Light Beam

1 Light Beam


Notas iniciais
ALGUMAS INFORMAÇÕES IMPORTANTES NA HIST?“RIA:

??” Há informação oficial de que o Eiji não tem a visão perfeita, mas não usa óculos por achar que não fica bem com eles (excuse me, darling, u look amazing no matter what), então aqui decidi deixar ele de óculos >unicamente< por essa informação (não tem nada a ver com GoL, necessariamente, i mean, gol who).

??” Nessa fic o Eiji vai p faculdade depois que ele e o Ash se instalam direitinho no Japão. Ele cursa fotografia e às vezes é chamado para fazer ensaios.

Essa é a primeira fic de BF que tô postando, mas não é a primeira nem a segunda que já escrevi aaaa me avisem sobre eventuais erros, por favor!

Comentários são super bem vindos sempre :D boa leitura!

Ash deixou as sacolas de compras sobre a mesa, havia várias delas com diferentes tipos de verduras, frutas e outras coisas; havia ido ao mercado, estavam precisando reabastecer os armários.

Antes de começar a guardar e lavar o que fosse preciso, Ash queria mais do que tudo tomar um banho; o verão japonês era realmente infernal. Ele desfez o pequeno rabo de cavalo que vinha usando mais frequentemente naqueles dias quentes e foi para o banheiro. Quando terminou, vestiu um shorts jeans e uma regata branca, seu rosto no reflexo do espelho sendo alvo integral de sua atenção no momento seguinte, enquanto tocava sua pele aqui e ali à procura de espinhas e afins, os dias muito quentes não vinham sendo os melhores para sua pele.

Depois de pelo menos cinco minutos – e depois de se lembrar de que se não arrumasse o cabelo, ele secaria todo estranho –, Ash encerrou sua procura e ajeitou o cabelo, contente em senti-lo úmido em sua nuca. Estava no meio da tarde e pelas janelas entrava a luz de fora, criando grossas faixas pelas cortinas para pintar o chão e as paredes, e naquele instante, tudo que Aslan fez foi respirar. Fechar os olhos e respirar. E quando os abriu, respirar ainda era seu único movimento, contemplando, na solitude daquele instante, o amarelo brilhante colorir silenciosamente o interior do apartamento.

Piscando, Aslan direcionou o olhar às sacolas ainda na mesa. Era melhor lavar aqueles legumes e guarda-los na geladeira logo. E assim o fez, retirando delas cada uma das coisinhas perecíveis que havia comprado, e lavando uma por uma para então colocá-las em separados recipientes e por fim na geladeira.

Quando terminou, deixando brócolis, algumas cenouras e chuchu na pia, ocupou-se em guardar o resto das coisas: arroz, macarrão, alguns instantâneos e afins. Então começou a preparar o jantar, cortando e separando tudo que iria cozinhar. E depois, enquanto tudo cozinhava, Ash aproveitou para abrir um dos abacates que comprou, precisava só de pôr açúcar por cima e pronto! No mundo das angiospermas, com toda certeza o abacate é a melhor fruta que há – no mundo das outras frutas também, em sua opinião.

A luz forte do Sol ainda desenhava faixas pelos cômodos, uma leve brisa balançando as cortinas quando Aslan desligou o fogão, as cascas e semente do abacate há um tempo já jogadas no lixo. Durante mais alguns segundos, sua atenção estava toda naquelas grossas e agora muito alaranjadas faixas de luz. Seu cabelo estava pouco úmido agora. E então, com um suspiro baixo, foi para o quarto.

A cama estava exatamente da mesma forma de quando havia levantado pela manhã: com lençol, cobertor e travesseiros amassados. E Ash só percebeu o pequeno sorriso em seu rosto depois de tê-lo formado.

Antes de começar a arrumar e forrar a cama, porém, decidiu abrir as portas da pequena varanda, o ar precisava circular. Mas manteve as cortinas próximas uma da outra, deixando entre elas espaço suficiente para luz natural entrar. E também era muito bonita a faixa brilhante que aquela luz imediatamente desenhou no carpete. Ash a admirou também, antes de finalmente voltar até a cama a fim de arrumá-la de vez. Ele balançou e dobrou o lençol e cobertor e desamassou o forro no fim.

Aslan havia descoberto um estranho prazer nessas coisas banais demais. Após tudo que havia acontecido, talvez não fosse uma surpresa. E ele não precisava que fosse

Ash caminhou até a porta da varanda ao terminar, imediatamente sendo recebido pelo calor. O céu estava principalmente nas cores azul, branco e laranja, absolutamente lindo – lentamente, e não sozinho, Aslan aprendeu a senti-lo.

Fechando os olhos e aspirando o ar, o cheiro do vento em suas narinas e o calor em sua pele, Ash pensou em como, mesmo após um ano, o ar do Japão era diferente. Há muito havia se acostumado, mas ainda tinha a memória do ar de Nova York em sua mente. As cores eram diferentes também: ao abrir os olhos e olhar pela varanda do nono andar, havia muito, muito mais verde.

Um vento mais forte veio, balançando as cortinas e seus cabelos, fazendo sua pele arrepiar. Ash riu breve e esfregou as mãos pelos braços. Que maravilhosamente gostoso tudo aquilo era.

Ele voltou para o interior do quarto e esticou os braços acima da cabeça, sentindo a coluna alongar. Então, com as mãos na cintura – um gesto que havia se tornado hábito por convivência—, encarou a cama arrumada, então o relógio. E a cama mais uma vez. E assim ele decidiu que estava disposto a cochilar. Tinha acabado de desamassar tudo, sim, mas não usaria o cobertor nem nada, quando acordasse poderia arrumar de novo o que voltasse a amassar.

Dessa forma, encolhendo-se no conforto do colchão e no abraço do cheiro que não era só seu, que fazia seu coração lembrá-lo de que estava lá, batendo.

A última coisa que Aslan viu antes de cair no sono foi o alaranjado forte e brilhante da luz que tocava o chão do quarto; a primeira coisa que ouviu quando acordou, sem saber quanto tempo depois, foi o som baixo e abafado da chave na porta. Algumas coisas talvez nunca mudariam, ou levariam mais tempo para irem; por enquanto, Ash ainda conhecia todos os mínimos sons, mesmo nenhum oferecendo qualquer ameaça. E estes sons inofensivos que anunciavam muito mais para ele do que simplesmente a chegada de alguém, Ash absolutamente adorava.

“Tadaima!”

Sorrindo e de olhos ainda fechados, Ash podia visualizar tudo pelos sons: os sapatos deixados na porta, a bolsa sendo descansada na cadeira da mesa, a torneira sendo aberta e depois fechada, os passos sobre o assoalho e tapetes... e então a voz:

“Aslan?”

Aslan estava deitado de costas para a porta aberta do quarto, mas não teria se importado nenhum pouco se o tamanho de seu sorriso estivesse totalmente exposto para aquela pessoa, tampouco o volume de seu coração.

Os passos vieram de novo e logo sentiu o colchão afundar cuidadosamente – é claro. Então uma mão morna em seu rosto. “Aslan,” a voz veio mais uma vez baixa, e junto com ela o deslizar de um polegar em sua pele. E Ash sabia que o dono dela tinha a expressão mais gentil e honesta para oferece-lo no mundo, a expressão mais espontânea, gentil e honesta que já havia tido a oportunidade de ver em sua vida toda.

E a primeira coisa que Ash viu ao abrir os olhos foi aquela expressão: incalculavelmente gentil e honesta, olhos castanhos brilhando com uma felicidade única que preenchia seu peito perfeitamente, como se feita no formato e tamanho para aquilo, não importava quantas vezes a testemunhasse; uma felicidade por vê-lo. No toque delicado em seu rosto, na curva doce dos lábios que sorriam para ele, no castanho infinito que o encarava, Aslan sabia, sentia o que era amar e ser amado.

“Tadaima,” Eiji repetiu, seu dedo ainda acariciando sua pele.

“Okaeri, Eiji,” Ash respondeu, não se surpreendendo com a rouquidão na própria voz.

Eiji descansou a cabeça no colchão e Aslan observou mechas pretas se espalharem um pouco – mechas que, pelo tamanho, sabia que logo logo veriam uma tesoura – e a armação fina dos óculos de grau mudarem para um ângulo estranho.

“Você não estava dormindo mais, né?” Eiji perguntou, um sorriso esperto em seus lábios agora. E aquilo, aquilo nunca mudaria, o mesmo sorriso de sempre, quando Eiji percebia algo assim. E aquilo... Eiji havia aprendido a notar tantas coisas, tantas mais. E Ash estava mais do que contente e satisfeito em tê-lo assim. Em tê-lo de qualquer jeito.

Então ofereceu um sorriso torto, mas pequeno, e nele deixou que Eiji tivesse sua resposta.

E dentro de menos de um segundo, involuntariamente, Aslan se encolheu todo, porque Eiji havia beliscado – de leve – sua costela.

“Eiji!”

“O que foi?”

“O que fo— Eiji!” Eiji não deixou que repetisse sua pergunta, cutucando suas costelas mais uma vez.

“Que americano delicado,” anos depois e Eiji ainda fazia graça com aquilo, simplesmente nunca deixaria morrer, e Ash não se importava nenhum pouco, para ser honesto. Sempre teria seu japonês desajeitado para trazer à tona também.

Aslan segurou sua mão, encarando-o, forjando uma expressão que oscilava entre seriedade e chateação. “Por que você é assim?”

E aquele mesmo sorriso esperto de antes cresceu no rosto de Eiji, divertindo-se demais. Um segundo depois, risadas tomaram o quarto, altas e sem restrição alguma.

Eiji se remexeu e deixou um beijo em sua testa. E Ash sorriu de novo. Existia um limite para o tanto que alguém podia sorrir pela mesma razão?

“Como foram as aulas?” Ele perguntou.

“Hm,” Eiji falou. “Não passaram nada mais para entregarmos desde a semana passada, felizmente,” ele contou, e Ash tocou seu cabelo, arrumando-o atrás da orelha e da perna dos óculos para então ficar fazendo um carinho ali, os fios pretos se emaranhando em seus dedos.

“As aulas no período da tarde são ótimas, mas fico feliz que apenas vão durar só por este semestre e então vou poder voltar para a manhã. É melhor para conseguir ensaios e não ficar o dia fora,” Eiji sorriu, completando: “E eu posso passar o resto do dia todo com quem eu quero.”

Aslan sorriu instantaneamente. “Quem? O Ibe?” Ele brincou.

Eiji deu uma risadinha e revirou os olhos. “Você só quer ouvir eu dizer que é você.”

“Óbvio!” Ash fingiu um tom ofendido.

Eiji riu de novo. Aslan sabia que jamais conseguiria ficar apático àquele som adorável. “Não vejo a hora de poder passar o dia com você de novo, Aslan.”

Um grande sorriso voltou ao rosto de Ash. “Você tirou as palavras da minha cabeça logo na primeira vez.”

“Oh, então você quer passar um tempo com o Ibe-san?” A satisfação no rosto de Eiji ao formular a pergunta podia ser considerada portadora de massa.

Mas Ash riu. “Quem mais você pensou que seria?” Ele ergueu uma sobrancelha ao dizer e assistiu a expressão de Eiji mudar para uma de falsa surpresa.

“Eu não vejo a hora também, Eiji,” Aslan falou após uma boa risada. “Não vejo a hora também de poder comer cereal invés de natto e coisa fedida.” Ash não perdeu a oportunidade de provocar Eiji.

“Eu sei que você come o café da manhã que preparo mesmo quando não estou aqui para certificar que você coma mesmo.”

Foi a vez de Ash revirar os olhos. Eiji não estava errado.

“Como foi seu dia?” Ele ouviu Eiji perguntar.

“Muito quente,” Ash fez uma careta. “Que verão terrível...” ele deslizou uma das mechas de Eiji pelos dedos ao dizer.

“Aqui está gostoso com o ar ligado,” Aslan observou os olhos de Eiji procurarem pelo ar condicionado.

“Mas lá fora está horrível! Fui ao mercado depois da aula de hoje e pensei que iria derreter de dentro para fora, que horror.”

Mais uma risadinha, e então os castanhos de Eiji estudavam seu rosto atentamente. “Sua pele é tão sensível, você tomou um pouco de Sol e suas sardas já ficaram mais aparentes.”

Ah, Ash havia reparado também, quando ficou aqueles cinco minutos no espelho depois do banho. Sempre apareciam por aquilo, mas eram tão claras; tão claras quanto seus cílios, só olhando de muito perto para notar.

Eiji se moveu de novo e beijou a região abaixo do lábio inferior de Aslan, e Aslan deixou um arzinho satisfeito pelo nariz. Mais um beijo, desta vez do outro lado. Sobre suas sardas então, e Eiji voltou a encará-lo. Ash sabia que havia um sorriso nos próprios lábios.

Aslan simplesmente nunca se cansaria de olhar a infindável honestidade e carinho nos olhos e rosto de Eiji.

“Tomei banho quando cheguei,” ele comentou, a voz mais baixa do que pretendia, porque tinha que falar qualquer coisa, do contrário mergulharia nos castanhos de Eiji pela eternidade – não que realmente se incomodasse com isso. “Fiz comida.”

“Hmm, estava cheirando tão bem quando entrei.”

“É que eu cozinho muito bem,” Ash falou num tom convencido, mas divertido, abraçando Eiji pelo ombro, seus dedos agora mexendo nos cabelos da nuca dele.

Eiji riu, a mesma risada que sempre borbulhava gostosa no peito de Aslan. Desde que foram para o Japão, Ash havia se dedicado a aprender mais sobre outros pratos e não apenas instantâneos e uma variedade imensamente limitada de massas. Quando vieram, Eiji pediu que não se preocupasse em trabalhar, jamais iria forçá-lo a aceitar, mas propôs que pelo menos naquele momento não trabalhasse. Eiji queria que Aslan descansasse, e também que aproveitasse o tempo para fazer qualquer coisa de que gostasse.

Ash aceitou, porque no fim também sabia que precisava descansar. Tinha medo de que sem nada para fazer, as coisas nunca saíssem de sua cabeça, ainda que pouco depois de terem deixado os Estados Unidos, tivesse começado a ir numa terapeuta – que descobriu, depois, ajudá-lo realmente, não era um caminho curto, nem o mais rápido, fácil ou confortável, mas era bom, vinha sendo bom – teve a sorte de conseguir uma profissional realmente competente logo de primeira, também, e que falasse inglês, porque o japonês de Ash não daria conta ainda.

Aproveite o tempo para fazer qualquer coisa de que gosta, foi o que Eiji falou. E como algumas coisas óbvias demais, mas que ainda assim fazem toda diferença quando ouvimos, Aslan descobriu que havia muita coisa que queria fazer, coisas que podia fazer simplesmente por fazer, por sua própria causa e vontade, por exemplo ler livros sem qualquer vínculo com a necessidade de aprender a se defender, imobilizar ou matar alguém, sem vínculo com a urgência de entender composições e reações químicas de coisas com consequências e proporções grandes demais... Estava livre para tudo. E tudo isso, e todas as outras coisas que queria fazer, iria ocupar sua mente.

Alguns meses depois, no entanto, Aslan decidiu começar a fazer algo mais. Porque, por mais que dinheiro definitivamente não fosse um problema, uma vez que ainda tinha uma fortuna em suas costas – e não era como se Ash usasse esse dinheiro irresponsavelmente, até parece. Na verdade, usava muito pouco dele para si, era concentrado com prioridade em suprir as necessidades básicas dele e de Eiji, pagar contas do apartamento em que moravam, e todo mês certa quantia era depositada para fundos que auxiliavam pessoas não abastadas, em situação de risco de qualquer natureza e afins, e pequenas organizações de confiança – confiança essa criada após extensa e incansável pesquisa – cujos trabalhos eram resgatar crianças em estado de vulnerabilidade, submetidas a qualquer tipo de abuso, e destruir o negócio de seus feitores; Ash sabia que essas eram organizações que não trabalhavam diretamente com o poder judicial sob o estado e esse era um dos pontos de confiança, ainda que o final sempre fosse levar as pessoas por trás de tais coisas à justiça. Aslan não acreditava no poder judicial realizando operações do tipo e sabia que jamais iria – Ash não precisava e tinha zero intenção em utilizar qualquer alta quantia de dinheiro para si e para fins pifeis, uma quantidade tão grande em dinheiro era – e devia sempre ser! – muito mais útil e bem usada quando em prol daqueles usurpados e marginalizados.

Assim, Ash começou a dar aulas particulares. Com um horário fácil e flexível, tinha grande parte do dia livre para qualquer coisa: estudo (incluindo japonês), livros, filmes, cozinha, limpeza e tempo para ir aonde quisesse. Sem contar que havia descoberto realmente gostar de ensinar. E Eiji havia ficado muito feliz e aliviado por Aslan fazer algo que não fosse consumir todo seu tempo.

“Quando você não coloca aqueles temperos americanos fortíssimos fica mesmo muito bom,” Eiji brincou.

Ash ergueu uma sobrancelha e sorriu torto, apertando o nariz de Eiji.

“Ouch, você sabe que é verdade o que estou falando.”

“Meus temperos são ótimos,” com a mão, Ash cobriu o rosto de Eiji e o empurrou de leve, um sorriso ainda em seu rosto.

Rindo, Eiji segurou seu pulso.

“De qualquer forma,” Ash continuou “não sei do que está falando. Ultimamente tenho feito apenas comida daqui.”

Eiji aproveitou que segurava sua mão e mordeu sem força a ponta de seu dedo, brincando, então se remexeu para mais perto de Aslan, descansando o corpo contra o dele e a cabeça sobre seu braço, e Ash o acolheu imediatamente.

“Você aprendeu muito rápido sobre a culinária daqui,” Eiji deslizava as pontas dos dedos pela bochecha pálida de Ash, afeto e admiração dançando em sua voz.

“Não posso deixar que fique com fome porque não aguenta um pouco de mostarda e extrato de tomate,” apesar de haver a intenção de provocá-lo, a voz de Ash não a deixava explícita, era gentil e baixa e devagar, porque não havia mesmo pressa para qualquer coisa. Sua mão correu pela franja escura de Eiji, afastando-a de sua testa.

E Eiji pôs a língua para fora como resposta, e Aslan não pôde resistir à breve risada que veio.

“Você ainda não comeu,” Ash sabia disso porque Eiji tinha vindo direto para o quarto após chegar.

“Você também não,” e Eiji sabia disso porque Aslan sempre o esperava chegar, então comeriam juntos.

Às vezes Eiji o repreendia, porque um dia ou outro chegava um pouco mais tarde em casa, quando tinha ensaios para fazer. Então Eiji chegava em casa e Aslan ainda não havia jantado, e ele sempre diria “comi algumas besteiras durante o dia, não fiquei com fome” como se algumas besteiras fosse algo de que ele devesse se alimentar.

“Que tal irmos comer, então?” O sorriso doce que Eiji o oferecia junto com o brilho honesto em seus olhos fazia a pele de Aslan formigar, quase como se estivesse dormente, mas arriscava dizer que o sentimento era leveza, como se flutuasse dentro do maior conforto que já recebeu, conforto que o preenchia de dentro para fora e que às vezes o dava a impressão de que iria explodir, de que havia algo tão grande em seu peito, dentro de suas emoções, que talvez seu corpo fosse pequeno demais para conter. Então iria explodir.

Para Eiji, era como se fosse capaz de ler cada uma dessas palavras nos olhos verdes e transparentes de Ash. Ele sabia que Ash sabia disso.

Então, brincando com as mechas que caíam pelo pescoço de Aslan, Eiji retomou: “Hm?”

“Vamos,” Ash respondeu, seus olhos sempre fixos nos de Eiji. “Fiz aquele brócolis do outro dia, que você gostou.”

“Ahh! Eu vi! Ótimo, não vejo a hora de comer, vamos.”

Quando deixaram a cama, Aslan imediatamente sentiu um arrepio pelo corpo, o ar condicionado havia melhorado imensamente a temperatura no quarto, mas agora, sem o quentinho da cama e sem o calor do corpo de Eiji, fazia um pouquinho de frio.

Ash foi até o guarda roupas e depois de uma rápida procura, perguntou: “Onde está aquela sua jaqueta fina, a azul?”

“Huh?” Eiji ergueu o olhar do celular. “Hm, não está aí?” Esquecendo o aparelho sobre a cama e arrumando os óculos sobre o nariz, ele foi até o guarda roupas também, mas direto para as gavetas. “Ah, aqui,” ele puxou o tecido azul claro poucos segundos depois. “Acho que coloquei aqui sem querer,” havia um sorriso tímido em seu rosto quando estregou a peça para Aslan, como se o fato banal de que havia guardado uma roupa no lugar errado sem querer fosse motivo suficiente para deixá-lo sem graça. Eiji era tão engraçado... Havia tantas coisas mais constrangedoras – realmente constrangedoras – que ele fazia propositalmente e com uma expressão plena, e então havia coisas pequenas que o deixava daquele jeito, as bochechas rosadas, os olhos sutilmente baixos, um leve bico em seus lábios...

“Obrigado,” Ash falou, deixando Eiji fechar o zíper da jaqueta ao vesti-la, sequer havia percebido que em seu rosto havia descansado um novo sorriso – incrivelmente afetuoso e tranquilo, que expressava sem qualquer problema seus sentimentos, que refletia a forma como seu coração batia ali, cheio de vida, felicidade e amor. Mas mesmo o percebendo, Ash jamais deixaria de entregá-lo a Eiji.

Segurando as mãos de Eiji com as suas, ele beijou seus pulsos, espalmando-as no próprio rosto logo em seguida, contente quando fechou os olhos, concentrando-se somente no calor daquelas mãos, no som dos próprios batimentos ecoando em seus ouvidos, na existência na frente da sua.

“Aslan,” a voz de Eiji veio como um carinho no peito e Ash suspirou no mesmo instante em que abriu os olhos. Eles sorriram um para o outro, tanto com os olhos quanto com as bocas, e antes que saíssem do quarto, Eiji se agarrou ao braço de Aslan, descansando a cabeça em seu ombro, e o ouviu contar sobre algo que havia acontecido enquanto dava aula naquele dia.

Na cozinha, Eiji foi o primeiro a se sentar à mesa depois de colocarem sobre ela tudo de que precisariam. Ash foi até a geladeira para trazer alguma bebida. Enquanto Eiji elogiava a aparência e o aroma de sua comida, Aslan descansou a jarra de suco na mesa e beijou o topo de sua cabeça, e quando Eiji começou a se servir, Ash encheu os dois copos de suco – parando rapidamente apenas para passar a colher de arroz para Eiji.

Como sempre, Eiji esperou que Ash se sentasse e se servisse para comerem juntos, seria grosseria começar antes.

Pequenas conversas vieram, cheias de sorrisos e risadas e provocações. Às vezes Aslan sentia que aquela não era sua realidade, sentia-se dissociar levemente, mas o suficiente para fazê-lo ter a impressão de que nada daquilo era real. E ele não podia acreditar, quase não podia acreditar que aquela era sim sua realidade. Max, Sing, Ibe, e todos aqueles que haviam ficado nos EUA, estavam ali para lembrá-lo e certificá-lo. E mais do que ninguém, de todas as maneiras pensáveis e impensáveis, Eiji estava ali para lembrá-lo, estava ali ao seu lado naquela realidade que o pertencia agora, que os pertencia. E sempre que duvidasse, Eiji estaria lá para trazê-lo de volta a ela, e ele acolheria Aslan, recebendo sua cabeça em seu colo, e com o que era uma de suas sensações preferidas no mundo – os dedos de Eiji em seus cabelos –, Ash saberia, teria certeza de que aquela era sua vida agora, seu renascimento.

Depois de guardarem a última louça lavada do jantar, Eiji o abraçou por trás e assim caminharam, meio esquisito, até a sala. Antes de alcançarem o sofá, Ash observou o feixe de luz que invadia o cômodo mal iluminado pela fresta da cortina. A faixa de luz pintava o chão e uma pequena parte da parede, estendendo-se até próximo ao sofá, e diferente das cores que havia visto mais cedo, esta era pálida, nada do amarelo forte, o dourado ou laranja, apenas um amarelo pálido. E igualmente bonita e digna de admiração, Ash achou.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!