Notas iniciais
Boa leitura!

Sona abriu os olhos. Sua cabeça doía no local em que a havia colidido com a trava interna da cápsula e um pequeno filete de sangue escorria pela sua testa e começava a entrar pelo seu olho. Passou as costas da mão para limpá-lo e levantou a cabeça para olhar o local em que se encontrava. A aterrissagem havia causado uma grande cratera no solo, e acima dela, um imenso céu laranja a cercava, onde pequenas criaturas voavam ao longe, indiferentes ao objeto anômalo que jazia ali, ainda emitindo uma pequena nuvem de fumaça que se misturava a grande quantidade de poeira que havia sido levantada.

Sona saiu da cápsula quebrada e começou a subir em direção ao topo da cratera. “Onde estou?”. Yone os prometera que cairiam no planeta Miraxes, onde seu irmão Yasuo estava de passagem com sua tripulação. Disse para que o procurássemos, que encontraríamos nele a ajuda necessária, mas, da maneira que se seguiu os acontecimentos, temia que as coisas tivessem saído totalmente do controle. Tocou a medalhinha que agora descansava em seu pescoço, recordando da correria e desespero que foi sua fuga. “Com isso, ele saberá”, Yone a prometera. Pensar em Yone e nos seus companheiros que não escaparam, lhe causava uma dolorido aperto no peito. Não conseguia esquecer o brilho nos olhos daquele estranho sério e bondoso, que se agachou em sua frente e lhe disse que tudo ficaria bem. Aqueles olhos lhe deram esperança.

Lembrar desse olhar lhe veio a mente a imagem de outro olho. Um único, frio e raivoso amarelo fogo. Lembrar dele lhe causava arrepios, e mais ainda ao lembrar-se do outro, vermelho sangue, cravado na arma que a encarava junto ao homem. O mesmo que a amedrontou na terrível visão apocalíptica que tivera, motivo que a fez viajar para Ionan com seus dois companheiros templários e um grupo de seguidores fiéis. Mas seus esforços haviam sido em vão. A criatura maligna havia sido liberta. Se o seu segredo caísse naquelas mãos, sabia que seria o fim. “O Portão Ora”. Precisava protegê-lo a qualquer custo. Esse era o seu dever.

Depois de algumas poucas horas de caminhada às cegas, Sona conseguiu avistar o que parecia ser uma cidade. Ao se aproximar mais, pôde vêr um grande tráfego de naves decolando e aterrissando em uma pista de vôo a direita, enquanto um mar de seres andavam de um lado pro outro por entre ruas estreitas e coloridas. Construções circulares, de todas as cores, sustentadas por altos e finos pilares, pairavam sobre sua cabeça e se estendiam por toda a cidade. Um Korobak curvado passou com pressa pelo seu lado enquanto lia concentradamente algo que tinha em mãos. Ver este Kurobak a fez lembrar de Hokko, que corajosamente a defendera tantas vezes e se manteve leal até o momento que se separaram, na nave do Ordinal. Hokko ainda não tinha sido ejetado quando a porta foi rompida, e pensar em como ele estaria nesse exato momento a deixava aterrorizada.

O Kurobak apressado entrou por uma porta a sua direita. Pôde escutar música, vozes altas, e um cheiro peculiar, porém extremamente atrativo, vindo do interior. Sua barriga roncou e decidiu seguir os passos da criatura pela porta agora semi-aberta. O ambiente era escuro, porém, extremamente movimentado e barulhento. Um grupo de seres baixinhos cantavam uma canção animada em uma língua que Sona não conhecia, enquanto algumas mulheres dançavam alegremente em volta de uma mesa. Um punhado de Skoldois andava pra lá e pra cá com bandejas de bebidas fumegantes e pratos exóticos, enquanto os entregavam aos clientes que conversavam e cantavam alto em volta de mesas e balcões.

Sentou-se junto a uma mesa vazia e pensou o que faria em seguida. Estava sem moedas de troca e temia que ninguém ali entenderia sua forma de comunicação para que pudesse pedir alguma informação. Sabia que não estava segura. Sua fuga da nave provavelmente já havia sido informada ao império e neste momento já poderia haver mais naves a sua procura e dos outros três companheiros que haviam conseguido escapar.

“Eles não sabem quem eu sou”. Sabia que esta era a única razão de ainda não ter sido encontrada. No momento em que soubessem, cada apoiador do império seria mobilizado a encontrá-la e dariam de tudo para serem o responsável pela sua captura e entrega ao imperador.

Estava pensando na quantidade absurda de moedas que seu capturador receberia como recompensa, quando uma garota magrela de cabelo laranja sentou abruptamente a sua frente. Suas roupas eram despojadas, com um colete curto por cima de uma blusa azul estampada de caveira. Uma imensa arma se apoiava em suas costas, mas a garota parecia nem sentir o peso que estava a carregar. Sona notou que um dos seus braços era mecanizado, e batia as pontas de metal na mesa enquanto a encarava com o rosto apoiado na mão verdadeira. Seus arregalados olhos verdes e sorriso aberto enquanto a encarava deixava Sona estranhamente desconfortável.

— Olá docinho! Como vai? É nova aqui?

Sona hesitou por um instante, mas acabou dando um leve aceno de cabeça.

— Que maravilha! Adoro gente nova. Sabe como é, toda essa mesma gente todo dia, não tem graça nenhuma. Bom, não que eu venha aqui todo dia. Mas falando nisso, seria ótimo. Comer aquele ensopado da casa todo dia, não seria nem um pouco uma má idéia-

A garota continuava falando sem parar. Já havia se perdido no assunto do monólogo quando um homem forte de cabelos brancos amarrados em um rabo de cavalo se aproximou de onde estavam e se dirigiu a garota que ainda tagarela. Seu rosto lhe parecia levemente familiar.

— Jinx, está na hora.- sua voz era calma e baixa, extremamente contrastante com a da jovem que agora o olhava desacreditada.

— O quê?! Mas nós acabamos de chegar!

— Não importa, vamos. Malphite já está na nave.- o homem virou-se e foi andando calmamente até a porta enquanto Jinx fechava a cara e levantava de braços cruzados.

— Isso é completamente injusto. Ei! Ao menos me dê aquelas moedas que me deve para eu comprar mais um ensopado! Capitão Yasuo, ei!

O coração de Sona parou quando escutou o nome, e levantou-se subitamente, derrubando com um barulho alto a pesada cadeira em que estava antes sentada. A garota, que tinha começado a correr atrás de seu capitão, parou para olhá-la com uma expressão de surpresa. Yasuo, já com a mão segurando a porta aberta do bar, também virou-se para descobrir a origem do barulho.

Sona o fitava de olhos arregalados, sem acreditar que aquele podia ser o homem que procurava.

— Docinho? Você está bem?- Jinx se aproximou novamente e balançou as mãos em frente ao seu rosto, como se checando se ainda havia alguém ali.

Andou lentamente em direção ao homem parado em frente a porta, enquanto tirava do seu pescoço a medalhinha dourada que lhe fora dada. Parou cara a cara e estendeu o objeto em suas mãos. “Por favor, seja você” Sona clamava por dentro, rezando para que não tivesse escutado errado, que não fosse uma pegadinha do destino. O homem olhou cuidadosamente para o pequeno colar e em seguida para Sona, enquanto seu rosto relaxava e esboçava um leve sorriso.

— Então vocês conseguiram.