O movimento do Starcourt Mall envolveu Dustin assim que ele chegou à praça de alimentação. Conversas se misturaram ao ruído dos passos, ao som das lojas e à música que percorreu os corredores. Pessoas cruzaram diante das vitrines carregando sacolas, copos e bandejas, indiferentes à transmissão em russo que continuou ocupando a cabeça dele.


Dustin atravessou o fluxo de visitantes com a mochila presa aos ombros e o boné amarelo e verde do Acampamento Do Saber sobre os cabelos cacheados. Depois de voltar para Hawkins, tentar apresentar o Cerebro aos amigos e acabar abandonado no alto da colina, ele procurou a pessoa que ainda podia compreender a importância daquela descoberta.


Ou, no mínimo, escutá-lo.


A fachada da Scoops Ahoy apareceu entre os estabelecimentos da praça de alimentação. O azul, o branco e o vermelho cobriram o balcão e as paredes da sorveteria, decorada para lembrar o interior exageradamente alegre de um navio. Trilhos de metal dourado cercaram a área das mesas. Bancos vermelhos ocuparam os compartimentos ao fundo, enquanto potes transparentes cheios de confeitos, suportes com casquinhas e recipientes de coberturas se espalharam atrás do balcão.


Dustin se aproximou da entrada.


Robin terminou de atender uma cliente. O uniforme listrado cobriu os braços e o colete azul-marinho acompanhou a gola larga, o lenço vermelho e o pequeno chapéu branco da Scoops Ahoy. O crachá com o nome “Robin” estava preso sobre o peito. Duas correntes de metal completavam o visual, como uma pequena tentativa de preservar alguma personalidade dentro da fantasia náutica exigida pela sorveteria.


Ela entregou o pedido e se despediu da cliente.


— Tenha um bom dia.


Quando voltou a atenção para o balcão, encontrou Dustin parado diante dela.


Por um instante, os dois apenas se observaram.


Robin viu um garoto com uma mochila grande, um boné de acampamento e uma expressão decidida demais para alguém que provavelmente só queria comprar sorvete. Dustin encontrou uma funcionária que ele nunca tinha visto antes no lugar onde esperava encontrar Steve.


Ele abriu um sorriso educado.


— Oi.


Robin respondeu no mesmo tom, ainda tentando entender o que ele queria.


— Oi.


Dustin gesticulou e apontou uma das mãos para si.


— Sou o Dustin.


Robin inclinou ligeiramente a cabeça.


— Sou a Robin.


— Prazer em conhecê-la. Ele está aqui?


A familiaridade da pergunta confundiu Robin. Dustin não explicou quem procurava, como se a identidade da pessoa fosse evidente e aquela sorveteria inteira existisse ao redor dela.


— Quem?


Antes que Dustin respondesse, a porta de vaivém que separava o balcão da área dos funcionários se abriu.


Steve apareceu no vão.


O uniforme azul-marinho se ajustou ao corpo dele, acompanhado por listras brancas, um lenço vermelho, um avental curto e o inevitável chapéu de marinheiro. Ele segurou a porta com um dos braços e avançou um passo, procurando a voz familiar que havia ouvido do fundo da loja.


Então reconheceu o boné verde e amarelo.


Steve parou.


A surpresa atravessou seu rosto e apagou qualquer vestígio do desânimo que o trabalho havia deixado nele durante o turno. Os olhos se arregalaram. A boca se abriu. Em menos de um segundo, a postura cansada desapareceu por completo.


— Henderson!


Dustin se virou imediatamente.


O rosto dele se iluminou ao encontrar Steve junto à porta. A frustração que carregou desde a colina perdeu espaço diante da reação genuína do amigo.


Steve soltou a porta e entrou de vez na área de atendimento.


— Henderson! Ele voltou!


Ergueu os dois braços acima da cabeça e anunciou a notícia para Robin, para a sorveteria e para qualquer pessoa próxima o bastante para escutá-lo.


— Ele voltou!


Dustin avançou na direção dele, igualmente animado.


— Eu voltei!


Robin acompanhou a cena atrás do balcão. Seu olhar passou de Dustin para Steve, depois retornou a Dustin. Nenhum dos dois pareceu perceber o espanto silencioso dela.


Dustin apontou para o uniforme de marinheiro.


— Conseguiu o emprego!


Steve abriu ainda mais o sorriso, apesar do chapéu, do avental e de tudo que aquele uniforme representava para a dignidade dele.


— Consegui o emprego!


Os dois se encontraram diante do balcão e iniciaram o cumprimento que criaram juntos.


As mãos bateram uma contra a outra. Os dedos se prenderam por um instante, os punhos se encontraram e os braços se cruzaram numa sequência rápida, precisa e ensaiada. Cada movimento levou ao próximo sem hesitação. Steve e Dustin acompanharam a coreografia com o corpo inteiro, inclinando-se, afastando-se e voltando a se aproximar como se nenhum tempo tivesse passado desde a última vez em que estiveram juntos.


Robin permaneceu junto ao caixa.


Ela observava os dois executarem aquele cumprimento longo demais para conhecidos casuais e elaborado demais para uma amizade comum. Steve não apenas reconheceu o garoto. Ele comemorou a chegada de Dustin com uma alegria que Robin ainda não tinha visto durante nenhum dos turnos que dividiram.


A sequência terminou com os dois ainda sorrindo, satisfeitos por lembrarem cada movimento.


Dustin recuperou o equilíbrio e ajeitou a mochila no ombro. Steve voltou a encará-lo, empolgado demais para esconder o quanto sentiu falta dele.


Robin apoiou os braços no balcão.


Esperou até que os dois finalmente se lembrassem de que ela continuava ali. Então olhou diretamente para Steve, com a curiosidade atravessada pelo sarcasmo habitual.


— De quantas crianças você é amigo?


O entusiasmo de Steve congelou por um instante.


Ele olhou para Robin sem encontrar uma resposta imediata, enquanto Dustin permaneceu ao lado dele, ainda sorrindo.


Pouco depois do reencontro, Steve e Dustin ocuparam um dos bancos da Scoops Ahoy. O banco vermelho se estendeu ao redor da mesa, cercado pela divisória de madeira e pelo corrimão dourado que separava a sorveteria do movimento da praça de alimentação.


Dustin deixou a mochila ao lado do corpo e se acomodou diante de uma banana boat servida numa travessa comprida de plástico transparente. Bolas de sorvete, chantili, cerejas, pedaços de banana e nozes preencheram o recipiente. Grandes pedaços de casquinha foram espetados na sobremesa como velas improvisadas, acompanhados por uma pequena âncora azul de plástico.


Ele mexeu o sorvete com uma colher vermelha enquanto contou a Steve sobre Suzie.


Steve se recostou no banco, ainda vestido com o uniforme azul-marinho da Scoops Ahoy. Manteve um dos braços estendido sobre o encosto e apontou na direção de Dustin.


— Não. Não, sem chance. Mais gata que a Phoebe Cates? Não.


Dustin não se deixou abalar pela descrença.


— Inteligente também. Ela não liga que meus dentes ainda estejam nascendo.


Ergueu ligeiramente a mão enquanto explicou, como se apresentasse mais uma prova irrefutável das qualidades de Suzie.


— Ela disse que é melhor beijar sem dente.


Steve encarou Dustin.


Por um instante, tentou manter uma expressão neutra. As sobrancelhas se ergueram e os lábios se comprimiram antes que ele conseguisse responder.


— Uau. É, isso é ótimo. Estou orgulhoso de você, cara.


Baixou os olhos para a sobremesa e movimentou os dedos sobre a mesa.


— Isso é... Isso é meio romântico. Tipo... uau.


Dustin abaixou o rosto e conteve um sorriso satisfeito.


A atenção dele logo retornou à banana boat. Passou a colher pelo sorvete e observou a quantidade ainda espalhada pela travessa.


— Então você pode mesmo comer o quanto quiser disso?


Steve acompanhou o movimento da colher.


— É. Quer dizer, claro. Mas não é uma ideia muito boa pra mim.


Endireitou-se um pouco no banco e gesticulou para si.


— Preciso manter a forma para as garotas.


Robin organizava a área próxima ao balcão quando ouviu o comentário. Ela se virou o suficiente para responder de onde estava.


— É? E como isso está funcionando pra você?


Steve lançou um olhar na direção dela.


— Ignore-a.


Dustin olhou para Robin e esboçou um sorriso.


— Ela parece legal.


— Não é.


Steve voltou a atenção para ele.


— Então, onde estão os outros cabeças-ocas?


O sorriso de Dustin desapareceu. Ele baixou os olhos para a sobremesa e moveu a colher dentro da travessa.


— Eles me deixaram de lado ontem.


A postura descontraída de Steve mudou.


— Não.


Dustin ergueu o rosto.


— No meu primeiro dia de volta. Dá pra acreditar nessa merda?


— Uau. Sério?


— Juro por Deus.


Dustin levou outra colherada à boca. Mastigou os pedaços misturados ao sorvete e fez um breve som de aprovação antes de continuar.


— Mas eles vão se arrepender. E muito.


Ergueu o indicador na direção de Steve.


— Quando não puderem compartilhar da minha glória.


Steve franziu a testa.


— Glória? Que glória?


Dustin abandonou a colher no sorvete e deslizou pelo banco até ficar mais próximo dele.


— Então, ontem à noite, quando estava tentando entrar em contato com a Suzie...


Steve ergueu o polegar numa confirmação silenciosa.


Dustin hesitou.


— E, hum...


Olhou para os lados. Pessoas continuaram circulando pela praça de alimentação, e clientes permaneceram próximos ao balcão da sorveteria.


Ele inclinou o corpo na direção de Steve, cobriu parcialmente a boca com a mão e reduziu a voz a um sussurro.


— Interceptei uma comunicação russa secreta.


Steve se aproximou para ouvi-lo, pois não havia entendido.


— O quê?


Dustin estalou a língua e lançou outro olhar ao redor. Respirou fundo, levou os dedos ao rosto e repetiu ainda em voz baixa:


— Interceptei uma comunicação russa secreta.


Steve continuou sem compreender.


— É só falar mais alto.


Dustin se endireitou no banco e elevou a voz para que cada palavra saísse clara.


— Interceptei uma comunicação russa secreta!


O anúncio atravessou a Scoops Ahoy.


Robin parou atrás do caixa. Os clientes diante dela se viraram ao mesmo tempo. Duas mulheres sentadas em outra mesa interromperam o que faziam e olharam para os dois. Outros rostos acompanharam a origem da voz em meio ao movimento da sorveteria.


Steve se inclinou rapidamente sobre a mesa.


— Jesus, psiu!


Dustin fechou a boca e permaneceu imóvel.


Steve abaixou a própria voz.


— Tá. Foi isso que eu pensei que disse.


Os dois olharam ao redor até que os clientes começaram a perder o interesse.


Steve franziu as sobrancelhas e voltou a encarar Dustin.


— O que isso significa?


Dustin aproximou os braços da borda da mesa. A irritação anterior deu lugar à confiança de quem finalmente chegou à parte importante.


— Significa, Steve, que podemos ser heróis.


Sustentou o olhar dele.


— Verdadeiros heróis americanos.


Steve absorveu a ideia.


— Ah.


Dustin confirmou com um pequeno movimento de cabeça.


— Aham.


Um sorriso começou a surgir no rosto de Steve enquanto ele repetia.


— Heróis americanos...


Ele se aproximou mais de Dustin, agora completamente interessado.


Dustin ergueu a mão diante dos dois, como se abrisse espaço para que Steve enxergasse o futuro que descreveu.


— Pense só. Você poderia ter todas as garotas que quisesse e mais.


Os olhos de Steve se arregalaram.


— Mais?


— Mais.


Steve voltou o olhar para a frente, considerando a palavra.


— Eu gosto de mais.


Dustin assentiu.


— Aham.


A empolgação de Steve diminuiu apenas o suficiente para a desconfiança retornar.


— Qual é a pegadinha?


— Nenhuma pegadinha. Só preciso da sua ajuda.


Steve apoiou os braços sobre a mesa e se inclinou na direção dele.


— Com o quê?


Dustin não respondeu imediatamente.


Virou-se para a mochila apoiada ao seu lado e abriu o zíper. Steve observou enquanto ele procurou entre os objetos guardados ali.


Dustin retirou um dicionário russo-inglês de capa vermelha, com as bordas gastas pelo uso. Ergueu o livro ao lado do rosto e mostrou a capa para Steve.


— Tradução.


Algum tempo depois, quatro meninas se agruparam diante do balcão da Scoops Ahoy. Robin se inclinou sobre a vitrine refrigerada, retirou uma pequena amostra de sorvete de menta com chocolate e a entregou à garota que estava à frente das outras.


Erica Sinclair levou a colher à boca e provou o sabor sem pressa. As amigas esperaram atrás dela, cada uma segurando a própria amostra enquanto observavam os recipientes de sorvete através do vidro.


— Posso provar o de menta?


Robin encarou Erica por cima do caixa.


— Você já não provou o de menta?


Erica sustentou o olhar, sem demonstrar qualquer constrangimento.


— Sim. E quero provar de novo.


Robin revirou os olhos. Virou a cabeça na direção da porta que levava à área dos funcionários e chamou:


— Steve!


Nos fundos da sorveteria, Steve caminhava de um lado para o outro enquanto comia uma banana. O chapéu de marinheiro ficou abandonado fora de vista, mas o restante do uniforme continuou preso ao corpo, acompanhado pelo avental branco e pelo lenço vermelho.


Dustin permaneceu sentado diante de uma mesa retangular. O dicionário russo-inglês ficou aberto perto dele, ao lado do pequeno gravador de microcassete. Atrás dos dois, cadeiras brancas estavam empilhadas junto à parede. Um quadro de avisos, prateleiras metálicas, caixas de casquinhas, recipientes e materiais de estoque ocupavam o restante do cômodo.


Na parede lateral, o quadro branco que Robin usava para registrar o desempenho de Steve no balcão perdeu o placar anterior. No lugar das anotações, letras do alfabeto cirílico preencheram a superfície, acompanhadas pelas equivalências fonéticas escritas abaixo de cada símbolo.


A voz masculina da transmissão russa saiu do gravador. Por trás das palavras desconhecidas, uma melodia instrumental tocou com nitidez suficiente para se misturar à mensagem.


Steve deu outra mordida na banana enquanto escutava.


Dustin interrompeu a gravação e ergueu os olhos para ele.


— Então, o que acha?


Steve mastigou antes de responder.


— Pareceu familiar.


Dustin franziu as sobrancelhas.


— O quê?


Steve ergueu o restante da banana e gesticulou com ela.


— A música. A música bem no final.


A expressão de Dustin se contraiu imediatamente.


— Por que você está prestando atenção na música, Steve? Escute o russo! Estamos traduzindo russo!


Steve abriu uma das mãos, ainda com a boca ocupada.


— Estou tentando escutar o russo, mas tem uma música tocando...


A porta se abriu antes que ele terminasse.


Robin entrou nos fundos com a colher de sorvete nas mãos.


— Certo, acabou a hora de cuidar da criança. Você precisa ir lá pra frente.


Steve virou o rosto na direção dela, mas Robin já desviou a atenção para o quadro branco.


Ela parou.


As letras russas tomaram todo o espaço onde antes mantinha suas anotações. Robin olhou para o quadro por um instante e depois se voltou para os dois.


— Ei, o meu quadro. Aquilo era informação importante, seus imbecis.


Dustin ergueu o queixo.


— Eu garanto que o que estamos fazendo é muito mais importante que os seus dados.


Robin caminhou para dentro do cômodo.


— É mesmo? E como vocês sabem que esses russos estão planejando alguma coisa ruim?


Dustin virou a cabeça lentamente para Steve. O espanto surgiu no rosto dele como se Robin tivesse acabado de adivinhar um segredo impossível.


— Como ela sabe sobre os russos?


Steve continuou mastigando a banana.


— Não sei.


Dustin estreitou os olhos.


— Você contou pra ela sobre os russos.


Steve negou com a cabeça.


— Não fui eu.


Robin parou diante dos dois.


— Alô. Eu consigo ouvir vocês.


Steve e Dustin olharam para ela.


— Na verdade, consigo ouvir tudo. Vocês dois falam extremamente alto.


Ela apontou primeiro para o gravador, depois para o quadro coberto pelo alfabeto russo.


— Vocês acham que gravaram russos malignos conspirando contra o nosso país e estão tentando traduzir a mensagem. Só que ainda não descobriram uma única palavra porque não perceberam que os russos usam um alfabeto completamente diferente do nosso.


Robin inclinou ligeiramente a cabeça.


— Acertei?


Ela se aproximou da mesa e estendeu a mão para o gravador.


Steve reagiu no mesmo instante. Pegou o aparelho e o afastou antes que os dedos dela o alcançassem.


— Ei, ei. O que você pensa que está fazendo?


Robin recolheu a mão.


— Quero ouvir.


Steve e Dustin perguntaram quase juntos:


— Por quê?


— Por quê?


— Porque talvez eu possa ajudar. Eu sou fluente em quatro idiomas, sabia?


Dustin olhou para ela com interesse renovado.


— Russo?


Robin respondeu sem hesitação:


— Ou-yay are-yay umb-day.


Steve e Dustin ficaram imóveis.


Os dois se entreolharam, impressionados com a sequência de sons que nenhum deles reconheceu.


— Caramba.


Robin observou a reação dos dois por um instante.


— Isso foi Pig Latin, seu idiota.


Steve fechou a expressão. Sem olhar para Dustin, acertou a camiseta dele com a casca da banana.


— Idiota.


Dustin se encolheu com o golpe e lançou um olhar ofendido para Steve.


Robin continuou:


— Mas eu falo espanhol, francês e italiano. Também participo da banda há doze anos. Meus ouvidos são pequenos gênios. Confiem em mim.


Steve manteve o gravador junto ao corpo. A desconfiança continuou visível no rosto dele enquanto analisava Robin.


Ela ergueu a colher de sorvete.


— Vamos. Agora é a sua vez de servir sorvete e a minha de traduzir. Eu nem quero receber crédito. Só estou entediada.


O sino de atendimento tocou no balcão.


O som atravessou a porta aberta e chegou aos fundos.


Steve olhou na direção da loja. Depois encarou Dustin.


Dustin devolveu o olhar sem oferecer qualquer alternativa.


Os dois aceitaram a derrota em silêncio.


Steve estendeu o gravador para Robin. Ela entregou a colher de sorvete em troca.


Robin fechou os dedos ao redor do aparelho, enquanto Steve ficou com o utensílio de metal nas mãos. A mudança de funções aconteceu sem qualquer pedido formal ou permissão real.


Com o gravador sob o controle dela, Robin assumiu o lugar ao lado de Dustin e o trabalho de decifrar a mensagem russa.


Steve retornou ao balcão para servir as clientes.


Algum tempo depois, a gravação russa voltou a preencher os fundos da Scoops Ahoy.


Dustin permaneceu sentado diante da mesa, com o gravador em uma das mãos e o caderno aberto à sua frente. O dicionário russo-inglês ficou ao lado das páginas cobertas por anotações, enquanto Robin caminhava pelo cômodo e acompanhava cada som da mensagem com atenção.


A voz masculina prosseguiu por alguns segundos.


Robin ergueu uma das mãos.


— Espera. Essa última parte. Só mais uma vez.


Dustin interrompeu a fita e voltou a gravação até o ponto indicado. Pressionou o botão novamente, e a mesma sequência de palavras saiu pelo pequeno alto-falante.


Robin continuou andando devagar. Repetiu os sons em voz baixa, separando as sílabas enquanto tentava encontrar uma correspondência entre o que ouviu e as letras espalhadas pelo quadro branco.


A gravação avançou.


Ela apontou para Dustin.


— Certo, essa palavra. É...


Robin hesitou, buscando a pronúncia correta.


— Pronuncia-se... dly-nna-ya.


— Dly-nna-ya... — Dustin repetiu.


— Que se escreve...


— D...D, D, D...


Ele se levantou e foi até o quadro com o alfabeto cirílico.


Os olhos percorreram os símbolos escritos em vermelho e as equivalências fonéticas registradas abaixo deles. Dustin levantou a mão e apontou para uma das letras.


— A... a cadeira. Aquela coisa que parece uma cadeira.


Robin olhou para o símbolo indicado.


— É, certo.


Ela se inclinou sobre o caderno e escreveu a nova informação. Dustin voltou a se sentar, pegou o gravador e preparou a fita para outra repetição.


A voz russa recomeçou.


Os dois retomaram o trabalho, palavra por palavra, interrompendo a mensagem, repetindo sons e consultando o quadro sempre que alguma sílaba se tornava reconhecível.


Do outro lado da porta, Steve permaneceu no balcão da sorveteria, atendendo os clientes enquanto Robin e Dustin avançavam na tradução.


Depois de mais algum tempo, Robin correu a janela na abertura que ligava os fundos à área de atendimento. Apoiou-se na borda e procurou Steve com o olhar.


— Conseguimos nossa primeira frase.


Steve se virou imediatamente na direção dela. Segurava o pedido que preparava e demonstrou uma surpresa imediata.


— Sério?


Robin assentiu.


— Sim.


Ela pronunciou a frase com o sotaque que reconstruiu a partir da gravação.


— A semana é longa.


Steve ficou parado por um instante.


O interesse no rosto dele desapareceu tão depressa quanto surgiu.


— Bom, isso é empolgante...


Robin reconheceu a falta de impacto da descoberta com uma pequena inclinação da cabeça.


— Eu sei. Mas é progresso.


Steve voltou a atenção para o balcão.


Robin permaneceu junto à abertura por mais um instante antes de retornar aos fundos e continuar a tradução com Dustin.


A gravação voltou a tocar nos fundos da sorveteria assim que Robin fechou a janela.


A voz masculina em russo atravessou o pequeno alto-falante do gravador e chegou abafada até o balcão, acompanhada pelas interrupções de Dustin e pelas repetições cuidadosas de Robin.


Steve voltou a se virar para a cliente que deixou esperando no meio do atendimento.


A jovem permaneceu diante do balcão com a mesma expressão educada de antes, sem demonstrar qualquer irritação pela interrupção. Os olhos cinza-claros acompanharam Steve por um instante, carregados de uma curiosidade discreta que não estava ali quando fez o pedido.


Ela destoou das cores claras e vibrantes espalhadas pela praça de alimentação. Usava uma jaqueta de couro escura apesar do calor do verão, e o cabelo preto, comprido muito além dos ombros, estava preso em uma única trança que descia pelas costas.


Steve estendeu o sorvete na direção dela.


— Aqui está.


— Obrigada.


Ela pegou o copo, mas não se afastou imediatamente. A jovem lançou um olhar breve para a janela fechada.


O sorriso social continuou em seu rosto, mas as pontas dos lábios se ergueram um pouco mais.


— Na minha época não ensinavam russo na escola. O ensino atual está bem diferente.


Steve, que já começava a procurar o próximo pedido, parou.


Ela soltou um riso curto.


— Será que é culpa da Guerra Fria?


Ele olhou para a janela.


Robin não mencionou o idioma em nenhum momento da conversa. Apenas apareceu, anunciou a tradução e repetiu a frase com um sotaque exagerado. A gravação continuou tocando do outro lado da parede.


Steve voltou os olhos para a cliente.


— Espera.


Ela ergueu levemente as sobrancelhas.


— Você sabe russo?


A jovem deu de ombros e confirmou com um movimento pequeno da cabeça, como se a pergunta não tivesse nada de extraordinário.


Steve abriu um sorriso.


Antes que ela acrescentasse qualquer coisa, ele se virou, correu a pequena janela para o lado e colocou a cabeça na abertura.


— Robin! Dustin!


O movimento brusco fez a jovem acompanhar a cena com os olhos.


— Achei alguém que sabe russo!


Ela permaneceu parada diante do balcão, segurando o sorvete que acabou de receber. O olhar passou de Steve para a abertura na parede. A curiosidade aumentou, acompanhada por uma sobrancelha discretamente erguida, enquanto ela tentava entender por que uma observação casual deixou o atendente tão satisfeito.


Steve retirou a cabeça da abertura e voltou a fechar a janela.


Virou-se para a jovem ainda parada diante do balcão e apontou para a passagem lateral da sorveteria.


— Vem comigo.


Ela olhou para ele por um instante. Depois, baixou os olhos para o sorvete que segurava, como se conferisse o pedido que acabara de receber, e tornou a encará-lo.


Steve já se afastava do balcão.


A jovem ergueu levemente uma sobrancelha, mas acompanhou o movimento e passou pela entrada lateral.


Steve seguiu na frente até os fundos da loja. Assim que atravessou a porta, apontou para ela com uma satisfação que sugeria que o problema já estava resolvido.


— Ela sabe russo.


Robin permaneceu ao lado da mesa. Dustin continuou sentado diante do gravador, com uma das mãos ainda próxima dos botões.


Os dois olharam para a desconhecida que apareceu atrás de Steve, ainda com o sorvete na mão.


Robin voltou os olhos para ele.


— Quem é ela?


Steve abriu a boca, mas não respondeu de imediato.


Olhou para a jovem, como se só naquele momento percebesse que não tinha feito aquela pergunta.


— Ela sabe russo — repetiu.


Robin sustentou o olhar por alguns segundos.


— Você sabe pelo menos o nome dela?


A jovem avançou um passo.


Manteve a mão que segurava o sorvete perfeitamente nivelada e fez uma reverência exagerada. A outra mão foi até o próprio peito.


— Lynn Wolf, aos seus serviços.


Ela se endireitou.


— Mas pode me chamar de Wolf.


Robin lançou outro olhar breve para Steve.


Dustin observou Wolf por alguns instantes antes de perguntar:


— Onde você aprendeu russo?


Wolf indicou o dicionário aberto e as anotações espalhadas sobre a mesa.


— Da mesma forma que você está fazendo.


Dustin desviou os olhos para o material, mas a resposta não pareceu diminuir a desconfiança.


— E você simplesmente apareceu aqui?


Wolf apontou com o indicador para a porta pela qual entrou.


— É... Eu estava passeando no shopping. Assim como várias outras pessoas.


Dustin olhou para Steve.


— Isso não parece conveniente demais para você?


Steve indicou Wolf mais uma vez.


— Ela sabe russo.


— Ou é uma espiã russa — Dustin replicou prontamente.


O olhar de Wolf parou no garoto.


Até aquele momento, o quadro coberto por letras, o dicionário e o gravador pareciam pertencer a algum projeto escolar ou passatempo excessivamente elaborado. A acusação não se encaixou com a mesma facilidade.


Ela lançou um olhar rápido para o gravador sobre a mesa antes de voltar a atenção para ele.


— Eu nunca escolheria o lado atrasado da Guerra Fria.


— Isso é exatamente o que uma espiã diria.


Dustin fez uma pausa.


— Isso não prova nada.


— Prova que ela tem bom senso — Robin comentou.


Wolf respirou pelo nariz e revirou os olhos.


Transferiu o sorvete para a outra mão, retirou a carteira do bolso traseiro da calça e a lançou diretamente para Dustin.


Ele a pegou por reflexo.


— Fique à vontade — ela disse.


— Ei, ei, ei. — Steve levantou as mãos. — Ninguém vai investigar ninguém.


Dustin já abriu a carteira.


Robin se inclinou sobre o ombro dele e observou a identificação enquanto ele comparou a fotografia com Wolf.


Steve olhou de um para o outro, claramente ignorado.


Dustin tornou a fechar a carteira e a devolveu.


Wolf a guardou novamente no bolso.


— Por que russo? — ele perguntou.


— Porque gosto de aprender idiomas.


Robin continuou observando-a.


Wolf percebeu que a resposta não encerrou a questão.


— Sou musicista. Aprendo para entender as letras.


Steve franziu a testa.


— Em russo?


Wolf deu de ombros.


— Existem músicos fora dos Estados Unidos.


Robin olhou para Dustin.


Um sorriso convencido apareceu em seu rosto.


— Certo. Então vamos descobrir se ela realmente sabe.


— Ela reconheceu a gravação — Steve argumentou.


Robin voltou os olhos para ele.


— Reconhecer não é traduzir.


Robin sustentou o olhar de Steve por mais um instante antes de voltar a atenção para Dustin. Um sorriso convencido apareceu em seu rosto, e ela fez um pequeno gesto em direção ao gravador.


Dustin entendeu a sugestão. Puxou o aparelho para mais perto, voltou a fita até o início da transmissão e pressionou o botão.


A voz masculina preencheu novamente os fundos da sorveteria, acompanhada pelo ruído constante da gravação. Wolf permaneceu de pé ao lado da mesa, segurando o sorvete em uma das mãos. O olhar se fixou em algum ponto indefinido à frente enquanto ela acompanhava cada palavra, sem recorrer ao dicionário, às anotações ou ao alfabeto cirílico espalhado pelo quadro. No meio da mensagem, levou o sorvete à boca e deu uma mordida, ainda concentrada no áudio, como se escutar uma transmissão russa interceptada fosse apenas mais uma atividade casual daquele passeio pelo shopping.


Dustin observou cada mudança em sua expressão. Robin manteve os braços apoiados na borda da mesa, esperando por qualquer sinal de hesitação, enquanto Steve permaneceu atrás das duas, seguro demais da própria descoberta para demonstrar a mesma cautela.


Quando a gravação terminou, Wolf afastou o sorvete dos lábios e repetiu a mensagem em inglês, sem precisar organizar as palavras antes de falar.


— A semana é longa. O gato prateado se alimenta quando o azul encontra o amarelo no Oeste. Uma viagem à China parece interessante se você andar discretamente.


Dustin e Robin trocaram um olhar assim que ela pronunciou a primeira frase. Era exatamente o resultado que conseguiram alcançar depois de várias repetições, consultas e tentativas de reconstruir os sons. A continuação, porém, fez os dois voltarem a encará-la com uma dúvida ainda maior do que antes.


Wolf tornou a olhar para o sorvete, mas não desviou completamente a atenção deles. Permaneceu parada ao lado da mesa, à disposição, enquanto esperava que algum dos três dissesse alguma coisa.


Dustin franziu a testa.


— O gato prateado?


Robin olhou para as anotações.


— E azul encontra amarelo no oeste?


Wolf levantou os olhos novamente. A falta de sentido da frase também apareceu em sua expressão, embora não houvesse incerteza na resposta.


— Literalmente, é isso.


Dustin ainda observou o gravador, como se uma nova reprodução pudesse transformar as palavras em alguma coisa mais razoável. Antes que ele alcançasse o aparelho, Wolf segurou a ponta do caderno aberto e o puxou pela superfície da mesa até deixá-lo à sua frente. Pegou o lápis que estava entre as anotações e escreveu a mensagem completa em cirílico, mantendo as letras organizadas numa única linha. Logo abaixo, registrou a tradução em inglês.


Quando terminou, empurrou o caderno de volta para Dustin.


— Podem conferir.


Dustin aproximou o caderno e passou os olhos pela frase original. Robin se inclinou ao lado dele, comparando as primeiras palavras com os símbolos que os dois já tinham identificado no quadro.


Steve abriu um sorriso satisfeito e apontou para Wolf.


— Viu? Ela sabe russo.


Robin ergueu os olhos lentamente na direção dele.


— Você ainda não fez nada.


— Eu encontrei ela.


— Por acidente.


— Ainda conta.


Wolf acompanhou a troca com o sorvete próximo à boca, mas voltou a olhar para a tradução escrita antes de dar outra mordida.


— Isso é algum tipo de enigma?


A pergunta fez Dustin desviar a atenção do caderno. Wolf indicou a frase com o movimento breve do sorvete.


— Sem saber de onde veio, não dá para entender o que essas coisas significam.


Dustin hesitou. O olhar passou por Steve antes de retornar para ela.


— Eu captei a transmissão pelo meu rádio.


Wolf ficou imóvel por um instante.


A expressão divertida que acompanhou boa parte da conversa diminuiu, substituída por um cansaço discreto e antigo, de quem reconheceu o início de um problema antes que ele tivesse tempo de mostrar o verdadeiro tamanho. Ela olhou para o gravador, depois para Dustin, e soltou apenas:


— Divertido.


Apesar do tom irônico, não se afastou da mesa nem procurou a porta. Em vez disso, puxou o caderno um pouco mais para perto e releu mentalmente a frase que escreveu.


— Toca de novo.


Dustin voltou a fita e reproduziu a transmissão pela segunda vez.


Wolf acompanhou o áudio enquanto comparava cada trecho com a frase registrada no papel. Dessa vez, não prestou atenção apenas às palavras. O olhar permaneceu sobre a escrita, mas, perto do fim da gravação, ela inclinou levemente a cabeça ao perceber uma melodia abafada misturada à voz masculina.


Quando a fita terminou, apontou com o indicador para o gravador.


— Será que a música tem alguma importância para a frase?


Steve voltou imediatamente os olhos para Dustin.


— Eu falei sobre a música.


Dustin cruzou os braços.


— É. Quando você, supostamente, deveria estar prestando atenção no russo.


— E eu estava prestando atenção.


Robin olhou de um para o outro, acompanhando uma discussão que claramente começou antes de ela entrar nos fundos. Depois lançou um olhar para a janela fechada que separava o cômodo do balcão e escutou o sino de novos clientes do outro lado.


Steve percebeu o movimento.


— Certo. — Ele apontou para o caderno diante de Dustin. — Eu consegui traduzir a mensagem. Você fica com o balcão.


Robin virou o rosto para ele.


— Você não traduziu nada.


Steve tornou a apontar para Wolf.


— Eu encontrei alguém que traduziu a mensagem.


— Você trouxe uma cliente para os fundos da loja.


— Uma cliente que resolveu o problema.


Robin abriu a boca para responder, mas o sino tocou novamente do lado de fora. Ela soltou o ar pelo nariz, afastou-se da mesa e passou por Steve em direção à porta.


Steve se moveu para o lado, abrindo passagem.


— Isso é recompensa pelo bom trabalho.


Robin lançou um último olhar pouco impressionado para ele antes de sair dos fundos e retornar ao balcão.


A porta se fechou atrás dela, deixando Steve, Dustin e Wolf diante da mensagem traduzida.


Wolf puxou uma das cadeiras livres e se sentou ao lado da mesa. Terminou o que restava do sorvete enquanto observava as duas linhas escritas no caderno, primeiro em russo e depois em inglês, como se a disposição das palavras pudesse revelar algum sentido que a tradução ainda escondia. Dustin também manteve os olhos sobre a página, e Steve permaneceu de pé atrás deles, apoiado de maneira despreocupada perto da mesa.


O silêncio durou apenas alguns segundos.


— De onde você é? — Dustin perguntou.


Wolf desviou os olhos do caderno e olhou para ele. A pergunta surgiu sem qualquer introdução, mas ela pareceu compreender o motivo sem precisar pedir explicações.


— Eu me mudei há pouco tempo.


Ela voltou a atenção para a frase e permaneceu em silêncio por um instante. Antes que Dustin transformasse a resposta curta em outro interrogatório, continuou por conta própria:


— Minha banda acabou. Aí eu queria mudar um pouco meu estilo de vida.


Wolf deu de ombros, reduzindo deliberadamente o peso da informação.


— Queria algum lugar mais pacato. Hawkins parecia o fim de mundo perfeito.


Steve soltou uma respiração curta pelo nariz.


— Se queria sossego, escolheu o pior lugar no pior momento.


Wolf virou o rosto para ele.


A descrença apareceu primeiro, seguida por uma curiosidade silenciosa que permaneceu nos olhos cinza-claros enquanto ela esperava que Steve explicasse o comentário.


Ele sustentou o olhar por um instante, mas logo olhou para Dustin.


Os dois trocaram uma expressão breve, carregada por uma referência que Wolf não tinha como compreender.


Steve tornou a encará-la.


— Você ficaria surpresa.


Wolf continuou observando-o por mais alguns segundos, mas não insistiu. A resposta vaga não esclareceu nada, embora tenha se juntado a mais uma informação estranha para guardar.


Ela voltou a olhar para o caderno.


O olhar percorreu outra vez nas palavras escritas em duas línguas. Então se lembrou da explicação curta que Dustin ofereceu antes.


— Como, exatamente, você conseguiu captar uma transmissão russa?


Dustin se ajeitou na cadeira.


A desconfiança que ainda restava em sua postura diminuiu assim que a conversa alcançou um assunto que ele dominava.


— Eu construí o Cerebro.


Wolf ergueu os olhos.


— O Cerebro?


— É uma torre de rádio. Funciona com bateria e transmite por longas distâncias. Eu instalei no ponto mais alto da região para conseguir um alcance maior.


Ele começou a explicar o funcionamento do equipamento com uma facilidade que contrastava com o trabalho lento que realizou diante do alfabeto russo. Falou sobre a antena, o sinal e a distância que pretendia alcançar, usando as mãos para indicar partes invisíveis da estrutura conforme descrevia o aparelho.


Wolf acompanhou cada detalhe sem interrompê-lo. A curiosidade que demonstrou não tinha o tom indulgente de alguém ouvindo uma criança falar sobre um brinquedo. Ela olhou para Dustin como olharia para qualquer pessoa explicando algo que sabia fazer melhor do que ela.


— E você construiu isso por quê? — perguntou quando ele fez uma pausa.


Dustin respondeu como se a razão fosse óbvia:


— Para falar com a Suzie.


Wolf inclinou levemente a cabeça.


— Suzie?


O peito de Dustin pareceu se elevar um pouco antes da resposta.


— Minha namorada.


Wolf ficou parada por um instante. Depois virou lentamente o rosto para Steve, com uma mistura de surpresa e indignação divertida.


— Até a criança tem uma namorada.


Steve cruzou os braços.


— É um namoro à distância.


Wolf lhe devolveu um olhar desaprovador.


— Você sabe que ainda conta, né?


Steve descruzou um dos braços apenas o suficiente para levantar a mão, como se não pretendesse continuar discutindo o assunto. Dustin, por outro lado, deixou um sorriso satisfeito aparecer enquanto olhava para ela.


Wolf tornou a voltar a atenção para o garoto. Indicou o boné dele com um pequeno movimento do queixo.


— Você é desses que gostam de ciências, hein?


Dustin assentiu imediatamente.


O movimento veio acompanhado pelo mesmo entusiasmo que apareceu quando começou a falar sobre o rádio.


Wolf olhou para o gravador sobre a mesa e depois para ele.


— Então você construiu tudo isso apenas para conseguir falar com sua namorada?


Dustin confirmou novamente, sem qualquer constrangimento.


Wolf o observou por um instante, agora com uma admiração divertida pela dedicação envolvida naquela história.


— Fofo.


O movimento na sorveteria diminuiu gradualmente durante o restante do expediente. As vozes do lado de fora se tornaram mais espaçadas, e o sino da entrada passou a tocar apenas de vez em quando, permitindo que Robin e Steve começassem a organizar a loja para o fechamento.


Nos fundos, Dustin e Wolf continuaram sentados à mesa. O gravador permaneceu próximo ao caderno, mas a transmissão não foi reproduzida outra vez. Wolf ocupou parte do tempo rabiscando ao redor das duas versões da mensagem enquanto experimentava diferentes formas de interpretar as palavras. Primeiro desenhou um gato junto ao trecho que mencionava o animal prateado. Depois criou uma pequena rosa dos ventos, indicando cada direção em inglês e russo, antes de preencher o restante da página com combinações formadas pelas letras da frase original.


Dustin acompanhou algumas das tentativas e acrescentou observações próprias, embora nenhuma delas produzisse algo que explicasse o significado da mensagem.


Wolf riscou outra combinação que não levou a lugar algum e apoiou o lápis contra a folha.


— Será que é um anagrama?


Steve estava terminando de guardar alguns recipientes numa prateleira próxima. Ele olhou por cima do ombro para o caderno.


— Quando dá pra ler de trás pra frente? Mas qual seria o sentido?


Dustin ergueu os olhos da página.


— Isso é um palíndromo.


Steve permaneceu parado por um instante, ainda segurando um dos recipientes. Fez uma careta na direção de Dustin, incomodado menos com o erro do que com a rapidez da correção, e voltou a colocá-lo na prateleira.


Dustin tornou a atenção para o caderno, enquanto Wolf escondeu um sorriso e continuou movendo as letras de lugar.


Steve terminou a tarefa, limpou as mãos no uniforme e se aproximou da mesa. Ficou observando os símbolos e as palavras que Wolf espalhou pela página antes de perguntar:


— Qual é a sua com idiomas, afinal?


Wolf interrompeu o movimento do lápis.


Permaneceu imóvel por alguns segundos, ainda olhando para o caderno, como se a voz dele tivesse atravessado uma sequência de pensamentos antes de finalmente alcançá-la. Então virou a cabeça lentamente na direção de Steve.


— Nerdice.


Ele franziu a testa.


— Nerdice?


Wolf largou o lápis sobre a mesa e endireitou a postura. Levou uma das mãos ao peito com uma solenidade exagerada, como se estivesse prestes a anunciar algum título importante.


— Nerd da arte.


A expressão de Steve indicou que a nova resposta esclareceu tão pouco quanto a primeira.


Wolf deixou a mão cair e tentou novamente:


— Tudo o que engloba a área da arte: literatura, teatro, música, dança...


Ela fez uma pequena pausa antes de acrescentar com ênfase:


— Idiomas.


Steve continuou olhando para ela, esperando alguma explicação que organizasse melhor aquelas coisas dentro da mesma categoria.


Wolf soltou o ar pelo nariz e indicou Dustin com um movimento da cabeça.


— Eu sou a nerd da arte. Nosso amigo aqui é o modelo clássico de nerd da ciência.


Dustin ergueu ligeiramente o queixo, aceitando a classificação sem qualquer sinal de ofensa.


Wolf deixou escapar uma risada breve ao olhar outra vez para os próprios rabiscos.


— Eu sempre fui a esquisita.


Robin apareceu na entrada dos fundos enquanto terminava de guardar parte dos materiais usados no balcão. Ela pareceu reconhecer uma palavra específica no meio da conversa e voltou imediatamente a atenção para Wolf.


— Então você tinha uma banda?


Wolf levantou os olhos.


Robin se aproximou enquanto continuava:


— Que tipo de banda? Você tocava o quê? Quer dizer, você disse que é musicista, então provavelmente mais de uma coisa, mas eu participei da banda da escola por doze anos, o que não é exatamente a mesma coisa, obviamente, porque uma banda de verdade é completamente diferente de tocar em jogos e cerimônias e...


Wolf acompanhou a sequência com as pontas dos lábios cada vez mais erguidas. Esperou alguns segundos antes de levantar uma das mãos.


— Ei. Ei. Ei. Calma.


Robin interrompeu a própria fala.


— Eu respondo — Wolf continuou, ainda sorrindo. — Só desacelera um pouco pra eu poder acompanhar.


Robin fechou a boca por um instante enquanto reorganizava mentalmente as perguntas. Por fim, escolheu uma:


— O que você tocava?


Wolf soltou outra risada curta.


— Eu era a cantora e guitarrista.


Robin olhou rapidamente para a jaqueta de couro, para o cabelo escuro e depois voltou ao rosto dela.


— Tipo Joan Jett?


O sorriso de Wolf se abriu um pouco mais antes que ela tentasse recuperar uma expressão indiferente.


— É, tipo isso.


— Eu toco trompete — Robin contou. — Doze anos na banda da escola.


— Eu toco alguns instrumentos. — Wolf apoiou uma das mãos na mesa enquanto se levantava da cadeira. — Me formei na Berklee College of Music.


Robin piscou.


— Na Berklee?


Wolf assentiu enquanto fechava o caderno de Dustin e o deixava novamente diante dele.


— Mas instrumentos de sopro nunca foram muito a minha praia. Eu sempre preferi os de corda.


Ela ergueu a mão e movimentou os dedos no ar.


— Tenho mais habilidade com os dedos.


Steve deixou escapar uma risada curta antes que conseguisse contê-la.


Wolf virou o rosto lentamente para ele e lançou um olhar que, a princípio, pareceu reprovar o pensamento por trás da reação. Steve tentou recuperar uma expressão neutra, mas ela continuou observando-o.


— Se você vai rir disso, então seja corajoso de ao menos fazer a piada completa sobre eu ter “dedos habilidosos” por ser uma garota.


Steve ficou imóvel.


A incredulidade substituiu o sorriso enquanto ele encarava Wolf, como se não esperasse que ela dissesse em voz alta exatamente o que ele tentou esconder numa risada.


Então apontou para Dustin.


— Falar isso na frente de uma criança?


Dustin levantou os dois braços imediatamente, recusando qualquer participação na defesa moral de Steve.


A grade metálica desceu diante da Scoops Ahoy com um ruído prolongado, cortando aos poucos a luz azulada do interior da sorveteria. Steve se abaixou para conduzi-la até o chão e prendeu o cadeado na parte inferior, enquanto Robin e Dustin já esperavam do lado de fora. Wolf permaneceu alguns passos atrás deles, com as mãos enfiadas nos bolsos da jaqueta de couro, observando Steve terminar o fechamento da loja.


O Starcourt estava quase vazio. As vitrines fechadas e os letreiros de néon ainda derramavam tons de rosa, azul e vermelho sobre o piso polido, mas o movimento intenso do dia desapareceu dos corredores. Restaram apenas o zumbido constante da iluminação, a música ambiente distante e os passos do pequeno grupo refletidos pelas lojas silenciosas.


Steve se levantou depois de conferir o cadeado e alcançou os outros. Dustin e Robin seguiram mais próximos um do outro, ainda discutindo a mensagem, enquanto Wolf caminhou pouco atrás deles e alguns passos à frente de Steve. Não se colocou ao lado de ninguém. Apenas acompanhou o grupo, com os ombros relaxados e as mãos ainda nos bolsos, ouvindo a conversa continuar como se o expediente não tivesse terminado.


Steve balançou a cabeça.


— Quero dizer, isso... não pode estar certo.


Robin seguiu caminhando sem diminuir o passo.


— Está certo.


— Sinceramente, acho que são ótimas notícias — Dustin acrescentou.


Steve olhou para ele, incrédulo.


— Como isso pode ser uma ótima notícia? Quero dizer, íamos ser heróis americanos. Isso é besteira.


— Não é besteira — Dustin rebateu. — É específico demais. É obviamente um código.


Steve franziu a testa.


— O que você quer dizer com código?


— Um código de espionagem supersecreto.


— Isso é forçar a barra.


Wolf ergueu uma das sobrancelhas. Um sorriso descrente apareceu no canto dos lábios enquanto ela olhava para Dustin.


— Você anda assistindo filmes demais.


Dustin lançou um olhar para ela, mas Robin inclinou levemente a cabeça, considerando a hipótese.


— Não sei. Será?


Steve voltou a atenção para Robin.


— Você acredita nisso?


Wolf soltou um riso breve. Sem retirar as mãos dos bolsos, afastou ligeiramente os braços, indicando o absurdo que enxergava na discussão.


— Essas coisas não acontecem na vida real, gente.


Robin olhou rapidamente para ela antes de continuar:


— Só por diversão, vamos considerar que seja mesmo uma transmissão russa secreta. O que vocês esperavam que dissessem? “Disparem a ogiva ao meio-dia”?


— Exatamente — Dustin respondeu.


O grupo passou diante das vitrines iluminadas da Sam Goody. O néon rosa atravessou o rosto de Robin enquanto ela gesticulava com a mão livre, organizando o raciocínio à medida que falava.


— A tradução está certa. Disso nós temos certeza. Então... “O gato prateado se alimenta.” Por que alguém falaria assim, a menos que estivesse tentando camuflar o sentido da mensagem?


— Exatamente.


— E por que camuflar o verdadeiro sentido da mensagem se ela não fosse confidencial?


— Exatamente.


Wolf balançou a cabeça lentamente. O sorriso continuou em seu rosto, agora sustentado mais pela diversão de assistir à teoria crescer diante dela do que por qualquer concordância. Ainda parecia uma conclusão grande demais para uma gravação captada por acidente, mesmo que nenhuma das palavras traduzidas oferecesse uma explicação mais razoável.


Robin voltou os olhos para Dustin.


— Então acho que isso confirma sua suspeita.


— Russos malignos.


Robin deixou escapar um sorriso.


— Não acredito que vou concordar com essa criança estranha, mas... sim. Russos completamente malignos.


Dustin pareceu satisfeito com a confirmação.


— Então como deciframos?


— Tentamos encontrar um padrão e vemos o que acontece — Robin respondeu.


Dustin baixou o olhar por alguns segundos, retomando mentalmente as palavras que passaram a tarde examinando.


— Um padrão. Certo. Talvez “gato prateado” seja um ponto de encontro.


— Ou uma pessoa — Robin sugeriu.


— Ou uma arma.


Wolf acompanhou as possibilidades em silêncio. O olhar passou por Dustin e Robin enquanto os dois construíam hipóteses sobre a frase, mas ela não acrescentou outra. Já tentou reorganizar as palavras, desenhou as imagens e procurou relações entre os termos durante boa parte do expediente. Nada daquilo produziu mais do que possibilidades soltas.


— Provavelmente vai ser preciso um supergênio para decifrar isso, mas... — Robin interrompeu a própria fala e olhou ao redor. — Onde está o Steve?


Wolf virou o rosto para trás e deu um passo para o lado, abrindo espaço para que Robin também enxergasse o corredor.


Steve parou alguns metros atrás, abaixado diante de um cavalinho mecânico. Apalpava os bolsos do uniforme enquanto observava o compartimento de moedas instalado na lateral do brinquedo.


Robin se virou completamente.


— Ei, Steve. O que está fazendo?


Ele continuou procurando.


— É uma moeda de vinte e cinco centavos. Eu preciso... Vocês têm uma moeda?


Robin se aproximou do brinquedo e olhou para Steve.


— Tem certeza de que tem altura para isso?


— Moeda! — Steve insistiu.


Robin retirou uma moeda e a lançou na direção dele.


— Precisa de ajuda para subir, pequeno Steve?


Dustin riu, mas Steve levou um dedo aos lábios.


— Shh!


Aproximou o rosto do brinquedo e olhou para os três.


— Vocês podem calar a boca e ouvir?


Robin ficou ao lado de Dustin, ainda segurando o capacete de proteção branco da bicicleta. Wolf parou pouco atrás deles, com as mãos nos bolsos e a expressão dividida entre curiosidade e incredulidade diante de Steve agachado ao lado de um cavalinho infantil.


Ele inseriu a moeda.


O mecanismo despertou com um estalo. O cavalo começou a se mover lentamente para a frente e para trás, acompanhado por uma melodia metálica e infantil que se espalhou pelo corredor vazio.


A expressão de Dustin mudou.


Ele abaixou-se depressa, retirou o gravador da mochila e procurou o trecho da fita. Quando pressionou o botão, a voz masculina em russo saiu pelo pequeno alto-falante, acompanhada pela mesma música ao fundo.


Wolf inclinou a cabeça. O olhar passou do gravador para o cavalinho, e a descrença que carregou durante toda a caminhada desapareceu aos poucos.


— Puta merda — Dustin murmurou.


A melodia continuou nos dois aparelhos.


Ele levantou os olhos.


— A música. A música!


Robin franziu a testa.


— Eu não entendi.


— É exatamente a mesma música da gravação.


Ela olhou para o Dustin, depois para brinquedo perto de Steve.


— Talvez eles tenham cavalos assim na Rússia.


Steve permaneceu agachado ao lado do mecanismo. Seus olhos desceram até as letras pintadas na caixa de moedas.


— “Indiana Flyer”?


Ele encarou o nome por mais um instante.


— Eu acho que não.


O movimento do cavalo continuou, lento e repetitivo, enquanto a melodia atravessava o corredor vazio do Starcourt.


Steve ergueu os olhos para os outros.


— Esse código não veio da Rússia.


A expressão dele perdeu qualquer vestígio da irritação ou da brincadeira anterior.


— Veio daqui.


Wolf engoliu em seco.


O olhar percorreu Dustin, Robin e Steve, procurando em algum deles uma reação que diminuísse o peso daquela conclusão. Nenhum dos três parecia disposto a rir. A gravação ainda tocava nas mãos de Dustin, misturando a voz russa à música do pequeno cavalo mecânico, enquanto as vitrines fechadas do shopping permaneciam silenciosas ao redor deles.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.