Notas iniciais
Boa noite de sexta minhas estrelinhas *---* como foi essa semana de vocês? A minha foi corrida, tanto que só consegui terminar esse capitulo agora, isso porque estou usando TODO meu tempo livre nele desde a hora que abri os olhos uahsuahsuhs Mas vamos a uma parte muito importante das notas que são os agradecimentos ^^ Duda Borges, sua linda!!!!! Quase tive uma sincope de felicidade quando vi sua recomendação, eu fiquei até emocionada com tanto carinho, obrigada mesmo s2 Claro que eu não posso esquecer dos comentários, que são o que mantém a fic andando e que são uma luz a mais no meu dia a dia, sério não importa o quão ruim a situação esteja, quando eu abro o Nyah e vejo um comentário eu sempre abro um sorriso enorme, eu nunca consigo agradecer o bastante. Então... NandaNascimento, Valarie Lockwood, Duda Borges, Marie Prado, Menta, Elister, Tempest e Thays OBRIGADA DE VERDADE Agora vamos a esse cap cheioooo de feels e com dois flashbacks, narrado pelo melhor pai de todas as fanfics *-* Boa leitura.

• PETER COOPER •

Meses antes...

Era a minha filha. Eu mal podia acreditar naquilo, de todas as coisas que eu já imaginei acontecendo comigo, ver a minha filha na minha porta, com certeza não era uma daquelas coisas. Mas não vou mentir e dizer que nunca sonhei com aquilo. Se eu pudesse pedir uma só coisa na minha vida seria poder passar um tempo com ela. Qualquer tempo...

E então lá estava ela, sentada na mesa da pizzaria, tensa, estralando os dedos. Com os olhos redondos e negros e as mesmas bochechas de quando tinha dois anos, mas ela era uma mulher agora, ela havia crescido e eu tinha perdido tudo... Apenas um dos meus muitos arrependimentos.

Talvez o destino estivesse me dando uma chance de compensar, minha última chance de fazer alguma coisa certa antes de...

Não importava, ela ficaria, eu faria o possível e o impossível pra isso. Eu tornaria o tempo dela em Dawsonville o mais agradável que eu conseguisse. Era o mínimo que eu podia fazer depois de tudo.

Nunca fui um bom homem, eu fiz todas as coisas erradas que uma pessoa podia fazer. Feri pessoas pelo caminho. Cometi erros. Mas ter a minha filha ali, era como ter Deus me mandando um sinal, um anjo de redenção. Eu tinha que acertar com ela. Pelo menos com ela...

Pedi o telefone de Deborah, eu tinha que fazer as coisas do jeito certo.

Deixei Natalie na mesa e caminhei até o orelhão, sentindo o vento frio da noite.

Eu nunca mais tinha ouvido a voz de Deborah, mas ainda podia vê-la perfeitamente em meus pensamentos e, de tudo que Natalie contou sobre a mãe, eu quase não fui capaz de reconhecer a mulher que um dia eu amei. Que eu ainda amava.

Disquei, respirando fundo e ouvindo o telefone chamar. Atenderam no terceiro toque.

— Alô. — Era ela, eu ainda reconheceria sua voz doce, mesmo depois de mil anos.

— Debby... — Respondi e senti minha voz falhar.

— Não acredito que ela está aí! — Deduziu, e eu soube que estava muito brava. Ela tinha reconhecido minha voz, ou então o apelido. Eu não sabia o que sentir sobre isso. — Essa garota não tem um pingo de juízo. Eu juro por Deus que vou trancá-la em uma clínica dessa vez! Ela perdeu a cabeça!

Ela não estava falando comigo realmente, parecia preocupada, mas acima de tudo irada.

— Debby? — Chamei, tentando fazê-la prestar atenção em mim.

— Não me chame assim. Nunca mais... — Ela respirou fundo. — Eu estou indo buscar essa inconsequente agora mesmo.

Voltou a falar com alguém, dando ordens rápidas. Ela não era a mesma. Parecia muito mais dura, e eu sabia que a maior parte daquilo era minha culpa.

— Eu quero que ela fique. — Respondi calmo.

— O que? Por que? Não! Nem pensar! Acha mesmo que vou deixar minha filha ficar com você? Que tipo de exemplo você vai dar? Vai afundar a menina nas suas merdas, e ela já tem as próprias merdas até o pescoço.

— Ela é minha filha também... — Continuei no mesmo tom, um pouco mais triste por ouvir tanto rancor na voz dela.

— E você só lembrou disso agora? — Ouvi o riso irônico e sem humor atravessar o telefone.

— Não faça isso, Debby, não é justo... Deixe a menina ficar comigo, eu não faço mais aquelas coisas, eu tenho uma casa, uma oficina, talvez um tempo aqui faça bem a ela, conhecer o outro lado da vida. Talvez ela se canse e volte, sinta falta dos amigos e do conforto da capital. E mesmo que ela não queira voltar, acredito que em dois anos no máximo não reste outro caminho... — Tentei com meus melhores argumentos.

Mesmo não tendo mais a oficina, eu sabia que podia recuperá-la, eu teria um motivo se Natalie ficasse.

— Quer mesmo falar de justiça? Logo você? — Outro riso sem humor, eu praticamente podia vê-la meneando a cabeça de pura irritação. — E como você tem tanta certeza que serão só dois anos? Pretende expulsar a garota daí depois disso, ou será que você sabe que esse é o limite de tempo que alguém aguenta passar do seu lado?

Respirei fundo, ela citou nosso passado como uma arma, e doeu. Dois anos era exatamente o tempo que tínhamos passado juntos, depois disso ela simplesmente se foi. Arrumou as coisas e partiu sem deixar notícias. Aquela vida não era pra ela. Eu fui apenas uma aventura, nunca fui bom o bastante e sempre soube disso. Deborah nunca concordou com meus métodos de vida.

Ela queria que eu tivesse um emprego de verdade, uma faculdade, um futuro... E eu queria outros tipos de coisa. Nós éramos muito diferentes, mas eu a amava demais, claro que eu tentei mudar... Antes de tudo desmoronar, eu tentei dar uma chance pra gente, eu tentei fazer as coisas do jeito certo, tentei fazer as coisas do jeito dela.

Contudo aquela vida estava acabando comigo... Eu cometi alguns erros, regredi, e ela descobriu que não era capaz de me amar daquele jeito, um dia eu cheguei em casa e ela não estava lá, nossa filha não estava lá.

Natalie ainda era um bebê na época, talvez eu devesse ter lutado por ela, talvez eu devesse ter tentando, mas eu não era alguém muito responsável, tampouco ajuizado, eu senti raiva, dor, revolta. Eu amava Debby mais que tudo e saber que eu a tinha perdido foi o fim da linha pra mim.

Eu nunca a procurei, devia, afinal tínhamos uma filha, mas eu não fui maduro o bastante pra separar as duas, pra entender que minha garotinha merecia um pai, mesmo que eu não merecesse a mãe dela. Eu desisti e quando a ficha caiu já era tarde demais.

Arrependimento não conserta as coisas, ele só fode com a nossa cabeça, acabei aprendendo mais essa lição...

Os anos passaram e eu acabei tomando coragem para estabelecer contato por cartas, a pior parte não era descobrir que eu amava uma garotinha que eu não tinha visto crescer, a pior parte era saber que essa garotinha sequer teve tempo de desenvolver qualquer afeto por mim.

Todavia no ano anterior uma coisa aconteceu e eu acabei revendo toda a minha vida. Descobri que eu vivia na merda e que eu mesmo era uma merda ainda maior. Então parei, eu me afastei do mundo, eu desisti de tentar.

Até que minha filha bateu na minha porta e tudo mudou novamente. Era uma fagulha de esperança, talvez minha alma condenada ainda pudesse fazer algo bom. Talvez não fosse tarde demais.

Percebi que Deborah continuava do outro lado da linha esperando minha resposta. Ela queria saber por que eu tinha tanta certeza que seriam apenas dois anos.

— Eu... Eu estou morrendo, Debby. Eu tenho mais dois anos, no máximo. — Confidenciei tão baixo que eu mesmo mal ouvi. — Eu tenho um problema no coração, o órgão não vai aguentar, eu podia tentar um transplante mas é... é complicado. É apenas questão de tempo... Essa é a última chance que eu tenho.

Ela ficou totalmente calada. Era estranho contar aquilo para alguém pela primeira vez, e era mais estranho ainda essa pessoa ser justamente a Deborah.

— Se um dia você já me amou, eu peço que não tire essa chance de mim, por favor. — Pedi, encostando a cabeça no orelhão.

Deborah suspirou, demorou alguns segundos pra responder:

— Se ela quiser voltar, não ouse impedir...

— Eu não vou.

— Ótimo. Espero que ela tenha uma nova perspectiva de vida quando voltar. — Ficou calada por mais um tempo e eu apenas me deixei ouvir a respiração dela através do telefone.

— Obrigado, Debby. E eu sinto muito de verdade, por tudo.

— Adeus Peter...

Não esperou minha resposta, apenas desligou. Eu ainda fiquei ali parado um tempo, pensando em tudo que aquilo significava.

Olhei Natalie, através da janela de vidro, ela parecia impaciente.

Eu estava feliz e triste, eu tinha uma chance e faria o meu melhor, mas esperava sinceramente que ela resolvesse voltar antes que as coisas ficassem realmente ruins. Eu não queria aquele tipo de sofrimento para a minha filha.

➷•➷•➷•➷•➷

Dias atuais...

Ouvi o conhecido bip do monitor cardíaco, antes mesmo de abrir os olhos. A sensação dos fios no meu peito e do soro no meu braço não era novidade, porém a mão quente que segurava a minha era. Eu sempre estava sozinho no hospital.

Abri os olhos ainda confuso, tentando lembrar do motivo exato de ter ido parar ali e, no mesmo instante em que lembrei o que tinha acontecido do nada no meio da pesca, vi minha filha sentada ao lado do meu leito.

Natalie estava abatida, os olhos inchados de quem tinha chorado por horas. Meu coração pesou um pouco mais. Eu queria que ela fosse feliz em Dawsonville e não passasse seu tempo morrendo de preocupação em um hospital.

— Como se sente? — Perguntou baixinho, a voz fraca, como se ela fosse a debilitada ali.

— Bem. Eu estou bem, não foi nada. — Fiz meu melhor para parecer saudável.

— Foi um infarto, isso está longe de ser "nada". Falei com o seu médico, ele disse que você está fora de risco agora, graças Deus. — Natalie deu um sorriso mínimo que não chegou realmente aos seus olhos — Ele também contou o que está acontecendo com você, pai...

Senti o leve aperto em minha mão, conforme os olhos dela marejavam. Aquele era um dos motivos para eu não ter contado nada, ver o sofrimento nas íris negras era mais doloroso que minha morte lenta.

— Natalie, eu... — tentei explicar, porém ela ergueu a mão livre para me impedir.

— O que eu não entendo é por que você não me contou e por que só se inscreveu para uma vaga na lista de transplantes dois meses depois que eu cheguei em Dawsonville? — Era mais um lamento do que um questionamento. Seus ombros se curvaram, como se o peso fosse demais pra eles.

Observei o monitor cardíaco, a linha que se desenhava na pequena tela, mostrando a vida que ainda tinha em mim.

Suspirei. Foi minha vez de segurar a mão dela.

— Eu não pensei que você ia ficar... — Admiti com pesar. — Eu pensei que voltaria pra sua casa depois de algumas semanas, eu não queria preocupar você com isso, ou tornar esse o motivo pelo qual você ficaria.

Natalie meneou a cabeça, como se aquilo fosse a maior bobagem que eu já tinha dito. Como se ela nunca tivesse pensando em partir. Tentei não deixar a emoção do momento me dominar.

— Antes de você aparecer na minha porta, eu tinha desistido, eu só queria que acabasse logo. Eu estava esperando pela morte, não pela minha filha. — Uma lágrima escorreu pela bochecha dela, como se fosse um reflexo da que descia pelo meu rosto. — Mas você me deu um motivo pra viver de novo e, de repente, desistir não era mais uma opção. Então eu voltei atrás na minha decisão e coloquei meu nome na lista.

Eu queria falar sobre o arrependimento, sobre saber que aquela entrada tardia no programa de transplante tinha extinguido minhas chances, mas decidi não deixar tudo ainda pior. Não podia fazer Natalie sofrer mais que o necessário.

Ela assentiu várias vezes, enquanto comprimia os lábios e tentava dissipar as lágrimas com a mão livre. Como um criaturinha tão perfeita podia ser minha filha?

— O médico disse que você faz o tratamento paliativo constantemente. Era isso que você fazia toda semana, quando dizia que ia pra Atlanta? — Não havia acusação na voz dela, apenas uma compreensão e um carinho infindáveis.

— Era. — Concordei, um tanto aliviado por não ter que esconder mais nada. — E eu tomava remédios escondido também. Está muito decepcionada, não está?

Houve alguns segundos de total silêncio, preenchido apenas pelo bip ritmado dos aparelhos. Natalie riu, totalmente sem-humor, pouco antes de se levantar e dar passos de lá pra cá pelo quarto.

— Eu estou nervosa, frustrada, triste, angustiada e... — Ela começou a enumerar, um pouco descontrolada. — E com tanto medo, que eu mal consigo parar de tremer agora. Eu sou uma confusão de sentimentos, mas desapontamento não é um deles. Eu só... não posso perder você.

Ela estava desesperada e aquilo partiu meu coração de todas as formas que aquele órgão velho e ferrado ainda podia ser partido.

— Eu sei, vem aqui querida. — Estendi a mão para que Natalie se aproximasse novamente. Ela se sentou, debruçando-se cuidadosamente no meu colo, chorando sem reservas, enquanto eu acariciava seu cabelo. No fundo ainda era apenas uma garotinha. — Tudo bem ficar com medo, eu estou com medo também.

Em um mundo ideal, eu teria visto minha filha crescer, teria ensinado a andar de bicicleta e levado ao parque nos domingos. Eu contaria histórias antes de dormir e montaria cabanas de lençol. Veria suas apresentações na escola e dançaria com ela em sua festa de quinze anos. Tiraria fotos de família antes do baile de inverno e surtaria com cada namorado. Entraria com ela vestida de noiva na igreja e a veria se casar e construir sua própria família. Eu estragaria meus netos, porque isso é o que os avós fazem...

Todavia o mundo não era um lugar ideal, eu não vi Natalie crescer, não participei de sua adolescência e provavelmente não estaria ali para assistir minha filha se tornar a mulher incrível que ela se tornaria.

Natalie ergueu a cabeça, limpando o rosto com a manga da blusa e se recompondo.

— E eu também estou confusa, por que Will Dixon sabia de uma coisa dessas e eu não? — Percebi que ela se esforçava pra tornar o clima menos melancólico, mas a pergunta me pegou mesmo de surpresa.

— O que? — Devolvi, franzindo as sobrancelhas.

De todos os Dixons, Will era aquele do qual eu me mantinha longe. O jeito que ele tratava os filhos me irritava muito. Não que Merle fosse um exemplo de irmão, mas o velho conseguia se superar.

Algumas pessoas da cidade diziam que ele já tinha sido alguém legal, e eu acreditava nisso, quer dizer, eu e ele tínhamos uma história de vida parecida: o lobo que se apaixonou pela ovelha.

Em algum ponto ele devia ter sido bom, e depois... tudo virou uma tragédia. Não era tão diferente assim da minha própria história. Era?

— Ele me disse que você estava com o pé na cova ontem de tarde. — Natalie revirou os olhos, incapaz de esconder o quanto aquele homem a desagradava.

Eu desconfiava que ela sabia de algo sobre ele que eu não sabia. Só isso podia explicar aquela raiva praticamente gratuita.

— Ontem? — Me perdi na linha temporal, por não saber exatamente quanto tempo eu tinha ficado apagado.

— Longa história. Não importa agora. — Fez um gesto banal com a mão, se ajeitando na cadeira.

— Ele me viu no hospital algumas vezes, está sempre por aqui, tomando glicose na veia por beber de mais, deve ser isso. — Dei de ombros, não encontrando outra explicação para ele saber do meu estado. — Mas falando em Dixon... O Daryl deixou você aqui sozinha?

— Não, ele está me seguindo como uma sombra... — Sorriu de canto e seus olhos se alagaram de orgulho e carinho, até que ela pareceu lembrar de alguma coisa. — E eu acabei descobrindo que até ele sabia que você estava passando mal e escondeu isso de mim... — Havia um tanto de acusação ali, mas ela não estava brava realmente.

Lembrei-me de que tinha passado muito mal durante a estadia de Natalie no hospital, depois da morte da Shannon, e Daryl presenciou tudo.

— Eu tive uma complicação quando você veio parar no hospital, você estava abalada, eu não queria te preocupar mais ainda. Não é culpa dele. — Expliquei apaziguador, tinha sido muito difícil convencer Daryl a não contar nada, mas por sorte, na época ele estava mais preocupado com Natalie do que comigo.

— Eu sei. Ele não tinha como saber que era algo pior, afinal você não contou nada pra ele também. Apenas afastou todo mundo da sua vida. — Estreitou os olhos fazendo uma carinha adorável de brava.

— Eu não queria envolver ninguém. Onde ele está agora? — Perguntei, contendo o sorriso, porque tinha noção que aquilo mudaria o foco dela.

— Foi comprar alguma coisa pra eu comer, estamos aqui desde ontem à noite, então... — Deu de ombros como se não fosse importante realmente.

— Fiquei apagado por tanto tempo? — Me surpreendi.

Natalie assentiu algumas vezes, olhando para o nada por um instante e se levantando novamente. Seguiu até as persianas que cobriam a janela e abriu-as um pouco, deixando parte do sol entrar através delas.

Havia uma ruga de preocupação em sua testa, voltou para a cadeira e me encarou longamente, como se precisasse dizer alguma coisa, mas não soubesse como. Suspirou por fim.

— Eles disseram que podem trocar uma das válvulas do seu coração e isso vai te dar mais alguns anos... — Revelou séria, e eu também já sabia daquilo.

— Eu fiz essa cirurgia no começo, foi o que me deu os três anos de prognóstico. Eu tinha setenta e cinco por cento de chances de sucesso na época. — Expliquei, lembrando que foi uma grande merda de experiência, com um pós operatório dolorido e muito tempo no hospital, mas tinha salvado minha vida.

Mas eu estava mais frágil e com o coração mais debilitado desde então. Eu conhecia os riscos, mesmo antes de Natalie começar a explicar.

— É... Mas agora... Tem cinquenta por cento de chances de você morrer na mesa, o que significa que tem cinquenta por cento de chances de dar tudo certo. E eu não consigo deixar de pensar que isso pode ser a diferença entre vida e morte, mas ao mesmo tempo eu estou apavorada demais pra pedir que faça isso, e estou apavorada demais pra pedir que não faça, porque eu sei que tem muita gente na sua frente naquela maldita lista de transplantes... E eu... eu não sei o que fazer. — Despejou tudo de uma vez só, mal parando pra respirar.

Aquela era só uma das coisas pelas quais eu não queria que minha filha passasse. O peso de cada decisão que significava vida ou morte. E o pior é que minha balança sempre pendia um pouco mais para o lado da morte.

Já conhecia a cirurgia, já tinha conversado com o médico sobre, a ideia foi descartada, afinal eu estava escondendo a verdade de Natalie e chegar em casa com o peito aberto não era uma opção.

Contudo as coisas tinham mudado, os riscos de fazer aquele procedimento permaneciam os mesmos de meses atrás, mas eu sabia que os riscos se eu não fizesse tinham aumentado. Aquele infarto mostrava que meu coração não estava dando conta...

— Tudo bem, tudo bem. — Dei duas palmadinhas na mão dela. — Você não precisa dizer nada, nem fazer nada. Você estar aqui comigo é tudo que importa, tudo bem. Conversamos sobre minhas opções depois, 'tá? Temos algum tempo ainda. — Tentei acalmá-la, mesmo sabendo que "tempo" não era um luxo do qual eu dispunha.

Duas batidas na porta e ela se abriu. Daryl parou no batente assim que me viu acordado, estava abatido também, não tanto quanto Natalie, mas estava. Agradeci internamente por ele estar com a minha filha naquele momento.

— Hey. Como você está, Cooper? — Perguntou, colocando as mãos nos bolsos.

— Eu vou ficar bem. — Dei a resposta padrão, mesmo que não houvesse certeza nela.

Natalie lançou um olhar questionador e eu lembrei que ela tinha dito que Daryl fora comprar algo pra comer. Ele tinha voltado de mãos vazias, então...?

— Não me deixaram trazer nada comestível pra cá, porque seu pai está em observação. Você precisa ir até lá — explicou, antes mesmo que ela perguntasse, e aquilo mostrava o quanto os dois se entendiam.

— Eu vou depois. — Deu de ombros, como se não fizesse diferença alguma.

— Você passou a noite toda acordada e sem comer, são mais de dez da manhã agora, se você desmaiar de fraqueza, não vai ajudar em nada, Bochechas. — Ele foi direto, mas usou de um cuidado e paciência que não eram usuais dele, pelo menos não com qualquer outra pessoa que não fosse minha filha.

Apontei para Daryl e assenti, ilustrando que ele estava certo. Natalie revirou os olhos, suspirou e acabou erguendo as mãos, se dando por vencida.

— Tudo bem, mas você fica aqui de olho nele. Qualquer coisa você me chama. Qualquer. Coisa. — Foi categórica, passando por Daryl na porta enquanto ele assentia.

Quis dizer que não precisava de babá, mas não adiantaria nada, então me abstive.

Daryl a viu se afastar e então fechou a porta. Caminhou até o pequeno sofá de dois lugares, posicionado abaixo da janela e se sentou ali totalmente calado.

O silêncio dele não me incomodava, eu já tinha acostumado. Daryl Dixon era o tipo fechado, um bom garoto que tinha sido obrigado a crescer muito rápido. Era até uma surpresa que Natalie tivesse conseguido tanto dele.

— Espero que ter mentido pra Natalie, por minha causa, não tenha complicado as coisas pra você. — Comentei, porque o bip do monitor cardíaco era um som irritante.

— Ela entendeu meus motivos, mesmo que esteja muito nervosa sobre sua situação para realmente pensar sobre isso agora. — Respondeu, sem realmente me encarar.

Como era de se esperar, não conseguiu ficar sentado por muito tempo. Daryl era inquieto, principalmente quando queria dizer alguma coisa.

— Você podia ter me contado, podia ter me contado bem antes da Natalie chegar na cidade, não precisava ter se afastado de todo mundo. E, com certeza, devia ter contado pra ela. — Ele parecia um pouco ofendido, mas principalmente preocupado.

— Não era um fardo que eu podia compartilhar com você, e não é um fardo que a Natalie devia carregar agora também... — Suspirei, Daryl não entendia, mas eu não podia culpá-lo por isso.

— Você é o pai dela, não é um fardo. Não seria um fardo pra mim também, éramos amigos... — A última parte foi apenas um sussurro e eu sabia o quanto significava.

— Não éramos tão amigos, eu quase te matei uma vez. — Lembrei, com um sorriso de canto e Daryl fez aquela cara que ele sempre fazia para Merle, quando o mais velho dizia uma idiotice.

Meu médico entrou momentos depois, pra ver meu estado e me atualizar dos exames. Nada de novo. Nada que eu já não soubesse ou presumisse.

Ele falou da cirurgia outra vez, disse que era arriscado, que podíamos esperar, no entanto a cada dia ficaria mais arriscado. Todas as decisões eram sobre vida e morte, e isso elevava o peso de cada uma delas. Não era mais apenas sobre mim. Era sobre todas as pessoas que me rodeavam.

O doutor confirmou que meu estado era estável, mas que me manteria no hospital até o fim do dia para observação e para que eu pensasse na cirurgia.

— Você tem sorte de ter uma família que se importa, Cooper. Não tem mais que passar por nada sozinho. — Se despediu, dando um sorriso amigável para Daryl, que tinha ficado calado todo o tempo.

Ele voltou a se sentar, quando o médico fechou a porta, e eu pensei no quão interessante eram as coisas que nos fazia sermos família, mesmo que o sangue não fosse uma delas.

Daryl não sabia disso, mas ele era o tipo de garoto que um pai teria orgulho de ter como filho, não era fácil ser uma boa pessoa no meio em que vivíamos e ele conservava isso, mesmo que fosse escondido por camadas e camadas de grossa proteção.

Ter o Dixon mais novo ali, era o que me dava um pouco mais de segurança para tomar a decisão que se formava na minha mente. Eu confiava nele, contra todas as probabilidades e contra minhas próprias experiências, eu confiava...

— Eu vou fazer a cirurgia. — Declarei em voz alta, tornando aquilo uma decisão de fato, não apenas um pensamento vago.

— O médico disse que... — Daryl se levantou assustado, mas eu o interrompi.

— Conheço os riscos, mas eu tenho que tentar, tenho que dar essa chance pra Natalie, eu devo isso a ela. Se der certo, garanto a ela uma vida com o mínimo de preocupação, e se der errado, vou poupá-la de quase um ano de sofrimento. — Expliquei o que estava na minha mente.

Daryl começou a andar de um lado para o outro, olhou para a porta duas vezes, provavelmente pensando em gritar a Natalie, afinal aquilo era bem mais que o "qualquer coisa" dela.

— Você pode simplesmente não fazer essa merda e esperar por um coração, você não precisa correr esse risco. — Ele retrucou nervoso, jogando a mão no ar.

Me confortava saber que essa preocupação era pela minha filha.

— Você não entende não é, Daryl? — Ri sem humor, meneando a cabeça. — Se eu tivesse assinado a lista quando soube que meus dias estavam contados, eu teria vinte por cento de chances de conseguir um coração a tempo, eu assinei essa lista um ano depois, o que praticamente descarta qualquer possibilidade de um transplante. Essa cirurgia não é um risco, ela é minha única chance. Eu vou morrer de todo jeito.

A verdade era uma coisa pesada e mórbida, e Natalie pagaria o preço. Era como se eu estivesse brincando de roleta russa com a minha própria filha, a diferença era que, ao invés de uma arma com uma bala só, eu tinha uma arma cheia de munição e apenas um compartimento vazio.

Eu tinha apenas uma chance de não atingir a pessoa que eu mais amava no mundo.

— Mas você pode dar a ela um ano para se preparar pra isso. — Daryl jogou de volta, era quase uma súplica.

— Ela nunca vai estar preparada pra isso Daryl, você sabe, Natalie vai alimentar a falsa esperança de que eu receberei um coração por um ano todo, o sofrimento vai ser bem pior depois... Fora o fato de que eu posso morrer a qualquer momento se tiver outro infarto. — Expus meus pensamentos sem reservas, ele precisava entender meu lado, para que eu mesmo entendesse.

Eu estava jogando com o destino e minhas cartas não era boas.

— Você não sabe o que está dizendo. Ela precisa de você. — Deixou o corpo cair no sofá, apoiando o rosto nas mãos.

Eu entendia o dilema dele, se o mundo de Natalie desmoronasse, o de Daryl também desmoronaria. Eu estava colocando a felicidade dele em risco, e pra um menino que não tinha vivenciado muitos momentos felizes na vida, aquilo devia ser um pesadelo.

— Eu sei... é por isso que eu vou lutar com todas as minhas forças pra sobreviver a essa cirurgia — Garanti, com toda a convicção que eu consegui reunir.

Se eu caísse, eu cairia lutando até o fim.

Daryl suspirou, negando várias vezes, preso nos próprios pensamentos.

— Vocês tem uma coisa boa. Você e a Natalie — Comentei sincero, e ele ergueu os olhos pra mim. Não esperava que eu dissesse aquilo, eu duvidava até que ele quisesse conversar sobre aquilo. Mas talvez fosse minha última oportunidade. Eu estava morrendo, podia me permitir ser direto. — Ela ama você. E ela acha que pode te proteger do mundo, o que é engraçado se pensarmos que é você que tem esse monte de músculos.

Ri da piadinha final, mas a primeira parte pareceu ter atingido Daryl como um soco na cara. Será mesmo que ele nunca tinha pensado que Natalie o amava?

— Por que está dizendo isso? — Desconfiou e eu percebi o quão triste era ele não acreditar que realmente pudesse ser amado.

— Natalie quer construir uma vida com você. Uma vida de verdade. E se as coisas derem errado...

— Você disse que vai lutar. — Não me esperou terminar. Praticamente deu um pulo do sofá e tornou a andar por todo canto.

— E eu vou. — Concordei, sabendo que o que eu estava prestes a pedir era um pouco demais e, sabendo também, que eu não pediria, se não acreditasse que Daryl daria conta. — Mas se as coisas derem errado, Natalie vai precisar de você mais do que nunca. E você tem que fazer o certo por ela Daryl, por favor.

Ele parou aos pés do meu leito, apoiando o corpo na grade de metal.

— O que isso significa? — Estava preocupado, isso era aparente. Eu também estava.

Dixons e Coopers tinham uma longa lista de relacionamentos fracassados na família, era como se eu pudesse olhar o passado através de um espelho quando olhava para Natalie e Daryl, eu sabia que nunca seria fácil para eles, eu sabia que, se qualquer casal tinha que lutar constantemente pra ter uma vida, eles teriam que lutar o dobro. Mas eles podiam conseguir. Eles tinham que conseguir.

— Eu queria poder dizer, mas não sei... Eu não sei o que vocês vão enfrentar, não sei as decisões que terão que tomar, mas você tem que fazer o certo por ela, porque a Natalie vai te ouvir, ela vai te ouvir mais que a qualquer outra pessoa, porque ela confia em você. Ela precisa de você, Daryl. — Deixei claro.

Eu sabia que era pedir demais de um garoto que tinha acabado se ser jogado naquela realidade, sabia que era sobrecarregá-lo. Mas precisava ter certeza que ele não desistiria, como eu desisti. A história não podia continuar se repetindo, Natalie e Daryl tinham que ser a exceção à regra.

Se depois que eu me fosse, Daryl falhasse com ela, eu sabia que minha filha estaria sozinha, ela não confiava na mãe o bastante para deixá-la ser seu suporte.

— É de você que ela precisa, então você vai sair dessa. Você tem que sair. — Ele também foi claro.

O problema era que, a única vez na vida em que eu não queria desistir, essa decisão não cabia inteiramente a mim, eu não tinha controle sobre a vida e a morte.

Nos encaramos por meio segundo, até que a porta se abriu e foi como se um furacão passasse por ela.

— Por que ela está aqui!? — Natalie perguntou, praticamente revoltada.

Não tive tempo de entender ou pensar sobre, porque a enfermeira entrou logo em seguida.

— Senhor Cooper, seu contato de emergência chegou. — Cedeu espaço para que uma mulher loira entrasse e saiu logo em seguida.

Meu coração saltou três batidas. Deborah.

Ela ainda era a mesma linda mulher de sempre, mais séria e mais formal, porém ainda com o mesmo ar decidido e implacável. A minha Debby.

Os cabelos loiros e lisos estavam um pouco mais curtos, e os olhos verdes mais escuros, como se guardassem uma vida dentro deles. Não olhou pra mim, como se fosse incapaz, como se um muro de mágoa a impedisse.

Usava um conjunto de calça social e blazer grafites. Muito profissional, mais madura.

— Como você está, Natalie? — Ela perguntou diretamente para nossa filha, praticamente ignorando minha presença.

— Estou ótima. O que você está fazendo aqui? — Natalie retrucou em um tom hostil, que em nada combinava com a filha amorosa que eu conheci naqueles meses.

Daryl parecia totalmente perdido e eu não podia culpá-lo.

— Eu também gostaria de saber, por que um médico ligou pra minha casa e disse que eu sou o contato de emergência de um homem que eu não vejo faz anos? — Deborah cruzou os braços, lançando um olhar cheio de rancor na minha direção, mas sem me pousar a atenção em mim realmente.

Não tinha mesmo como ser diferente.

— Desculpem, isso é minha culpa. Quando você decidiu ficar, Natalie, eu coloquei o número da sua mãe como meu contato de emergência, eu não queria que ficasse sozinha caso algo acontecesse comigo. — Expliquei, diretamente para Natalie e ela assentiu, era nítida sua mudança de postura em se tratando de mim e da mãe.

— Eu não estou sozinha. — Respondeu, olhando para Daryl, que parecia prestes a pular da janela. Ele não tinha sido feito para aquele tipo de situação.

— Vocês não estavam juntos ainda, filha, mal se conheciam. — esclareci, com um pedido mudo de desculpas para o casal.

Deborah mediu Daryl imediatamente, dos pés à cabeça, com uma expressão levemente desdenhosa, a sobrancelha direita arqueada, eu conhecia muito bem aquela cara.

Um silêncio mortal se espalhou pelo quarto, até o som do monitor cardíaco parecia abafado pelo clima pesado que tinha caído nas nossas cabeças.

— Será que eu posso falar com a sua mãe um segundo? — Pedi e a expressão de Daryl foi de puro alivio por poder sair dali. Natalie, no entanto, não pareceu satisfeita, mas concordou.

— Daryl? — chamei e ele se virou com uma expressão que dizia "pelo amor de Deus, me deixa sair daqui", eu teria rido se a situação permitisse. — Vai se lembrar da nossa conversa, não vai?

— Vou, principalmente da parte em que você disse que vai sair dessa. — Falou antes de sair em passos rápidos, ainda sob o olhar analítico de Deborah.

Ela continuou parada na porta, a mão na maçaneta, evitando olhar pra mim, enquanto eu não conseguia tirar meu olhar dela.

Foi como ser jovem novamente, eu podia sentir exatamente as mesmas coisas que eu senti quando a vi pela primeira vez...

Eu vendia minhas paradinhas para os garotos da universidade, por isso eu sempre estava por ali, com alguns amigos. Não era só pelos negócios, um bad boy, com jaqueta de couro e um cabelo legal sempre tinha sorte com as universitárias.

Era um dia como qualquer outro, quando aquela loira alta e de nariz empinado passou por nós, sem sequer olhar, como se vivesse em um mundo paralelo.

Quando todas as garotas te querem, é claro que você vai querer a que não está nem aí pra você, essa é a regra da vida. Tentei falar com ela várias vezes, mas sempre era deixado falando sozinho, sem resposta ou sequer um olhar mais longo.

— Desiste, Peter, aquela patricinha está fora do seu alcance. — Um dos meus amigos dissera rindo da minha insistência.

Eu podia lidar e aceitar um fora, mas ela não me dava um fora, ela apenas me ignorava, então virou questão de honra.

Soube que a moça passava as tardes na biblioteca da universidade e arrumei um jeito de entrar no lugar.

Eu praticamente não a vi, escondida atrás de uma pilha de livros de direito, três cadernos abertos e mil anotações. O lugar estava praticamente vazio, apenas um ou outro casal, escondido entre as prateleiras, e eu sabia bem que eles estavam ali pra outras coisas, não pra estudar.

— Esse lugar é só para alunos dessa universidade. — Avisou, assim que eu puxei a cadeira e a virei ao contrário para me sentar, bem do lado oposto da mesa.

— Fico feliz que tenha prestado atenção em mim o bastante pra saber que eu não estudo aqui. — Sorri de canto, afastando os livros para vê-la melhor e me debruçando sobre o encosto da cadeira.

Ela não sorriu, não ergueu os olhos, simplesmente ignorou minha presença.

— Eu sou Cooper. Peter Cooper. — Fiz charme à lá James Bond, mas a loira não entendeu a referência ou se fez de surda. — Qual é o seu nome?

— Ocupada. — Respondeu apenas, sem erguer a cabeça.

— Não. Eu sei que você chama Deborah. — Dei de ombros, brincando com uma das canetas dela.

O objeto foi arrancado da minha mão, quase no mesmo instante e ela finalmente ergueu os olhos pra mim. Estonteantes olhos verdes.

— Olha só. Eu não me importo com quem você seja, sério. Eu me importo com o programa de bolsas, do qual eu participo para estar aqui, que requer que eu tenha media "B+", no mínimo. Eu me importo com os três trabalhos e duas apresentações que eu tenho essa semana, e com os dois livros que eu tenho que ler pra ser capaz de fazer o dever. Então seja o que for. Não! — Despejou tudo de uma vez só, sem pausas, muito senhora de si, erguendo um dedo em riste no final, tudo isso sem tirar os olhos dos meus.

Que mulher, meus senhores, que mulher...

— Entendo... Você é mesmo muito ocupada. — Sorri de canto e ela voltou os olhos para os livros. — Acho que você precisa tirar um tempo pra respirar, sair com alguém legal, tirar a cara dos livros. Você precisa se divertir, Debby. Conselho de amigo.

A vi revirar os olhos e considerei aquilo uma vitória.

— Talvez em outra vida. E não me chama de Debby. Nunca mais.

Continuei debruçado ali, e ela continuou me ignorando por um tempo, até que finalmente ergueu os olhos para mim de novo.

— Alguns amigos vão dar uma festa. — Puxei o caderno da mão dela e rabisquei um endereço na última página. — Você aparece lá por volta das dez e eu te mostro como "uma outra vida" seria.

Deborah encarou minha caligrafia e fez uma careta, até que revirou os olhos.

— Vamos fazer assim, pegue um livro nessa biblioteca que você já tenha lido inteiro e eu vou nessa maldita festa. — Abriu os braços mostrando todo o espaço e depois se encostou na cadeira com um ar superior.

— Qualquer livro? — Perguntei e ela assentiu presunçosa. — Certo.

Olhei em algumas prateleiras, até me localizar e ir direto no que eu estava procurando. Voltei em passos rápidos e joguei o exemplar de capa vermelha, decorado com letras douradas sobre a mesa. O barulho ecoou pelo silêncio e a bibliotecária ralhou com um "shiu"

Deborah encarou o livro desdenhosa, subindo o olhar para mim totalmente desacreditada.

— Só porque você conhece a história de Romeu e Julieta, não significa que você leu o livro. — Acusou colocando o livro na pilha, voltando a me ignorar.

— "É a minha dama, oh, é o meu amor! Se ao menos o soubesse! Seus olhos falam, e eu vou responder. Que ousado sou; não é a mim que falam." — Encenei, sem medo de parecer ridículo. Deborah voltou os olhos pra mim, bastante surpresa. — "Duas estrelas, das mais fulgurantes, estando ocupadas, pedem aos seus olhos que brilhem na alta esfera até que voltem. E se ficassem lá, e elas no rosto? O brilho de sua face ofuscaria os astros, como o dia faz à chama. Por todo o ar do céu, com tal fulgor, a luz de seu olhar penetraria, e as aves cantariam, como ao dia! Como ela curva o rosto sobre a mão! Quem me dera ser luva pra poder beijar aquela face."

Eu consegui um sorriso e um desviar de olhos, assim como uma bela bronca da bibliotecária e a atenção de todos os alunos que estavam espalhados pelo lugar.

— Quer que eu continue? É a parte da Julieta agora: "Ó Romeu..."

— Já chega! — Deu a ordem firme, porém sussurrada, enquanto olhava ao redor e puxava meu braço para que eu voltasse a me sentar. — Você venceu, eu vou nessa porcaria de festa, mas eu vou ficar só meia hora e não vou beber.

— Se você diz... — Tombei a cabeça de lado e me debrucei novamente na mesa. — Nesse caso, essa noite... — Falei a menos de meio palmo do rosto dela. — Nós veremos em uma outra vida, Debby.

Me levantei e saí. Não sabíamos ainda, mas aquela meia hora de festa, se tornaria uma noite toda. O "não vou beber", se tornaria "merda acho que eu estou muito bêbada". Aquele encontro casual, se tornaria o amor da minha vida...

— Sinto muito te incomodar com isso, Debby. — Saí dos meus devaneios e falei primeiro, vendo que ela ainda segurava a porta como se sua vida dependesse disso.

— Eu não vim por você, vim pela minha filha. Acha mesmo que eu a deixaria sozinha para ver o pai morrer? — Levantou o queixo antes de retrucar, os olhos focando em um ponto acima da minha cabeça, como se ela fosse incapaz de olhar nos meus olhos. — E é Deborah, não Debby.

Será mesmo que ela me odiava tanto assim?

— Talvez eu não morra. — Tentei brincar, para ver se aquele clima melhorava.

— Eu espero mesmo que não, seria injusto você morrer como um herói, depois de tudo que fez, e eu ser sempre a vilã. — Cruzou os braços, tirando seus olhos do ponto acima de mim e os focando na janela.

Era triste que houvesse um mundo de coisas entre nós, e era mais triste que eu fosse culpado por todas essas coisas estarem lá.

— Eu nunca disse que você é uma vilã. — Respondi, me sentindo mal, o peso de cada erro caindo sobre mim.

— Eu não me importo com o que você diz, isso é o que a Natalie pensa. — Outra frase encharcada de mágoa.

— Você só precisa ter um pouco de paciência com ela, Natalie é...

— Não me dê conselhos sobre como lidar com a minha filha, eu criei Natalie sozinha, não preciso da sua opinião nessa altura do campeonato. — A revolta a fez olhar diretamente para mim pela primeira vez.

Foi como se mil volts atingissem meu corpo, todos os bons momentos, manchados pelas brigas, pelo abandono e, ainda assim, eu soube com toda certeza que nunca tinha deixado de amá-la. Essa certeza apenas deixava tudo mais triste.

Eu morreria amando uma mulher que me odiava, podia o destino ser mais cruel? Uma história digna de Shakespeare.

— Você nunca vai me perdoar, vai? — Perguntei, embora já fizesse noção da resposta.

— Acha que só porque você está morrendo agora, isso apaga todo o sofrimento que causou na minha vida? — O frio das palavras dela me cortou em pontos que não tinham realmente cicatrizado.

— Eu sabia que não, mas sei lá... Tinha esperanças que pudéssemos resolver isso de algum jeito. — Dei de ombros levemente, enquanto comprimia os lábios e fechava os olhos.

E um dia eu tinha mesmo pensado que não tinha mais lágrimas em mim pra derramar por aquela mulher.

— Eu não vou deixar você morrer com a dadiva do perdão, enquanto eu vivo o inferno que você fez de mim todo dia. Isso fica pra uma outra vida, Peter — Sentenciou, e era como se eu tivesse acabado de ser condenado ao limbo eterno, talvez eu já estivesse morto e aquilo fosse meu julgamento final. — Tenho que ir e ver como a Natalie está, eu ficarei na cidade, mas não pretendo falar com você novamente.

Deborah deu meia volta, pronta para sair, mas eu ainda tive tempo de dizer uma última coisa antes que a porta se fechasse.

— Nos vemos em outra vida...

Notas finais
Não vou mentir pra vocês eu chorei até me acabar pra escrever esse capitulo uahsushauhsushuh Vontade de pegar o Peter e colocar em um potinho, eu amo demais esse personagem. Depois de tantos feels Natalie x Peter e Daryl x Peter, tivemos finalmente a aparição da Deborah Spelman, alguém desconfiava que ela iria aparecer em Dawsonville uma hora ou outra? Peborah é uma história de partir o coração, porque eles eram tão lindos, Peter paquerando é tão Natalie uahsuahsush e vimos de quem ela puxou aquela coisa de apostas estranhas uashuashush Me contem o que acharam, okay? Agora noticia ruinzinha de última hora. Eu tenho umas coisas pra colocar em dia no serviço, além de ter uma prova importante se aproximando, por isso acho que não vou ter tempo livre de escrever essa semana, o que deixa sexta que vem sem att :( mas volto na outra, pra gente saber o que vai dar nessa cirurgia do Papa Cooper. Até lá então. Bjss.