Light — King Kill 33°

5 ATO II:III — O TÉDIO ➠ Vinte anos após a morte de ℒ (Fim do segundo ato)


Notas iniciais
A primeira fala é do L, a segunda é do Light e assim vai...

ℒight
King Kill 33°❝Fazer o bem ao teu inimigo pode ser obra de justiça e não é árduo; amá-lo, tarefa de anjos e não de homens❞.
—Jorge Luis Borges

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ATO II – O TÉDIO

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Vinte anos após a morte de ℒ.

ℙOR QUE MEU PRIMEIRO AMIGO está chorando? – perguntou ele, no mesmo tom insuportavelmente calmo de sempre.

— Que amigo? – instintivamente esfreguei a mão no rosto, a fim de limpar quaisquer lágrimas remanescentes – Eu te matei! Ou a vida após a morte é tão boa assim que você conseguiu se esquecer disso?

Ele levou o dedo polegar aos lábios incolores, contemplou serenamente o céu parcialmente nublado e matutou por alguns instantes, culminando numa resposta mais que afiada:

— Eu sinceramente nem me recordo da causa da minha morte. Poderia refrescar a minha memória?

O questionamento dele tinha a intenção de parecer inocente, no entanto seu sorriso provocativo já dizia tudo: ele estava tentando prever o modo dissimulado como eu daria a minha resposta.

— Mesmo depois de morto você não para de me testar?

— Olhe para si mesmo, Light, você já está quase tão morto quanto eu.

— Mentira!

— Acha que eu não vejo quando você joga pedras no meu túmulo? – ele deu uma risadinha – Sei que você instalou câmeras no mundo todo para poder vigiar as pessoas, todavia o sobrenatural não aparece nas gravações. Por isso, você nunca pôde me ver, nunca pôde me dominar. Sendo assim, eu sempre tive passe-livre para circular tranquilamente pelo seu “novo mundo”. Juro que tentei entender a lógica dele, mas não consegui. Você realmente perdeu o fio da meada, Light. O planeta não ficou melhor para ninguém, nem mesmo para você. Talvez tenha sido por isso que você tenha criado o hábito obsessivo de visitar o meu túmulo: seu entretenimento sanguinolento se esgotou e você ficou sem objetivo. Não há mais criminosos para matar, logo você não se contentou e começou a matar os seus opositores, até mesmo alguns de seus servos! Tudo isso só para sustentar o seu prazer sádico, agora cada vez mais difícil de ser saciado. Acho que, se você não morrer antes, vai acabar dizimando a população inteira só por diversão e, no fim de tudo, o único a restar será você. Mas como nenhum rei reina sobre o nada, você será derrubado pelo próprio ego no dia seguinte. Eis o duplo xeque-mate, finalizamos com um empate!

— Você não pode ser real, isso é só coisa da minha cabeça!

— Isso parece coisa da sua cabeça pra você?

Ele ficou de pé; seu corpo completamente ereto como nunca antes. A julgar por toda aquela imponência, até parecia mais alto... Incrivelmente mantinha um equilíbrio perfeito em cima da lápide, sem escorregar as solas dos pés sobre a superfície. Na fração de segundo seguinte, abriu suas belíssimas asas. Pensei que ele só fosse exibir suas habilidades aerodinâmicas, esfregando na minha cara todo o seu poder de anjo, espírito, assombração, ou o que quer que ele fosse. Porém, eu sabia que aquilo não era do feitio dele. Ele, ao contrário de mim, nunca foi de esfregar poder na cara de ninguém. Era um homem simples, indiferente, apático e... cansado. Portanto, tudo o que ele fez foi deixar que eu mesmo visse as atrocidades que eu estava fazendo comigo mesmo, em vez de tentar me explicar o inexplicável.

— Light, minhas asas vão literalmente refletir a sua alma agora. Você não precisa entender tudo de cara, apenas olhe. Faça como se estivesse assistindo a um filme. Preste atenção, porque eu só vou mostrar uma vez.

Eu assenti, aguardando o famigerado “filme”.

Começou: uma série de imagens correu rápida e repetidamente pelas asas dele. Mantive meus olhos fixos nelas, pois não queria perder nada. Era tentador olhar nos olhos de ℒ, mas não, eu precisava olhar as asas. Foi quando eu vi o meu rosto refletido nelas. Meu rosto... Meu belo rosto... Eu me vi sendo devorado por larvas, desfigurado por facas, enterrado por meu próprio povo. Depois, meu ‘eu’ começou a se multiplicar dentro do túmulo. A cova foi violada e dela saíram vários Lights, sem qualquer explicação. Os Lights começaram a brigar pelo poder, escaldando, decapitando e esquartejando uns aos outros. Até que, em menos de um minuto, tudo o que restou foi uma fogueira crepitando pedaços emaranhados e ensanguentados do meu ‘eu’, agora único e abandonado. Eu cheguei mais perto para tentar ver a fogueira melhor, quando vi... um olho. Um olho morto e escancarado, pendurado à órbita por um filete mínimo. Era o meu olho morto.

E ele piscou para mim.

— Já chega, já chega, eu não aguento ver mais nada! – implorei, gritando.

ℒ fechou as asas abruptamente, revirou os olhos e se desequilibrou da lápide, caindo em meus braços. Eu o segurei com força, lembrando-me imediatamente da noite em que eu também o segurei quando ele caiu da cadeira.., após ter sofrido um ataque cardíaco.

Foi como reviver toda a sensação.

— Peço desculpas pela queda repentina. Me deixa fraco ter que mostrar esse tipo de coisa a quem amo... Mas foi necessário. – disse, fechando os olhos e chorando baixinho.

Eu nunca tinha visto ℒ chorar...

Ei, espera um pouco...

— Você disse que te deixa fraco mostrar esse tipo de coisa a quem ama. No caso... eu?! ℒ, você me...

Ele me interrompeu com um beijo doce e delicado, entrelaçando seus dedos da mão direita nos meus. Os dedos da mão esquerda, por sua vez, brincaram com os meus cabelos. Eu pensei em empurrá-lo, mas não podia; eu não tinha uma sensação boa como aquela há anos. Levei minhas mãos à sua nuca e retribuí na mesma proporção, com movimentos lentos e cuidadosos, temendo assustá-lo. Fechei os olhos e me deleitei por alguns segundos com o sabor dos lábios dele, algo semelhante aos doces que ele tanto apreciara em vida. A textura da pele dele ainda era macia e convidativa. Seu beijo, antes tímido, foi gradativamente se tornando algo mais intenso, como se ele quisesse se entregar cada vez mais e mais. As pernas dele pareciam fracas, por isso o deitei com carinho na grama, beijando-o sem cessar. Meu coração se acelerou quando ele apertou de leve as minhas costas e gemeu baixinho dentro da minha boca. Segundos depois, ele afastou os seus lábios gentilmente dos meus e, surpreendendo-me, finalizou com um selinho inesperado. Naquele momento, tentei conter um sorriso... Falhei miseravelmente.

— Sei que anjos não podem ter desejos carnais, muito menos por humanos como você... – ele sussurrou, constrangido – Eu me apaixonei pelo homem mais cruel da Terra. Deveria perder minhas asas por isso.

— Tomara que as perca.

— Sem empatia como sempre, não é, Light? – ele saiu de baixo de mim, levantou-se, limpou a grama da roupa e enxugou uma lágrima. – Mas independente do tamanho do seu ego, a morte é igual para todos.

Levantei-me também e o encarei com autoridade, fincando as minhas unhas nos braços magros dele, na inútil tentativa de intimidá-lo.

— O que quer dizer com isso? Está me ameaçando?

Ele não me respondeu; apenas se rebelou, abrindo as suas asas para escapar das minhas garras. Seu olhar faiscou naquele instante. Porém, rapidamente ele recobrou o seu semblante insensível, indiferente e inexpressivo. Sua alma pousou novamente na lápide. Ele foi perdendo a forma e a nitidez, ficando cada vez mais borrado e translúcido, volatizando-se como perfume no ar.

— Ei, espera, não vá, eu... Eu sei que eu exagerei, mas não vá, por favor, não vá! – implorei.

Seus olhos me fitaram, contudo não com amor, carinho ou respeito. Nada de sentimentos bons. Raiva, desprezo, quiçá desejo de vingança? Muito menos. Ele não era partidário daqueles sentimentos mesquinhos. Tudo o que eu via naquela expressão vazia era... pena.

Ele estava com pena de mim.

— ℒ, eu te imploro, quando é que eu vou te ver de novo? Por favor, me diga alguma coisa antes de ir embora! Caralho, qualquer coisa! Eu não quero me esquecer outra vez de como é a sua voz! – ordenei em desespero, segurando o que ainda restava do rosto dele.

— O som do sino tá bem mais alto hoje... – sentenciou o anjo.

A última lágrima dele caiu bem na palma da minha mão.

Eu tentei beijá-lo pela última vez, mas acabei beijando o nada.

Ele não estava mais lá.

— ℒ, por favor, me perdoa, me perdoa, me perdoa! – ajoelhei-me diante de seu túmulo, chorando copiosamente – Eu me mataria para te trazer de volta, eu faria qualquer coisa por você! Acredite em mim, eu te imploro, acredite em mim! – exclamei, abraçando firmemente a sua lápide, como se ela também fosse desaparecer a qualquer momento – Volte aqui, eu sei que você está aí! Por favor, não vá embora, ℒawliet, não vá embora, não vá... embora.

— Light? – ouvi uma voz não muito distante de mim.

— ℒ? – olhei para trás, esperançoso.

— Não, é a Misa – ela tentou inutilmente disfarçar o constrangimento com um riso fraco – Você estava demorando uma eternidade para retornar à Catedral de São Basílio e eu fiquei preocupada. Vim ao seu encontro porque julguei que estivesse aqui. Afinal, você tem passado mais tempo em frente a essa lápide do que em qualquer outro lugar ultimamente. Estou nesse cemitério há mais de dez minutos, observando tudo. Você estava tão absorto que nem notou a minha presença. Confesso que fiquei muito confusa e assustada com as suas atitudes de maluco. O que aconteceu? Nunca te vi assim, falando sozinho, ainda mais gritando e chorando para o nada. Houve até um momento em que você se deitou no chão e começou a beijar a grama... Eu juro que quero entender, não estou te julgando nem nada, mas você... O que você teve? Um surto psicótico?

— Falando sozinho? Gritando e chorando para o nada? Beijando a grama? Não, Misa! Eu estava falando com o ℒ, gritando e chorando para o ℒ! Eu beijei o ℒ, sabe por quê? Porque eu vi o ℒ, juro pelo meu reino, juro pela minha vida! Como pôde não ter visto? Era mesmo o ℒ! E ele estava lindo, tinha até asas de anjo! Elas eram gigantes e tinham poderes de refletir a alma de quem as fitasse! Não viu nada disso? Por favor, me diga que você viu pelo menos uma dessas coisas! Não é possível que eu esteja tão louco a ponto de ter visto tantas coisas que nunca aconteceram! Por favor, diga que você viu o ℒ, Misa, por favor, diga que você viu o ℒ!

— Light, o ℒ está morto e você sabe disso. Volte à realidade, hoje faz vinte anos que ele se foi. – explicou calmamente, apontando para a lápide – Ah, eu sabia que não havia sido uma boa ideia ter trazido o corpo dele pra cá! Você está revivendo todas as lembranças ruins daquela época com ele... Agora está enlouquecendo por causa disso! Não, Light, eu não vi ninguém aqui além de você. Nenhum anjo, nenhum par de asas mágicas, nenhum rapaz parecido com o ℒ. Não seja bobo... O que você está dizendo não faz o menor sentido. O poder deve estar afetando a sua cabeça. Precisa descansar. Tenho alguns calmantes em meus aposentos, se quiser. Venha, vamos voltar para a catedral. Tudo o que você precisa é de um banho gelado, de um chá de camomila e de uma cama quentinha.

— Não, eu preciso do ℒ, eu preciso... do ℒ.

No entanto, antes que eu pudesse lutar contra a insistência de Misa em me fazer um ser humano normal, manchas escuras e dançantes foram surgindo de pouquinho em pouquinho no meu campo de visão. Em questão de segundos, as letras que compunham o nome de ℒ no entalhe da lápide foram se tornando cada vez mais turvas e disformes, menores e menores... E, como num golpe de misericórdia dado pelo lado mais ajuizado do meu cérebro, perdi a consciência...

Tudo escureceu.



ℱIM DO SEGUNDO ATO.

Notas finais
Eu sei que não tem nada mais clichezão e fora do personagem do que colocar o L pra se apaixonar pelo Light, mas dei o meu máximo para que não ficasse muito forçado.