Ligações Perigosas
8 O dia seguinte
Notas iniciais

Acordei no outro dia e demorei algum tempo para me convencer da veracidade dos acontecimentos da madrugada anterior. Era plenamente possível que tudo não se passara de um sonho. Mas, se assim o fosse, será que eu ainda estaria sentindo o gosto dos lábios de DK em minha boca?
Desci ansiosamente as escadas e vi Roger e Felícia tomando café.
Reparei que só havia uma xícara, que provavelmente era para mim.
Parei a dois degraus do chão e perguntei, sem esconder certo interesse.
— Onde está Derrick?
— Ele saiu — respondeu meu pai, friamente, mastigando um pedaço de pão e lendo o New York Times — Foi correr no Central Park.
— Hm... E que horas ele volta?
— Ele não vai voltar.
— Como assim? — demorei para absorver a última informação. Pausei. — Achei que ele iria morar com a gente enquanto fosse meu guarda-costas.
— Eu também, mas foi o próprio Sr. James que pediu para retornar à sua casa. — Roger permanecia indiferente com a conversa — Ele vai continuar te protegendo, mas... você não perceberá isso.
Recebi um soco no estômago quando meu pai disse que foi o próprio Derrick que quis voltar para a casa. E acredito que não é coincidência ele ter feito este pedido após o que ocorreu na madrugada.
Eu bufei e perguntei:
— Tommy está trabalhando hoje?
— Sim, querida — respondeu minha mãe — Quer ir a algum lugar?
— Ótimo.
Sem dar explicações de onde eu iria, subi as escadas e fui para o banho. Em seguida, coloquei uma calça jeans, uma blusa branca e por cima um casaco preto.
Não é difícil de imaginar meu destino: Central Park. Quem Derrick James pensa que é?! Como ele pode me beijar duas vezes na mesma noite e simplesmente desaparecer na manhã seguinte? O que eu achava que era impossível, levando em consideração que eu já estava aceitando toda essa história de “segurança-particular-morando-comigo”.
Parece que toda vez que começo a me adaptar – e, por que não, gostar — das mudanças que o destino coloca em minha vida, Derrick tem que dar um jeito de transformar tudo novamente e deixar transtornada.
É como se, contra ele, eu jamais pudesse vencer ou antever o que irá acontecer a seguir.
Desci as escadas, indo em direção à porta.
Até que Felícia me abordou.
— Ei, onde você pensa que está indo? — ela colocou as mãos na cintura.
— Eu vou encontrar Derrick no Central Park.
— Por quê?! — questionou, desconfiada. Mais desconfiada pelo meu interesse em encontra-lo do que pelo fato de eu estar saindo sozinha.
— Mãe, só quero dar uma volta e presumo que não posso fazer isso sem meu segurança, certo? Por isso, irei encontra-lo.
— Tudo bem — ela se deu por vencida — Deixe o celular ligado, está bem?
Concordei com a cabeça.
Saí em direção à rua, entrando no Range Rover e pedindo para Tommy me levar ao Central Park. Fui encostada na janela, olhando a paisagem, mas sem prestar muita atenção. Minha cabeça ainda estava a mil pelos últimos acontecimentos e era difícil me concentrar em um só pensamento.
Chegando ao Central Park, Tommy deu voltas até encontrarmos DK sem camisa usando uma bermuda esportiva azul-marinho correndo enquanto as mulheres por perto babavam. Que patéticas...
Tommy parou o carro e quando eu estava saindo, disse:
— Quer que eu espere a senhorita aqui mesmo?
— Não precisa me esperar, Tommy — ele me olhou com reprovação — Eu estarei com meu guarda-costas, acredite, não poderia estar mais segura. Está dispensado.
Ele, então, assentiu e assim que eu fechei a porta do carro, ele arrancou, desaparecendo entre os outros carros.
O tempo estava ameno, o sol escondido entre nuvens e o vento soprava sem parar.
Cortei caminho para surpreender Derrick em sua corrida e fiquei parada no trajeto que ele ainda iria passar, com os braços cruzados.
Quando ele me reconheceu, diminuiu o passo e parou à minha frente, ofegante e suado.
— Bom dia — ele disse enquanto tentava recuperar o fôlego.
— Não me venha com “bom dia” — rebati com rispidez e ainda com os braços cruzados.
— Uou parece que alguém acordou de mau humor hoje!
Estreitei os olhos e num tom sério, perguntei:
— Que diabos você pensa que está fazendo?!
— Correndo — respondeu como se eu tivesse feito uma pergunta idiota.
Bufei.
— Você me beijou duas vezes na mesma noite e, quando acordo hoje, recebo a notícia de que você pediu para voltar a morar em sua casa. Posso saber o que isso significa?
— Anne... Você é muito jovem para entender algumas coisas... — disse, girando os olhos e como se eu fosse uma criança impertinente.
— Mas minha juventude não te impediu de me beijar ontem... Duas vezes — eu esbocei um sorriso cínico.
— É exatamente por isso que quis retornar à minha casa.
Nos olhamos profundamente e ficamos sérios por alguns instantes.
Apertei os lábios antes de fazer a seguinte pergunta:
— Então, quis ir embora porque você não quer se envolver? É isso? Você... estava se envolvendo?
Agora, eu não falava com sarcasmo ou raiva, eu realmente estava levando aquela conversa a sério.
— Não... Porque você não me deixa dormir aparecendo na porta do meu quarto de madrugada — ele esboçou um risinho e percebi a ironia em sua voz. DK definitivamente não estava me levando a sério.
Estreitei os olhos para ele na minha tentativa de mostrar a ele o quanto eu não gostava daquele deboche.
— Estou cansada de você — dizendo isso, dei meia volta e andei em passos firmes para o outro lado do Central Park.
— Anne — ele tocou em meu braço e eu me virei por reflexo — Tudo está complicado no momento e uma aproximação pessoal entre nós só iria piorar a situação.
Franzi o cenho e falei:
— Do que você está falando? Parece que você sabe de algo que não sei e também não quer me contar...
DK desviou o olhar – aquele olhar azul intenso – e molhou levemente os lábios, como se estivesse se preparando para dizer alguma coisa. Porém, não o fez.
Permaneci mais alguns segundos aguardando por uma resposta, mas, quando percebi que ela não viria, indaguei:
— Derrick, você pelo menos sentiu alguma coisa quando nos beijamos ontem?
Ele me fitou com o olhar inexpressivo e sua boca ficou entreaberta por um curto tempo até que ele se pronunciar.
— Não quero machucar você, Annelise.
Ouvir essa resposta foi como levar um soco no estômago. Nunca levei um soco no estômago, mas tenho certeza que a dor deve ser semelhante.
Minha visão ficou embaçada e percebi que lágrimas haviam se formado. O pior da situação era que eu simplesmente não conseguia desviar o olhar, eu permanecia hipnotizada em seus olhos azuis misteriosos e frios.
Quando acordei do meu transe momentâneo, uma lágrima escorreu pela minha bochecha e eu murmurei, olhando para o chão:
— Tudo bem, eu entendo.
Virei-me para deixa-lo sozinho e dei dois passos quando DK me interpelou, dizendo em voz alta:
— Ei, aonde você está indo? Não pode andar sozinha por aí!
— Não estou sozinha — respondi, virando-me para ele enquanto eu abraçava a mim mesma — Tommy está na esquina me esperando no carro — menti.
Derrick apenas assentiu com a cabeça e eu continuei meu caminho entre algumas poucas pessoas que transitavam pelo Central Park.
Não me julgue pelo comportamento dissimulado e pela mentira. Eu precisava de um tempo sozinha, precisava absorver todos os acontecimentos.
Andei em passos ágeis virando à esquina, apenas para sair do campo de visão de Derrick. Queria sumir de seu radar e me sentir, pela primeira vez em muito tempo, verdadeiramente solitária. Sem motorista, sem guarda-costas.
Passei o início da manhã andando pelo centro, olhando as pessoas, as lojas... Tudo parecia estar preto e branco. Me sentia uma estranha no meio de todo mundo, uma intrusa.
Fiquei perambulando pelo centro de Nova Iorque até chegar numa simpática filiam do Starbucks.
Sentei-me numa mesa do lado de fora, que havia um guarda-sol em cima. Uma garçonete veio me atender e eu pedi um capuccino com creme extra. Esperei o pedido, coloquei minha bolsa sobre a outra cadeira, e cruzei meus braços sobre a mesa.
Olhei em volta. Vi várias pessoas. Pessoas que tinham uma família. Pessoas que estavam se divertindo. Ou trabalhando. Aquelas duas mulheres, sentadas à frente da minha mesa, eram amigas ou primas? Colegas de trabalho, talvez... Fiquei ali imaginando o que cada pessoa estava fazendo aqui. E me perguntando se elas faziam ideia do que acontecera comigo, desde minha tentativa de assassinato no Hotel Plaza até a minha rejeição pelo meu segurança particular.
A garçonete colocou o capuccino à minha frente, com uma colher para saborear o chantilly. Dei uma colherada e coloquei na boca. Estava bem gelado. Pensei comigo: o chantilly é gelado, mas o capuccino em si, é quente... Dois opostos os quais fazem uma mistura, uma receita tão gostosa! Isso funcionava... com gastronomia.
Mas... E com pessoas? Fui pensando e tomando o capuccino, até que a caneca ficasse vazia, deixando-a de lado.
Cruzei meus sobre a mesa, e pousei minha cabeça no vácuo que eles formavam. Fechei os olhos. Desliguei-me de tudo lá fora. Era apenas eu e a minha mente. Eu precisava descobrir o que estava acontecendo. Eu precisava saber. Eu precisava dele.
Será que nós estávamos nos apaixonando? Mas que pergunta idiota! É claro que estávamos.
Quem não sabia disso? Acho que só nós dois.
•••
— Moça? — sussurrou uma voz doce feminina, cutucando o meu braço. Levantei a cabeça e sacudi-a, tentando organizar as ideias — Você deseja mais alguma coisa?
— Ãnh... Não, obrigada — respondi com a voz trêmula, eu estava um pouco atordoada — Quanto lhe devo pelo café?
— Dez dólares, moça.
— Aqui — peguei minha carteira de dentro da bolsa de Louis Vuitton e tirei uma nota de dez dólares e outra de cinco, entregando à atenciosa garçonete — Os cinco dólares são a sua gorjeta.
Ela pegou o dinheiro e esboçou um leve sorriso, agradecendo.
Após, peguei minha bolsa e alcancei meu celular, assustando-me com o horário: meio-dia! Céus, como eu simplesmente pude apagar sentada numa mesa de cafeteria?!
Para aumentar meu desespero, vi que haviam milhares de ligações da minha casa. Levei-o na mão e carreguei a bolsa, me levantando da cadeira às pressas.
Eu precisava chamar um Uber o mais rápido possível, uma vez que Tommy não estava me esperando na esquina tampouco estava Derrick e, a deduzir pela quantidade de ligações de minha mãe, meus pais já tinham descoberto isso.
Abri o aplicativo do Uber e solicitei uma viagem até minha casa, o que daria em torno de uns trinta dólares.
“John Richards, placa BVH 1890, Hilux estará buscando você em 5 minutos”, avisou o aplicativo.
Não passado muito tempo, uma Hilux parou em minha frente e abaixou poucos centímetros o vidro do carona, tão pouco que mal consegui olhar para dentro do veículo e identificar o motorista.
— Uber? — perguntou a voz masculina do interior do carro.
Estreitei meus olhos e, num ímpeto, me aproximei da janela pouco abaixada para verificar quem estava dirigindo e se, de fato, era meu motorista.
Quando encostei na fresta, meu celular tocou e levei um pequeno susto. O motorista ficou em silêncio e permaneceu com o carro parado encostado na calçada.
— Alô?
— Anne! Por que ainda não veio para casa? Onde você está? — sua voz soava aflita.
— Calma, mãe, eu estou bem. Estou indo para casa agora, chamei um Uber.
— Filha, nós estávamos tão preocupados com você! Tommy voltou para cá sem você e Derrick também não sabia de seu paradeiro e...
Eu a interrompi.
— Mãe, está tudo bem, ok? Eu vou entrar no Uber agora.
Neste momento, senti uma pressão sobre a minha boca e meu nariz. Esperneei para me desvencilhar das mãos que me prendiam, mas não adiantou. Alguns segundos com aquele pano umedecido em alguma coisa foram os suficientes para tudo se escurecer de vez e eu perder a consciência. Eu desmaiei nos braços de qualquer coisa que estivesse atrás de mim.
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