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1 One-Shot


Notas iniciais
Dedico as Bitches do twitter: @TheMCRBitches TODAS! & também aos meus leitores dignos.
e sem mais... - Let's Go!

Inverno, estação em qual as pessoas arranjam pretextos para amarem alguém e não terem que sair de casa por medo que o frio congele seus ossos.

A maioria das pessoas que conheço estaria a essa hora sentada em frente à lareira com o seu tal par romântico, embalados por uma musica que trouxesse a calmaria e os fizessem dormir ao lado do seu chocolate quente aquecido em microondas e com os pés gélidos e duros como rochas cobertos por maltrapilhos que ninguém nunca mais usaria para nada. Eu não fazia parte desta regra, mesmo sentindo minhas articulações congeladas e fazendo o frio que fizesse, eu não me importava mais em fazer parte da maioria, o inverno ainda era minha estação favorita, mesmo tendo suas chuvas e nevoeiros que cobrem o meu lago mais querido me impedindo de avistá-lo;

Moro só no Colorado desde que completei meus dezesseis anos, hoje com vinte e cinco vejo que minha emoção não andou lado a lado com a razão, eu era um jovem desmiolado e a minha imaturidade me fez tomar atitudes precipitadas para qualquer boçal, seria mais fácil se eu tivesse suportado a vida que tinha em Montana com a minha mãe, mas precisei ter um duelo com a vida para perceber isso, meu orgulho nunca me permitiria voltar, e minha mãe nunca me permitiria mentir. Teria que contar a ela sobre todos os acontecimentos ocorridos aqui, e eu não acho que a pessoa mais púbere que fosse agüentaria, ainda mais sendo minha mãe.

Vim parar neste casebre abandonado e afastado de tudo, uma hora ou outra vejo os ratos roendo o canto da pouca mobilha do quarto ou da sala, e de fato eu nem me importo, pois eu gosto da presença deles ali, afinal foram minha única companhia depois de quatro anos de nostalgia e martírio.

Houve um tempo em que olhei para a janela empoeirada e traçada por teias de aranha e observando a relva coberta pela névoa branquejada, o verde e o branco se misturam praticamente dançando no chão se complementando. Talvez fosse só algo da minha cabeça, já alucinada, ou quem sabe fosse a liberdade concedida por ele para que eu monologasse a nossa historia para um ouvinte inexistente; a neve cairia logo e no mais tardar do dia seguinte tudo se encontraria coberto pela coisa mais branca que já vi na vida, algo que arderia os olhos apenas por admirar.

Tirei meus olhos da janela e dei alguns passos até a cozinha, liguei a cafeteira e ouvi os estalos que ela fazia por um minuto, mergulhado no subconsciente, arrastei meus pés até o mictório e notei a porta entreaberta como sempre ficava, mas daquela vez era desigual as anteriores vezes, daquela vez eu tive um flash back momentâneo do ultimo natal que nos foi concedido.

- Frank! – gritou a minha voz favorita entrando pela soleira da porta, ouvi suas botas baterem sobre o soalho que rangia e escutei atentamente quando o molho de chaves tilintou e bateu sobre o balcão sem uma das portas na cozinha — Brancas ou vermelhas? – continuou ele, perguntando e me desafiando. E por pior que parecesse eu adora seu jeito de me provocar, era delicado e mesmo assim não brincava era sério e me mantinha preso no jogo até o fim.

Olhei para o espelho sem uma reação determinada, meus olhos de cor avelã refletiam um cara baixinho de no Maximo 1,65 de altura com as mãos flácidas e macias e com um pequeno calejo no dedão esquerdo, com as sobrancelhas desiguais e com o cabelo todo bagunçado e jogado sobre o rosto amarelo, mas um homem que o indivíduo do outro lado da porta amava, e eu me adorava por isso.

Meus olhos se voltaram para olhar atrás de mim em frente ao espelho machucado e sujo, os azulejos do banheiro branco estavam diferentes de todas as vezes que o olhei, estavam escuros, estavam acinzentados, a claridade da latrina estava pior, a luminária que eu deixava próxima a porta havia sido posicionada em outro lugar e com certeza isso era um pouco do dedo de Gerard.

Dei um pigarro e segurei na maçaneta da porta me preparando para abri-la e dar nele um xingão necessário, eu sempre odiei os mexilhões que moviam as minhas coisas, nem aos ratos eu dava essa permissão e ele sabia, mas não o consegui fazer.

Minha fonte de luz tinha sim sido colocada em outro lugar, mas explicitamente a um meio metro depois de onde eu sempre a colocava, ou até mesmo antes. Eu nunca fui bom com contas. De qualquer maneira, ela havia sido mudada, mas era por uma boa razão. Gerard colocou uma banqueta ao lado da luminária, e sobre ela estavam meus bombons de trufas vermelhas favoritos, e também um vaso repleto de tulipas brancas, que sempre me encantavam quando íamos à lagoa que ficava na cidade vizinha em que eu sempre dizia ‘um dia levarei um ramo dessas flores para casa, nem que seja só para olhá-las, mas vou’ Ele sempre ria, mas sempre concordava assentindo com a cabeça. Ele me olhou encantado ao ver minha cara de espanto e meus olhos brilhando olhando para meus bombons e minhas flores, ele sabia que eu não ansiava por eles. Seus dentinhos pontudos apareceram formando um sorriso, e as ruguinhas ao lado da boca começavam a se formar delicadamente enquanto sua felicidade aumentava, seus olhos naquele dia brilhavam como esmeraldas e sua pele era de um tom alvo admirável, eu poderia me segurar na lateral da parede para me dar assistência e me manter em pé, porque não sentia só borboletas no meu estomago, mas também um zumbido estranho que pareciam abelhas me implorando para pular sobre os braços branquelos e fortes dele.

Sai do meu trance momentâneo e me apoiei na pia de mármore, meus dedos a agarraram com tanta força que pude notar os vasinhos sanguíneos aparecendo enquanto segurava, eu nem mesmo me importei com a temperatura gélida da pia, talvez nem tenha percebido. Soltei dedo por dedo sem nenhuma pressa, porque por pior que fosse lembrar-se dele, era uma forma que eu encontrava de estarmos próximos, e aquilo temperatura nenhuma podia saldar.

Estava fora do banheiro e novamente arrastando meus pés para o soalho vermelho de madeira, tive tempo o suficiente para pensar sobre o que havia acontecido durante todos esses anos, não só comigo, mas com todo o resto. Meus chinelos de pano tinham um furo na ponta do pé esquerdo e o direito já estava com o calcanhar gasto, eram os mesmo de dois anos atrás e continuavam aquecendo meus pés quando ele não estava perto, eles se arrastavam quietinhos e mesmo assim o chão parecia ser mais barulhento que os roedores atrás do divã. Desliguei a cafeteira e voltei a encarar a janela já com uma xícara do liquido negro quente e sem açúcar entre as mãos; o vento assoviava lá fora como um vencedor numa corrida de trenó, mas ele era traiçoeiro e eu o conhecia bem, observei o velho carvalho resistindo às rajadas de vento seco e frio, suspirei fundo e deixei a vidraça embaçar, escrevi sobre ela a inicial dos nossos nomes e assisti enquanto escorriam, primeiro o dele , depois o meu, parecia ver o vidro chorar lagrimas que eu já não tinha, beberiquei o café e vi a luz da sala piscar. Era hora de levantar, e enfrentar tudo, ele queria isso e eu o faria.

Fui até o meu quarto cheio de lembranças que levavam até ele, e procurei não pensar sobre. Peguei meu casaco marrom já corroído por traças no interior e o vesti mesmo assim, senti o fedor do mofo grudar na minha pele cobrindo cada poro dela com aquele mau cheiro, ignorei e caminhei em direção a porta.

Caminhei em direção ao meu lugar adorado, peguei o primeiro ônibus e observei durante todo o trajeto às criancinhas afagadas por suas mães atenciosas e doces que as levavam para o jardim de infância, vi o cego atravessar a rua fortemente protegido do frio e sendo levado sabe-se lá para onde por seu cão guia, vi o casal de idosos abraçados em praça publica alimentando aos pombos com migalhas de pão, vi a gestante empurrando seu carrinho de compras com direção a feira com um sorriso estampado no rosto e sobre o reflexo do vidro ao meu lado, vi um incapaz. Um inábil que teve o que queria, quando queria e não valorizou isso. Desci os degraus do ônibus cambaleando entre a porta e a calçada e quando realmente me achei em si vi o meu lugar favorito do mundo todo.

Meus olhos se iluminaram ao ver que tudo estava igual depois de quatro anos, os dois araribás estavam ali mais fortes que nunca, o lago estava mais cristalino do que jamais vi, o céu começando a escurecer parecendo até que a tinta roxa tivesse sido jogada com os borrões de preto naquele azul tão lindo das manhãs do verão; Senti meus olhos se encherem de lagrimas e o meu coração afundar no meu peito e novamente fui submetido a tudo que tive um dia;

Está vendo aquela estrela ali? – falava ele apontando para o negrume iluminado apenas pela lua e pelas estrelinhas, a estrela para qual seu dedo era direcionado era uma das mais brilhantes naquele dia, meus olhos queimaram só de encará-la, mas valeu à pena – o nome dela é Vega, é minha preferida no mundo todo, ela é minha estrela da sorte, e é ela que está sempre lá quando eu acho que não vou suportar algo. – eu estava deitado sobre o seu peito, e ouvia o pulsar do seu coração fervoroso abaixo de mim, nossas mãos entrelaçavam-se e ele aquecia meus dedos congelados. A neve cairia no dia seguinte, era o ultimo dia que veríamos a lua refletindo espelhando no nosso lago favorito, o que demos o nome de diamond pela forma como brilhava, já podíamos sentir o gelo se aproximando dele, mas Vega estaria ali para protegê-lo, mesmo quando dávamos as costas, a estrela favorita de Gerard iluminava o nosso canto favorito para reflexão. Foi ali que puxei suas calças sem querer para baixo quando cai sobre a grama e prestes a me segurar nele vi o que tinha feito e sem saber onde enfiar a cara senti meu rosto queimando e pior, o meu corpo incendiando-se ainda mais com a excitação. Foi ali que vimos às duas meninas de sete anos ou menos com medo de encharcarem seus vestidos novos, foi ali que brigamos um com o outro por nosso ciúme infantil. Foi ali que observamos o moço cair de cabeça com a bicicleta sem freios e sair xingando os céus pela sua falta de sorte, foi ali que nos lambuzamos com aquele sorvete de frutas que compramos na esquina da casa dele, foi ali que eu chorei no ombro dele pela primeira vez dizendo que não suportava a falta da minha mãe. Foi ali que nos conhecemos; foi ali que passei os melhores dias da minha vida;

- e aquela ali, como se chama? – perguntei apontando para outra direção, e para estrela mais brilhante de todo o céu, a que se destacava de todas as outras e que só não brilhava mais que a lua porque era um pequenino foco de luz.

- o nome dela é Frank. – falou.

- A-HÁ- muitíssimo engraçado Gerard. Pare de brincar, falo serio. – retruquei me sentando na grama gelada e sendo um completo idiota.

- o nome dela é Frank...- repetiu – e se chama Frank porque foi o nome que dei a ela, olhe para ela, ela é tudo. Perto dela, as outras, são só outras. – ele deu uma pausa e sentou na grama se ajeitando ao meu lado e segurando minha mão do mesmo modo que fazia anteriormente, voltando a aquecê-las outra vez – Perto de você, qualquer pessoa que eu conheça é só uma pessoa, são só vultos, sombras sem nada a oferecer. Você é minha vida, e se eu algum dia acontecer algo, você terá Vega para auxiliar você, ela é linda não é?então cuide de Vega para mim Frank. – ele levou meu braço para cima e o fez ir em direção da tal estrela de novo – abra sua mão – pediu ele, e eu o fiz, meus dedos se flexionaram aos poucos e eu abri completamente não só minha mão, mas meu coração, para aquela maldita estrela – você pode tocar as estrelas quando estiver preparado para isso – sussurrou delicadamente palavra por palavra, mais vagarosamente como jamais havia visto – eu vou estar sempre lá quando a chuva cair, o vento soprar, quando os trovões gritarem,ou o sol arder, confie em mim. – pediu

Assenti e senti meus olhos molhados a essa altura, derramei uma lagrima e ele a secou. Aquela então era a ultima lagrima que ele veria cair.

Duas crianças passaram por mim resmungando uma com a outra, eram dois garotos aparentemente de classe média. Um deles agarrava uma pipa azul marinho sobre o peito magricela com respiração rápida e com covinhas na bochecha; o outro segurava a linha correndo em direção ao araribás para conseguir distancia e sentia as rajadas de vento que viam diretamente para o seu rosto em quebranta. – não, não. Vá para esquerda imbecil, esquerda! – gritou o magricela e o outro assim o fez, pisando sobre os gravetos jogados ao chão ele caminhou e pude ouvir os galhos sendo esmagados pelas suas duas pernas de saracura; Lembrei-me das tantas vezes que chamei Gerard de Imbecil, idiota, retardado, marica e tantas outras coisas sem fundamento e quase entrei no meio da discussão ‘inocente’ das crianças ali presentes para dar neles uma lição de moral.

A vida é assim, quando você perde algo que realmente significa muito para você vê os seus defeitos, erros e tenta ajeitar as coisas, mas já é tarde demais.

A noite caiu e Vega brilhava no ponto mais alto do céu, as nuvens encobriam a lua que ainda refletia na água cristalina ali a minha frente que batia furiosa em direção as pedras e eu me lembrei.

Sentado em frente à lareira quentinha e com os pés aquecidos eu esperava ele para nossa noite de filmes antigos. O vento levou, dançando na chuva, Casablanca e tantos outros longas-metragens esperavam assim como eu pela presença dele para tornar aquilo perfeito de novo. Passaram-se uma... duas...três horas, até que o telefone preso a parede gritou impaciente.

- onde você está? Eu estou te esperando há três horas Gerard. Você está me faz... – eu soltei as palavras nervosas e raivosas através da linha até que uma voz me cortou.

- não é o Gerard. Você é Frank? – perguntou.

- sou eu...- respondi mais sereno, mas ainda irritado por ter sido deixado esperando, eu não falava com Gerard a dois dias, o trato era. Eu te deixo livre quando quiser, se me visitar quando puder. E ele, sempre cumpria.

- Frank, meu nome é Victor, sou oficial da emergência da cidade. Tenho uma noticia má para lhe informar – as palavras ecoaram dentro do telefone, eu senti o chão se abrindo, aquilo tinha haver com Gerard, eu sei que tinha. – Gerard faleceu essa manhã vitima de Hipotermia é o que as causas indicam, um legista poderá avaliar melhor o caso, sinto muito... – a voz do oficial continuou falando, mas eu já não escutava, eu não acreditava, e minhas pernas caíram com um baque no chão, meus joelhos se marcaram com a vermelhidão da cera do soalho e os ratos correram com medo. Eu tremi, gelei, chorei, e mal acreditei no que ouvi.

Passaram-se duas semanas após o seu funeral e eu ainda estava lá, na mesma sala ouvindo as mesmas musicas, assistindo aos mesmos filmes e chorando a cada minuto que se passava ainda não acreditando;

Quatro anos depois...

Tentei então superar uma perda tão grande e dolorosa, ainda dói pensar nele, mas é algo que eu tenho que pelo menos conviver. Vega me olhou do ponto mais alto do céu, e eu sabia que Gerard não queria isso, – eu vou estar sempre lá quando a chuva cair, o vento soprar, quando os trovões gritarem,ou o sol arder, confie em mim – e ele estava, Vega não era só uma estrela idiota a qual Gerard idolatrava, mas era ele me guiando, olhando , cuidando, e amando durante todos estes anos.

– você pode tocar as estrelas quando estiver preparado para isso –

E finalmente eu estava preparado, iria tocar as estrelas, tocaria meu amor, tocaria o céu e o que mais viesse à frente. Gerard me preparou, Gerard ansiava a cada minuto onde quer que estivesse para que eu aproveitasse o dia. Estou preparado para te amar pra sempre minha fonte de luz, meu pequeno Vega;

Notas finais
ignorando os erros. o que acharam? - Beijinhos e até a próxima!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!