Lights In The Camp

7 De Plebeia para Princesa de um oráculo


Notas iniciais
HEEEEEY! Demorei menos dessa vez, ainda bem haha. Está aí um novo capítulo cheio de revelações, ou mais dúvidas, pra vocês. Não esqueçam de comentar, isso me ajuda muito. Beijos de luz e aproveitem PS: No próximo capítulo terá uma profecia.

Por Nico Di Ângelo:

O dia começou mal. Na verdade, os últimos dias foram de mal a pior. Mas, hoje merecia o prêmio. Enquanto eu estava praticando esgrima com Jake Mason, algo de muito ruim acontecia no meio do oceano. O dia começou comum, nada demais, os problemas vieram após as nove da manhã. Fiz minha higiene pessoal, saí do chalé, caminhei envolta do lago, conversei com alguns Lares que pareciam me adorar. Não os julgo, sou filho de Hades e convivo com eles melhor do que qualquer semideus. Tomei café da manhã e me dirigi até a Arena. Eu e Jake tínhamos esgrima todos os dias de manhã. Ideia minha, falha dele. Pois, Jake era péssimo em esgrima.

— Pô cara, eu disse direita. Não esquerda. – Disse a ele e Jake irritou-se.

— Eu já disse que não gosto dessa merda de esgrima! – Jake jogou a espada no chão e sentou-se com as mãos no rosto.

Sentei-me ao lado dele.

— Ok, eu sei que é difícil no começo. Foi difícil pra mim também...

— Não parece que você teve muita dificuldade pra aprender. Você com a espada parece o Eminem com as rimas. – Jake disse, passando a mão pelos cabelos e cruzando os braços em frente ao peito.

Fiz careta da sua comparação.

— Ah, qual é? Quantos anos você tem, cinco? – Ele me fuzilou com o olhar.

— É fácil falar quando se é um filho de Hades com uma espada de ferro banhado no Rio Estige. – Revirei os olhos para sua frase.

— Caraca, acha que aprendi tudo só por ser filho de Hades e ter uma espada do Rio Estige? – Perguntei, olhando-o no fundo dos olhos.

— Quase isso, você tem talento. – Ele levantou-se. – Acho que vou continuar com meu martelo.

— Um martelo que machuca e uma espada que corta, quem você acha que ganha? – Abri os braços em protesto, chamando-o para uma “briga”.

Estávamos discutindo, mas não era uma discussão. Eu e Jake éramos amigos há muito tempo.

— Depende de quem seja a pessoa segurando o martelo. – Jake tirou uma carteira do bolso. A carteira se desdobrou e virou um belo martelo gigante e reluzente. – E eu sou o Thor.

E eu sou Sherlock Holmes.

Revirei os olhos pra ele.

— O de araque né, só se for. – Dei um sorrisinho sem mostrar os dentes. Eu fazia muito isso. – Foi você quem pediu pra eu te ensinar, lembra?

— Lembro, mas não dá. A espada é leve, diferente. O martelo é pesado e instantâneo. – Jake virou o martelo e jogou-o no ar, dando um giro com estilo e voltando a pegar o martelo quando ficou de frente pra mim. Ri de sua performance.

— Olha só, há quanto tempo eu não ouço esse som? – Ele pôs a mão em forma de concha ao lado do ouvido, como se minha risada fosse uma raridade.

Revirei os olhos.

— Agora você acabou com o resto de som que havia. – Dei de ombros.

— Cara, você tem que rir mais. Parece até um ser humano quando ri. – Jake gargalhou e eu mandei um dedo do meio pra ele. – E quando você sorri, parece Hannibal Lecter.

Jake brincou e dei uma risada nasalada.

— Não tenho tido muitos motivos pra rir. – Olhei pra baixo, sabendo que se Jake me olhasse nos olhos, ele saberia do que eu estava falando. Jake era uma das únicas pessoas que me conhecia bem. Ou que me conhecia.

— Opa, eu vi hein?! – Jake apontou o indicador pra mim e me puxou pra sentar de novo na grama, já do lado de fora da Arena.

— Viu o quê? – Levantei as sobrancelhas pra ele e falei com um tom de: viu nada, cala a boca.

— Sonhou de novo, não foi?

— Jake Mason, você é um porre. – Dei um murro fraco em seu braço e ele gargalhou.

— Você diz isso por que eu acerto. Por que eu te conheço. Por que eu sei o quão diferente você é daquilo que todos te veem. Cara, eu já disse, Nico. Se as pessoas te conhecessem... – Jake tentou jogar essa conversa novamente pra mim.

— Se as pessoas quisessem me conhecer, não me julgariam por minhas roupas, meu jeito ou por meu pai. – Olhei profundamente em seus olhos. – O problema das pessoas é que todas acham que sabem quem eu sou. E eu cansei de querer mudar a visão delas. Deixe elas pensarem. Foda-se.

— Cara, você é diferente de todo mundo que eu já conheci. Queria que todos vissem o que eu, Percy e Annabeth veem. O que Bianca via. – Jake soltou e eu o olhei.

Ainda machuca ouvir falar sobre ela. E Jake tinha visto isso em meus olhos.

— Você quer falar algo sobre isso? Talvez comigo ou com Percy, quem sabe? A Anne pode ajudar...

— Não.

— Nico, desde que ela morreu eu não te vi soltar uma lágrima. Nenhuma se quer. – Jake virou meu rosto para eu olhá-lo. – Isso não é saudável, cara.

— E o que você quer que eu faça? Que chore como um bebê no seu ombro ou no de Annabeth e Percy? Vamos lá, eu já tenho treze anos... – Levantei.

Eu amava Jake, Percy e Annabeth, mas ninguém entendia que eu tinha um jeito diferente de lidar com as coisas?

— Você só tem treze anos, cara. – Jake bufou. – Tem que ser mais imprudente. Mais temperamental. Mais explosivo. – Jake parou por um momento. – Mais descontrolado.

— Eu sou descontrolado pra cacete. – Apontei pra mim mesmo enquanto falei.

— Nico, falei tudo isso de você e você nem alterou a voz. Nem demonstrou irritação. Só indiferença. – Jake jogou as mãos pro ar.

— Eu não vejo necessidade em te crucificar por falar o que você pensa que pode fazer bem a mim. – Baguncei meu cabelo negro.

Jake riu e levantou-se.

— A questão, velho amigo. É que o mundo devia conhecer Nico Di Ângelo a fundo. – Jake pegou seu martelo e me bateu levemente na nuca. Xinguei ele. – Por que eles estão perdendo alguém foda pra cacete.

Sorri com esse comentário. Jake era o tipo de amigo que você quer manter por perto. Ele era uma das melhores pessoas que já haviam passado na minha linha do tempo neste planeta.

— Um dia talvez, velho amigo. — Olhei pra minha espada e depois pra Jake. — Quer tentar? – Perguntei, sorrindo maliciosamente.

Jake sorriu como eu e apontou o martelo pra mim.

— Vou acabar com você. – Ele gritou e nós avançamos um no outro, tomando cuidado pra ninguém sair machucado dessa brincadeira.

Depois de golpes, golpes e mais golpes, Jake caiu no chão, seu martelo longe, nós dois suados e minha espada perto do seu pescoço. Ele suspirou, derrotado e eu ri de sua situação. Ergui o braço a ele e Jake levantou-se, sacudindo a sujeira da sua camisa. Fiz o mesmo. Tínhamos jogado o outro no chão, rolado um por cima do outro. Estávamos cansados e o pior: Jake não tinha aprendido droga nenhuma que ele já não soubesse.

— Eu vou te matar. – Bufei, mas minha expressão não mudou da de indiferença. – Perdemos dias nisso pra você não querer mais aprender.

Jake me olhou e revirou os olhos.

— Foi mal se martelos são melhores.

— Espadas são melhores. – Dei uma chave de braço em Jake.

— Vai contar ao Quíron que viu Charles Beckendorf explodir junto com um navio? – Jake me perguntou, sério. A dor em seus olhos era a mesma que eu sentia dentro de mim. Charles é uma pessoa tão boa.

— Não vai fazer diferença se for real. – Olhei pra ele. Jake talvez não entendesse sobre futuro e morte.

Eu conhecia muito bem o assunto.

— Não se pode contar a alguém que viu a morte da pessoa. É antinatural. É perigoso. – Olhei pra ele e Jake realmente não ia entender.

— Ok, você quem sabe, Rei Fantasma.

E foi a partir daí que algo deu errado.

— Percy está aqui? – Algum campista que eu não conhecia sussurrou a outro perto de nós.

Eu e Jake estávamos perto da praia do acampamento e vimos de longe uma aglomeração de pessoas na areia branca.

Mais. Que. Grande. Merda.

Jake olhou pra mim, sabendo o que aquilo significava. Era o meu presságio.

Charles Beckendorf estava morto.

...

Por Percy Jackson:

A dor na minha cabeça era lancinante. Após ter conversado com Quíron e Annabeth no pavilhão do refeitório e após a reunião desastrosa com o conselho de guerra, eu tinha sido arrastado por Will Solace até a enfermaria pra fazer um “check-up” e ver se estava tudo certo com meu corpo. Nada estava certo. Charlie estava morto e eu culpado.

Que droga!

Annabeth tinha vindo me ver na enfermaria e nós conversamos sobre os últimos acontecimentos. Perdi a noção do tempo em que ficamos conversando, não necessariamente felizes, de acordo com as circunstâncias. Mas, caramba, só de olhar pra ela, eu perdia o ar. Ela estava mais linda do que antes e eu estava um desastre.

— Eu sinto muito. – Ela disse várias vezes. Charlie tinha me ganhado como fiel amigo e agora eu o tinha perdido. Isso estava bem errado.

— Tudo bem, sinto muito por tudo o que está acontecendo. – Eu respondi, sorrindo pra ela.

— Bom, bem-vindo de volta. – Anne disse e tirou a franja loira da frente do rosto.

Pedi para ela se aproximar mais de mim e ela o fez. O que eu estava fazendo eu não fazia ideia. Pensei em citar o beijo no monte Santa Helena. Mas, acho que nenhum dos dois estava com cabeça pra ideia. Então outra coisa me surgiu.

— Há quanto tempo não lava seu cabelo? – Perguntei, já que eu adorava irritá-la.

— Você é inacreditável, Perseu. – Anne revirou os olhos cinzentos pra mim e eu ri dela.

E ai conversávamos sobre coisas aleatórias para esquecer o caos que estava nossas vidas. Trocávamos farpas de vez em quando, nada muito diferente. Voltei para o chalé e dormi com alguns pesadelos.

Como eu disse, nada muito diferente.

...

Por Annabeth Chase:

No outro dia, o acampamento estava desolado. Todos sentiam a dor de Silena e de todos os outros amigos próximos a Charles. Eu tinha ficado triste com o acontecido. Ele era tão legal e tinha se sacrificado por todos nós, ele era um herói. Fizemos uma homenagem para Charles e após isso, eu tinha ido caminhar pelo acampamento. Queria deixar Percy sozinho por um momento para que ele pudesse assimilar o ocorrido. Já tinha estado com ele, agora tinha lhe dado espaço. Escolhi ficar perto dos campos de morango. Em outro momento, eu teria ido até meu chalé e me enfurnado embaixo de uma coberta com um livro em mãos ou o laptop de Dédalo, mas preferi uma paisagem mais suave. Eu precisava assimilar tudo aquilo também. Até que senti uma mão por sobre meu ombro me fazendo virar e encarar duas pérolas azuis que eram os olhos de Will Solace.

— É melhor você vir comigo. – Will disse, seu cabelo loiro voando com o vento.

— Percy? – Perguntei, não querendo saber a resposta.

— Júlia. – Ele disse e corri com ele até o lado mais escondido do lago.

...

— O que aconteceu? – Cheguei perto de Júlia, que estava de joelhos na areia em frente à água do lago. Sentei-me ao lado dela e ela não me olhou. Apenas olhou para o horizonte. A expressão triste, mas os olhos indiferentes. Ou tentando parecer forte.

— Eu sonhei com ele. – A voz de Ju saiu esganiçada.

— Com quem? – Olhei para Will que deu de ombros e voltei a olhar pra ela. Estávamos sozinhos ali.

— Charles Beckendorf. Sonhei com ele essa noite. Ele estava num barco e explodiu o mesmo ao retirar um relógio do pulso. Vi seu rosto nas fotos da homenagem, era ele. – Ela abaixou a cabeça e a pôs entre as mãos.

Não podia ser. Como ela sabia como Charles tinha morrido se ela não havia escutado a história de Percy? Era realmente verdade aquele sonho?

— Eu não acredito. – Pus a mão sobre minha boca.

— É sério isso, Ju? – Will perguntou a ela, que o olhou com a expressão desolada.

— Sim. Eu achei que era apenas meu sonhos malucos e aleatórios ou minha cabeça querendo me assustar. Não era. Era ele. Eu juro. Eu o vi. Vi monstros e vi o terror em seu rosto para o que ele ia fazer. Vi tudo. – Julia voltou a por a mão no cabelo e a olhar para o horizonte.

— Temos que ir até Quíron. – Will disse, passando a mão de leve nas costas da morena.

— Só... Só me deem um minuto. – Júlia pediu e ficamos nós três ali. Num conforto silencioso, alisando suas costas e olhando pra ela.

Ela tinha toda razão em estar confusa e enlouquecida.

Julia estava aqui há três dias e já havia visto um fantasma, sido perseguida por Tisífone e sonhado com a morte de alguém. Nada disso era normal para um campista. Nada disso. Talvez alguém com anos de experiência em nosso mundo aguentasse essa avalanche de coisas em menos de uma semana. Mas, ela tinha apenas doze anos e estava nesse mundo há tão pouco tempo. Estava certa em desmoronar, nem que fosse em silêncio. Pois, eu e Will podíamos ver a batalha interna que ela estava travando contra si mesma e todos esses fatos. Ela estava desmoronando por dentro.

O problema é que era por dentro.

...

Júlia estava com o rosto pacífico. Olhava para algum canto aleatório da varanda da casa grande. Eu a estudava e tentava ver que emoções ela expressava. Quíron agora conversava com ela e a garota apenas assentia com a cabeça. Pelo que eu conhecia do centauro, ele não estava muito seguro de nenhum tipo de conforto que ele tivesse em mente pra dizer à ela. Quíron já tinha falhado todas as outras vezes em que tentou confortar a garota, agora ele estava mandando mal por que nem ele estava convencido disso. Sonhar com o futuro era uma coisa, sonhar com a morte de alguém era outra totalmente diferente. Esse fato tinha uma escala estratosférica de gravidade. O que as parcas tinham pensando quando estavam traçando o destino de Júlia? As três só podiam estar de mal humor, por que a garota só parecia ter uma maré de azar e de estranhezas fora do comum de qualquer outro semideus. A não ser... Nico.

Eu precisava falar com Nico.

O sonho, o que ele ia me contar...

Merda!

— Júlia, preciso resolver algo. Tudo bem se eu for? – Perguntei sabendo que não estava tudo bem. Mas, eu precisava ir, pelo bem dela e de todos. Talvez tudo aquilo significasse algo e eu não sabia ainda.

— Tudo bem, obrigada por estar comigo. – Ela sorriu, sincera.

Sorri de volta, tentando disfarçar e quando saí da vista dos dois, corri desesperadamente até o chalé 13. Subi a varanda do mesmo e bati na porta tantas vezes freneticamente que Nico abriu a porta pra mim. Seu rosto estava confuso, seu cabelo molhado e seu peito nu. Nico tinha acabado de tomar banho e eu estava atrapalhando ele. Entrei sem dizer uma palavra e ele manteve seu olhar em mim. Encarei aquelas duas íris negras.

— Sonhou com Charles, não foi? – Perguntei a Nico.

Ele parou e me estudou, com os olhos como fendas. Nico era impressionantemente controlado.

— Sim. – Ele respondeu, cruzando os braços em frente ao peito.

— Ele por acaso morria no sonho? – Encarei-o fortemente e Nico apenas passou as mãos nos cabelos negros, bagunçando-os.

— Como sabe disso? – Nico jogou as mãos pro ar.

— Por que não me disse? – Apontei o dedo indicador de mim pra ele.

— Por que não tive tempo e oportunidade. Desde a batalha, você está determinada a desvendar seja lá o segredo que você e Quíron escondem e após isso, teve sua viagem com Will até o Brasil.

Como ele sabia de tudo isso? Nico era uma espécie de gênio mutante ou o quê? Não sei por que eu ainda me surpreendia com ele, ele era indecifrável.

— Como sabe de tudo isso?

— Anne. – Ele aproximou-se de mim. – Eu sei ler pessoas tanto quanto sei viajar pelas sombras.

Eu não podia duvidar dessa afirmação.

— Charles morreu, Nico. E vocês acertaram. – Olhei para o chão, estudando meus pensamentos.

— Vocês? – Nico chegou mais próximo e aquela cena era típica de um filme de suspense.

— Júlia sonhou com a mesma cena em que Charles morre, retirando o relógio do pulso e explodindo o navio com vários monstros pouco antes de Percy retornar. – Olhei para ele, de braços cruzados, esperando alguma ideia sua.

Nico não desceu de sua pose e eu adorava isso naquele garoto.

— Quanto tempo antes? – Nico parecia achar que aquela informação seria de extrema importância.

— Na noite anterior. – Respondi e vi um rápido flash de surpresa em seu rosto.

— Bem, eu também. E isso me parece estranho. – Ele andou pelo quarto e sentou-se na cama dele.

O quarto de Nico era diferente do que se podia imaginar por aqueles que não o conheciam bem. Não havia caveiras ou caixões, como os outros campistas brincavam. Suas paredes eram brancas e cobertas de pôsteres de bandas de Rock e havia vários móveis decorando aqui e ali. Um quarto parecido com todos os outros.

— Por quê? – Voltei o olhar ao encontro dos seus, negros.

— Porque eu sonhei com Charles e sua morte de uma maneira diferente por algumas semanas. Apenas a sua imagem de cima e o barco explodindo. Nada de relógio ou monstros. E no último dia eu sonhei exatamente assim que você descreveu. – Ficamos em um silêncio profundo tentando assimilar tudo aquilo.

— Acha que tem algum propósito vocês terem sonhado a mesma coisa na madrugada do acontecido? – Passei a mão em minha franja. Meu cabelo estava sujo e um pouco oleoso e não faço ideia do porquê isso tem a ver com o assunto.

— Anne, se tivéssemos sonhado a mesma coisa, tudo bem. Acontece interligações entre campistas o tempo todo. O problema é: Porque meu sonho mudou? Eu já sabia o que ia acontecer, porque mudar um tempo antes se Júlia já estava recebendo a mensagem? – Nico teve outro flash de emoção em seu rosto, dessa vez de quase dor.

Aquilo era um sinal tão ruim?

— Vem comigo até a casa grande, Júlia está lá com Quíron. – Segurei sua mão e puxei-o até a porta do chalé quando ele me parou.

— Vou sair assim sem camisa? – Nico arqueou as sobrancelhas pra mim e eu ri com isso.

— Certo, pega uma de suas camisas pretas, sua jaqueta preta e vem logo, gótico. – Dei um sorrisinho debochado e Nico me mandou um dedo do meio.

...

Por Júlia Martínez:

Nico me encarava fortemente. Eu não entendi porque ele estava aqui, mas depois de sua descrição do sonho eu havia entendido. Seu sonho havia sido igual ao meu. E após uma longa conversa, seus olhos não me deixaram nem por um segundo. Ele me olhava como se eu fosse um bandido que ele quisesse aprisionar rapidamente.

— Perdeu alguma coisa aqui? – Perguntei a ele e o mesmo não mudou seu olhar ou expressão, apenas me lançou um sorrisinho maldoso.

— Estou tentando analisar os fatos, Júlia. – Nico respondeu, calmamente, dizendo cada palavra com precisão.

— Está tentando me analisar. – Sussurrei baixo pra ele, que estava em frente a mim, nem perto e nem longe.

— É um talento. – Nico deu outro sorrisinho e depois olhou pra Quíron que havia acabado de voltar de algum lugar que eu não havia prestado atenção.

— Quíron. – Chamei o Centauro, que me olhou com olhos doces. – Há algo mais que eu possa fazer por essa situação?

— Não temos mais nada para fazer, Júlia. Agora é só esperar e assimilarmos essa perda. – Quíron parecia triste por Charles também.

E eu não estava nada bem.

— Há algo que eu gostaria de propor aos dois. – Os olhos de Annabeth fixaram-se nos meus assim que Quíron falou.

— Ok. – Anne respondeu e Quíron olhou para ela.

— Você não, Anne. Eles. – Quíron não disse essas palavras com grosseria ou algo do tipo.

— Nós dois? – Perguntei ao Centauro que estava com a crina mais reluzente hoje enquanto Nico apenas o observava.

— Sim. Quero que subam até o sótão. Acho que está na hora de conversarem com o Oráculo. – Quíron olhou diretamente para o Cara Pálida como se o mesmo soubesse exatamente o que deveria fazer.

Nico levantou-se da cadeira de madeira e caminhou até próximo à porta de entrada da casa grande. Eu ainda não havia entrado lá dentro e com certeza não queria encontrar o Sr. D ou algo pior. Lembrei-me que desde que eu havia chegado ao acampamento não havia falado com meus pais. Bateu uma saudade...

— Quíron, quando eu vou poder conversar com meus pais? – Olhei para seus olhos castanhos.

— Na hora certa, Júlia Martínez. Na hora certa. – Quíron abaixou sua cabeça numa pequena “reverência” simpática e apontou para Nico.

Segui-o para dentro e nós pudemos ver a sala da casa grande. Ela era decorada de maneira bem interessante. Toquei em um vidrinho na estante do meu lado esquerdo e Nico segurou a minha mão, me impedindo de pegar o frasco.

— Você não vai querer tocar aí. – O Cara Pálida disse e voltou a caminhar a minha frente.

Fiquei em silêncio e segurei minha língua. Voltamos a caminhar e Nico olhou pra mim e deu um riso descrente.

— O que foi? – Perguntei, com a sobrancelha arqueada pra ele.

— Nada. É que você já foi chamada para visitar o oráculo. – Caminhamos até uma escada de madeira e começamos a subir lentamente até chegarmos ao sótão.

— Você nunca subiu lá? – Fiz cara de deboche e revirei os olhos.

— Já. – Ele retrucou. – A diferença é que eu estava aqui há meses. Você está aqui há três dias.

Chegamos e paramos em frente à entrada do sótão.

— Eu sou especial. Mas, quem sou eu perto do Rei Fantasma? – Usei o mesmo tom que o dele, na noite em que estávamos no punho de Zeus e ele foi um pouco “metido”.

Nico riu, nasalado com deboche.

— Especial no nosso mundo é ruim. – E deu um sorrisinho sem mostrar os dentes, adentrando o local.

Ok, não vou descrever aquele lugar por que era meio assustador. Meus olhos travaram ao ver uma múmia sentada em uma cadeira.

Assustador e incrível ao mesmo tempo.

Seus olhos pareciam pérolas azuis e eu não conseguia desviar de seu olhar. Ela estava estática. Dela saiu uma névoa verde e preencheu o sótão. Alguns ramos da névoa circularam por mim e por Nico e vez ou outra eu sentia uma delas perto da minha perna.

— Eu sou o Espírito de Delfos. — O oráculo disse e pareceu “acordar pra vida”. – Orador das profecias de Apolo. Matador da poderosa Píton. Aproximem-se, caros heróis e perguntem.

Eu e Nico demos um passo à frente. Perguntar o quê mesmo? Por que eu havia esquecido no minuto em que uma múmia começou a falar e soltar névoa verde pela saleta.

— Nós tivemos... – Eu e Nico falamos juntos e eu não sei como achei voz de algum lugar aleatório de mim, mas fui interrompida pelo oráculo. Nico apenas a observava com um olhar desconfiado.

— Ô, Júlia Martínez e Nico Di Ângelo, exatamente quem eu esperava ver. – Sua boca não se mexia, mas seus olhos reluzentes piscavam vez ou outra.

— Queria nos ver por que... – Os olhos de Nico estavam vidrados nela, como se tivesse lembranças ruins com a mesma.

— Seus destinos estão entrelaçados, caros semideuses. Só não sabemos se de uma maneira boa ou ruim. Independente do que escolherem, vocês salvaram o mundo juntamente com aqueles que chamam de amigos. – Ela parou e olhou fixamente pra mim.

— Estamos entrelaçados? – Perguntei, desacreditada.

— Assim como muitos outros semideuses deste acampamento.

— Nós vamos salvar o mundo juntos? – O MUNDO É MUITO GRANDE, COMO ASSIM? Eu estava tendo um mini ataque interno, mas não deixei transparecer para o Cara Pálida.

— Sim. Vocês dois especificamente terão grande influencia na tão esperada união entre os deuses mais antigos. – Uma névoa voou perto do rosto de Nico, mas ele não pareceu assustar-se.

— Deuses mais antigos? – A voz de Nico saiu firme. – Zeus, Poseidon, Hades e Afrodite?

— Essa pergunta deve ser feita a vocês mesmos. Se a união precisa ser restabelecida, não deve incluir deuses pacíficos.

Eu não estava entendendo nada e pelo visto nem Nico.

— Certo, viemos aqui por que tivemos uma espécie de sintonia. Sonhamos que... – Delfos me interrompeu, novamente.

— Sonharam com a morte de alguém. Saibam, meus queridos, que ver mortes antes delas acontecerem não cabe a vocês, semideuses. Cabe a mim. Isso é um mal agouro que não está ao meu alcance de entendimento. Isso é controlado por seres malignos que não querem o bem de vocês. – A múmia virou-se pra mim. – Pergunte o que te assombras, princesa.

Princesa? Aquilo era uma espécie de elogio ou apelido? Por que eu estava mais pra plebeia.

— Tenho visto uma garotinha que ninguém mais vê. – Disse e minha voz esganiçou ao lembra-me da garotinha de vestido com girassóis.

Nico cravou seus olhos em mim e me fez perguntas inquisitivas com o olhar.

— Pobre, Júlia. Algumas coisas lhe aconteceram ou ainda virão apenas para divertimento daqueles que podem lhe proporcionar isso. – Um dos olhos de Delfos tremeluziu e voltou ao normal.

— Está dizendo que tem alguém brincando comigo? – Eu não queria aquela resposta. Tudo o que eu tinha sentido naqueles últimos dias tinham sido intensos demais pra uma simples brincadeira de mal gosto de algum perverso divino.

— Você descobrirá, princesa. Nem sempre tudo é o que parece. – Delfos olhou de volta pra Nico.

Se aquilo era uma brincadeira, eles estavam gargalhando nesse momento.

Notas finais
E então? Princesa seria só um apelido ou um jogo do oráculo para com ela? Júlia e Nico com destinos entrelaçados? Comentem o que acham!! PS: No próximo capítulo terá uma profecia.