Eram seus pais e tios.

Pessoas com quem ela conviveu a vida toda, pessoas que, bastava olhar para trás e lá estavam eles, em cada cantinho de sua história.

Mas, naquela manhã, quando Claire se dirigiu ao local onde eles iriam fazer a viajem no tempo e olhou para os sete membros fundadores da Liga da Justiça, eles pareciam pessoas completamente diferentes e desconhecidas. Seus olhos se encheram de lágrimas quando ela percebeu que voltaria para eles, mas que iria sentir sua falta como o inferno.

Sam pegou sua mão e a apertou levemente. Claire tratou de passar as costas das mãos nos olhos e sorriu, olhando para sua melhor amiga loira.

– Eu não estou chorando, Sam. – Ela disse. – Se é isso o que você está pensando.

Samantha riu, assentindo.

– Claro que não.

Eles observaram Jack e Wally trocar um aperto de mão de quase dois minutos e, quando parecia que todos estavam prontos e despedidos, Shayera anunciou que estava na hora de partir. Claire viu que seus olhos esmeralda também estavam marejados, mas, quando a tanagariana foi questionada sobre isso por seu filho mais velho, ela deu a mesma resposta que sua filha.

Claire pegou na mão de sua mãe, porque, bem, em viagens em que há risco de se perder em outra dimensão ou que nem todas as células do seu corpo cheguem juntas no devido lugar, é sempre bom ter a mãe por perto por via das dúvidas.

Ela não se lembrava de como era uma viajem temporal, já que a primeira era um completo borrão, mas, quando a viajem em si começou, ela percebeu que não era a bebida. A memória borrada e desconexa que ela tinha, era a mais pura realidade. Foi meio assustador no início, quando as coisas e pessoas ao seu redor pareceram se derreter como cera quente até virar um nada branco.

Mas, quando o branco voltou a se tornar algo, quando ela viu as cidade moderna que se desenrolava a sua frente, cheia de pessoas com roupas diferentes das quais ela estava acostumada nos últimos meses, com telões nos prédios, onde mostrava o rosto da repórter mais famosa de Gothan City; Claire respirou profundamente e sentiu um peso, que ela nem havia percebido que estava segurando, sendo tirado de seus ombros e finalmente percebeu que estava em casa.

Ela acariciou cada pedacinho do carro de sua mãe e perguntou todas as coisas estúpidas que ninguém se importava em saber mas o computador sabia. Hal respondeu a todas as suas perguntas, sem nunca perder a paciência. Mas ele era um robô.

Quando chegaram a mansão Wayne, todos os membros da família da Liga da Justiça estavam lá. Claire não havia realmente sentido falta de alguém, porque Rex era sua família, ele estava com ela, seus pais também estavam lá, uma versão deles pelo menos; não havia ninguém da família de Claire que não existisse no tempo em que eles estavam. Mas ela não pode deixar de ficar emocionada quando viu Jason dando um beijo amoroso na testa de Julia, quando Molly correu para os braços de Helena, quando Jack desarrumou o cabelo ruivo rebelde de Dave e ainda mais quando Sam recebeu um abraço dos três irmãos de uma vez só.

Eles logo correram para ela, é claro.

– Claire, eu senti sua falta. – Disse Juno, o cabelo loiro preso em uma trança, um sorriso de orelha a orelha.

– Eu também, Claire. – Era Molly, com seus grandes olhos azuis e suas mãozinhas inquietas de gatinho.

– Aww. – Claire disse, abaixando-se ao nível das pequenas para dar um abraço de urso nelas. – Eu também senti saudade de vocês meninas.

Alex e Julia foram os próximos.

– Fico feliz que vocês estejam bem, Claire. – Disse Julia, sorrindo docilmente. Ela se realmente se parecia muito com a Lois.

Alex remexeu em seu cabelo loiro, não conseguiu encontrar palavras; deu de ombros e disse:

– Isso aí.

Claire sorriu, dando um abraço em cada um.

Dave era um garoto meio estranho, então ele só chegou perto dela, deu um aperto e disse:

– Fico feliz que você não tenha se perdido entre os universos.

Claire sorriu, afundando seus dedos nos cabelos arruivados do garoto e puxando-o para um abraço rápido. Ele logo foi para longe dela. Christine sorriu de longe, preocupada demais em vencer Dave em um discursão qualquer.

Ela estava de volta a sua casa, junto de sua família; se sentia mais segura e adulta agora. Tudo iria ficar bem.

Ou não.

–---*---*---

A vida continuou mais rápido do que Claire esperava.

Quase dois meses haviam se passado e seus amigos agiam normalmente, como se nenhuma viajem no tempo tivesse algum dia acontecido. Claire as vezes se perguntava se tudo não teria passado de um sonho. Mas, quando ela pensava em como tudo estava diferente, não as coisas em si, mas as pessoas, ela lembrava que algo havia acontecido.

O acidente no shopping fez com que muitos de seus amigos fossem para a Liga da Justiça. Seu irmão, Rex, era um deles. Ele havia recebido a proposta de ser gerente de uma loja da rede de lanchonetes na qual trabalhava, mas Rex preferiu pedir demissão e se juntar a Liga. Agora ele era conhecido como Gavião Guerreiro. Claro que sua mãe ficou muito emocionada. Seu pai ficou orgulhoso e tal, mas teria preferido que o nome de herói do filho tivesse alguma coisa relacionado com ele. E não, não adiantava explicar que era por causa das enormes asas com as quais Rex nasceu. Aliás, agora ele nãos as prendia mais.

Jack também escolheu esse caminho, ainda não tinha um nome de herói e estava em fase de treinamento, para não incendiar nada sem querer enquanto tenta salvar pessoas. Ele ainda estava na escola, porque seus pais acham que o universo perece um herói que tenha no mínimo o ensino médio.

Helena agora tinha o seu tempo ocupado. Quando não era a charmosa e inteligentíssima vice presidente das Insdústrias Wayne, era uma super heroína na Liga da Justiça. Seu nome era Caçadora e todos sabiam que ela estava sendo treinada para um dia ser a líder. Ninguém tinha inveja, é claro, além de ser um dever chato e difícil, todos sabiam que Helena tinha espírito de líder, como ela mesma já havia provado.

Jason quase seguiu o mesmo caminho. Ele treinou na Liga durante duas semanas, participou de alguns salvamentos, mas logo voltou ao jornalismo. Ele disse que seu trabalho também era uma forma de ser herói. Jason deu fim a sua paixonite por Claire quando conheceu a nova estagiária do jornal, Regina Smith. Até agora não era nada sério, mas Claire conhecia seu amigo, ela sabia, pelo olhar dele, que um dia Jason se casaria com Regina.

Claire e Sam nem tentaram essa coisa de herói. Elas duas definitivamente não haviam nascido para aquilo e seus pais até que entenderam bem, afinal Shayera e John já tinham um filho herói e Diana e Matt ainda tinham três possibilidades.

Então, ao invés de investir suas forças em salvar o mundo, elas investiram suas forças em conseguir entrar para a faculdade.

Elas eram boas alunas, sempre foram. Sam porque tinha uma vida social nula e Claire porque herdara os genes de gênios dos tanagarianos. As duas adolescentes enviaram cartas para todas as universidades que conheciam do país, esperando que pudessem ficar juntas nisso. Mas agora, sentadas na mesa do canto de seu café preferido, cada uma segurava uma carta de uma universidade diferente.

Sam tinha em suas mãos uma carta da UCLA, já Claire, tinha uma de NYU. Só poderiam ser mais separadas que isso se uma delas fosse para a China.

– Abrimos juntas. – Sam disse, sua voz transbordando ansiedade e um pouco de medo.

Elas rasgaram o selo, retiraram a carta, abriram o papel e leram ao mesmo tempo. Os gritos abafados e os pequenos pulos nas cadeiras também foram sincronizados.

– Eu fui aceita. – Disse Claire em uma voz aguda.

– Eu também. – Disse Sam, alegre, mas com uma voz normal.

Os sorrisos de ambas morreu um pouco ao perceberem o que iria acontecer. Claire estendeu a mão para pegar a de sua amiga.

– Vamos nos separar, Sammy.

Sam a fitou e sorriu sem graça.

– Nós nunca nos separamos. – Ela disse.

– Desde que nascemos. – Claire concordou.

Ela sentiu os olhos encharcarem e se xingou mentalmente por estar sendo uma manteiga derretida. Seus dedos passaram rapidamente pelos olhos, limpando qualquer sinal de lágrimas e Sam fez o mesmo.

– Eu vou ficar sozinha e você também. Se eu ao menos tivesse Todd...

A voz morreu em sua garganta. Sam se remexeu desconfortável em seu assento. É claro que Claire contou tudo sobre Todd para a amiga, afinal elas eram melhores amigas. Sobre como se conhecerem como começaram a namorar. Contou sobre todas as promessas que Todd havia lhe feito, de que iria procura-la e eles iriam pegar de onde pararam. Ela havia dado seu endereço, dito o dia que seria mais propício. Mas já haviam se passado dois meses e Claire nem ouvira falar de Todd Hardwicke.

Sam tomou um gole de seu expresso e disse:

– Não se preocupe, Claire. Foram só dois meses.

Claire sorriu, um sorriso triste e disse:

– Quem dera que fossem apenas dois meses, Sam. – Ela fitou a amiga profundamente. – Foram vinte e quatro anos.

–--*---*---

– Bom dia, Caçadora. – Disse a voz robotizada vinda de todos os lugares da nave.

Helena sorriu, ajeitando a máscara roxa sobre seus olhos.

– Bom dia, Hal. – Ela respondeu. – Como está hoje?

– Sem tantas coisas para fazer como tinha ontem. – Ele respondeu.

Helena riu, imaginando se alguém teria colocado um chip de humor nele ou se não era sua intenção dizer algo engraçado.

– E a senhorita, como está? – Ele perguntou.

Helena se recostou no banco do motorista, fechando os olhos por alguns segundos.

– Dolorida.

Ela estava em missão, precisava resolver um pequeno problema em um planeta, nada grave. Até chegar ao seu destino poderia demorar algumas poucas horas e Helena se perguntou se seria o suficiente para uma soneca. Mas, antes que o sono pudesse chegar, ela abriu os olhos e disse:

– Hal.

– Sim?

– Eu viajei para o passado. – Ela disse, olhando para o teto. – Durante todo o tempo imaginei que pudesse alterar algo no futuro e acabar com minha própria existência. Depois descobri que tudo o que eu estava vivendo já tinha acontecido, o que foi, bem... estranho.

– O que a senhorita quer dizer exatamente?

Helena sorriu, ajeitando-se na poltrona.

– O que eu quero dizer, Hal, é que, se tudo já foi planejado e feito, significa que posso ir para o futuro agora mesmo e nada vai acontecer.

Ouve silêncio por um tempo e Helena apreciou a vista das estrelas.

– Não entendo se uma pergunta ou não. – Disse o robô por fim.

Helena suspirou.

– Esqueça, Hal. É bobagem.

Ela fechou os olhos e o robô não disse mais nada. Mas logo ela abriu seus olhos azuis e disse:

– Mas eu poderia, certo? Quero dizer, ir para o futuro, ver como seria minha vida e já estar preparada para o que vai acontecer, não é?

Se Hal fosse humano ou se tivesse um corpo físico, Helena poderia jurar que ele estaria dando de ombros naquele momento.

– Poderia. – Ele respondeu, calmamente. – Mas qual seria a graça de tudo isso?

A mulher absorveu as palavras, sorriu e fechou os olhos.

– Qual seria a graça? – Ela disse.

Ela logo adormeceu e, durante a viajem, sonhou com uma certa viajem maluca que nunca esqueceria.