Notas iniciais
Dan não é um secundário, também merece um cap só pra ele!!!

O barulho do outro lado cessou. Silêncio, naquelas situações, não significava boa coisa. Sentiu o coração bater mais forte, o desconforto aflorando em seu estômago; a famosa ansiedade chegando sorrateiramente. Não gostava de ficar sozinho em lutas, sentia-se incapaz de derrotar alguém e suas chances de perecer eram imensas. Chamou Aria diversas vezes em seu pensamento, mas ela não apareceu, estava distante demais para salvá-lo. A mínima vontade de chorar tocou-lhe a mente. Ele segurou tanto que sentiu as têmporas doerem, seguida de uma leve dor de garganta.

Suspirou, mexendo o nariz rapidamente. Alguns passos cautelosos foram dados até a porta. Lá, ele rezou para Kairi enviar-lhe toda a sorte possível e, assim confiante, abriu-a, quieto, lento. Na pequena fresta da porta do lado esquerdo (levando em conta a porta dupla), observou o lado de fora. Alguns quadros quebrados ao chão, vidro, plantas; a decoração do hall de entrada estava totalmente destruída. Engoliu em seco e fechou aquele espacinho, quase tendo uma parada cardíaca quando uma voz ecoou pela sala.

— Olá.

As pontas de seus dedos gelaram tão depressa que agiu de acordo com a parte mais alerta de seu cérebro.

Ataque-a”.

O sangue subiu e Dan soltara um grito assim que o braço se mexeu. Uma pedra enorme de gelo caíra no canto da sala, destruindo um vaso bem decorado. A garota aparecera em outro lugar. Dessa vez, projetara uma bola de fogo que começou a se espalhar pelo carpete.

— Essa foi quase. – Soltou a garota encapuzada, sorrindo, mesmo que ele não pudesse ver.

Novamente mirou nela, que se posicionara em frente de si. A magia dera errado. Dan jogou o braço para o lado, fazendo uma bola de energia sugar a mesa em frente à lareira. Apenas o capuz do sobretudo que ela usava foi puxado, revelando seu rosto magro. Ao fim, aquela magia se esvaiu, soltando tudo ao chão novamente. Acabou por perceber a destruição da sala inteira, e ficaria com dúvidas em saber quem ela era se o tapete ainda não estivesse em chamas. A lareira havia se apagado com o impulso das coisas ao chão. Era sua única fonte de luz.

— Se acalmou? – Perguntou-lhe, tão tranquila quanto uma brisa. Mal se importava com aqueles pertences. Muito pelo contrário; gostava de coisas desarrumadas.

— Melzux. Proferiu aquele nome com aparente nojo. Ver aquele desprezo fluindo de suas palavras orgulhava-a.

— Bom saber que o tempo não afetou sua memória, Dan.

— É bom ver que o mesmo. O que você quer? – Não gostava de sua companhia, não gostava de prolongar assuntos com a Organização.

— Que rude. Eu só queria ser gentil com você em te contar uma novidade, quem sabe tomar um chá. – Um bico se formou nos lábios e ela virou para fitar a mesa – agora destruída pela confusão. — Acho que não vai acontecer.

À medida que a conversa fluía, Melzux mexia os dedos ao lado do corpo controlando o fogo que diminuía periodicamente. O rapaz já conhecia todos os atributos de todos eles. Nada do que fizessem seria uma novidade.

— Me contar o que? – Uma pausa entre vozes.

— Hmmmm, não sei mais se devo. – Com a outra mão livre, a ruiva mexia nos cabelos, fazendo cachos que se soltavam por ser completamente liso. Os olhos negros fitaram-no, semicerrados, e ela sorriu em observá-lo fazer o mesmo, mesmo que os lábios se contorcessem de ódio.

Um silêncio percorreu por alguns segundos eternos, como se estivessem desafiando um ao outro para ver quem se atreveria primeiro. Ela se atreveu.

— Pelo que eu ouvi de uma conversa, sua namoradinha receberá uma visita dele.

“Namoradinha”...? Aria?

— Não será nada agradável. Hm~ Quem sabe ela não aprende uma lição dessa vez?

— Não podem fazer nada com ela.

— Não? Tem tanta certeza disso?

— Sim. Não podem.

— Então ela já te contou a verdade.

Verdade... Não sabia mais o que poderia considerar verdade em tempos.

— É... Já.

Melzux sorriu ainda mais, mordendo o lábio inferior.

— Então sabe que, uma hora ou outra, iremos encontrar a garota. E não espere que demoremos. Não sei se já sabe, mas as buscas já começaram. Achá-la vai ser como um passatempo.

Por que as coisas nunca se ajeitavam para ele? Era sempre a mesma coisa. Sempre ele devia cuidar dos assuntos mais importantes, assumir responsabilidades pelos dois, ser sempre a cabeça dura da dupla, e o ponto mais cansativo de todos: se preocupar com ela.

Depois da confissão da nobody, Dan resolveu se calar. Ela percebeu que o silêncio mais uma vez deixava o ar mais pesado.

— Se eu fosse você, a faria correr para seus braços antes que seja tarde demais. – O tom nada amigável dela fora o último antes que fizesse aquele fogo aumentar (por poucos segundos) até o teto, dando-a tempo para fugir. O mesmo voltou a alastrar-se pela sala, tomando conta parcial da poltrona no centro, e comendo fugazmente o resto do tecido ao chão.

Ele tossiu algumas vezes antes de começar a pensar em algo. Não abriria aquela porta, mas também não estava em seus planos morrer asfixiado.

Realmente, nada dava certo...