Notas iniciais
Olá! Como dito nas notas da história, este primeiro capítulo segue aos acontecimentos do final do conto "A Isca", sendo quase uma continuação direta. Mas não se preocupe! Os fatos mais relevantes são relembrados no capítulo, fazendo com que não seja obrigatória a leitura do conto. Porém, caso tenha interesse, é possível encontrá-lo para leitura no site do League of Legends, na aba de Universo alternativo - Odisséia :) Boa leitura!

Kayn fitava distraído as metades de Keelo, ainda faiscando aos seus pés. Os restos do seu velho meka pareciam estranhamente medíocres ali, e Kayn se pegou lembrando de como a máquina tinha criado esse interesse peculiar em lhe dar sustos. Sempre achara essa mania um tanto irritante, mas nunca antes tinha-o feito reagir de tal maneira. Sentia como se seu corpo houvesse sido movido, pra além de seu controle, e lembrar da incrível velocidade e precisão que sua foice cortara o ar (e o meka) lhe dava agora arrepios.

Shieda Kayn sempre fora um soldado diferenciado do restante. Considerado um estrategista militar de primeira classe, não era pra menos que tinha sido escolhido a dedo pelo imperador para ser parte da seleta organização de Ordinais, criados para lidar com as mais diversas situações que pudessem vir a ameaçar o império Demaxiano, a mando do próprio imperador Jarvan IV. Sua habilidade com os mais diversos tipos de armas e sua velocidade ao brandi-las o tornaram famoso no império, porém, ao olhar agora para o meka, sentia uma força completamente nova e desconhecida crescendo dentro de si.

Pensou nos anos que convivera junto à Keelo, desde o dia que foi nomeado um Ordinal. O meka lhe foi designado a fim de o manter sempre em treinamento, mas achava que haviam criado uma relação muito mais de amizade do que de professor e aluno. Afinal, Kayn sabia que havia pouco o que a máquina ainda pudesse lhe ensinar.

Mesmo assim, tudo o que conseguia sentir por ela no momento era indiferença. Chutou uma das metades para longe e sentou-se no que sobrara do seu assento, junto a janela. Seu traje preto misturava-se com a escuridão que o rodeava do outro lado da janela, enquanto seu cabela azul parecia brilhar à luz das pequenas estrelas, tão distantes. Precisava enviar um relatório dos acontecimentos recentes em Ionan para o imperador, mas sinceramente, não sabia o que dizer. Não tinha como relatar o ataque que sofrera de seus próprios aliados, sem mencionar a chacina que se sucedeu. E mais importante ainda, a arma que lá o esperava.

“Não se faça de coitado, Kayn. Sei que se orgulha de ter sido digno de me portar. O poder que posso lhe proporcionar vai além de tudo o que sua imaginação pôde um dia alcançar.”

— Quieto. O único aqui que deve se sentir agradecido é você. Graças a mim pôde sair daquele buraco- Kayn sabia que isso não era completamente verdade. O chamado emitido por o que quer que seja que habita a foice apoiada sobre o seu colo era algo que ele nunca havia sentido antes. Uma força capaz de atrair a todos que passassem em suas proximidades, fazendo-os lutarem cegamente por algo que eles nunca tinham visto e nem mesmo entendiam, não é algo a ser menosprezado.

Rhaast soltou uma gargalhada alta e compulsiva, como se tivesse acabado de escutar a melhor piada de sua vida. Kayn limitou-se a ignorá-lo. Precisava terminar logo o relatório, antes que Vassur resolvesse bater novamente na sua porta para cobrá-lo. Pegou o dispositivo de gravação holográfico que se encontrava apoiado despreocupadamente em sua mesa, ignorante ao caos da sala que o rodeava, e começou a narrar os resultados de sua recente missão, tomando os devidos cuidados de relatar apenas sobre os fiéis de templários encontrados no planeta. Vassar lhe informara que os prisioneiros já estavam a bordo, prontos para serem levados para detenção e interrogação quando desembarcassem em Armada Locus, sede principal do Império Demaxiano.

“Se pretende entregar os seguidores de templários para o império, você é mais tolo do que eu previa. Pra que entregar uma fonte de poder dessa magnitude para outro se pode usar para você mesmo? Humano estúpido. Os templários são a chave para encontrar os depósitos de Ora. Qualquer um que tiver acesso a esse poder, pode transcender a um nível nunca antes visto e controlar o universo como um verdadeiro Deus!”.

Rhaast completou com mais uma risada histérica. Kayn bufou e, depois de uma espreguiçada demorada, se levantou para fitar a escuridão do lado de fora da nave. Controlar o universo como um verdadeiro Deus. Como se isso fosse possível. Não tinha tempo pra dar atenção aos delírios de uma voz em sua cabeça. Saiu dos aposentos e entrou no elevador central em direção ao Hangar, no andar mais inferior da nave, onde seus prisioneiros foram acomodados. Precisava arrancar todas as informações possíveis sobre os templários e seus conhecimentos sobre o Ora, substância parecida com ouro líquido, que diziam ser fonte de um poder gigantesco, quase mítico. Qualquer um que o manipulasse com sucesso poderia ganhar grande influência, o que significava que era essencial que o império controlasse suas fontes, distribuição e usos.

Colocou seu único olho exposto no scanner ocular antes que as pesadas portas de metal se abrissem pra revelar um aposento grande e mal iluminado. No canto esquerdo, encontrava-se um punhado de seres aglomeradas, agachados em frente a uma série de dispositivos eletrônicos que ligavam cada par de pulsos à parede em suas costas. Bom, realmente só podiam ser definidos como seres. Dos dezessete ali presentes além dele, Kayn pôde identificar pelo menos seis raças distintas, entre elas Humanos, Korobaks e Skoldois.

Em frente ao grupo, estava abaixado um homem de cabelo acinzentado comprido, preso em um rabo de cavalo alto, que falava em voz baixa com os prisioneiros a sua frente!

— Yone!- A voz de Kayn reverberou pela grande sala, fazendo o homem se levantar com um salto, enquanto virava em direção a voz que o chamara. As correntes metálicas dos dispositivos acoplados à parede se chocaram produzindo um som estridente quando os prisioneiros se esbarraram uns nos outros ao ouvir o chamado grave que ainda ecoava no salão.

— Senhor Shieda!- O rosto de Yone estava vermelho e logo começou a brotar pequenas gotas de suor. “Não o vi chegar, senhor”, completou, com uma reverência desajeitada.

— O que faz aqui? Não lembro de tê-lo mandado a serviço aqui no subsolo.

— Nã-não, não mandou senhor. Vim apenas ver como estavam os prisioneiros, verificar se os dispositivos estavam em bom funcionamento

— A verificação já foi feita antes do embarque. Suba, não há trabalho pra você aqui.

— Sim senhor!- O rapaz não esperou ser mandado duas vezes, e passou rapidamente por Kayn de cabeça baixa, seguindo para o elevador em que este tinha acabado de descer.

Yone era um antigo tripulante da nave do Ordinal Shieda Kayn, que trabalhava como técnico geral de equipamentos tecnológicos. Seu conhecimento na área era muito vasto, e haviam aqueles que ousavam dizer que ele podia hackear qualquer dispositivo tecnológico com a mesma facilidade que se abre uma comida enlatada. Dizem que ele cresceu ao lado de seu irmão mais novo problemático, em uma vida de luxos, mas isso não o impediu de passar a maior parte da sua juventude em frente aos livros, enquanto seu irmão caçula preferia treinar acrobacias e golpes com espadas. Seus caminhos tomaram rumos diferentes quando Yone foi recrutado pelo próprio Kayn para fazer parte de sua tripulação de missões especiais, como a principal arma do império, enquanto seu irmão continuou na vida de duelos e curtição. O Ordinal não escondia o desdenho que sentia por esse tipo de pessoa.

“Está te fazendo de idiota. Deveria puni-lo por te desobedecer.”

Kayn o ignorou e parou em frente às criaturas assustadas que olhavam para os próprios pés. Todos, menos ela. Seus grandes olhos dourados o encaravam sem oscilar, da mesma maneira que o encarou em Ionan.

— Sona. Este é o seu nome, não é?- Lembrava que um Korobak, o maior do grupo, agora na outra extremidade do aglomerado, havia lhe dito isso no primeiro encontro.

“Ela é diferente dos demais, Kayn. Sinto poder fluindo por suas veias. Sinto cheiro de Ora.”

De ora? Como isso era possível? A expressão da mulher a sua frente era impassível e nenhuma resposta saiu de seus lábios.

— Sona não pode te falar nada! Eu já disse is-

O gande Kurobak não conseguiu terminar a frase antes de ser arremessado sobre uma das caixas amontoadas ao lado dos prisioneiros. A colisão soou como um estrondo, voando peças de metal para todos os lados do salão. O Kurobak jazia estatelado em meios aos escombros, com os pulsos em carne viva esticados por cima da cabeça onde as algemas foram repuxadas bruscamente sob sua pele.

— Eu não lembro de lhe ter dirigido uma pergunta, Kurobak.- A raiva borbulhava dentro de si, mas sua voz saiu assustadoramente baixa e calma. Estava farto de lhe fazerem de idiota, farto de desobediência.

Com um movimento rápido, segurou a garota com uma mão pela gola, que ainda olhava chocada para o Kurobak desacordado, e a levantou até a altura de seus olhos, colocando a lâmina da foice em seu pescoço alvo.

— Eu vou perguntar novamente. Você é a Sona?- Os olhos da garota agora estavam úmidos e umas mechas de seu cabelo, antes cobertos por um capuz, escorregaram pelo seu rosto. Eram de uma cor clara, de tons azulados e esverdeados. Uma expressão triste foi se formando aos poucos em seu rosto enquanto o encarava pendurada. Os outros prisioneiros os olhavam aterrorizados. Enfim, deu um sutil aceno de cabeça.

— Boa garota. O gato comeu sua língua?

Sona abriu um pouco a boca, mas nenhum som saiu de seus lábios. No fim das contas, aparentemente ela realmente não podia falar. Kayn afastou a arma e largou sua roupa. Com um baque surdo, a mulher caiu de joelhos com uma das mãos no pescoço, enquanto algumas tosses abafadas saiam de sua garganta. Abaixou-se ao mesmo nível dela e levantou-lhe o rosto com uma das mãos, forçando-a a encará-lo.

— Então você é muda. Que conveniente. Vamos brincar de outro jeito então.- Kayn tirou um aparelho retangular do bolso, com uma tela plana e uma caneta acoplada, e estendeu à mulher a sua frente. — Eu lhe farei uma pergunta, e você escreve nessa tela a resposta. Simples, não é?

Sona fitava o aparelho, sem fazer nenhuma sugestão de pegá-lo.

“Há, você é patético. Desse jeito você não faz nem uma criança contar onde escondeu o doce. É preciso sangue, Kayn, eles só aprendem com o sangue. Faça-a sofrer, faça-a sangrar”

— Calado!- A cabeça de Kayn latejava de raiva, e a voz de Rhaast ecoando nela só tornava as coisas piores. Os prisioneiros olhavam de relance uns para os outros com expressões receosas, provavelmente tentando identificar o infeliz companheiro a quem a ordem tinha sido direcionada, mas sem sucesso. Sona levantara os olhos do aparelho para encará-lo, com um olhar enigmático que Kayn não conseguiu decifrar.

A ideia de ser temido, para Kayn, sempre lhe dera imensa satisfação. Como um Ordinal, já era parte de seu dia a dia ser encarado por olhares temerosos por onde quer que passasse, principalmente quando lidando com seus inimigos. A falta de medo no olhar da mulher à sua frente lhe fazia se sentir pequeno e insignificante.

“Fraco.” Rhaast sussurrava em sua cabeça.

Kayn levantou-se bruscamente, deu as costas, e saiu a passos pesados em direção à porta do salão. Um pouco antes de chegar no painel de controle da grande porta, virou-se pra o grupo miserável que ainda o olhavam assustados.

— Da próxima vez que eu vier aqui, só sairei com as respostas. Nem que pra isso eu precise ser o único a sair vivo dessa sala. É uma promessa.

Os grandes olhos dourados o seguiram até que não pudessem mais ser vistos.

Notas finais
Yep!