Light at the End of the World

3 Capítulo 3 - Acesso restrito


Notas iniciais
Localização: S3E4

No alto do Starcourt, Dustin permaneceu agachado atrás da mureta que cercava o telhado. Manteve os binóculos diante dos olhos e observou o cais de carga abaixo.


Dois homens com uniformes da Lynx Transportation descarregaram caixas do caminhão e as empilharam diante das portas metálicas. Um terceiro homem vigiou o trabalho a poucos passos deles. Vestia preto, mantinha uma arma presa diante do corpo e acompanhava cada movimento ao redor.


Dustin ajustou o foco.


O guarda retirou um cartão do bolso, passou-o pelo leitor instalado ao lado da entrada e abriu as portas. Os outros dois homens levaram as caixas para dentro enquanto ele continuou atento ao estacionamento.


Dustin abaixou lentamente os binóculos.


Pouco depois, nos fundos da Scoops Ahoy, ele andou de um lado para o outro diante da mesa. Robin e Steve estavam sentados, cada um de um lado, enquanto Wolf se apoiava na parede próxima à janela que separava os fundos do balcão. Ela manteve os braços cruzados e acompanhou Dustin com os olhos.


— O cartão abre a porta, mas, infelizmente, o russo que está com ele também tem uma arma enorme — explicou Dustin. — Seja lá o que estiver naquela sala ou dentro daquelas caixas, eles realmente não querem que ninguém descubra.


Robin girou devagar a colher que segurava entre os dedos.


— Tem que ter um jeito de entrar.


Steve se inclinou para a frente.


— Bom, sabe... Eu podia simplesmente acabar com ele.


Robin virou o rosto na direção dele.


— Acabar com quem?


— Com o guarda russo.


Ela o encarou em silêncio.


Steve olhou de Robin para Dustin, como se a solução fosse evidente demais para precisar de uma explicação.


— O quê? Eu chego por trás, apago o cara e pego o cartão. É fácil.


Uma risada breve e abafada escapou de Wolf.


Steve voltou o rosto para ela. Wolf não se afastou da parede nem descruzou os braços.


— Você alguma vez já fez isso?


— Não — respondeu ele. — Mas, na teoria, é fácil.


Wolf sustentou o olhar dele.


— Eu, que tenho um longo histórico de brigas de bar, brigas de rua e roubos recreativos, não sugeri essa opção porque sei que é idiota.


Steve abriu a boca, mas Dustin continuou antes que ele encontrasse uma resposta.


— Não ouviu a parte da arma enorme?


— Além de serem russos — acrescentou Wolf.


— Sim, Dustin, eu ouvi — rebateu Steve. — E é por isso que eu chegaria escondido.


Dustin parou de andar.


— Certo. Então me diga uma coisa e seja honesto. Você alguma vez já ganhou uma briga?


A risada de Wolf escapou no mesmo instante. Ela ergueu as costas da mão diante da boca numa tentativa tardia de abafá-la.


Steve lançou um olhar ofendido na direção dela antes de voltar a encarar Dustin.


— Certo, aquilo foi uma vez...


— Duas — corrigiu Dustin. — Jonathan. No ano anterior?


— Escuta, aquilo não conta.


— Por que não contaria? Porque, pelo que parece, ele acabou com você.


— Sim, mas...


— Você ficou com a boca inchada, o nariz torto, um olho machucado, muito sangue... Coisas que, somadas...


Enquanto os dois continuaram discutindo, Robin deixou de prestar atenção neles. Seu olhar se desviou para o alto e percorreu a parede dos fundos até parar na abertura estreita do sistema de ventilação.


Ela ficou imóvel por um momento.


— Isso pode funcionar.


Steve e Dustin interromperam a discussão e olharam para ela. Wolf afastou a mão da boca, mas Robin já se levantava da cadeira.


Robin atravessou a porta dos fundos sem explicar o que tinha percebido. Pegou a mochila, colocou-a sobre um dos ombros e prendeu o capacete branco da bicicleta debaixo do braço antes de seguir depressa para o balcão.


Steve se levantou e foi atrás dela.


— Robin.


Ela enfiou a mão no recipiente de vidro das gorjetas e retirou o dinheiro que havia dentro.


— Ei, Robin! O que você está fazendo?


— Preciso de dinheiro.


Robin passou por ele sem diminuir o passo.


— Metade disso é meu — protestou Steve.


Dustin saiu dos fundos logo depois, e Wolf o acompanhou. Quando os três chegaram à área de atendimento, Robin já empurrava a pequena porta lateral do balcão.


— Aonde você vai? — perguntou Steve.


Ela atravessou a abertura e continuou em direção à saída da sorveteria.


— Procurar um jeito de entrar naquela sala. Um jeito seguro.


Steve apoiou uma das mãos no balcão e acompanhou Robin com os olhos. Dustin parou ao lado dele, enquanto Wolf permaneceu um pouco mais atrás, com as mãos nos bolsos da jaqueta.


Robin se virou no corredor, ainda andando de costas.


— Enquanto isso, sirvam sorvete, comportem-se e não apanhem.


Wolf observou Robin com aparente casualidade, mas um pequeno sorriso satisfeito surgiu em seu rosto. Ela tirou uma das mãos do bolso e ergueu um molho de chaves. Um pingente em forma de lobo balançou entre seus dedos.


— Quer uma carona?


Robin olhou para as chaves, mas não parou.


— Não precisa. Volto logo.


Ela se virou outra vez e continuou pelo corredor movimentado, ajustando a mochila no ombro enquanto carregava o capacete.


Steve, Dustin e Wolf permaneceram atrás do balcão, observando-a desaparecer entre as pessoas.


Dustin levou a colher de sorvete à boca.


Steve percebeu o movimento e arrancou o utensílio da mão dele.


— Cara. Qual é? Não a minha colher.


Dustin olhou para ele enquanto Steve girou a colher habilmente em torno do dedo, como um pistoleiro guardando a arma depois de um duelo, e a encaixou no suporte preso à cintura.


Wolf guardou as chaves novamente no bolso da jaqueta e acompanhou o gesto com os olhos.


Robin parou a bicicleta diante do Starcourt, desceu com pressa e a empurrou até o suporte onde outras estavam presas. Ainda usava o capacete branco e carregava a mochila nas costas enquanto encaixava a roda no bicicletário.


Ela soltou a bicicleta, arrancou o capacete da cabeça e correu em direção à entrada do shopping.


— É fascinante o que vinte dólares conseguem para você no Cartório do Condado.


Pouco depois, uma folha enorme se abriu sobre a mesa nos fundos da Scoops Ahoy.


— Starcourt Mall — concluiu Robin. — As plantas completas.


Dustin observou o desenho com os olhos arregalados.


— Nada mal.


Robin se inclinou sobre a mesa e alisou o papel com as duas mãos. Dustin ficou ao lado dela, enquanto Steve se curvou sobre a outra extremidade. Wolf permaneceu à esquerda de Robin, apoiada perto da mesa, com os braços cruzados. Embora não dissesse nada, seus olhos acompanharam cada movimento da mão de Robin sobre a planta.


— Então, aqui somos nós, a Scoops — explicou Robin, marcando um ponto com o dedo. Depois, deslizou a mão pelo desenho até outra área. — E é aqui que queremos chegar.


Steve aproximou ainda mais o rosto do papel.


— Não estou vendo um jeito de entrar.


— Não tem — respondeu Robin. — Se estiver falando exclusivamente de portas.


Dustin ergueu o olhar para ela.


— Dutos de ventilação.


Um sorriso surgiu no rosto de Robin.


— Exatamente.


Ela pegou um marcador vermelho e se afastou da mesa.


— Acontece que essa sala secreta precisa de ar como qualquer outra sala.


Robin contornou a mesa enquanto procurava a parte correspondente ao sistema de ventilação. Dustin e Steve acompanharam o percurso no papel. Wolf continuou imóvel, mas seu olhar se deslocou entre o mapa e Robin.


A ponta vermelha do marcador tocou a planta.


— E esses dutos levam até...


Robin traçou uma linha pelo desenho, acompanhando o caminho da ventilação até alcançar a área protegida. Então circulou o destino.


— Aqui.


Os quatro ergueram a cabeça e olharam para a abertura de ventilação no alto da parede.


Minutos depois, Steve estava subindo numa escada de alumínio posicionada diante do duto. Prendeu uma chave de fenda entre os dentes, soltou a grade e a retirou da parede. Depois, apoiou um braço na abertura e espiou o interior metálico.


— Lanterna.


Dustin ergueu uma lanterna vermelha na direção dele.


— Obrigado.


Steve a pegou e iluminou o duto. A luz se refletiu nas paredes estreitas e polidas enquanto ele examinava a passagem.


— É, não sei, cara. Não sei se você consegue caber aqui. É muito apertado.


Dustin olhou para ele de baixo.


— Eu caibo. Confia em mim. Sem clavículas, lembra?


Robin franziu a testa.


— Como é que é?


Ao lado dela, Wolf inclinou levemente a cabeça. Seus olhos passaram de Dustin para Steve, esperando alguma explicação.


— Ele tem uma doença — começou Steve, descendo da escada enquanto Dustin se aproximava para subir. — Cri... É crido... alguma coisa. Sei lá.


Dustin colocou o primeiro pé no degrau.


— Faltam alguns ossos e tal — continuou Steve. — Ele se dobra como o Gumbo.


Embora Steve olhasse para trás ao mencionar Dustin, Wolf já não prestava atenção na explicação. Assim que o garoto começou a subir, ela descruzou os braços e deixou o lado de Robin.


— Você quer dizer Gumby — corrigiu Robin.


Wolf se aproximou silenciosamente da escada e segurou a base com as duas mãos.


— Tenho quase certeza de que é Gumbo — insistiu Steve.


Dustin alcançou a abertura e se enfiou no duto com a cabeça e os braços primeiro. O boné raspou no metal, e seus ombros ficaram comprimidos entre as paredes estreitas.


— Steve, cala a boca e me empurra!


— Está bem.


Steve subiu alguns degraus atrás dele e colocou as mãos nos tênis de Dustin.


— Vou empurrar.


Dustin mal se moveu.


— Não os meus pés, seu idiota. Empurra a minha bunda.


Steve parou.


— O quê?


— Pega na minha bunda! Eu não ligo!


Steve lançou um olhar desconfortável para Robin antes de subir mais um degrau. Wolf manteve a base da escada firme, atenta aos movimentos dos dois.


Ele apoiou as mãos na parte de trás do short de Dustin e começou a empurrá-lo.


— Se você precisa ser empurrado para caber, você não vai conseguir continuar todo o trajeto sozinho. É inútil — comentou Wolf, mais para Dustin do que para os outros.


Nenhum dos dois respondeu.


Ela soltou um suspiro.


— Vamos! Mais forte! — exigiu Dustin de dentro do duto. — Empurra mais forte!


— Eu estou empurrando!


Steve subiu outro degrau e tentou encontrar apoio. A escada oscilou sob o movimento, mas Wolf a segurou com mais força.


— Você está brincando com as minhas pernas — continuou Dustin.


— Eu não estou brincando. Estou muito mal apoiado.


Steve tentou reorganizar os pés enquanto Dustin continuou preso pela cintura.


— Anda!


— Eu vou te mostrar. Preparado?


Steve prendeu as pernas de Dustin debaixo de um dos braços e se inclinou contra a escada.


— Um, dois...


Ele puxou e empurrou ao mesmo tempo.


Dustin não avançou.


— Merda.


Steve manteve as pernas dele suspensas.


— Funcionou?


— Mais uma vez.


Antes que Steve tentasse de novo, uma campainha tocou repetidamente no balcão.


— Ahoy, marinheiros! Todos ao convés! — gritou uma voz do outro lado da janela.


Robin virou a cabeça na direção da área de atendimento.


Erica estava diante do caixa, com uma das mãos sobre a campainha.


— Ahoy!


Ela apertou o botão outra vez.


— Vamos. Venham até aqui e me sirvam algumas amostras.


Wolf não olhou para o balcão. Continuou com as mãos firmes na escada e os olhos voltados para Dustin, enquanto Steve tentava não perder o equilíbrio sob as pernas dele.


Robin permaneceu imóvel.


Seu olhar se demorou em Erica.


A praça de alimentação do Starcourt continuou movimentada. Clientes atravessaram o corredor diante da Scoops Ahoy, desviando do conversível vermelho cercado por cordões de veludo e dos balões nas cores da bandeira americana.


Nos fundos da sorveteria, Erica aproximou o rosto da abertura na parede e apontou a lanterna vermelha para o interior do duto. A luz se refletiu nas placas metálicas enquanto ela examinou o espaço estreito com uma expressão desconfiada.


— É... Não sei.


Erica se afastou da abertura e voltou para a mesa onde as plantas continuavam abertas.


Robin se apoiou no balcão ao lado de Steve. Ele manteve os braços cruzados, enquanto Dustin e Wolf permaneceram próximos um do outro.


— Você não sabe se consegue caber? — perguntou Dustin.


Erica ergueu as sobrancelhas.


— Eu consigo caber. Só não sei se quero.


— Você é claustrofóbica? — perguntou Robin.


Erica soltou uma risada curta.


— Eu não tenho fobias.


Wolf levou uma das mãos ao rosto e pressionou os dedos perto dos olhos.


— Como eu odeio criança... — murmurou.


Dustin lançou um olhar rápido para ela. Steve e Robin também ouviram, mas nenhum dos três desviou a atenção de Erica por tempo suficiente para responder.


— Certo — disse Steve. — Então qual é o problema?


Erica apoiou as duas mãos na mesa e se inclinou para a frente.


— O problema é que eu ainda não ouvi o que Erica ganha com isso.


Pouco depois, Erica estava instalada numa das mesas da sorveteria, cercada por uma quantidade absurda de sorvete. Taças, copos, casquinhas e tigelas cobriam quase todo o tampo. No centro, diante dela, estava um enorme sorvete de caramelo.


Dustin se sentou de um lado, com Robin no banco oposto. Wolf permaneceu ao lado dele, enquanto Steve se aproximou carregando mais calda de chocolate.


— Mais calda, por favor — pediu Erica.


Steve entreolhou para os outros.


Erica fez um gesto para que ele continuasse.


— Pode colocar mais.


Ele se afastou da mesa com uma expressão contrariada levando consigo a barca de sorvete.


— Certo — começou Robin.


Ela pegou as plantas dobradas, abriu a seção marcada em vermelho e a ergueu para que Erica pudesse enxergar.


— Está vendo isto? Este é o caminho que você vai seguir.


Robin percorreu a linha com o indicador.


— Esperamos até a última entrega sair hoje à noite. Então você atravessa o duto, derruba a grade, desce e abre a porta.


Erica observou o mapa por cima das sobremesas.


— E aí vocês descobrem o que tem dentro daquelas caixas?


— Exatamente — confirmou Robin.


Erica estreitou os olhos.


— E vocês disseram que o guarda está armado.


— Sim, mas ele não vai estar lá — respondeu Dustin imediatamente.


— E as armadilhas?


Robin franziu a testa.


— Armadilhas?


— Lasers? Espinhos saindo das paredes?


— Outra criança que vê filmes demais... — murmurou Wolf, mais para si mesma enquanto desviava o olhar para o teto.


Erica recostou-se no banco e olhou de um para o outro.


— Sabem com o que esse plano malfeito de vocês parece?


Ela se inclinou novamente sobre a mesa.


— Colocar uma criança em perigo.


— Nós vamos ficar em contato com você pelo rádio o tempo todo... — começou Robin.


Erica ergueu a mão para interrompê-la.


— Não, não, não. Colocar uma criança em perigo.


Dustin se aproximou da mesa.


— Erica, oi. Nós achamos que esses russos querem fazer mal ao nosso país. Muito mal. Você não ama o seu país?


Erica sustentou o olhar dele enquanto levava o canudo da raspadinha aos lábios.


— Não se pode escrever América sem Erica.


Dustin parou por um instante, como se verificasse a frase mentalmente.


— É... Estranhamente, isso é totalmente verdade.


Ele abriu as mãos enquanto o barulho de sucção do canudo ficava mais alto.


— Então não faça isso por nós. Faça pelo seu país. Faça pelos seus semelhantes. Faça pela América... Erica.


Erica deixou o copo de raspadinha de volta a mesa e um sorriso surgiu no rosto dela.


— Até senti um arrepio.


Dustin relaxou os ombros, satisfeito.


Erica apontou para o copo diante de si.


— Por causa desta bebida gelada, não do seu discurso.


A satisfação desapareceu do rosto de Dustin.


Erica apoiou os braços na mesa.


— Sabe do que eu mais gosto neste país?


Ela não esperou uma resposta.


— Capitalismo.


Dustin franziu a testa.


— Você sabe o que é capitalismo? — Erica continuou.


— Sei — Robin e Dustin responderam juntos.


— Significa que este é um sistema de livre mercado. As pessoas recebem pelos serviços que prestam de acordo com o valor de suas contribuições.


Robin acompanhou a explicação em silêncio, enquanto Erica lançou um olhar calculado ao redor da mesa.


— E me parece que a minha capacidade de caber naquele pequeno duto é muito, muito valiosa para vocês.


Wolf deu uma discreta cotovelada em Dustin. Ele virou o rosto para ela no momento em que um sorriso confiante surgiu em seus lábios.


Wolf se inclinou um pouco na direção de Erica.


— Bem lembrado. Mas sabe o que eu mais gosto no capitalismo? Achar alguém que faz o mesmo trabalho por um preço menor.


Erica não perdeu o sorriso.


— Vocês não vão encontrar outra criança pequena o bastante, disposta a entrar naquele duto e fazer isso hoje.


Ela lançou um olhar rápido para as plantas e depois voltou a encarar Wolf.


— Então, se querem a minha ajuda, é melhor que este sorvete aqui seja o primeiro de muitos.


Erica apontou para a montanha de sorvete diante dela.


— E estou falando de sorvete grátis pelo resto da vida. É a melhor oferta que vocês vão receber.


A escuridão cobriu o estacionamento vazio e as áreas de serviço atrás do Starcourt. Visto do alto, o shopping pareceu isolado no meio da noite, com apenas o néon azul e vermelho contornando a entrada dos fundos e algumas lâmpadas espalhadas pelos cais de carga.


— Erica, está me ouvindo? — a voz de Robin chiou pelo rádio.


— Uhum. Estou ouvindo.


Nos fundos da Scoops Ahoy, Erica ajustou o comunicador preso ao braço. Usava o capacete branco de Robin, agora equipado com duas lanternas presas às laterais por camadas grossas de fita adesiva. Uma mochila repousava em suas costas, e joelheiras e cotoveleiras protegiam seus membros. O pequeno microfone diante da boca completava o equipamento improvisado.


Ela ergueu os olhos para a abertura do duto.


— Vocês, nerds, já estão em posição ou o quê?


No telhado, Robin permaneceu agachada atrás da mureta, segurando o rádio. Steve se apoiou ao lado dela, enquanto Dustin observou o cais através dos binóculos.


Wolf ficou agachada ao lado dele.


— Sim, estamos em posição — respondeu Robin.


Dustin percorreu lentamente a área com os binóculos. O cais estava vazio. Nenhum caminhão ocupava as vagas de descarga, e nenhuma figura armada se movia entre as portas, os contêineres ou as caixas empilhadas.


Wolf também examinou o espaço, mas seu olhar não permaneceu fixo num único ponto. Passou pelas entradas, pelas sombras entre os equipamentos e pelo lugar onde os russos armados quase os descobriram na noite anterior.


A tranquilidade não a convenceu.


Sua postura permaneceu firme, pronta para reagir, enquanto Dustin baixou um pouco os binóculos.


Robin apertou o botão do rádio.


— Está tudo tranquilo por aqui, então você tem sinal verde.


Erica olhou para a escada apoiada sob a abertura.


— Sinal verde. Entendido.


Ela começou a caminhar em direção ao duto.


— Iniciando a Operação Colocar uma Criança em Perigo.


Robin fechou os olhos por um instante.


— Será que podemos não chamar assim?


— Vejo vocês do outro lado.


Erica soltou o botão do comunicador e subiu pela escada.


No telhado, Robin manteve o rádio perto do rosto. Steve se inclinou um pouco mais sobre a mureta, atento à área abaixo. Dustin voltou aos binóculos.


Wolf permaneceu ao lado dele, os olhos percorrendo novamente o cais silencioso.


Nada se moveu.


Ainda assim, ela não relaxou.


Dentro da Scoops Ahoy, Erica alcançou a abertura e se colocou de joelhos diante do duto. As duas lanternas presas ao capacete iluminaram as paredes metálicas, lançando reflexos brilhantes pelo corredor estreito.


Ela apoiou as mãos no fundo do duto e entrou sem precisar de ajuda. Seu corpo passou pela abertura com espaço suficiente para que movimentasse os braços e se impulsionasse para a frente.


Erica olhou uma última vez para trás.


— Nerds.


Então se virou e começou a rastejar pelo interior do sistema de ventilação.


Steve apoiou uma das caixas do Imperial Panda sobre a mesa de metal e passou o estilete pela fita amarela que selava as abas. O corte rompeu o silêncio da sala, acompanhado apenas pelo ruído discreto das roupas e pela respiração do grupo reunido ao redor.


Ele afastou o papelão e encontrou, acomodado dentro da caixa, um estojo quadrado de aparência industrial. As bordas eram reforçadas por peças de metal, e uma grande trava circular ocupava o centro da tampa.


Dustin inclinou o corpo para enxergar melhor. Robin se aproximou pela lateral da mesa, enquanto Erica, ainda equipada com o capacete, as lanternas, as proteções e a mochila, observou o objeto sem abandonar a expressão desconfiada. Wolf permaneceu com as mãos nos bolsos da jaqueta, o olhar fixo no estojo.


Steve segurou a barra da trava e a girou.


Um silvo escapou do interior.


Todos se inclinaram um pouco mais quando uma névoa fria vazou pelas laterais. Steve retirou a tampa, revelando quatro compartimentos circulares idênticos, cada um protegido por um encaixe metálico.


— Isso definitivamente não é comida chinesa.


Ele começou a estender a mão para dentro, mas interrompeu o movimento. Olhou para o estojo, depois para os outros.


— Talvez vocês devessem... sei lá, se afastar.


Robin e Erica deram alguns passos para trás. Wolf acompanhou as duas e cruzou os braços, mantendo os olhos sobre o estojo.


Dustin continuou exatamente onde estava.


— Não.


Steve estendeu o braço diante dele, impedindo que se aproximasse ainda mais.


— Só... só se afasta, está bem?


— Não.


— Se afasta. Sério.


— Não. Não! Se você morrer, eu morro.


Steve parou.


Os dois se encararam por alguns segundos. Dustin sustentou o olhar com uma firmeza absoluta, sem o menor sinal de que pretendia recuar.


Steve desistiu, dando de ombros.


— Está bem.


Wolf observou os dois com os braços ainda cruzados.


— Vocês sabem que, se isso for realmente tóxico, não vai adiantar nada a gente se afastar, né?


O silêncio retornou por um instante.


Steve lançou um olhar rápido para ela. Robin desviou os olhos para o estojo. Erica ergueu levemente as sobrancelhas, enquanto Dustin permaneceu ao lado de Steve, tão determinado quanto antes.


Ninguém respondeu.


Wolf descruzou os braços e tornou a colocar as mãos nos bolsos da jaqueta.


Steve voltou a atenção para o conteúdo da caixa. Segurou uma das alças e puxou o cilindro para fora do compartimento.


Um tubo transparente surgiu preso entre duas extremidades metálicas grossas. No interior, uma substância verde e luminosa se moveu lentamente, repleta de partículas que flutuavam e se agitavam como se estivessem suspensas em líquido.


Steve ergueu o cilindro diante do rosto.


O brilho esverdeado iluminou seus olhos arregalados e projetou reflexos sobre o rosto de Dustin.


— Que diabos?


Robin e Erica se aproximaram outra vez. Wolf inclinou a cabeça, acompanhando o movimento da substância dentro do tubo.


— O que é isso? — perguntou Robin.


A sala inteira tremeu.


As caixas vibraram sobre as prateleiras. O cilindro balançou na mão de Steve, e todos perderam o equilíbrio por uma fração de segundo. Wolf arrancou as mãos dos bolsos para se firmar, abrindo os braços e olhando de uma parede para outra.


Dustin piscou.


— Foi impressão minha ou a sala se mexeu?


Erica observou o ambiente com os olhos estreitos.


— Armadilhas.


Um ruído mecânico começou em algum ponto atrás das paredes.


Robin encarou o cilindro.


— Quer saber? Vamos pegar isso e ir embora.


Ela tomou o objeto das mãos de Steve enquanto Dustin correu até o pequeno painel embutido na parede. Luzes verdes e azuis iluminavam quatro botões, entre eles um identificado como “ABRIR PORTA”.


Dustin apertou o botão.


Nada aconteceu.


— Qual deles eu aperto, Erica?


— Só aperta o maldito botão, nerd.


Dustin tornou a pressioná-lo.


— Qual deles? Eu estou apertando o botão, está bem?


Erica aproximou-se do painel.


— Aperta “abrir porta”.


— Eu estou apertando “abrir porta”!


Steve chegou por trás de Dustin e tentou alcançar os controles por cima do ombro dele.


— Então aperta o outro botão.


— Não!


Robin, ainda segurando o cilindro verde junto ao corpo, aproximou-se dos dois.


— Sai da frente e deixa ela apertar o botão...


Steve e Dustin disputaram espaço diante do painel, cada um tentando alcançar os controles enquanto bloqueava o outro.


— Quer parar? — reclamou Dustin.


— Quer me deixar fazer isso? — rebateu Steve.


— Parem de apertar tudo — ordenou Wolf.


Nenhum dos dois prestou atenção.


— Só abre a porta! — exigiu Robin.


Steve conseguiu passar a mão pelo painel e pressionou outro botão.


Um estrondo metálico ecoou pela sala.


Uma parede vertical desceu diante da abertura por onde haviam entrado e se fechou com violência, selando o ambiente. Robin e Erica se viraram para a porta. Wolf recuou um passo, o olhar percorrendo rapidamente as junções metálicas que agora bloqueavam a saída.


Dustin ficou imóvel diante dos controles.


— Eu falei para apertar “abrir porta”!


— Eu apertei! — respondeu Steve.


A sala tremeu novamente.


Desta vez, o movimento foi mais forte.


Robin abriu os braços para manter o equilíbrio. Erica se segurou na lateral de uma caixa. Dustin apoiou a mão na parede, enquanto Steve olhou para cima.


As luzes do lado de fora começaram a passar rapidamente pela pequena abertura junto ao painel. Faixas brancas surgiram e desapareceram em sequência, subindo diante deles.


O chão cedeu sob seus pés.


— Ah, merda — murmurou Steve.


A sala despencou.


As caixas estremeceram sobre as mesas e prateleiras. O metal gemeu ao redor deles, e o ar pareceu subir enquanto seus corpos foram puxados para baixo com violência.


Robin e Erica gritaram. Dustin se agarrou ao que conseguiu alcançar. Steve abriu os braços, tentando manter-se em pé enquanto procurava apoio nas paredes.


Wolf perdeu o equilíbrio e caiu agachada entre duas pilhas de caixas. Levou as duas mãos para os lados da cabeça e permaneceu assim, os olhos apertados por um instante, como se pudesse recusar silenciosamente a existência daquele elevador, daquela queda e de todas as decisões que os tinham levado até ali.


O grito do grupo ecoou pela estrutura metálica enquanto o elevador continuou descendo, cada vez mais rápido, por um poço que parecia não ter fim.