas pernas e a jogou pelo ombro.
– Paris! Seu... Seu... Inútil! Me coloque no chão agora! Pai! Mãe!
Eu e Percy rimos enquanto vimos Paris ameaçá-la jogar na piscina. Seus gritos histéricos me fazia lembrar os bons tempos.
Percy passou a mão pelo cabelo, olhou por cima do ombro e acenou para o pai que acabava de fechar as cortinas, escondendo-se em seu próprio território novamente. Tentei procurar Luke, mas não vi nada, além de uma pequena luz na cozinha, até Kaya havia sumido.
– Acho que deveria ensinar à Olivia também.
Percy revirou os olhos.
– Eu faço o que fiz com Paris porque sei que ele vai aguentar. — sua mão se apoiou em minha lombar enquanto deixávamos Paris e Olivia gritando ao redor da piscina — Olly? Ela está mais preocupada em saber o limite do cartão.
Bufei, contrariada.
– Isso é ridículo. Olivia tem tanto potencial quanto Paris. Você sabe que ela é trilhões de vezes mais corajosa que ele. Deveria ensiná-la.
– Ou então, o quê? — Percy resmungou, tirando duas garrafas de água da geladeira — Você vai colocar uma arma na mão dela, visitar alguns gangster e dizer que ela pode tudo?
Engoli em seco.
– Onde quer chegar com isso, Percy?
Ele fechou os olhos, deu grandes goles e suspirou.
– Sinto muito, não queria dizer isso. Sério. Eu só... Eu sei que, se precisar, Paris vai estar bem atrás de mim, entende?
– Por que acha que eu ou Olivia não estaríamos bem atrás de você?
– Annie! Eu confio em você. Confio minha vida a você.
– Ah, claro, mas não confia em mim para te defender.
– Não vai brigar por mais uma... Mais uma bobagem, vai?
Percy deu um sorriso calmo e segurou meu rosto entre suas mãos. Em seguida, depositou um selinho leve em meus lábios.
– Eu confio em você para tudo, meu amor. Eu só acho que deveria preparar Paris do jeito que meu pai me preparou, sabe? Pai e filho. Além do mais, achei que ele me contaria quem foi a garota que massacrou seu coração. Talvez seja nossa futura nora.
Fiz uma careta de nojo, emitindo um som estranho.
– Definitivamente não.
– Está vendo? Desde quando você sabe das coisas?
– Eu, definitivamente, me recuso a responder e ouvir isso novamente. Agora, vá tomar um banho, seu nojento.
Percy riu, tentando agarrar meu corpo contra o dele novamente, afastei-me empurrando seu braço. Ouvimos gargalhadas atrás de nós, virei-me, vendo parte do corpo de Olivia molhado.
– Eu odeio você!
– Um para Paris! — meu filho gritou, fingindo dançar — Ei, mãe! Eu arrasei, não é?
– Totalmente.
– Olivia arrasa? Ah, claro que não! Porque o pai machista dela não a deixa entrar nas brigas de homem. Brigas de homem. Ridículos.
– Você precisa de um banho. — Percy piscou, agarrando seu nariz em um gancho com os dedos — Um banho, uma viagem...
– Cale a boca.
– Olha o respeito, garota. — ele empurrou seu ombro
– Saudades quando conhecíamos o nome da palavra respeito, não é, Paris? — insinuei
– Preciso tomar banho, linda família! Nos vemos no jantar.
– Nunca vi uma pessoa tão feliz depois de levar uma surra. — Olivia sussurrou para nós
– Vou te jogar na piscina de novo, pirralha!
– Vai se foder!
Abafei um sorriso.
– Ok, desculpa. — ela soltou um suspiro pesado, voltando pra sala
– Vou ver como Nico está lidando com a senha. — avisei
– Vou tomar um banho. Urgente. Depois vejo se meu pai tem mais ideias, se deixou passar algo.
– Me chama.
– Aham.
Percy começou a andar e parou logo em seguida, virando-se para mim com um sorriso radiante.
– Eu te amo, sabe disso?
Estreitei os olhos.
– O que você fez?
Ele riu, deu de ombros e se afastou. Respirei fundo, procurando voltar para a seriedade que eu possuía antes, andando firmemente para fora da casa onde ainda havia dois carros pretos estacionados a cinco metros de distância da van.
Assim que abri, pude ver Ethan cantar Firework em um tom desafinado. Nico xingou e revirou os olhos para mim.
– Prefiro trabalhar uma semana sozinho nisso do que ouvir Ethan cantar mais uma vez.
– 'Cause baby you're a fiiiiirework, come on...
– Morre. Por favor, alguém mata esse ser.
– Ok, Ethan? Por favor, você não é Katy Perry. Está mais pra... Sei lá, Ed Sheeran, talvez?
– I'm thinking bout how, people fall in love in mysterious waaaaays!
– Annabeth, eu te odeio.
– Eu vou virar cantor.
Arqueei as sobrancelhas e soltei um suspiro, puxando uma das cadeiras para ficar entre eles.
– E então, onde estamos?
– Mesmo lugar. — Nico murmurou
– Um pouquinho mais pra frente. Achamos que a senha vai ser quase impossível de ser decodificada. Então, imaginamos que você possa ter uma ideia dela.
– Nada. — encolhi os ombros — Não conte comigo.
– Bem, só temos a você a quem contar. — Nico olhou por cima do ombro — Ninguém conviveu tanto com seu pai quanto você e sua mãe, além de termos certeza que ele não escapou nada para sua mãe.
– Como tem tanta certeza?
Ethan bufou, espreguiçando-se e colocando um dos braços em meus ombros.
– Se ela soubesse, Poseidon saberia, então, loira, só você.
Franzi o cenho.
– Por que Poseidon saberia?
– Seu pai não era um idiota. — Nico se virou para mim — Sua família era próxima da Jackson, então seria ridículo se ele não soubesse. Então, pode começar a pensar em alguma coisa, palavra ou sei lá que ele tenha te dito.
– Ele me disse muitas. — retruquei, com raiva
– E antes de morrer? Ele sabia que iria morrer, certo?
Engoli em seco. Apertei a cadeira embaixo de mim, foquei no ruivo do cabelo de Ethan e no ruído dos computadores.
– Ele, basicamente, me pediu para fugir.
Ambos os olhares estavam focados em mim, como se eu pudesse desmaiar. Os olhares de Nico eram penetrantes, procurando algum erro, como se ele tivesse culpa de algo.
– Onde está Thalia?
Fiquei agradecida por ele ter mudado de assunto.
– Foi pegar Ian.
– Alguém foi com ela?
Dei de ombros.
– Seria impossível sair daqui sem alguém no nosso encalço.
Ethan sorriu e deu batidinhas em meu ombro.
– Soube que teve uma briga no quintal.
Nico sorriu.
– Não quero saber se tem câmeras lá atrás.
– Não queira. — ele retrucou
Ethan bufou, segurou meu rosto com força, dando um beijo em minha bochecha.
– Annabeth, você é, oficialmente, a melhor esposa do mundo. Por que não casa comigo?
Revirei os olhos.
A porta se abriu, revelando um Percy irritado.
– Se ela não se casou comigo, óbvio que ela não se casará com você.
– Eu estava pensando na proposta dele. — pisquei para o ruivo
Ethan piscou, confuso e cruzou os braços.
– Desde quando você – apontou para Percy, sério – ouve as conversas atrás da porta? Que falta de educação.
Percy arqueou a sobrancelha, mil vezes ameaçador. Seu cabelo estava molhado, gotas deslizavam sobre seu pescoço e caiam na gola da camisa, e a bermuda pareceu ser colocada às pressas.
– O que veio fazer na batcaverna, Robin? — Ethan girou na cadeira
– Tirar minha mulher das suas mãos, basicamente.
– Nossa, estávamos nos dando tão bem.
– Não podem ficar aqui? — Nico perguntou — Se eu ficar mais um segundo com Ethan, acho que vou ser preso.
– Eu te ajudo a esconder o corpo, não se preocupe. — Percy resmungou e apoiou as mãos em meus ombros — Vamos?
– Eu adoraria ficar com você, Ethan. E te ajudar, Nico, mas... Preciso ir.
Percy me fez ficar em pé em um segundo e assim que fechamos a porta, Ethan voltou a cantar.
– Pelo menos, eles estão se divertindo. — Percy deu de ombros
– Você não veio aqui por isso, veio?
– Não sabia que Ethan ainda dava em cima de você. Mas, não. Meu pai quer falar com a gente.
– Ele encontrou algo?
– Aparentemente, sim.
Percy colocou um dos braços sobre meu ombro enquanto atravessávamos a casa. A porta de Olivia estava aberta, pude vê-la deitada na cama enquanto falava no celular. Paris estava na janela, encarando o jardim.
Franzi o cenho.
– Eles estão bem?
Percy lançou um olhar rápido e retorceu a boca.
– Acho que vamos ter que jantar com eles hoje.
Não respondi. Ele abriu a porta do escritório de Poseidon que exibia um sorriso cansado e empolgante ao mesmo tempo. Percy me guiou com a mão em minha lombar até que ambos estivéssemos acomodados nas poltronas.
– Pode falar agora, pai?
– É o seguinte. — ele tirou diversos papéis da gaveta — As cartas que Annie achou me lembrou as cartas que seu pai me mandava.
Arqueei a sobrancelha, aproximando-me da mesa.
– Boa parte delas se perderam devido ao incêndio. No entanto, a Scotland mantém uma delas para identificação de letras.
– Mas se perdeu todas no incêndio...
– Assim que seu pai morreu, tivemos que conseguir algum meio de comprovar que o testamento que ele renovou era verdadeiro. Então, dei uma das cartas que ele me mandava para lá e tenho certeza que eles ainda a mantém.
– Tudo bem. — ajeitei-me na poltrona, um pingo de esperança ardendo dentro de mim — Isso quer dizer que podemos saber a senha.
– Isso já é um pouco difícil. Tenho medo que apenas você saiba identificar e sei que saberá quando chegar a hora.
Abri a boca para dizer que isso era uma porcaria de uma ideia e que se dependesse de mim tudo isso daria errado, perderíamos tempo, no entanto antes que as palavras saíssem da minha boca, Percy falou.
– E o testamento?
Virei-me para ele.
– Estamos com uma oportunidade incrível de saber o que diabos está acontecendo e você pergunta pelo testamento?
Percy franziu o cenho como se eu fosse uma idiota.
– É claro. Pode haver tantas coisas nele. Não só material, mas coisas que podem nos explicar porque ele decidiu morrer e não fugir com você.
– Não é o tipo de coisa que você queira saber. Ou eu. E não quero.
Percy focou os olhos em mim, analisando-me, estudando-me. Pensei em dar um tapa na cara dele, na expectativa de que ele parecesse de manter os olhos fixados em mim.
Poseidon pigarreou.
– Tudo bem, se é isso que quer. — ele se vira para o pai, sério — Onde podemos conseguir essa carta e por que você acha que ela é importante?
O mais velho franziu o cenho.
– Bem... Seu pai tinha uma maneira estranha de assinar as cartas e agora... Lembro-me que ele era muito inteligente. Toda borda de folha tem uma letra, como se fosse um aviso para si mesmo.
– Mas você não está achando que ele escreveu cartas apenas para você, certo? — Percy perguntou — Isso seria meio egoísta, além do mais... — ele respira fundo — Além do mais, deve existir mais cartas para outras pessoas.
– Sim, existe. Que não são para Poseidon.
Ele massageou a testa.
– Por isso... Teríamos que pegar o testamento.
Franzi o cenho.
– Eu não quero nada... Já tenho o suficiente, ele me deixou o suficiente. Podemos pegar o testamento, ver se tem algo e depois caímos fora.
– É isso que queremos, Annie.
– Não quero nada do meu pai. — repeti — Já tive o suficiente.
Percy ainda estava me encarando, como se fosse a coisa mais legal do mundo me ver quebrar de dentro para fora. A cada pedaço. A cada dia.
Eu podia sentir cada pedacinho de mim deslizando para um mundo infinito onde nunca mais seria encontrado.
– Você vai ter que enfrentar isso. Vamos ter que pegar o testamento de seu pai e vamos encontrar coisas que você talvez não goste, mas terá que fazer isso.
– Sei disso. — retruquei, baixinho, desviando o olhar de ambos olhos verdes que pareciam ler toda minha mente
– Então? — Percy arqueia a sobrancelha
– Eu falei com Meredith, tem uma sede em Hampshire, então o quanto antes vocês forem e houver a comprovação de paternidade. Os documentos serão dados e poderemos analisar.
– Comprovação de paternidade?
Pela primeira vez desde que diversas informações vem sendo despejados em cima de mim, Percy segura meu joelho, seus dedos acariciando-me.
– É o processo normal para que saibam que você não está mentindo e blábláblá.
– Você já passou por isso? — disse
Poseidon deu uma risadinha.
– Mais vezes do que imagina. — Percy respondeu dando de ombros — Graças ao meu querido papai e a mania de me deixar em apuros sempre que pode.
Balancei a cabeça.
– Também não quero saber nada disso.
Poseidon assentiu, embora ainda carregasse um sorriso.
– Tomei a liberdade de trocar a data, então vocês vão dois dias antes, ok?
Percy deu de ombros.
– Ok.
Permaneci calada por um tempo ambos os olhares estarem redirecionados a mim, cheios de expectativa.
– Tudo bem.
Poseidon suspirou, tamborilou os dedos na mesa e me encarou.
– Outra coisa... Pedi para Nico te ensinar alguns golpes hoje à noite. Se não se importar, claro.
Pisquei.
– Por quê?
– Acho melhor estar bem preparada, caso algo venha acontecer e Percy não possa estar ao seu lado.
– Eu....
Poseidon o calou com o olhar, deixando as costas relaxarem contra sua poltrona.
– Eu não pedi sua opinião, filho. E se Annabeth estiver disposta a treinar, tudo bem. Tenho certeza que é algo que Frederick faria bem mais cedo. Sinto muito por não ter proposto isso antes.
– Meu pai? — sorri — Ele faria isso? Ele te disse isso ou...
– Todos os pais treinam seus filhos, Annie. Estou assumindo que eu seja um tipo de pai, infelizmente, estou um pouco velho para treinar você do jeito certo.
– Não! Não se preocupe, Poseidon. Isso... Foi muito gentil de sua parte, muito obrigada, sério.
Percy bufou enquanto eu me levantava. Poseidon sorriu para mim ao mesmo tempo que eu lhe dava um abraço apertado.
– Era o mínimo que eu poderia fazer, Annie.
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