Light Up The Stars
6 Counting Stars
Notas iniciais
ps. Koll significa Espectro na mitologia Estoniana
PS2. Couting Stars = Contando Estrelas
"Porque.. Se eu te perder, eu me perco."
(500 Days of Summer)
________
Enquanto a dupla corria até o local de onde viera o grito, conforme se aproximavam, graças a suas audições apuradas, podiam ouvir trechos da conversa que ocorria na clareira. ”Já que você quer tanto morrer..” Disse uma voz fria e irônica, sem dúvidas feminina. Um calafrio percorreu o corpo de ambos, mas continuaram a correr em silêncio, Natsu ainda carregava o exceed adormecido em seus braços. “Terei sua ajuda, por bem ou por mal, Sting Eucliffe.”, após a última frase proferida pela mulher desconhecida, apesar do rosado suspeitar de já ter ouvido aquela voz em algum lugar, rangeu os dentes ao perceber de quem se tratava. Sabertooth.
Ouviram o barulho de algo pesado caindo na água, e apertaram o passo, saltando pra dentro da clareira, que agora se encontrava ocupada apenas pelo Dragon Slayer das sombras desmaiado e dois exceeds a beira de um lago negro que fedia a veneno. Os gatos gritavam para o lago, com lágrimas nos olhos, ambos angustiados.
O lugar cheirava a sangue.
Avistaram a Dark Duild, mas aquilo não parecia importante no momento. O cheiro de Minerva ainda pairava no ar, familiar a Natsu, que varreu os olhos pelo lugar a procura da mulher, sem sucesso.
Deixando os recém-chegados sem reação, assim que notou sua presença, o gato marrom avermelhado correu até eles, se ajoelhando no chão enquanto as lágrimas escorriam por seu rosto. Não gostava da Fairy Tail, mas deixaria o orgulho de lado para o bem de Sting.
– P-Por favor.. Sting-kun! S-Salvem-no! S-SALVEM STING-KUN!
O rosado o encarou, incrédulo, sem acreditar no que ouviu. O que poderia ter acontecido de tão grave ao arrogante do Eucliffe para que seu parceiro implorasse por ajuda? Ao contrário dos tigres, ele não trata ninguém como lixo, por isso decidiu ajuda-los. Todos merecem uma segunda chance.
Quando fez menção de abrir a boca para perguntar o que aconteceu, se assustou com a repentina movimentação ao seu lado. Lucy corria em direção ao lago venenoso, e não parecia ter intenção de parar.
De imediato, foi até ela, a segurando com força pelo pulso.
– O que pensa que está fazendo? Você quer morrer por acaso? – rosnou, irritado com o descuido dela, apesar dele ser ainda mais impulsivo e descuidado.
– Eu consigo ouvir o coração dele. – declarou, a voz firme, fazendo o rosado arregalar os olhos, chocado. Nem mesmo ele podia ouvir as batidas do coração do Dragon Slayer, mas isso não mudava nada. Não iria deixar ela pular naquele lago, arriscando a vida. Ele iria salvar o maldito da Sabertooth, e ela ficaria ali, em segurança.
– Você não vai entrar ali. – sua voz saiu ameaçadora, autoritária.
– Me solte! – implorou, elevando o tom de voz. Como ele poderia ser tão egoísta? Ela podia sentir o cheiro dos desconhecidos, ambos eram Dragon Slayers. E podia ouvir o coração de ambos também, um deles falhava aos poucos, afundando nas profundezas do lago.
– Não vou deixar que arrisque sua vida assim! – rosnou novamente, já exaltado.
– Já passou pela sua cabeça que eu sou perfeitamente capaz de me cuidar? Não sou nenhuma gatinha indefesa, então por favor, pare de me tratar como tal!
– Não, é não! – deu ênfase na palavra e apertou o pulso dela com mais força, ela fez uma careta de dor – Eu prometi a todos, e a mim mesmo, que iria te proteger!
Os exceeds começaram a chorar mais alto, o tempo estava se encurtando. Não queriam se quer cogitar a possibilidade do loiro estar morto.
– Natsu.. – a loira sussurrou, como se fosse um pedido, enquanto parava de fazer força para se soltar do aperto dele – Você confia em mim?
– É claro que confio sua idiota! Mas não posso te deixar entrar ali! Não posso.. – sua raiva se transformava em desespero, e sem que ele percebesse, prendia seus orbes negros nos avelãs dela, em um pedido mudo.
Queria que ela ficasse segura, era seu dever protege-la. Só de pensar em perder sua loirinha estranha, seu coração se apertava. Não podia perder Lucy, jamais. Afrouxou o aperto no pulso dela e suspirou, contrariado. Estavam perdendo tempo naquela discussão inútil, alguém precisava entrar logo naquele lago.
– Então, me solte. Eu sei o que preciso fazer.
Dito isso, sorriu docemente, fazendo ele se dar por vencido e solta-la, contra sua vontade.
– Não ouse não voltar para mim.. Luce. – sussurrou, sentindo como se carregasse toneladas no peito. A expressão de dor e mágoa em seu rosto era de partir o coração.
– Star Dragon's Heavenly Glow! – o véu de magia dourada a envolveu, radiante, e como um raio de luz, mergulhou no lago.
Ela nadava apressada, não poderia deixar alguém morrer assim. Sua magia a protegia da falta de ar e da magia negra presente naquele lago. Esticava os braços para frente para depois abri-los, um para cada lado, empurrando a água para os lados e se impulsionando para frente.
Não sabia explicar como nem o porque, mas conseguia ouvir toda a dor, tristeza, solidão e desesperança presentes no coração que agora mergulhava na escuridão. E sentia que era a única que poderia salva-lo.
Assim que colocou seus olhos no Eucliffe, agora de olhos fechados, o corpo repleto de cortes e hematomas, esticou as mãos para frente, em uma tentativa desesperada e falha de puxa-lo.
O loiro afundava aos poucos, e em uma atitude impensada, ela tentou gritar, se esquecendo de que estava embaixo da água.
Manter sua magia embaixo daquele lago estava se mostrando mais difícil do que pensava, já havia a utilizado demais, e a magia negra do lago era poderosa. Seus músculos tremiam em protesto, e seu reservatório magico parecia se esvair. Franziu as sobrancelhas, se concentrando em expandir sua magia até o corpo imóvel a sua frente. Mesmo embaixo da água, sentia seu corpo suar frio com o esforço, e cada membro tremer. Ele cheirava a menta e dragões, e isso a fez ter forças para continuar. Talvez esse garoto também estivesse a procura de seu pai ou mãe, de um lugar para retornar. Talvez pudesse a ajudar na busca por Stellaire.
Quando o véu dourado o alcançou feito um esperançoso raio de sol, ele abriu os olhos azuis, agora vazios e sem esperança, fitando os orbes dourados dela. A luz o confortava, o fazendo acreditar que estava a adentrar algum tipo de Céu e que ela era um anjo. Apesar de não acreditar nessas coisas, após toda aquela dor e sofrimento, não acreditava que pudesse estar vivo. E mesmo que estivesse, porque alguém se arriscaria para salva-lo? Os orbes dourados o fitavam repletos de preocupação e determinação, a mulher a sua frente brilhava, envolvida por um véu dourado, feito um verdadeiro ser angelical.
Ele se permitiu sorrir, protegido pelo brilho quente e acolhedor, fechando os olhos azuis, enquanto sentia um par de braços quentes envolve-lo bruscamente, o puxando com força. Perdeu a consciência, nos braços da loira, que o arrastava para fora do lago.
Próximos da superfície, a magia dourada começou a falhar, fazendo a loira arfar e juntar toda sua força, impulsionando o corpo do mago para fora do lago, onde ele caiu sobre a grama, segundos antes do brilho dourado desaparecer. Ela sentiu a água negra tocar sua pele, aquilo queimava e a obrigava a segurar sua respiração e fechar os olhos, mas não fora nada insuportável, uma vez que já se encontrava próxima de sair dali.
Alcançando a beira, sentiu um par de mãos fortes agarrarem seu braço e a retirar da água, e em seguida alguém lhe envolver em um abraço apertado, enquanto ela puxava uma grande quantidade de ar, respirando com dificuldade e tremendo devido ao uso irresponsável de grande quantidade de magia.
Apesar das dores e do cansaço, além de já sentir seu corpo começar a se curar com extrema rapidez — aliviando as queimações causadas pelo veneno do lago — se sentia segura envolvida por aquele corpo anormalmente quente. Estava nos braços de Natsu. Ambos estavam no chão, ela molhada e dolorida, sendo abraçada por ele, o corpo tão quente que parecia estar em chamas.
Nos braços dele, se sentia segura. Ali, sentia que nada poderia lhe atingir.
– Sua idiota.. Nunca mais.. – ele murmurava e xingava, dominado pelo alívio de tê-la em seus braços novamente, enquanto a apertava com força contra seu próprio corpo, como se quisesse que virassem um só para que ela nunca mais saísse de perto dele – ..Nunca mais me assuste desse jeito.. Fazendo algo tão estúpido..
Ela sorriu, cansada, se esquecendo por um segundo do mago que acabara de salvar.
– Eu disse que você podia confiar mim, não sou fraca igual você pensa. – declarou, fitando os orbes esverdeados, o fazendo soltar uma risada alta, abrindo o sorriso torto que só ele sabia dar, que faz suas pernas amolecerem e seu coração derreter-se por inteiro.
– Já falei que não é nada disso, sua teimosa.
Retribuiu o sorriso dele, e tentou se desvencilhar de seu abraço, o que o fez bufar e revirar os olhos. Não queria sair dali tanto quanto ele não queria solta-la, mas precisava ver como o loiro estava. Sua agitação fez com que o rosado também se lembrasse que havia outras pessoas ali, fora os dois, que pareciam ter ficado presos em seu mundinho particular por alguns minutos.
Enquanto a loira estava submersa no lago, ele havia checado o estado de Rogue, sendo supervisionado por Frosch, que ainda chorava agoniado. Ele estava com um braço quebrado e alguns arranhões no corpo, nada grave. E os exceeds, apesar de chorarem tanto que pareciam que iriam cair no chão desidratados a qualquer momento, estavam ambos bem.
A estrela se levantou do gramado, sendo observada pelo rosado, e caminhou até o corpo do Eucliffe que se encontrava pousado sobre a grama, próximo ao lago, agora rodeado pelos dois gatos aos prantos. O coração do loiro batia tão fraco e descompassado, que mal parecia bater, mas era o suficiente para que ela pudesse ouvir e entrar em desespero.
Correu até ele, se ajoelhando no chão, e pousou ambas as mãos delicadamente sobre seu peito nu, agora repleto de feridas e sangue.
– Não acho que há nada que possamos fazer agora.. Droga! Maldição.. – o rosado esmurrou o chão, praguejando. Já sentia ódio de si mesmo, como pudera ser tão fraco a ponto de deixar alguém morrer desse jeito? Mal via a hora de encontrar a desgraçada da tigresa e a fazer pagar.
Os lábios tremendo, aflita, a loira checava os batimentos cardíacos e a respiração do Dragão Branco. Cada vez mais fraco, cada vez pior, cada vez adentrando ainda mais a escuridão.
– Por que..? – questionou-se, indignada. Isso tudo era tão.. injusto. Sua primeira missão, e já deixaria alguém morrer em suas mãos? Sentia toda a tristeza do loiro, o que deixava tudo pior. Era como se conseguisse ouvir o coração dele se entregar de braços abertos a morte.
Ela teria de carregar aquela vida humana em suas mãos para sempre? A vida desse Dragon Slayer, que assim como ela, havia sido criado por um dragão. A dor e o vazio que vira naqueles olhos azuis no fundo do lago a assolavam, jamais vira alguém sofrendo tanto. Alguém que havia desistido de viver. Sem esperança.
Uma lágrima solitária escorreu por seu rosto, e passou as mãos pelos cortes e hematomas do loiro, arfando desacreditada quando chegou ao profundo buraco na barriga, feito por Minerva com as próprias mãos. Como alguém poderia ser tão cruel a ponto de deixar outra pessoa nesse estado? Ao entrar para a Fairy Tail, e ser rodeada de pessoas tão boas, se esqueceu do motivo de ter vivido nas florestas por tantos anos. Há humanos tão ruins quanto a própria morte. As palavras de Stellaire ecoaram em sua mente:
“Os humanos são o que são, simplesmente não conseguem evitar. Justificam seus erros os ligando a sua própria espécie, fingindo não ver a verdade. Errar não é humano, os humanos é que são errados. Ignoram o amor, tiram proveito da dor, fingem se esquecer da solidariedade e da compaixão, enquanto são dominados pela ambição. Não confie em um humano, Lucy. Seus olhos verão um sorriso, mas os deles verão um preço. Através de você, por cima de tudo e de todos, a única coisa que conseguem ver é a própria felicidade. Aos poucos, essa espécie cai na perdição, e só podem culpar a si mesmos.”
– Luce.. – a voz rouca a chamou, vindo de trás, mas ela ignorou. Ao contrário do rosado, o que ardia dentro dela não era o sentimento de vingança, e sim o de compaixão. Mais importante do que fazer o autor daqueles machucados pagar, era ajudar o humano a sua frente. Iria provar a si mesma e a Stellaire que toda regra tem sua exceção. Alguns humanos valem a pena. Sorriu com esse pensamento, pois o primeiro rosto que veio a sua mente foi o de um certo rosado de olhos, ora negros, ora esverdeados. Dono de um sorriso que poderia iluminar o mundo todo, e mais um pouco.
– A-acorde.. – choramingou Lector, enquanto Frosch fungava, chorando em silêncio ao lado de Rogue, que ainda permanecia inconsciente. Justo agora que a relação dos quatro havia melhorado, iria o destino lhes separar? Apesar do fim da Sabertooth ter sido um choque para todos, tinham de admitir que sua amizade nunca fora tão forte quanto nas últimas semanas.
A estrela cerrou os orbes avelãs, em um pedido mudo as estrelas, um pedido de ajuda. Não sabia o que fazer. Ainda existiria um meio de salvar a vida que se esvaía a sua frente? Sentiu outra pequena e solitária lágrima escorrer por seu rosto, que caiu sobre o corpo inconsciente. Uma lágrima representando toda sua triste esperança.
Como um relâmpago cruzando os céus, as palavras dominaram sua mente, invadindo seu sistema nervoso e se prendendo a ponta da língua. Era como se sempre tivessem estado ali, apesar de não se lembrar de ter aprendido qualquer uma daquelas magias com Stellaire. Sabia que correria um imenso risco, mas também sabia que era a única chance de salvar a vida do homem a sua frente. Assim como as palavras, seu conhecimento sobre os riscos de usar tanta magia pareciam ter sido implantados cirurgicamente em sua cabeça, pois esta começou a latejar fortemente. Sua cabeça doía tanto que parecia estar sendo esmagada por duas mãos gigantes, enquanto pássaros a bicavam sem dó. Não ponderou duas vezes sobre os riscos, e ainda incapaz de abrir os olhos devido a dor, tomou sua decisão, sem tempo e sem forças para pensar demais. Sua alta capacidade de recuperação teria de servir para algo, pois não deixaria ninguém morrer. Não quando a possibilidade de ajuda estava a seu alcance.
Cerrou os punhos, que ainda se encontravam sobre o peito do Dragon Slayer, acumulando toda a magia que lhe restava, e uma aura prateada a envolveu. Um círculo mágico prata se formou no chão abaixo dela e do mago, e seu cabelo começou a flutuar levemente, dançando conforme o vento que se intensificava no local. A dor em sua cabeça se esvaía aos poucos, e sua respiração se tornava cada vez mais pesada, o esforço para controlar a magia desconhecida a consumia.
Surpreendendo o rosado, que a fitava atentamente, o vento só soprava até os limites do círculo mágico, que aparentava ter cerca de quatro metros de diâmetro.
Uma terceira lágrima escorreu por seu rosto, caindo sobre o corpo do mago desacordado, e ela abriu os lábios, proferindo o encanto como se tivesse conhecimento do mesmo há anos:
– Fo̱tiá Selí̱ni̱.. Silver Poulí.. I̱ thrí̱nos tou Foínika... – a estrela se encontrava em transe, recitando a magia em Grego Antigo, alheia a tudo ao seu redor, porém, franziu o cenho inconscientemente ao tempo em que suas mãos tremiam e respirar se tornava algo digno de esforço. A magia era demasiada avançada, seu corpo começava a demonstrar fraqueza. Gemeu de dor, deixando o rosado inquieto.
O vento aumentou, se tornando violento e fazendo com que o exceed marrom se afastasse e Natsu levantasse do chão, em alerta, pronto para salvar a loira se algo desse errado. Não sabia o que estava acontecendo, mas conseguia ouvir a respiração dela falhar e a expressão de dor em seu rosto. Ela estava usando magia demais em um só dia. Uma onda de preocupação o dominou, e agora ele travava uma batalha interna. Confiar nela, ou impedir essa merda toda e tirar ela dali a força? Isso custaria a vida de Sting? Continuou a fitar os magos envoltos por uma ventania, mas um barulho de galhos se quebrando atrás dele chamou sua atenção. Se virou, deparando-se com toda uma guilda pronta para o ataque. Engoliu em seco, com receio, não sabia se conseguiria proteger os exceeds e os magos, enquanto cuidava de todos os membros da Dark Guild. Como tudo dera errado em uma simples missão? Como chegaram a esse ponto? A única coisa que parecia impedir o ataque iminente, era a própria Lucy, que continuava com a estranha magia, deixando as “cobras” com um pé atrás. O brilho prateado iluminava toda a clareira.
A lágrima que caiu sobre o peito do Eucliffe cintilou, prateada, aderindo a forma de um pequeno pássaro, que voou em direção aos céus, onde cresceu cada vez mais. No alto, abriu suas enormes asas, e também os olhos, que brilhavam vermelhos feito fogo. Um incrível pássaro prateado, maior até mesmo que o enorme Elfman. Seus olhos ardiam e seu corpo cintilava, o pássaro de fogo banhado em prata.
O vento que os envolvia sibilava, como uma triste canção. Tarde demais, o rosado se deu conta de que uma canção realmente ecoava pela clareira, uma melodia fraca, triste e ao mesmo tempo bela e relaxante.
O lamento de uma Fênix.
Natsu, assim como os membros da Dark Guild, sentiu seu corpo amolecer e as pálpebras pesarem. Tentou lutar contra aquilo, mas a melodia ainda penetrava em seus ouvidos, aumentando a sensação sonolenta. Esticou o braço para frente, como se quisesse alcançar Lucy, mas a canção se intensificou, e logo estava caído desacordado no chão. Assim como todos os membros da guild, por volta de trinta pessoas.
A loira começou a sentir seu corpo fraquejar e amolecer, a cabeça girava, cada terminação nervosa parecia doer e implorar por descanso, mas não podia parar. Ainda não.
Lutando contra as dores no corpo, que se tornavam cada vez mais insistentes, sussurrou algumas palavras:
– Cantáte.. Sacra Alite.. Luna Argentea.. – a voz saiu fraca, esta parte da magia em Latim, e abriu os olhos avelãs, que possuíam um fraco brilho prateado. Tinha voltado a si, mas últimas palavras ainda ressoavam em seus pensamentos — Rise From the Ashes.. Phoenix’s Tears!
Após pronunciar as últimas palavras, sentiu seu corpo estremecer e fraquejar, sem forças, e a cabeça latejar como se fosse explodir.
Um grito de dor ecoou, cortando a melodia da Fênix, que cessou de imediato. Havia perdido o controle da magia, seu corpo alcançara o limite.
O vento se descontrolou, saindo dos limites do círculo mágico e arrancando as folhas das árvores, ricocheteando violento contra as pessoas desacordadas. A grande Fênix se desfez em gotículas prateadas sobre o corpo de Sting, ao passo que Lucy gritava de dor uma última vez, antes de desmaiar sobre o corpo do mago. Não fora forte o suficiente para completar o encantamento. Sua magia atingira o limite. Exausta, e despida de seu reservatório mágico, perdeu a consciência.
~
Fora de Fiore, quatro magos se reuniam em um castelo em ruínas. Dentro da habitual sala mofada, o homem se encontrava sentado em um trono velho, uma das mulheres a sua frente, e as outras duas aguardavam em silêncio, escondidas nas sombras.
– Meu Senhor. – reverenciou, ajoelhando-se ao chão. Doce ironia, ou não, apenas alguns meses atrás era ela quem recebia o mesmo tipo de tratamento. Todos se dirigiam a ela como “Minha Senhora”. Agora, nada além de um passado distante.
– Minerva – pronunciou o nome como se fosse um xingamento, algo repugnante – Digna de pena.. — debochou, distraído em fazer a chuva ácida que caía aos arredores do castelo parar e voltar, repetidas vezes. Via a mulher a sua frente como um mísero inseto, fraca, uma subordinada. Até mesmo ingrata, incapaz de aproveitar as chances que ele lhe deu de provar o contrário.
– Meu Senhor..
– Quieta. – ordenou, a voz tão cortante quanto uma navalha, seus olhos antes azuis, começavam a brilhar vermelhos feito fogo – Venha aqui.
Obediente, levantou-se do chão e se aproximou de seu Mestre. Por dentro, a mulher espumava e se contorcia de raiva, nunca se imaginou passando por algo tão humilhante. Sendo tratada como a fraca, recebendo ordens, e não o contrário.
Sem dizer nada, ele esticou a mão esquerda em sua direção, e o simples gesto fez a mulher ficar branca feito um fantasma, e as outras duas que observavam virarem o rosto para a parede, querendo evitar presenciar o que viria a seguir.
– Não, tudo menos isso.. Por favor.. Tenha piedade.. Por favor, eu faço qualquer coisa, por favor! — implorava e soluçava, até mesmo lágrimas escorriam por seus olhos, o terror despia seu orgulho.
Ele gargalhou, divertindo-se com a situação, a examinando como se imaginasse o melhor jeito de esmagar um inseto asqueroso.
– Piedade?– perguntou entre as gargalhadas, se levantou do trono, e as risadas cessaram, fazendo a ex-tigresa soltar um soluço alto e se encolher — Envergonhando a si mesma.. Sabe muito bem que não possuo sentimentos, desconheço tal palavra.
Esticou ainda mais o braço, parando a milímetros da testa da mulher, que de pavor, voltou a chorar e implorar por perdão, caindo de joelhos no chão, o medo lhe consumindo.
Sem pestanejar, ele a puxou pelos cabelos, a colocando de pé. Era no mínimo um palmo mais alto, e a fitou de cima, superior, sem qualquer expressão ou emoção no rosto.
– Um pedido simples. Um Dragão Branco, um poderoso aliado. — tocou a testa da mulher com a ponta do dedo indicador, e instantaneamente, esta se pôs a chorar, gritar e implorar. Uma nova gargalhada ecoou pela sala escura. As outras duas mulheres se abraçavam de olhos fechados, desejando não poder ouvir o que se passava ali.
– Minha ordem não foi cumprida. Culpa de um inseto inútil, ingrato, imprestável.. — debochou, retirando a mão. Ela o encarou, incrédula. O homem não havia feito nada, não havia utilizado magia alguma. Agora ria descontroladamente, sem humor ou alegria, uma risada fria e forçada. Divertia-se com o medo e desespero da mulher, já sofrendo antecipadamente, por algo que ele nem havia feito.
Virou a palma da mão para o teto, abaixando o braço em uma altura que ela pudesse ver. Ali, havia a mesma tatuagem que Minerva mostrara dias atrás para o Eucliffe, porém, ao invés de roxa, negra. As linhas percorriam toda a palma, semelhantes a desenhos tribais, e no centro, um olho fechado. Se o olho estava fechado, isto significava que a magia não fora ativada, para seu alívio.
– Saia. — ordenou, frio, apontando para a porta. A mulher suspirou, aliviada, mas quando se virou para se retirar, parou no lugar.
Gotas de sangue respingaram no chão. Sangue de Minerva.
Em um movimento rápido, ele atravessou o peito dela com a mão, agarrando o coração. Paralisou naquela posição, apertando o coração em suas mãos, um sorriso doentio estampado em seu rosto. Os olhos brilhavam vermelhos feito sangue.
Ela tossiu sangue, incapaz de falar ou se mexer. Mal conseguia respirar.
– Escute bem. — apertou ainda mais o órgão, como que para dar ênfase, fazendo ela se contorcer — Pois não repito a mesma coisa duas vezes. Não sou piedoso, e muito menos paciente. Você falhou, vergonhosamente. Posso sentir a magia dela em você.. — a mulher se via incapaz de raciocinar, mas contra sua vontade, as lembranças de um brilho prateado iluminando a floresta inteira tomaram seus pensamentos — ..Isso, talvez você não seja tão inútil assim. Essa luz foi ela, é irreconhecível. Falhas iguais a sua não são perdoáveis, achou mesmo que iria se safar?
Soltou o órgão e recuou a mão, agora imunda de sangue, e deixou a mulher cair de cara no piso de mármore. O buraco aberto em seu peito era enorme, e sangrava, incontrolável. Ela se debatia, contorcia, tossia e se engasgava com o próprio sangue. O Mestre apenas observava a cena, dividido entre o nojo e a diversão.
– Ultear. — chamou, e a mulher deixou as sombras, mas não sem antes depositar um beijo na testa da outra, que permaneceu ali.
– Sim, Mestre. — fez uma reverência, e ajoelhou-se no chão, tentando ignorar a "colega" caída no chão bem ao seu lado, agonizando de dor.
– Chegou a hora. Não posso mais confiar nesse pedaço de lixo.. — fitou as palmas das próprias mãos, e no momento que os olhos negros das tatuagens se abriram, o sorriso doentio voltou ao seu rosto — Vá atrás da estrela, eu a quero aqui, aos meus pés. Não me importa se viva ou morta, desde que o ritual seja concluído antes.
A mulher fez menção de se retirar, mas ele acrescentou algo:
– E Ultear.. — ela parou — Antes, assista. Que isso lhe sirva de incentivo.
– NÃO! Ul, você não precisa fazer isso! Vamos embora desse lugar! — gritou a outra mulher, saindo das sombras e revelando seus cabelos róseos e cacheados, os olhos verdes toldados de lágrimas.
Sem abrir a boca, a morena lhe deu um forte tapa no rosto, fazendo a rosada cair ao chão, ambas as mãos apertando o lugar atingido.
– Ul.. — choramingou. Também utilizava uma capa preta, que lhe cobria dos pés ao pescoço, mas parecia ser a única da sala que ainda possuía algum tipo de emoção verdadeira no rosto. Encarou o corpo imóvel de Minerva, e as lágrimas aumentaram.
– Se me chamar assim novamente, vou fazer com que se arrependa. — ameaçou friamente.
O homem parecia se divertir com a cena, pois assistia a tudo em silêncio, levemente interessado.
– Mas..
– SAIA DAQUI MEREDY!
Sem discutir, a rosada levantou-se do chão apressada, e correu para fora da sala.
– Muito bem, que comece a verdadeira diversão. — anunciou o homem, apontando a mão para Minerva — Sabe, as vezes eu me pergunto a quem a imortalidade que concedi a vocês beneficia mais..
Com um sorriso de escárnio, andou até o corpo imóvel da mulher.
– Se fingir de inconsciente não vai adiantar.. Hora do castigo. — tocou o corpo com ambas as mãos, ambos os olhos tatuados abertos.
As gargalhadas do homem só não eram mais altas do que os gritos que ecoavam por todo o castelo. Gritos de pura dor, angustia, agonia, desespero, ódio.. Gritar não aliviava em nada. Nada poderia aliviar aquela dor.
A mulher sentia seu corpo se rasgar de dentro para fora. Sentia cada membro arder e queimar. Os ossos pareciam se quebrar infinitas vezes, se reconstituindo e quebrando, reconstituindo e quebrando.. A dor era tanta que seu corpo já não se mexia mais, ela apenas gritava. Gritava e chorava, experimentando de uma tortura pior do que a morte. Pior do que o inferno. E aquela não era a primeira vez.
Sua pela se abria em cortes profundos, que jorravam sangue, e voltavam a se fechar. Aquela cena fez Ultear virar o rosto para o lado e vomitar, enojada. Alheio a tudo que não fosse o sofrimento da mulher caída no chão, o homem ainda gargalhava, incontrolável.
Aquilo continuou por horas, e Ultear foi obrigada a assistir a cada segundo.
O Pacto que fizeram com seu mestre realmente valia a pena? A tatuagem que ele gravara em suas mãos lhe concedeu poderes incomparáveis, mas era também uma maldição. A tatuagem criava uma ligação entre eles, as tornando suas subordinadas. Deixando-as a mercê do Espectro.
Sim, era isso que ele era. Koll, o Espectro. Veio direto das profundezas do inferno em busca de poder. Um poder em especial.
Iria atrás da estrela, e não pretendia falhar. Faria de tudo para não experimentar o castigo aplicado em Minerva.
~
Abrindo os orbes avelãs, levou as mãos a cabeça, massageando o local. Piscou diversas vezes, querendo ter certeza do que via. Uma sala inteiramente branca. Cortinas, paredes, chão, móveis. Olhou para baixo e se remexeu, sentindo a superfície dura e plana em que estava deitada.
Uma maca, em uma enfermaria.
Varreu os olhos pelo local uma segunda vez, encontrando no meio de todo aquele branco, a origem do cheiro familiar que penetrava seu nariz como um doce aroma. Suspirou, aliviada por ele estar ali, ao colocar os olhos nos cabelos róseos bagunçados. Ele roncava baixinho, sentado em uma poltrona branca ao lado da maca. Usava as mesmas roupas, que agora se encontravam sujas e rasgadas. Estranhou, pois não se lembrava do que ele podia ter feito para ficar naquele estado. Levantou-se, se sentando sobre a maca. Alongou os braços e arqueou as costas, as estralando. Franziu o cenho, tentando se lembrar do que havia acontecido, e tentando entender onde estavam. O único cheiro familiar era o de Natsu e o de Happy, que se encontrava adormecido ao pé de sua cama.
– Acorde logo.. Luce.. sua estranha.. – murmurava o gato, inconsciente, a fazendo abrir um pequeno sorriso.
Se esticou para a frente, depositando um beijo carinhoso na testa do exceed.
– Eu estou bem, obrigada por cuidar de mim.
Se levantou da cama, esticando os braços e as pernas, checando se estava tudo ok. Tudo que se lembrava do dia anterior tinha a ver com flashes prateados e gritos horríveis que a deram calafrios apenas com a lembrança. Apesar do cansaço, se sentia bem. A sala era muito parecida com a enfermaria da Fairy Tail, por isso deduziu que devia ter se machucado um pouco durante a luta contra a Dark Guild. Só não conseguia entender o porque de não se lembrar de nada.
Olhou pra baixo, notando pela primeira vez que usava uma camisola larga e branca, de mangas compridas. Onde estavam suas roupas? E quem havia a vestido desse jeito?
– Lu..ce.. – murmurou o rosado, adormecido.
Voltou sua atenção a ele, e se surpreendeu ao ver que ele ainda dormia.
Deu alguns passos, se aproximando, mas recuou assustada assim que ele esticou os braços pra frente, como se tentasse agarrar algo.
– Luce.. – voltou a murmurar, a expressão em seu rosto se tornando tensa — ..Volte.. Não ..NÃO! – gritou a ultima palavra, saltando pra frente de imediato, e batendo a testa na da garota que o observava atentamente, a fazendo cair de bunda no chão, gemendo de dor.
– Ai!.. Estou começando a achar que você gosta de bater de cabeça com as pessoas.. – brincou, sorrindo apesar da dor, massageando a testa dolorida. Ele se limitou a fita-la, os orbes esverdeados arregalados, boquiaberto.
– LUCE! – gritou novamente, a puxando do chão para um abraço tão apertado que parecia que ia quebrar seus ossos. Ela o beliscou delicadamente, sufocada pelo abraço. Estava ficando sem ar.
Soltando-a, a manteve perto dele, e examinou cada detalhe. Desde os orbes avelãs até a camisola larga, voltando para o cabelo dourado que caía em ondas sobre os ombros. Abriu um sorriso de orelha a orelha, mas então se lembrou de algo, pois fechou a cara e franziu o cenho, visivelmente irritado. Estava furioso com ela.
– Natsu? – chamou, insegura, ao notar que ele a encarava com uma expressão nada contente no rosto.
Silêncio.
– Naaatsuu? – tornou a chamar, mas dessa vez estalou os dedos em frente aos olhos dele, que ainda se encontravam fixos nela.
O gesto pareceu irrita-lo ainda mais.
Não conseguia acreditar em como ela conseguia agir tão naturalmente depois de tudo que aconteceu. Ele não dormia direito há três dias. Três dias inteiros. Desde que a trouxe para a cidade, tudo que fez foi ficar ao lado dela, ansioso e esperançoso. Mal via a hora dela acordar apenas para poder confirmar que estava bem.
– Como você pode ser tão descuidada? – explodiu, a segurando com força pelos ombros — Irresponsável? Impulsiva? Ignorante? – disparou as palavras, tentando controlar o tom de voz, mas seus olhos negros o entregavam. Ardia de raiva por dentro – Ein, Luce? Estou falando com você!
A loira o fitou, confusa e magoada. Ele estava bravo com ela? E por que? O que ele queria dizer com todas aquelas palavras? Impulsiva.. ela? Do que diabos ele estava falando?
– Mas eu.. Do que você..
– Não se faça de desentendida! Nem sei por onde começar.. Se algo tivesse acontecido com você.. Me da raiva só de pensar! – socou a parede ao lado dele, abrindo um buraco no gesso e assustando a loira, que recuou um passo.
– Eu não faço ideia do que você está falando! Será que você poderia me explicar o motivo dessa “bronca”? – conseguiu dizer, ironizando a última palavra. Esse era o lado bom de ter passado tanto tempo com Laxus, aprendeu a utilizar a boa e velha ironia – De preferencia, antes de destruir o quarto inteiro..
– Não se lembra? – indagou, se acalmando um pouco, ainda desconfiado – Tem certeza?
– Acha mesmo que eu mentiria sobre algo assim?
Ele bufou em resposta, cruzando os braços, cético. Depois dela ter arriscado a vida pra salvar o loiro, não sabia o que o irritava mais. Ela ter afirmado conseguir se cuidar sozinha, e quase ter morrido realizando aquela magia estranha. O fato dela ter quase morrido tentando salvar o bastardo do Eucliffe. Ou pior.. ele estar louco de ciúmes por ela ter feito algo tão corajoso e ao mesmo tempo idiota, para salvar alguém que mal conhecia. Alguém que não fosse ele. Afastou esses pensamentos egoísta, voltando a fita-la com intensidade.
– Tanto faz.
– Tanto faz o que?
– Volte a descansar.
– Não mude de assunto, eu estou bem!
– Happy, vamos.
– Aye Sir!
– O que?! – exclamou, pasma – Desde quando você está acordado?
– Até mais Luuuuxxy! – enrolou a língua ao pronunciar o nome da loira, seguindo o rosado para fora do quarto.
– Parem! Eu já estou bem, não preciso descansar! Não me deixem.. – implorou, mas desistiu, se sentando na cama, assim que ambos saíram porta a fora. Tudo que o rosado fizera como resposta a suas súplicas foi acenar com uma das mãos, de costas para ela — ..Sozinha. – completou tristemente.
– O que eu fiz de tão errado.. – questionou-se em voz alta, fitando o chão. Um nó parecia fechar sua garganta e o estomago revirava. Queria se desculpar com ele por seja lá o que ela tenha feito, mas nem se quer teve chance. Como um flash, a imagem cortou seus pensamentos, fazendo com que ela gritasse e levasse a mão a boca, a tampando, perplexa.
Por um segundo, um par de orbes azuis a aterrorizou. Não por serem feios ou assustadores, e sim por estarem repletos de solidão e desesperança.
Chacoalhou a cabeça, querendo se livrar da imagem horrível, mas parecia ter ficado gravada em sua memória.
Querendo se distrair, desceu da maca novamente, e andou pelo quarto, começando a explora-lo. Abriu todos os armários e gavetas, olhando até mesmo embaixo dos móveis, mas não achou nada. Nada além da mochila de Natsu, um vaso de rosas brancas e.. Parou de imediato ao notar uma sacola plástica azul e chamativa, próxima a mochila.
Curiosa do jeito que era, a abriu, puxando de dentro um pedaço de tecido esverdeado. Um delicado vestido verde oliva, tomara que caia e rodado, indo até um palmo acima dos joelhos. Abraçou o vestido, sorrindo, as bochechas adquirindo um tom rosado. Dominada pela felicidade, deslizou as mãos pelo tecido, sorrindo para si mesma, maravilhada. Desde que viera para a cidade, por mais fútil que pudesse parecer, simplesmente adorava se arrumar, banhando-se com os sais de frutas e demorando-se em frente ao guarda-roupa, sem conseguir decidir entre todas as belas peças. O sorriso sumiu rapidamente de seu rosto, lembrando-se do jeito que o rosado deixara o quarto.
Agora, mais do que nunca, precisava se desculpar com ele.
Suspirou, se concentrando em um pequeno problema.
Ainda não sabia o que havia acontecido.
Correu ao banheiro da enfermaria, onde tomou uma ducha rápida, surpresa por seu cabelo estar tão embaraçado. Analisou o próprio corpo, sem encontrar qualquer tipo de marca ou machucado. Já estava acostumada com sua recuperação rápida, mas ainda assim era um choque saber que se machucara a ponto de parar na enfermaria, e ainda assim não possuía um machucado se quer em seu corpo.
Pretendia se trocar no banheiro, mas um detalhe a pegou de surpresa.
– Roupa íntima.. – murmurou, decepcionada. O que faria?
Enrolando-se na toalha, voltou ao quarto para revirar a sacola plástica azul, mas estava vazia. Não conseguia se decidir entre o que poderia ser pior.
Imaginar o rosado lhe comprando calcinhas, ou se imaginar andando por aí de vestido, as partes íntimas livres, leves e soltas.
Suas bochechas coraram violentamente, ambas as opções lhe matavam de vergonha.
Sentindo-se derrotada e sem opção, colocou o vestido verde sem nada por baixo e penteou o cabelo loiro com um pente de madeira que encontrou ao fuçar as gavetas do banheiro. Graças a deus, agora se lembrava perfeitamente para que servia uma escova de cabelo.
Checou seu reflexo, as maçãs do rosto ainda avermelhadas, admirando seu corpo modelado pelo belo vestido, mas envergonhada até a alma por saber que não usava nada além do delicado tecido esverdeado.
Respirou fundo antes de deixar o quarto, querendo ter certeza de que estava recuperada do motivo misterioso que a levou a enfermaria.
Assim que cruzou a porta, sentiu o carpete macio sob seus pés, a lembrando de que estava descalça. Deu de ombros, a Erza não estava ali para lhe dar uma bronca mesmo.
Os corredores do lugar misterioso eram largos, as paredes decoradas com um elegante papel de parede creme, o chão revestido por um carpete vinho. Havia poucos quadros, geralmente de arte abstrata, e ao longo do corredor, inúmeras portas de madeira marrom escura.
Cada porta possuía uma placa com um número.
A primeira ideia que lhe ocorreu, foi de que aquilo poderia ser um apartamento, afinal, o lugar em que morava também possuía números nas portas. Para diferenciar um quarto do outro, assim Erza lhe explicara.
Mas aquele lugar parecia ser grande demais para um prédio de apartamentos. E por que teria uma enfermaria?
Assim que se aproximou do final do corredor, um cheiro estranhamente familiar penetrou seu nariz. Estranho, pois era familiar, e ao mesmo tempo não era, pois não sabia dizer a quem pertencia. Um cheiro desconhecido poderia ser familiar?
Parou em frente a última porta do corredor, fitando o número: 77.
Não se aguentando de curiosidade e suspense, levou a mão a maçaneta e adentrou o local.
Prendeu a respiração, estática. Em um turbilhão de pensamentos, suas memórias voltaram, pouco a pouco.
O lago. Os Dragon Slayers. Os olhos azuis daquele que se chamava Sting. Os exceeds banhados em lágrimas. A sensação de impotência. As palavras que surgiram em sua mente, e que agora, por mais que se esforçasse, não conseguia se lembrar de nem uma se quer. A estranha magia que arriscou a própria vida tentando completar. Uma canção. A Fênix. O jeito que falhou ao tentar completar a magia..
Sentiu os olhos umedecerem, mas fungou e piscou, contendo as lágrimas.
Se lembrou de tudo no momento em que colocou os olhos no loiro desmaiado sobre uma enorme cama de casal, dormindo tranquilo. Um lençol branco o cobria até a cintura, deixando o resto a mostra. Fora a cama de casal, havia uma poltrona marrom de aparência confortável, um armário igualmente marrom e outra porta, que deveria levar ao banheiro. Notou, confusa, que ele não repousava em uma enfermaria assim como ela.
Aproximou-se, o examinando atentamente, e ficando aliviada ao constatar que ele estava bem.
Sentou-se na cama ao lado dele, sentindo um peso sair de suas costas ao ouvir os batimentos cardíacos normais e a respiração relaxada, calma. Ela fez isso? Graças a estranha magia do dia anterior, ele estava bem?
Tirou uma mecha loira do rosto dele, a colocando atrás da orelha, mas ele aparentava estar em um sono profundo. Agora, de perto, era possível notar algumas cicatrizes, como a que o buraco aberto em sua barriga deixara. Mas eram apenas isso, cicatrizes. Ferimentos gravíssimos, mortais, transformaram-se em inofensivas cicatrizes. Nada além de uma lembrança ruim. Havia uma pequena cicatriz no canto direito de sua testa, mas parecia ser mais antiga que as outras, apesar dela não ter reparado na mesma quando o tirou do lago.
Suspirou de alívio, feliz consigo mesma por ter salvado a vida do homem desconhecido, chamado pelos exceeds de Sting. Mesmo falhando ao tentar completar a magia, que acreditava ela, ter sido concedida pelas estrelas, ainda conseguira salva-lo.
Ele se remexeu, a tirando de seus devaneios, mas apenas virou-se de lado e continuou dormindo.
– Fique longe.. deles.. – murmurou, sonolento.
– Agora está tudo bem. – sussurrou, antes de cobri-lo até o pescoço com o lençol.
Por mais que estivesse preocupada com o loiro antes, algo a atingia ainda mais.. Natsu. Precisava se desculpar, não conseguia se quer pensar direito sabendo que ele estava irritado com ela. Continuou sentada sobre a cama, ponderando sobre o que fazer, o que dizer. Não se arrependia de nada, afinal, sabia o valor de uma vida. Nunca iria se arrepender de ajudar outra pessoa, de proteger algo tão valioso. Mas não sabia como explicar isso para ele..
Alguém pigarreou da porta do quarto, chamando sua atenção.
– Natsu! – exclamou, o rosto se iluminando, mas sentiu a alegria repentina se esvair, pois ele permaneceu em silêncio. Os orbes ônix fitando um ponto fixo.
Seguiu o olhar dele. Sua mão ainda se encontrava sobre o peito de Sting, agarrada ao lençol. Retirou a mão dali rapidamente, envergonhada.
– O que veio fazer aqui? – perguntou, seco.
– Depois que você e o Happy me deixaram no quarto, — pronunciou a palavra “deixaram” de maneira dramática – tomei um banho e saí a procura de vocês. O que é esse lugar?
– Ah, e pensou que estaríamos aqui também? E o que mais, achou que fosse eu aí deitado sobre a cama? – ironizou, o ciúmes ardendo dentro dele, nem se preocupou em disfarçar.
– Natsu.. – o encarou, chocada – Eu sinto muito por ontem, mas eu juro que..
– Ontem? – riu-se, sem humor algum – Acho que você quer dizer três dias atrás, não é? Isso mesmo, disso você não se lembra.. TRÊS DIAS LUCE! PASSEI TRÊS DIAS SEM DORMIR, COMER OU PENSAR DIREITO, PREOCUPADO COM VOCÊ! – explodiu, o rosto vermelho de raiva, fazendo ela se encolher por instinto – Sem saber quando e se você iria acordar! Tudo porque você TINHA que se arriscar pra salvar esse idiota, alguém que nem mesmo conhece!
– T-três dias..? – Não fazia ideia. Como poderia saber que passara tanto tempo desacordada? Quando despertou, se sentia tão bem, que nem se quer passou pela sua cabeça a possibilidade de ter reagido tão mal ao uso impróprio de magia.
– Três dias. – confirmou, raivoso – Que tipo de magia foi aquela? Tem ideia do quanto você foi irresponsável? Acordei, após sua “milagrosa” magia ter me colocado pra dormir feito pedra, e me deparei com uma guilda inteira pronta pra nos atacar!
– Sinto muito, por favor, me desculpe.. Mas eu precisava fazer aquilo! Não poderia deixar alguém morrer daquele jeito!
– E se VOCÊ morresse? Aí estaria tudo bem? Um completo estranho, que poderia muito bem ser um assassino, não pode morrer, mas você sim? – perguntou, dividido entre a mágoa e a raiva.
– Natsu, não é isso, você não entende..
– Não Luce, é você quem não entende. Já parou pra pensar em como seus nakamas ficariam se tivesse morrido? No sofrimento deles? Em Laxus? Erza? Mira? Até o pervertido do Gray! – foi se acalmando aos poucos – Não é assim que se ajuda os outros Luce, não morremos por nossos amigos, nós vivemos por eles! E você, sem pensar duas vezes nas pessoas que deixaria pra trás, ainda tem a coragem de falar que deixaria de viver.. por ele? – apontou para o Eucliffe, o desgosto evidente na voz.
– Eu não pensei direito, só queria ajudar.. Não fiz por mal, eu amo a Fairy Tail.. — soluçou alto, algumas lágrimas escorreram por seu rosto – Eu senti, bem aqui – levou a mão ao lado esquerdo do peito, o coração – que poderia ajuda-lo. Só fiz.. – fungou — ..o que parecia a coisa certa a fazer..
Suspirou, e andou até ela, a puxando para fora da cama. Olhou fundo nos orbes avelãs, agora toldados por lágrimas, e segurou o rosto dela com ambas as mãos. Passou os polegares por baixo dos olhos, enxugando as lágrimas. Abriu um sorriso de orelha a orelha, sua marca registrada.
Só de ver ele sorrindo daquele jeito para ela, respirou fundo, se acalmando, e sentiu os joelhos amolecerem.
– Me desculpe.. – pediu novamente, baixinho, sabendo que ele poderia ouvir, e olhou para baixo.
– Tudo bem. — concordou, calmo – Prometa. Me prometa que nunca mais vai fazer algo assim novamente. Eu não me acho mais importante do que ninguém, mas.. Já parou para pensar em como eu teria me sentido? Teria de viver para sempre sabendo que não pude.. Proteger minha parceira de time. – mudou o que iria falar no último segundo.
– Mas você protegeu. – sorriu, orgulhosa dele, olhando para cima, para os orbes levemente esverdeados – Como derrotou a Dark Guild sozinho?
– Digamos que eu tinha uma boa fonte de motivação. – esboçou seu típico sorriso torto, fazendo ela se sentir tonta – E talvez eu tenha obrigado a filha do cliente a me ajudar a trazer todos até aqui. – coçou atrás da cabeça, pensativo.
– E onde ela está? – perguntou, rindo ao imaginar a cena — E o Happy? E o que é esse lugar? E não sei porque, mas tenho a leve impressão de que você conhece esse tal de Sting.. – as perguntas que vinha se segurando para fazer saíram de sua boca feito uma metralhadora, queria entender logo toda essa história.
– Tive de carregar você, enquanto o Happy trazia esse babaca. – referiu-se ao loiro – E ela apenas teve de ajudar o outro a se levantar e andar até aqui, ele acordou um pouco depois de eu ter tacado fogo naquela guilda inteira. – um brilho vitorioso surgiu em seus olhos, e o sorriso se alargou. Ninguém adorava lutar tanto quanto o Natsu. Se referiu a Rogue como "o outro" pois não se lembrava do nome dele. Estava tão focado em controlar o ciúmes que sentia de Sting que se esquecia de todo o resto.
– Oh, meu herói, como posso lhe agradecer? – brincou, rindo – Mas você não respondeu o que eu realmente queria saber.
Por um momento, um pensamento malicioso correu por seus pensamentos. Se imaginou pedindo para a loira lhe agradecer.. Corou violentamente, fazendo ela lhe fitar, curiosa com a reação do amigo — Natsu? Está tudo bem?
– Ãh.... Ah! Sim! Por que não estaria? – demorou um pouco para responder, mas logo se recuperou – Depois de deixa-los nesse hotel, a levei de volta para casa, onde peguei nossa recompensa. E o Happy.. saiu por aí. – corou novamente, se xingamento mentalmente. Por que diabos seu rosto não parava de ficar vermelho? Não era completamente mentira, pedira ao Happy para que fosse dar uma volta, assim poderia conversar com a Luce. Mas.. seria esse o real motivo?
– Hm.. – respondeu, desconfiada – E quem são eles? – perguntou, apontando para o loiro e olhando em volta, se tocando pela primeira vez que o moreno e os exceeds não estavam ali.
– Sabertooth. – rosnou – Lutamos contra eles nos jogos mágicos.
– Ah, é mesmo! – exclamou, fazendo um gesto vitorioso ao se lembrar de quando lhe contaram na guilda sobre os jogos, haviam mencionado os Dragões Gêmeos – Sting Eucliffe e Rogue Cheney! Onde ele e os exceeds foram?
– Boa memória. – elogiou, seco, visivelmente irritado por ela se lembrar dos nomes deles. Irritou-se consigo mesmo, desde quando ficara tão ciumento?
– A força não é minha única qualidade. – brincou, abrindo um sorriso travesso.
– Claro, não podemos nos esquecer de convencida e teimosa. – a provocou – E estranha, talvez até gorda..
– Não seja tão maldoso.. – pediu, fazendo um carinha triste, de cachorro sem dono. Sempre levava tudo que o rosado falava a sério, e deu um passo para trás, como que para comprovar que não estava “acima do peso”. Olhou para baixo, deslizando as mãos pela cintura, por cima do tecido.
Seu queixo foi ao chão ao reparar na loira pela primeira vez desde que adentrara o quarto. Ela estava usando o vestido verde que ele havia comprado, e não se surpreendeu ao constatar que havia ficado.. perfeito. Nunca iria admitir isso, mas quando saíra com Happy para comprar algo que ela pudesse vestir, escolhera este vestido em especial por causa do que o amigo havia lhe falado:"Ei, Natsu! Esse daqui é da cor dos seus olhos! Tenho certeza de que a estranha da Luce vai gostar!". Ganhado pelas palavras do melhor amigo, comprou o vestido, sentindo-se extremamente possessivo depois, ao admitir o verdadeiro motivo de ter comprado. Lucy estaria usando o vestido que ele comprara, da cor dos olhos dele, e isso a tornava um pouco.. dele. Ao menos aos olhos dele.
Se perdeu em pensamentos impróprios ao observa-la deslizar as mãos pelo próprio corpo, desejando poder fazer o mesmo, poder rasgar o tecido esverdeado e..
– Aqui está você! Finalmente acordou, graças a deus está melhor! – disse uma voz feminina da porta, fazendo o rosado voltar a si, envergonhado por devorar a loira com o olhar, e ela nem se quer percebeu.
Era uma mulher baixinha e rechonchuda, o cabelo grisalho preso em um coque no alto da cabeça, e trajando um uniforme branco. A enfermeira.
– Você quase me mata de susto, sumindo da enfermaria desse jeito mocinha!
– Essa é a Sra. Yamamoto. – apresentou Natsu, notando o olhar confuso da loira – Ela cuidou de você durante os dias em que passou inconsciente.
– Muito, muito obrigada. – fez uma reverencia – Gostaria de poder lhe agradecer de um jeito melhor.. – confessou, desapontada.
– Não seja boba! – riu, divertida – Esse é o meu trabalho minha querida. Foi um prazer cuidar de você, Lucy. – sorriu bondosamente.
– Sabe o meu nome?
– Mas é claro! E como poderia não saber? Com esse garoto bagunceiro o repetindo milhares de vezes ao dia! – apontou para o rosado.
– Ei! – reclamou, constrangido.
– E eu falei alguma mentira? Só faltava você quebrar a enfermaria inteira de desespero cada vez que ela suspirava durante o sono!
– Q-quieta! Eu não fiz isso.. – cruzou os braços, olhando pro lado.
A loira apenas riu e o olhou carinhosamente. Ele era um verdadeiro anjo da guarda. E havia ficado tão preocupado assim?
– Obrigada novamente, Sra. Yamamoto.
– Não seja boba, me chame de Kyoko! Agora, hora de fazer meu trabalho. Hora do jantar! – saiu do quarto e voltou logo em seguida, empurrando um carrinho de metal com uma bandeja em cima.
Ambos franziram os narizes, de nojo. A sopa fedia, e a aparência não era nem um pouco mais apetitosa que o cheiro. Um caldo branco amarelado, os fazendo pensar em ovos podres.
A estrela olhou distraída para a bandeja de metal, imaginando que deveria ser muito mais gostosa do que a sopa podre.
– Não coma isso Luce, você irá morrer! – alertou, tampando o nariz com as mãos.
– Exagerado! Já te mandei ter modos!
– Acho que não estou com muita fome.. – tentou se livrar da comida sem ser mal educada, mas seu estomago roncou alto, fazendo a senhora revirar os olhos.
– Os jovens de hoje em dia são tão exagerados. Como espera se recuperar se não se alimentar direito?
– Eu a levo para jantar! – ofereceu-se o rosado, recebendo um olhar de agradecimento da loira.
– Isso! Estou me sentindo bem de qualquer jeito, não preciso de mais descanso.
A senhora os encarou por alguns segundos, desconfiada, mas se deu por vencida.
– Tudo bem, mas vão logo antes que eu mude de ideia!
– Obrigada Sra. Kyoko! – agradeceu, antes de correr atrás do rosado que ja passava pela porta, correndo como se ele corresse risco de comer a sopa de ovos – Cuide bem dele, por favor. – colocou a cabeça para dentro do quarto novamente, olhando preocupada para Sting.
– Não se preocupe querida, ele está em boas mãos.
– Luce! Venha logo! – chamou, irritado, voltando para puxa-la pelo pulso. Não gostou do tom preocupado que ela usou para se referir ao loiro.
– Vamos! – concordou, se deixando ser puxada por ele.
– Esses jovens magos, sempre se achando fortes demais para precisar de cuidados médicos.. – suspirou, sorrindo – Boa sorte com a garota Natsu, bonita e gentil, você escolheu bem. – falou em voz alta, para si mesma. Foi fácil notar nos poucos dias que se passaram o quanto ela era preciosa para o rosado.
– Agora, vamos dar uma olhadinha em você.. – comentou, olhando tristemente para o loiro, ainda inconsciente. Não dava qualquer sinal de melhora, ou de estar próximo de acordar.
– Natsu! – chamou pela terceira vez, impaciente, enquanto ele a puxava pelo pulso, correndo pelas ruas da cidade de Hargeon.
O sol mal havia começado a se pôr, ainda era cedo para jantar. As pessoas começavam a recolher suas mercadorias das ruas, e algumas famílias saíam de suas casas para dar um passeio antes do jantar.
– Não precisa gritar Luce, eu não sou surdo. – a provocou, demorando para responder de propósito.
– Onde nós estamos indo? – perguntou, ignorando a brincadeira que ele não se cansava de fazer.
– Segredo.
– Ah não! Não faça isso comigo, você sabe que sou curiosa.. – pediu, manhosa.
– E é exatamente por isso que é tão divertido. – sorriu de canto, fazendo a loira prender a respiração e tossir, pois estavam correndo em grande velocidade.
– Luce! Você está bem? O que aconteceu? Quer voltar para o hotel?
– Não.. – tossiu novamente, recuperando o folego – Só vamos andando, por favor.
Ele riu, e esperou ela se acalmar.
– Então vamos logo, não quero me atrasar.
– Para o que?
– Engraçadinha, já falei que é segredo.
– Não custa tentar.. – murmurou, decepcionada, e ele revirou os olhos.
– Menos papo, mais ação!
Apressado, ele transformou o andar rápido em um correr devagar, mas a loira o acompanhou sem problemas. Só havia perdido o folego anteriormente por causa do sorriso dele. Bastou ele sorrir para que ela perdesse o folego e prendesse a respiração, se esquecendo de que estava correndo. O que era isso? O que era isso que o rosado lhe fazia sentir?
Continuaram caminhando pelas ruas, com pressa, até que ele parou de repente e tampou os olhos dela com as mãos antes que ela pudesse protestar.
– Ei! Isso já passou dos limites da maldade, agora não posso ver também? Você é um torturador profissional, Natsu..
Colocou-se atrás dela, para que pudesse tampar seus olhos com mais facilidade.
– Só continue andando Luce, estamos quase lá.
Dominada pela curiosidade, assim fez.
Caminharam por cerca de dez minutos, até que ele parou, a obrigando a parar também.
Concentrou-se, tentando adivinhar onde estavam, sem sucesso. Tudo que podia ouvir eram risadas, pessoas conversando, crianças barulhentas e algumas músicas ressoando pelo local. Cheiros variados, de comidas, perfumes, doces..
– Pronta?
– E você ainda pergunta? – seu estomago roncou, e ela sentiu seu rosto esquentar. Todo aquele cheiro de comida era de matar.
Ele riu e retirou as mãos do rosto dela, parando ao lado, para poder ver sua reação.
Arregalou os orbes avelãs e respirou profundamente. Estava.. encantada. Maravilhada.
– Bem vinda ao Festival de Hargeon. — sorriu, gesticulando para que ela avançasse.
– Natsu, isso é.. — não conseguiu completar a frase, ficou sem fala. Estavam próximos a floresta da cidade, naquele ponto, as árvores eram de um verde-vivo e havia milhares de flores de diversas cores espalhadas por todo o local. Luzes mágicas e coloridas flutuavam no ar, iluminando tudo em um arco-íris de cores. O lugar estava lotado de pessoas, famílias, casais, crianças correndo entre as barracas de comidas e jogos.
Em um palco no centro do Festival havia uma banda, a vocalista era uma mulher de cabelos longos e negros, caindo em cachos até sua cintura. Trajava um vestido longo e arroxeado, da cor de seus olhos. Sua voz soava maravilhosamente, tornando a melodia harmoniosa e romântica.
– Vamos naquele Luce, tô empolgado! — a puxou em direção a uma das barracas de jogos, onde tinham de derrubar as garrafas as acertando com pequenas bolas para ganhar o prêmio. Ele pagou o senhor que trabalhava na barraca, e ganhou três bolas amarelas.
Pegou a primeira bola e a jogou com força, acertando o primeiro grupo de garrafas.
– ISSO! — comemorou, cerrando os punhos em um gesto vitorioso — Cade o meu prêmio?
O senhor riu gostosamente antes de responder:
– Ainda não meu jovem! Precisa acertar os outros dois grupos de garrafa também.
– Agora sim eu tô empolgado! — bateu o punho fechado contra a palma da mão aberta, seu gesto habitual.
– Quando você ganhar, escolha aquele ali Natsu. — apontou para o grande dragão de pelúcia dourado.
Ele sorriu para ela, confiante, e estendeu a bola em sua direção, e ela encarou a bola, sem entender.
– Beije.
– Oi? — perguntou, confusa.
– Beije, Luce! Para dar sorte! — explicou, impaciente, mas corou um pouco, discretamente, e desviou o olhar.
Ela o obedeceu e plantou um beijo na bolinha, rindo da situação. Isso la era jeito de se ter sorte? Observou ele se preparar e jogar a bola habilidosamente, acertando o segundo conjunto de garrafas, e movido por impulso, se virou e a abraçou, a levantando do chão e a rodopiando no ar, comemorando.
– Vocês dois formam um belo casal. — comentou o senhor, sorridente, fazendo os dois se soltarem e ela corar.
– Nós não..
– Obrigado. — sorriu, agradecendo ao senhor, e entrelaçando seus dedos nos dela, ficando de mãos dadas.
– Natsu! — exclamou, enquanto seu rosto atingia tons de vermelho desconhecidos pela humanidade. Por que ele estava fazendo isso?
– Ssssh, pra que contrariar o velhinho? Só seja educada e agradeça Luce. — sussurrou para ela, próximo de seu ouvido, fazendo-a se arrepiar.
– O-obrigada.. — agradeceu, envergonhada, fazendo o senhor gargalhar.
– Agora vamos acabar com essas garrafas e ganhar esse dragão de uma vez por todas!
– Sim! — concordou, animada, seu rosto voltando a coloração normal.
Repetiram o "ritual" de boa sorte, e após ela beijar a bolinha, ele se empolgou um pouco demais, e tocou fogo na mesma, que acertou as garrafas mas também incendiou a barraca inteira, fazendo o senhor correr para fora, desesperado.
– Ai meu deus! — exclamou Lucy, chocada — Natsu, o que você fez?
– Foi sem querer! — coçou atrás da nuca, sorrindo amarelo.
– Então faça alguma coisa! — ordenou a loira, enquanto corria até o senhor e o ajudava a se levantar do chão — Você está bem?
Ele tossiu um pouco e sorriu, agradecendo.
– Estou.. — fitou a barraca tristemente.
– Sentimos muito, prometo que iremos pagar por tudo!
– Não se preocupe minha jovem.. — riu-se, já em pé ao lado dela, enquanto o rosado corria em volta da barraca, tentando controlar o fogo — O importante é que consegui salvar esse daqui.
Ela não havia entendido, até que ele lhe estendeu o dragão dourado, o único prêmio que fora salvo do incêndio.
– Eu não posso aceitar..
– Mas é claro que pode!
– Então insisto em pagar por ele o preço equivalente aos reparos, já que não acertamos as últimas garrafas e não o merecemos. — sorriu, firme, não aceitaria um não como resposta.
Chamou por Natsu, que se aproximou dos dois se desculpando, e assim que ela pediu, entregou grande parte do dinheiro que ganharam na missão, a fazendo suspirar. Lá se vai parte do dinheiro que usaria para pagar o que devia aos amigos.
Antes deles se retirarem, o senhor puxou o rosado para o canto, e falou algo em seu ouvido, tão baixo que a loira não conseguiu ouvir, devido ao barulho da banda e das conversas das pessoas em volta.
– Obrigado, e nos desculpe! — o rosado sorriu para ele, as bochechas um pouco coradas, o que a deixou ainda mais curiosa.
– Até! — a loira acenou e seguiu o rosado que se afastava — O que ele te disse?
Ele sorriu diabolicamente antes de lhe responder:
– Segredo.
– Eu odeio você! — reclamou, fazendo bico.
– Além de teimosa, está ficando muito mimada. Não pense que vou lhe tratar feito uma princesinha! — zombou, sorrindo travesso.
– Estou com fome. — mudou de assunto, ainda fazendo bico.
Ele riu e continuaram andando, no caminho pararam em uma barraca de pipoca, onde compraram quatro saquinhos grandes, surpreendendo o vendedor. Dois de pipoca doce e dois de salgada.
– Onde nós estamos indo? As mesas ficam pra lá. — perguntou, apontando para a direção oposta a que seguiam, onde havia várias mesas.
– E quem disse que vamos comer nas mesas?
– Eu já te falei que odeio ficar curiosa? Por que você faz isso comigo? — bufou, irritada e chateada.
– Porque é divertido. Qual é a graça em fazer tudo do jeito que você quer? — respondeu, divertindo-se e sorrindo, sem olhar para ela, que o fitava intensamente.
– Ser do jeito que eu quero. — murmurou.
Ele gargalhou, e continuou o caminho, a guiando pela parte aberta da floresta.
– Não me faça tampar sua boca dessa vez, pare de reclamar um pouco.
Suspirou, e continuou a segui-lo.
Depois de alguns minutos, chegaram a beira de um penhasco, agora o céu já estava coberto por um mar de estrelas, e ali, longe das luzes da cidade, pareciam ainda mais belas e brilhantes.
Ele se sentou sobre a grama, largando os sacos de pipoca ali, e bateu no chão ao seu lado direito, indicando para ela se sentar.
Admirada com as estrelas, se sentou ao lado esquerdo dela, de birra, e ele riu.
– Teimosa.
– Esse é o lugar especial? — fingiu não estar impressionada, e ele arqueou uma sobrancelha.
– Só coma essa pipoca logo e fique quieta. — falou, revirando os olhos.
Deitou-se de costas na grama, e passou a fitar o céu, encantada. Um sorriso estampado no rosto. Nunca havia se divertido tanto.
– Você gosta muito das estrelas, não é Luce? — perguntou, enquanto ela observava as estrelas, ele a observava, devorando a pipoca, distraído.
– Sim.. — concordou em um sussurro, seu cabelo começando a adquirir um brilho prateado discreto, mas o suficiente para que o rosado arregala-se os olhos, perplexo.
– Luce, não se assuste, mas.. Acho que você está brilhando! — apontou para o cabelo dela, boquiaberto, e ela riu.
– Faz parte da minha magia. — mentiu, sem parar de admirar as estrelas.
– Da pra ser mais estranha? — zombou, fazendo ela revirar os olhos dessa vez. — Não vai comer? Consigo ouvir seu estomago daqui.
– Exagerado.. — murmurou, constrangida, e sentou-se, começando a comer as pipocas.
Assim que acabaram, voltou a se deitar, mas dessa vez ele se juntou a ela.
Suspirou, satisfeita. Nunca fora tão feliz em toda sua vida, nem mesmo quando estava no céu. Melhor ainda.. seu coração nunca fora tão feliz, parecia a ponto de explodir.
– Sabe, eu ainda não te castiguei pelo que você fez..
– A gritaria já foi o suficiente!
Aproximou-se dela com um sorriso malicioso, cheio de más intenções.
– O que você vai.. — começou, temerosa, enquanto ele se aproximava cada vez mais. Sentiu seu rosto esquentar, ele estava perto demais e..
Se jogou em cima dela, a prendendo no chão e a atacando com cócegas. Ela ria descontroladamente, ficando sem ar, enquanto ele fazia cócegas em sua barriga, um sorriso largo no rosto.
– P-por favor.. C-chega.. D-desculpa.. — lágrimas escorriam por seu rosto, e satisfeito, ele parou, saindo de cima dela e se largando ao seu lado, deitado na grama.
– Assim está melhor. Isso é pra você aprender, sua menina levada!
Ela riu mais um pouco, se recuperando do ataque repentino.
– Natsu.. — o chamou, e ele a olhou — Obrigada. Por tudo.
– Sua estranha. — sorriu para ela, o sorriso torto que a deixava tonta e fazia seu coração martelar no peito.
Ela amava o jeito que Natsu sorria a cada cinco segundos, mesmo sem motivo algum.
Ele amava.. tudo nela. Desde o sorriso doce até os cabelos dourados.
Sem dizer nada, ele entrelaçou os dedos nos dela, e ficaram ali, perdendo a noção do tempo, aproveitando a companhia um do outro.
Admirando as estrelas.
Notas finais
~ Cantáte/ Sacra Alite / Luna Argentea = Cante/ Pássaro Sagrado/ Lua Prateada
~ Rise From the Ashes.. Phoenix's Tears = Renasça das Cinzas.. Lágrimas de Fênix!
(Associei a Fênix, uma das 88 constelações, a magia de cura da Lucy, devido a lenda da mesma poder renascer das próprias cinzas/curar-se etc)
Até o próximo pessoal o/
PS. Vocês fazem mais questão de Jerza ou Gruvia? Só vale escolher um! :3
Fale com o autor