Lifeline — Before the End
24 Lugar seguro
Notas iniciais
• DARYL DIXON •
A caminhonete percorria a estrada escura, enquanto eu pisava um pouco mais fundo no acelerador, como se o ronco do motor pudesse abafar meus próprios pensamentos.
— Quer conversar? — Natalie perguntou, tentando arrumar o cabelo que o vento forte bagunçava. — Quer contar o que houve?
— Não. — Respondi de imediato, porque já era ruim suficiente reviver aquilo sozinho, encontrar as palavras pra contar a alguém seria insuportável.
Natalie assentiu vagamente, voltando os olhos pra fora e acendendo um cigarro. Foquei novamente na estrada, mas percebi que aquele silêncio era estranho e incomodo e, na verdade, não me ajudava em nada a manter a mente longe de lembranças ruins.
— Eu quero conversar. — Decidi, tirando o cigarro da mão dela e tragando profundamente. — Só não quero conversar sobre isso.
A vi sorrir, enquanto alternava meu olhar entre ela e a estrada, e foi como se o ar ficasse mais leve.
— Quer falar sobre o que? — Virou o corpo na minha direção, dobrando a perna sobre o banco.
— Qualquer coisa. — Dei de ombros. Eu nem queria falar, na verdade, mas queria ouvir a voz dela.
— Hum... O professor de ciências mandou que seus alunos fizessem um experimento com lombrigas...
— Você não vai contar uma piada vai? — Indaguei incrédulo.
— Vou sim, shiu. — Abanou a mão para que eu me calasse, enquanto ela fazia questão de contar cada detalhe, ou tentava pelo menos, porque no meio de cada frase acabava rindo.
Me toquei que Natalie não era muita boa em contar piadas. No fim, eu não ri, mas acabou surgindo um sorriso nos meus lábios, mais por vê-la rir de si mesma, do que pelo conteúdo da piada.
— Você pode até saber fazer muitas coisas, mas contar piadas não é uma delas, Bochechas. — Afirmei, meneando a cabeça.
— Ah, desculpa aí, senhor Daryl Piadista Dixon. Faça melhor então. — Implicou, cruzando os braços como uma garotinha mimada. Às vezes eu simplesmente esquecia que Natalie era mesmo mimada.
— Não conheço nenhuma.
— Qual é? Nem vem, além de mentir muito mal, como eu já disse, não teria a possibilidade de você não saber alguma boa piada, seu irmão é Merle Dixon, aposto que ele tem um repertório inteiro delas. — Estreitou os olhos na minha direção, uma expressão que a deixava adorável.
Era verdade. Merle sabia uma infinidade de piadas, e não só isso, ele também era muito bom em contá-las, tinha um timing perfeito.
— Não conheço nenhum piada apropriada. — Corrigi, olhando-a por um segundo na penumbra da cabine.
— Claro que são piadas politicamente incorretas, o que mais o Merle te ensinaria? — Natalie riu, pegando a minha mão livre e segurando-a um segundo sobre sua coxa, percebi que ela tinha feito aquilo sem perceber. — Pode contar mesmo assim, prometo que contenho minha ânsia de problematizar.
A encarei um tanto desconfiado, mas acabei cedendo, contando uma qualquer. Enquanto falava, tirei a mão da dela pra poder mudar a marcha, mas eu estava tão envolvido na narrativa que coloquei minha mão na perna dela outra vez depois, meio que sem realmente me dar conta disso.
— Quem diria que Daryl Dixon sabe contar piadas. — Ela riu, e eu fiquei imaginando que teria rido muito mais se Merle tivesse contado.
— Não é grande coisa...
— "Não é grande coisa" é a sua resposta padrão pra tudo que diz respeito a você mesmo, já reparou? — Acusou, erguendo uma sobrancelha. Eu coloquei as duas mãos no volante pra fazer uma curva.
Dei de ombros, Natalie tinha aquela mania de enaltecer tudo que vinha de mim, eu achava besteira da parte dela. Se ela soubesse toda a merda que me rodeava, as coisas, com certeza, seriam diferentes.
Minutos depois, peguei a saída da estrada e ao longe avistei o hotel, o melhor da redondeza, o tipo caro e chique que eu nunca frequentaria. Não entendi bem por que os dois ainda estavam esperando, mas isso já era problema deles, não meu.
Encarei a fachada do lugar por um instante, incerto sobre aquilo ser mesmo uma boa ideia.
— Tem certeza que quer fazer isso? Podemos voltar pra casa e fazer outra coisa, se você não quiser agitação hoje. — Natalie sugeriu, parecendo preocupada.
— Eu já disse que está tudo bem. A menos que você tenha mudado de ideia. Se não me quiser perto dos seus amigos, eu te deixo aqui e caio fora. — Respondi neutro, sem realmente parar pra pensar sobre a proposta dela.
Eu não podia culpá-la por não me querer junto do casal riquinhos. Talvez eu a fizesse passar vergonha. Coloquei a chave de volta no volante.
Natalie suspirou, jogando a cabeça pra trás e fazendo um barulho de negação com os lábios.
— Tá bom, escuta. — Ajeitou a postura e arrancou a chave de mim. — Eu queria ficar calada, porque geralmente as coisas que eu digo te irritam, te assustam, ou te intimidam, e eu sei que não precisamos de nada disso hoje. Então, eu vou falar só uma vez e você vai escutar com atenção, certo?
Meu estômago deu uma volta em torno dele mesmo e eu fiz meu melhor para não tremer sob o olhar sério de Natalie Cooper. Eu gostava de dizer a mim mesmo, que estaria preparado quando ela resolvesse acabar com tudo, mas a verdade é que eu não estava. Pelo menos não naquele dia.
Abaixei a cabeça instintivamente, mas Natalie tocou meu rosto, me fazendo encará-la, antes de continuar.
— Eu sei que você fez uma longa lista mental, sobre seus defeitos e sobre os inúmeros motivos pelos quais eu devia deixar de gostar de você. Mas eu estou pouco me fodendo pra sua lista! — Deixou claro, fazendo um movimento displicente com a mão. Franzi as sobrancelhas sem entender o rumo que aquilo estava tomando. — Não me importo com as mil merdas que você acha que eu me importo. O que eu sentia ontem, quando éramos apenas nós dois, é o mesmo que sinto hoje, na frente dos meus amigos, e eu vou continuar sentindo amanhã de manhã, na frente do meu pai, do seu, do presidente, do prefeito, ou seja lá de quem for. Eu gosto de você, Daryl Dixon, gosto pra caramba, isso não vai mudar. Entendeu?
Foi como se o ar pesasse cem quilos, mas ao mesmo tempo não existisse gravidade. Engoli em seco, piscando algumas vezes. Por que ela gostava tanto de mim? Não fazia sentido.
Não tive tempo de formular uma resposta, dois toques de uma buzina atraíram nossa atenção.
Austin estava do lado de fora do carro, acenando para nós. Ele e a namorada pareceram imensamente felizes quando nos viram, ou talvez aquele fosse o humor normal deles.
— Graças à Deus que veio, Daryl! É um alivio ter alguém pra me ajudar, quando essas duas começarem aquelas conversas que mais parecem código. — Austin bateu no meu braço, com as costas da mão, assim que eu desci da caminhonete.
Parei por um momento, tentando me lembrar quando eu tinha dado tanta liberdade pra ele. Aquela gente era estranha.
— Hey, Daryl, que bom que veio. — Aimee me cumprimentou com um beijo no rosto, como se aquilo fosse a coisa mais natural da terra. Talvez até fosse, afinal Austin fazia exatamente a mesma coisa com Natalie, mas eu sempre acharia meio desconfortável.
Fiquei parado ali, provavelmente com cara de tonto, enquanto as garotas se abraçavam e começava um conversa sobre... bom na verdade eu não sabia bem sobre o que era
— Eu disse que parecia um código. — Austin, me cutucou, fingindo sussurrar, mas falando alto o suficiente para que as duas ouvissem.
Natalie se virou pra nós, dando um daqueles sorrisos pra mim, em seguida mostrando o dedo do meio para o amigo.
— Enfia esse dedo no nariz, Lih. — Ele brincou encostando no carro e em resposta recebeu uma careta.
Eu ainda não tinha muita certeza se gostava daquele apelido.
— Lih e eu vamos atrás, os meninos vão na frente, pelo menos na ida, é claro. — Aimee decidiu, pulando por cima da cabota já aberta.
— Eu posso ir com a minha caminhonete, não tem nada errado com ela. — Retruquei rudemente, pensando que aquela patricinha de olho puxado estava destratando meu carro.
Austin e Aimee me encararam como se não estivéssemos falando a mesma língua.
— Claro que não tem. — A garota devolveu como se aquilo fosse óbvio. — Mas não podemos todos ir na sua caminhonete, porque ela só tem três lugares e ir com dois carros significa duas pessoas terão que ficar sem beber pra dirigir...
Percebi que a linha de raciocínio dela fazia muito sentido e acabei me dando por vencido.
— Falando em motorista responsável... — Austin jogou as chaves do carro na minha mão. — Você e a Lih são nossos anfitriões e se resolvam com isso. Eu sempre tenho que dirigir, por isso hoje vou ficar longe do volante.
Os três começaram um tipo de discussão sobre aquilo, com algumas acusações e muitas risadas, mas eu acabei perdendo o fio da meada.
Aquele cara tinha mesmo me dado a chave do carro supercaro? Ele nem me conhecia.
— Eu dirijo na volta. — A voz de Natalie me puxou pra realidade. — Assim você pode beber sem culpa. Eu prometi pro meu pai que não ficaria chapada mesmo e acho que não tem um jeito melhor de você sobreviver a essa noite sem danos mentais graves. Esses dois são loucos. — Ela sussurrou a última parte, tocando meu lábios com o dela lentamente.
Gelei por um momento, era a primeira vez que nos beijávamos em público, percebi que Natalie fez aquilo sem pensar. Eu não sabia muito bem como me sentir sobre aquilo. Olhei para os amigos dela um tanto constrangido, mas os dois estavam ocupados demais no próprio beijo para nos dar atenção.
Percebi que era paranoia, não era como se eles fossem o Peter nem nada assim.
— Desculpa. — Natalie pediu baixinho, vendo a minha reação.
Meneei a cabeça, mostrando que não tinha sido nada, ao mesmo tempo em que percebia que, na verdade, tinha sim, Natalie tinha acabado de demostrar que não tinha vergonha de mim, mesmo na frente daquele casalzinho rico.
Entramos no carro e eu dei a partida, os três começaram a implicar um com os outros e Austin praticamente me recrutou como um aliado.
Percebi que, talvez, eles não fossem tão insuportáveis assim.
No caminho Natalie e Aimee engataram um assunto confuso, sobre qualquer coisa de garota, que eu não entendi muito bem, algo sobre casacos de couro, morte de animais e bolsas, Natalie era contra e Aimee se defendia com unhas e dentes.
— Não disse? — Austin, sentado ao meu lado, deu uma batidinha no meu braço antes de continuar. Ele era do tipo de falar tocando, era meio irritante. — Acho que a terceira guerra mundial seria menos confusa.
— O que você acha, Daryl? — Aimee me puxou para a conversa, e eu encarei Natalie pelo retrovisor.
— Não. Não. Não. — Ela meneou a cabeça várias vezes. — Isso não é justo. Daryl não vai poder dar uma opinião imparcial nisso. Ele é um caçador, matar esquilos inocentes é o hobbie dele.
Piscou pra mim, ainda pelo retrovisor, porque era como se soubesse que eu não estava prestando atenção no papo dela com a amiga.
— Espera. Você caça? — Austin não me cutucou de nenhuma forma daquele vez, o que foi ótimo, acho que se ele fizesse de novo eu teria socado a cara dele. — Que incrível cara! Você tem uma arma?
A empolgação dele era quase cômica, como se caçar e ter uma arma fosse as coisas mais foda do universo.
— Tenho, mas prefiro a crossbow é mais silenciosa. — Dei de ombros, focando na estrada e desejando que o foco da conversa voltasse para Natalie e o instinto protetor de animais dela.
— O que é uma crossbow? — Ouvi Aimee perguntar, jogando um pouco o corpo para frente, ficando entre os dois bancos.
— É como um arco e flecha, porém muito mais estilosa e máscula. — Os olhos de Natalie encontraram os meus novamente e ela deu um daqueles sorrisos pós-beijo. Engoli em seco.
— Agora eu entendi... — A japonesa deixou no ar como se aquilo explicasse tudo. Fiquei sem entender. — Um caçador...
— Pode me ensinar da próxima vez? Caçar. Atirar. Tudo. — Austin gesticulava exageradamente.
— Isso me lembra aquela parodia pornográfica da Branca de Neve... — Aimee soltou do nada e eu tive certeza que aquela não era uma conversa da qual eu queria participar. Qual era o problema daquela garota?
— Branca de Neve e os Sete anões? — A voz de Natalie deixou claro que ela fazia uma careta de desgosto, mesmo que eu não a estivesse vendo no momento, por estar com os olhos presos na estrada.
— Não eram anões na verdade. Mas deu um bom gang bang. — Austin pontuou, como se fosse a coisa mais natural do universo falar daquilo no meio de um estranho.
Merle se daria bem com aquela gente, não eu. Parei por um momento e percebi que não, meu irmão não se daria bem com eles. Embora fossem estranhos e meio inoportunos, não tinham nada a ver com o meu irmão.
— Poupem-me dos detalhes, Branca de Neve é um filme fofinho, não destruam minha infância! — Natalie exclamou, empurrando a cabeça do amigo enquanto ele ria.
— Falou a santa... — Aimee desdenhou, e outra rodada de risada desenfreadas tomou o carro.
Eu não gostava nada daquele conversa. Nada mesmo.
— 'Tá bom, vamos voltar a falar das armas e da crossbow, não queremos que o Daryl pense que somos loucos pervertidos. — Austin cortou, erguendo a mão e aquela foi, com certeza, a coisa mais sensata que ele disse desde que eu o tinha conhecido.
— Meio tarde pra isso... — Natalie debochou, sorrindo novamente para mim pelo retrovisor.
E assim o assunto seguiu, com Austin me enchendo de perguntas, Aimee fazendo uns comentários nada a ver, dos quais os outros riam e Natalie com a expressão leve e um sorriso radiante. Era como se algo inexplicavelmente bom emanasse dela e me contagiasse aos poucos, mesmo que eu não me desse conta daquilo no momento.
A falação dos três e as perguntas que eu tinha que responder, mesmo que fugisse da maioria, acabaram mantendo minha mente longe de qualquer outra coisa.
Menos de meia hora depois, eu já estava estacionando o carro em frente a uma grande e lotada casa noturna, não tinha nada de especial no lugar, pra ser sincero, era como qualquer outro. Pista de dança, algumas mesas, bar, área externa e estacionamento. Luzes piscando, música alta, casais por toda parte, resumindo: o de sempre.
Estendi a chave do carro para Austin, mas ele apenas apontou pra Natalie.
— A Lih vai ser responsável hoje, eu já sou responsável todo dia. — Riu, abraçando Aimee, e caminhando assim com ela um pouco na nossa frente.
— Se a responsabilidade ficar mesmo por minha conta, estamos todos ferrados. — Natalie retrucou, do meu lado. Austin ergueu o dedo do meio pra ela, sem nem virar pra trás.
— Se você quiser eu posso dirigir na volta, e você se diverte com os seus amigos. — Ofereci, enquanto caminhávamos.
— Eu posso me divertir sem álcool, é sua vez de ficar bêbado hoje. — Sorriu enganchando o braço no meu.
Não pude deixar de ficar um tanto tenso com aquilo, já era pra eu estar acostumado com a proximidade de Natalie naquela altura, contudo ainda era estranho aquele contato na frente de todo mundo. Era como se todos olhassem pra nós, mesmo que não estivessem.
Provavelmente ela percebeu meu desconforto, porque me soltou e deu uma passo para o lado. Aquele um passo de distância permaneceu durante parte da noite.
A primeira hora passou rápido, assim como as primeiras garrafas de cerveja, Aimee contou um pouco da viagem, Natalie falou do pai e quando vi, eu e Austin tínhamos começado a falar das caçadas, comigo prometendo levá-lo qualquer dia, por incrível que pareça. Talvez eu já estivesse bêbado.
Na segunda hora, as garotas foram pra pista de dança, embora voltassem para o nosso lado vez ou outra. Aimee fazia questão de trocar beijos nada discretos com Austin, cada vez que aparecia na mesa.
Eu nunca sabia pra onde olhar, mas Natalie não parecia dar a mínima para aquilo. Ela não me beijou ou tentou qualquer outro contato, eu queria convencer a mim mesmo que ela simplesmente não queria, mas sabia que, na verdade, aquele afastamento era puramente minha culpa.
E assim a noite foi seguindo. Muitas bebidas depois, Austin estava olhando as garotas dançarem juntas, um sorriso bobo nos lábios enquanto observava a namorada.
Não importava quantas vezes eu visse Natalie Cooper dançando, aquilo sempre era um espetáculo a parte, ela brilhava na pista, se destacava de qualquer outra pessoa, e isso não era só por ser mais alta que, pelo menos, metade das garotas. As outras dançavam a música, Natalie era a música.
— Vamos dançar com elas? — Austin sugeriu, virando o copo de bebida.
— Eu não danço. — respondi, bebendo do meu próprio copo e percebendo que eu já estava um tanto bêbado. Talvez fosse melhor maneirar.
— E acha que eu danço? — Ele riu alto, como se fosse alguma piada. — Na verdade eu só fico lá de pé, admirando toda aquela beleza e torcendo pra ganhar um beijo, ou algo mais ousado, se é que você me entende.
O cara tinha soltado comentários como aquele grande parte da noite, eu acabei acostumando, principalmente porque, se comparado com a namorada, Austin era bastante discreto.
— Pode ir, eu passo. — Dei de ombros.
Ele não levantou, continuou olhando para as duas. Bem que eu queria dizer que erámos os únicos do lugar olhando, mas não éramos. Elas atraiam muita atenção.
Como se soubesse que estava sendo observada Natalie virou o rosto na minha direção, sorrindo em seguida.
— O jeito como ela olha pra você... É novidade pra mim. — Austin soltou do nada e eu desviei os olhos de Natalie.
Percebi que ele esperava que eu dissesse alguma coisa, mas eu permaneci calado, como se aquela constatação não me afetasse em nada e como se eu não quisesse saber exatamente do que ele estava falando.
— Eu conheço a Lih faz alguns anos, ela foi minha primeira amiga na escola, e isso diz muito sobre ela. — Não tive tempo de pensar em como me sentia sobre aquilo, porque o restante da informação me pegou de surpresa. — Eu era o novato, vindo da periferia, o filho de pais gays, que tinham feito grana com uma nova marca de roupas. Um prato cheio para os valentões...
Encarei Austin por um minuto, enquanto ele dava um gole na bebida e percebi que nada nele indicava que tinha pais gays. Do jeito que Merle e meu pai falavam desses caras, eu pensei que um filho de gays seria... diferente. Talvez eu tivesse que mudar um pouco meu jeito de ver as coisas.
— A Lih era diferente de todo mundo, o tipo de garota aceita em todo o lugar: Populares, Nerds, Hipstes, Descolados... Ela foi praticamente meu cúpido com a Aimee. — Ele continuou, com um sorriso um tanto saudoso. — Natalie Cooper podia estar em qualquer lugar, mas, a verdade, é que ela não pertencia a lugar nenhum. Acho que isso podia ser bem legal visto de fora, mas devia ser bem solitário no fim das contas.
De todas as coisas que eu podia ter pensado que Natalie podia ser, uma garota solitária não era uma delas.
— Ela sempre pôde ter qualquer um, mas eu nunca vi ela esperar por ninguém como esperou por você hoje. Ela te olha como se finalmente tivesse encontrado o lugar dela no mundo, como se você fosse único... Acho que você é, afinal ela podia ter escolhido qualquer um e escolheu você. — Terminou, voltando os olhos para a pista e acenando para Aimee que o chamava com as mãos.
— Podia escolher qualquer um e foi escolher justo o lixo branco de Dawsonville, acho que Natalie Cooper é bem estupida, isso sim... — Pensei alto, sem perceber que Austin ainda prestava atenção em mim.
— Onde algumas pessoas veem lixo, outras veem arte... Talvez você só precisasse de uma nova perspectiva. — Ele jogou a frase no ar e se levantou, seguindo para pista. Se misturou com as pessoas pra chegar até as meninas, ganhando um beijo indiscreto da namorada quando chegou lá.
Eu gostaria de uma nova perspectiva, mas com uma vida como a minha, não haviam muitas opções. A verdade era uma só: eu era um fodido do caralho e Natalie provavelmente estava se iludindo sobre mim.
— Já está cansado de toda essa agitação? — A pergunta me fez erguer a cabeça, eu sequer havia percebido Natalie se aproximar.
— Você está? — Devolvi, sentindo toda minha atenção focar nela, como se aquela simples garota bochechuda fosse a gravidade do meu mundo.
— Nunca. — Ela sorriu, se sentando ao meu lado.
Desejei ser como qualquer outro cara daquele lugar e simplesmente conseguir beijá-la bem ali, mas era como se o meu cérebro não atendesse aos meus comandos.
— Austin gostou de você. — Comentou, enquanto abria a latinha de refrigerante que trouxera consigo.
— Ele não é tão chato quanto eu pensei de início. — Dei de ombros, bebendo diretamente da minha garrafa de cerveja.
Natalie riu, colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha e observando os dois amigos, que se beijavam freneticamente, no meio da pista. Me encarou por um breve momento e suspirou, desviando os olhos.
Lembrei do quanto eu tinha sido idiota quando chegamos e ainda podia sentir a distância que aquela hesitação minha havia colocado entre nós.
— Mais cedo, eu não queria que você se afastasse. Eu só não... — A frase ficou sem fim, normalmente eu já não sabia como me expressar, bêbado ficava pior ainda.
— Não está acostumado com isso. — Ela completou certeiramente. — Eu sei Baby Dix, tudo bem.
Ela sorriu, aquele sorriso pacifico e calmo, que transbordava compreensão. Segurei a mão dela sobre a mesa, embora quisesse fazer muito mais. Virei toda a cerveja e minha cabeça rodou. Talvez eu já estivesse no limite.
— Não vai voltar pra lá? — Apontei a pista.
Austin estava com uma cerveja na mão, o corpo balançando discretamente, mas os pés bem firmes no chão, enquanto Aimee dançava alucinadamente.
— Eu estou aqui com você agora. — Natalie respondeu, acenando para o casal.
— Eu vou com você. — Sugeri no impulso, provavelmente me deixando levar por todas as doses de álcool que eu já consumira aquela noite, ou talvez querendo fugir de tudo que eu era.
Natali franziu as sobrancelhas, e então sorriu.
— Sério?
Dei de ombros. Foda-se tudo. Ela deu praticamente um pulo, me estendo a mão e seguindo na frente. Ignorei o formigamento na ponta dos meus dedos e foquei apenas no quanto Natalie parecia feliz.
A pista não estava tão cheia, então tentei desconsiderar as pessoas, prestando atenção apenas em Natalie, que já tinha começado a dançar, mesmo antes de nos aproximarmos dos amigos dela. Era diferente vê-la dançar bem na minha frente, sentindo o corpo dela roçar no meu vez ou outra, principalmente porque ela sorria sem parar.
Austin ergueu o copo dele na minha direção, fazendo um gesto de aprovação com a cabeça, eu devolvi o cumprimento e me concentrei em Natalie novamente.
Funcionou por um tempo, talvez porque eu estivesse bêbado o suficiente, talvez porque o corpo dela tocando o meu daquele jeito realmente prendesse a minha atenção... Mas logo a pista começou a encher e a música a batucar na minha cabeça, junto com as luzes. Um pouco da minha força de vontade em ficar ali estava se esvaindo e me senti estúpido por isso.
Nunca daria certo, eu era muito fodido mesmo. As coisas começaram a rodar um pouco e a sair do foco.
— Vamos comigo, fumar lá fora? — Natalie falou quase no meu ouvido, apertando levemente meu braço e isso trouxe minha atenção de volta.
Assenti brevemente, ou pelo menos acho que o fiz, e apenas deixei Natalie me conduzir pra área externa, antes passando no bar e pegando algo que eu não vi.
Assim que coloquei os pés pra fora, suguei todo o ar possível, enquanto Natalie ainda segurava a minha mão, me puxando para um canto mais reservado, onde o barulho era bem menor.
— Aqui. — Me estendeu alguma coisa, que eu sequer olhei o que era antes de beber.
Talvez ficar ainda mais chapado funcionasse, mas assim que coloquei o liquido na boca percebi que não tinha nada de alcoólico nele. Olhei a embalagem um tanto confuso, pra então perceber que era simplesmente água.
— Você não parecia bem, então eu achei que já bastava de álcool por hoje. — Natalie explicou antes mesmo que eu perguntasse.
— Estou perfeitamente bem. — Menti, afinal ela não precisava saber que eu estava surtando por nada.
Natalie me encarou por três segundos inteiros, com aquela expressão calma e compreensiva, que tinha se tornado costumeira nela nos últimos dias. Engoli em seco e desviei os olhos, me lembrei que ela tinha aquela mania de saber quando eu mentia.
Observei a meia dúzia de pessoas espalhadas por ali, e percebi que gostava bem mais da área externa do que dá interna.
— Se você diz... — Natalie finalmente concordou, como se simplesmente não quisesse discutir e acendeu um cigarro.
Bebi outro gole da água, admitindo pra mim mesmo que talvez fosse bom não ser álcool.
Fiquei observando enquanto ela tragava, soltando a fumaça, daquele jeito muito característico dela, algo que desde sempre havia chamado minha atenção. Coloquei a garrafa de água na mureta onde estávamos encostados e ela me estendeu o cigarro, como já era costume.
Em um movimento totalmente instintivo, eu arranquei o cigarro da mão dela e o taquei longe, enquanto a puxava pra perto e tomava seus lábios. Bruto e voraz. Como se eu precisasse confirmar desesperadamente que as coisas que eu sentia por ela, eram mais fortes do que as coisas que eu queria esquecer.
Nicotina e tabaco se misturavam em nossos paladares, enquanto eu percebia que beijar Natalie Cooper e ter as mãos dela em mim, era mais potente do que qualquer droga que eu já havia experimentado.
Me afastei um pouco pra tomar folego, lembrando que estávamos em público, por mais que meu corpo não parecesse dar a mínima pra isso.
— Desculpe pelo seu cigarro. — Desconversei, pigarreando pra acertar a voz.
— Sem problemas — Ela sorriu meio de canto, segurando a lateral do lábio inferior com os dentes, como se estivesse pensando em alguma coisa. — Se eu acender outro, você vai fazer a mesma coisa?
Acabei deixando um riso escapar pelo nariz.
— Você não presta... — Soltei meneando a cabeça.
— Eu sei.
— Pelo amor de Deus, achem um quarto vocês dois! — A voz de Aimee me fez das três passos pra trás.
Ela vinha caminhando na frente, ou melhor ela vinha tropeçando nos próprios pés, um copo de bebida nas mãos e Austin logo atrás.
— Vai se ferrar, Aimee — Natalie retrucou, porém ainda ria.
— Temos que ir embora agora, íamos usar o banheiro pra uma rapidinha, mas ele está lotado.
Okay, aquela era mais um dos comentários totalmente inoportunos de Aimee, ninguém além de mim pareceu surpreso. Ela deu mais alguns passos pra frente no intuito de alcançar Natalie, mas no caminho, tropeçou nos próprios saltos e me deu um banho de seja lá o que ela estava tomando. Ótimo.
Austin segurou a namorada, e todos pareceram olhar pra mim ao mesmo tempo.
— Foi mal. — Aimee fez uma careta engraçada.
Eu meneei a cabeça algumas vezes e dei de ombros, não era como se fosse a primeira vez que eu terminava a noite fedendo a álcool.
— Acho que é mesmo hora de irmos embora. — Natalie decidiu.
A volta seguiu em clima descontraído, isso é claro, até que o casalzinho do banco de trás começasse uma pegação desenfreada e deixasse tudo meio constrangedor.
— Foi um prazer te conhecer, Daryl. — Austin acenou, quando descemos no hotel, enquanto Aimee praticamente tropeçava em mim, de novo, pra se despedir. — Não esquece aquela nossa caçada.
Acenei de volta, e dois se despediram de Natalie com abraços e beijos exagerados. Eu e Natalie seguimos para a caminhonete, demorei um pouco mais que o usual para achar a chave e abrir a porta.
— O que pensa que está fazendo. — Ela perguntou, tirando a chave de mim. — Eu estou dirigindo hoje.
— Não vai conseguir dirigir a caminhonete. — Devolvi, ainda segurando a porta.
Natalie passou por mim, e tomou o lugar do motorista, sem dar a mínima para o que eu tinha dito. Decidi que seria engraçado vê-la tentar e dei a volta para entrar.
A maldita deu um sorriso pra lá de vitorioso, quando pegamos a estrada e ela estava perfeitamente no controle da caminhonete, como se tivesse dirigido aquela lata velha a vida toda. Acabei rindo dela enquanto acendia um cigarro. Eu devia estar bem chapado.
— Obrigada por hoje, eu sei que não é o seu tipo de programa, e que Austin e Aimee podem ser meio espaçosos as vezes. Mas eu me diverti muito. — Agradeceu, alternando olhar entre mim e a estrada.
— Eles são okay. — Dei de ombros. O casalzinho não era tão insuportável quanto eu tinha pensado de início, eram meio loucos e falantes, mas nada que eu não conseguisse lidar. Não era como se eu os quisesse como melhores amigos, mas um dia na vida não tinha me arrancado nenhum pedaço, por incrível que pareça.
Encostei a cabeça no banco e talvez tenha dado uma leve cochilada, porque quando abri os olhos já estávamos na frente da oficina.
— O que está fazendo? — Perguntei me ajeitando.
— Estacionando. — Natalie respondeu como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
— Achei que não queria que eu dirigisse. Podia ter me deixado em casa, amanhã eu pegava a caminhonete. — Comentei. Claro que eu conseguia dirigir até em casa, mas se eu não precisasse seria melhor.
— Mas você não vai dirigir, nem a pau. — Retrucou na mesma hora, tirando a chave do volante.
— Vai me fazer ir andando?
Natalie me encarou como se eu fosse tapado, ou algo assim, revirou os olhos por um segundo e simplesmente pulou para o meu colo, uma perna de cada lado do meu corpo.
— Claro que não, você vai ficar aqui. — Falou em um sussurro, o nariz tocando o meu e as mãos no meu pescoço.
— Bochechas... — Tentei protestar mas ela me calou com um beijo bastante intenso.
Era como se alguém tivesse acendido um fosforo em meio a gasolina.
— Estamos no meio da rua. — Lembrei, segurando as mãos dela e a impedindo de abrir os botões da minha camisa. Meu corpo tremeu.
— São duas da manhã, ninguém vai passar e mesmo que passe, não estamos fazendo nada errado. — Devolveu com aquela sorriso malicioso, que era quase impossível de resistir.
— É melhor eu ir. Sério. A gente não... — Me esquivei mais uma vez.
— Entendi. — Assentiu brevemente, saindo do meu colo e descendo da caminhonete logo em seguida. — Mesmo assim você não tem que ir, está tarde, e você 'tá chapado. Fica no meu quarto, eu fico no sofá, simples. — Sugeriu dando de ombros, nada de segunda intenções em nenhuma de suas palavras. — Meu pai não vai se importar, eu sei que já dormiu em casa, quando vocês andavam juntos.
Natalie conseguia passar de um clima a outro em um instante, e o fazia com tanta naturalidade que sempre me deixava meio sem reação.
— Era diferente... — Tentei, mesmo que ir pra casa não parecesse uma ideia nada boa.
— Cala boquinha, Baby Dix, pelo amor de Deus! — Ralhou, me obrigando a sair da caminhonete.
Era engraçado, Natalie Cooper ficava uma graça quando estava perdendo a paciência. As bochechas dela ficavam rosadinhas e um tanto inchadas, tentei não rir, mas eu estava chapado, então, não deu certo.
— Minha nossa, você fica muito idiota quando está bêbado. — Ela acabou rindo também. Nossas pernas se enroscando enquanto eu descia. Nós beijamos por um segundo. — Você está cheirando a vodca.
Acabamos rindo de novo, embora eu estivesse um tanto tenso com tudo aquilo.
— Culpa da sua amiga. — Comentei, enfiando as mãos no bolso, no mesmo momento em que Natalie abria a porta. — Eu realmente devia ir, Bochechas.
— Eu já disse, você fica no meu quarto, eu fico no sofá, meu pai não vai se importar, sério. — Me fez entrar na frente, apertando os olhos pra deixar claro que eu não tinha escolha.
Suspirei me dando por vencido.
— Tudo bem, mas só se eu ficar no sofá.
— Que seja. — Ela deu de ombros. — Azar o seu.
Depois de me oferecer mil coisas pra comer, Natalie apareceu com lençóis cobertores e travesseiros pra colocar no sofá, assim como uma muda de roupas.
— Peguei pra você, usa o banheiro lá do meu quarto.
— Não precisa. — Respondi, meio sem jeito.
Não era realmente uma novidade dormir ou tomar banho na casa do Cooper, eu e Merle fazíamos isso direto quando meu irmão "trabalhava" para o pai de Natalie, mas, com certeza, a coisa ficava bem estranha quando éramos eu e ela no meio da noite.
— Não vai dormir fedendo a álcool vai? — Perguntou, ao ver minha hesitação.
Me lembrei que Aimee tinha realmente me deixado fedendo e, mesmo a contragosto, deixei Natalie me arrastar escada acima, direto para o quarto dela.
— Eu vou pegar uma toalha pra você. — Avisou, me puxando pela mão em direção ao banheiro.
E em um minuto estava tudo bem e no outro não estava, eu nem sei bem como aconteceu, assim que eu coloquei os pés no cômodo, minha mente entrou em curto como se um alarme soasse dentro de mim.
Talvez tenham sido os azulejos, exatamente como os do banheiro de casa, talvez fosse o fato de Natalie e eu estarmos sozinhos naquele espaço tão pequeno. Ou, quem sabe, fosse o nível de álcool no meu organismo.
Ela tirou uma toalha de um dos armários e colocou sobre o vaso, junto com as roupas, apontava algumas coisas, como se explicasse e eu fazia o máximo para prestar atenção nela, mas era como se as paredes fossem se fechando aos poucos, como se o ar tivesse sendo sugado pra fora dos meus pulmões.
Imagens confusas de mim mesmo no banheiro de casa se misturavam na minha cabeça, meu pai estava lá, e tudo acontecia outra vez. De novo e de novo. O chão e o teto rodaram e eu senti uma ânsia de vomito quase incontrolável.
"Quer saber a merda que acontece com os garotos que ficam dando uma de mariquinhas como você?" A voz de Will Dixon ecoava na minha cabeça, era como um pesadelo, mas eu estava acordado.
— Daryl? Você está bem? — Natalie perguntou, mas eu mal percebi que era ela, não naquele momento.
Tentou tocar meu rosto e eu segurei seu pulso no ar, podia sentir os ossos dela sob os meus dedos, tamanha a força do meu aperto.
— Por que você não me deixa em paz?! — Gritei, mas não era pra Natalie, as imagens se confundiam na minha mente.
— Tudo bem, Daryl. Tudo bem... — A voz soou longe, ecoado, como se a realidade fosse um sonho inalcançável e meus pesadelos tivessem se tornado reais.
— Não! — Praticamente rosnei. — Não te quero aqui.
Eu ainda segurava os dois braços de Natalie, quando finalmente foquei meus olhos nela. E foi como se eu visse um espelho se partir em mil pedaços bem diante de mim.
Ela estava assustada, as íris negras ainda mais redondas, sequer piscava. Abri as mãos lentamente e a soltei, meu corpo inteiro tremia.
— Eu vou... esperar você lá fora.
Saiu em passos apressados, fechando a porta atrás de si, e logo depois pude ouvi-la deixando o quarto. Tudo que consegui fazer foi me debruçar sobre o vaso, mas era como se a ânsia estivesse presa na minha garganta, como se eu fosse incapaz de colocar qualquer coisa pra fora.
Sentei no chão e fiquei encarando a porta por um tempo, pensando no que eu tinha acabado de fazer. Era só a porra de um banheiro, só a porra de um banho. Qual era o meu problema?
Me levantei com um tanto de dificuldade, abri o chuveiro e deixei a água correr, apenas olhando pra ela do lado de fora, ainda vestido. Eu devia ter ido embora.
Tudo que havia acontecido aquele dia começou a passar rapidamente na minha cabeça, era pra ter sido um bom dia se não fossem todas as minhas merdas. Talvez eu não devesse ter bebido tanto...
Talvez eu não devesse ter nascido.
Arranquei as roupas e me joguei embaixo da água gelada, como se isso fosse me trazer de volta ao controle. Porém eu não conseguia ficar lá, cada segundo naquele banheiro só aumentava minha agonia.
Apoiei as mãos na parede, tentando acertar minha respiração, mas tudo que consegui foi encarar aquele azulejo assustador. Fechei a água e comecei a socar aquela merda repetidas vezes, até que os nós dos meus dedos começaram a sangrar. Depositei toda a minha frustração ali.
Será mesmo que eu nunca conseguiria ter um dia normal? Todas as minhas desgraças voltariam pra me assombrar sempre que tudo estivesse indo bem? Vesti as roupas sem realmente prestar atenção, fazendo o possível pra manter minha mente e meus olhos longe dos azulejos.
Eu sabia que tinha sido um escroto com Natalie, a lucidez estava voltando aos poucos e eu conseguia pensar com mais clareza. Todas as merdas do meu passado sempre estariam entre nós, não tinha um jeito bom de lidar com isso.
Respirei fundo e finalmente abri a porta, não havia ninguém ali, fiquei um tempo parado no mesmo lugar, segurando a mão machucada, pensando no que fazer a seguir. Eu não sabia onde Natalie estava, talvez fosse melhor eu ir embora.
Saí do quarto, no mesmo momento em que uma porta no corredor se abria, Natalie saiu de lá, com os cabelos úmidos e uma toalha nas mãos. Era o outro banheiro da casa.
Nos olhamos por um tempo sem dizer nada. Até quando eu continuaria fazendo tudo errado? A atenção dela desceu para minha mão e eu cobri os dedos rapidamente.
— Posso entrar? — Apontou o quarto atrás de mim, com um leve sussurro.
Dei um passo para o lado, totalmente sem jeito. Eu praticamente tinha expulsado a garota do próprio quarto, que tipo de idiota eu era?
Natalie passou por mim, jogou a toalha molhada sobre a penteadeira e seguiu para o banheiro. Eu já tinha dado um passo para trás, no intuito de ir embora, quando ela voltou trazendo uma caixa metálica e se sentou na cama.
— Deixa eu ver sua mão? — Pediu, abrindo a tampa e pegando algodão e remédios.
— Eu 'tô bem. — Avisei, colocando as mãos para trás.
— Não, você não está... — Havia uma ponta de tristeza palpável na voz dela e eu não soube se aquilo era mesmo sobre minha mão, ou se era sobre mim no geral.
De um jeito ou de outro, era verdade.
Fechei a porta e me aproximei alguns passos, parando ao lado da cama. Natalie estendeu a mão pra mim, como se esperasse minha permissão. Assim que estiquei meu braço, ela apoiou meus dedos com delicadeza, pedindo que eu me sentasse com o olhar.
— Pode ser que arda um pouco. — Avisou, colocando o algodão embebido em algum remédio sobre os machucados, limpando tudo com calma.
Eu mal conseguia sentir a pressão que a mão dela fazia, tamanha a leveza de seus movimentos. Natalie continuou calada, embora olhasse pra mim vez ou outra, e tudo que eu conseguia fazer era me sentir péssimo.
— Eu machuquei você? — Tomei coragem pra perguntar, embora minha voz quase não tenha saído.
— Não do jeito que você pensa que machucou. — Respondeu calma, voltando sua atenção para minha mão, dessa vez passando um tipo de pomada sobre os nós dos meus dedos.
Aquilo significava que eu tinha machucado de alguma forma, certo? Era como se o ar tivesse areia e respirar fosse difícil. Eu tratei Natalie absurdamente mal, sem motivo, ainda assim ela estava ali, a expressão serena, cuidando de mim com tanto zelo. Eu não conseguia entender, e ao mesmo tempo, era como se eu estivesse levando vários tapas na cara.
Enfaixou minha mão delicadamente, os olhos focando em mim vez ou outra, percebi que estavam marejados. Eu queria que ela gritasse comigo, que me socasse na cara, que fizesse qualquer coisa menos aquilo.
— Vai manter a pomada no lugar e evitar que grude sujeira no machucado. — Explicou, guardando tudo de volta na caixa. Como se eu estivesse mesmo preocupado com a merda da minha mão.
Encarei o pulso dela por alguns segundos e estendi minha mão, na esperança que ela o mostrasse pra mim. Natalie me encarou com a mesma expressão serena, antes de fazê-lo, procurei por alguma marca do meu aperto, mas não havia nada.
— Por que não está brava? — Indaguei, em um fio de voz.
— Você passou a vida toda construindo muros ao seu redor, colocando limites pra manter as pessoas longe, eu cheguei e tudo que tenho feito é arranhar esses muros e desafiar seus limites, hoje foi um pouco demais e você revidou, não posso ficar brava por isso. — Esclareceu, sem me encarar, levando um tempo longo demais pra fechar a maldita caixa.
Ela devia ficar brava, devia estar furiosa, eu ia preferir isso, eu sabia lidar com a raiva, com o ódio das outras pessoas direcionado a mim, mas com aquilo...? Com aquilo eu não fazia ideia de como lidar.
— Eu só queria que você entendesse que independente das coisas que estão acontecendo entre nós agora, independente dos beijos e de do que mais possa ou não acontecer, nós ainda somos amigos, somos amigos acima disso. Eu estou aqui por você. Se quiser conversar ou se quiser ficar em silêncio. Pra qualquer coisa... — Ela segurou minha mão, um aperto firme, uma promessa. — Se quiser ir mais devagar, nós vamos. Se quiser parar com isso agora e voltar atrás, ainda podemos ser amigos. — A voz dela travou na garganta por um momento e eu posso jurar que vi uma lágrima brilhando no canto dos olhos negros. — É o seu tempo Daryl, suas regras, eu estou esperando suas decisões.
Tirei minha mão da dela e levantei, começando a caminhar de um lado para o outro, um tanto exasperado, minha mente simplesmente não conseguia entender aquilo.
— Por que? Por que você ainda está esperando? Me esperou voltar de Malcon, me esperou hoje, por que? — Joguei minha mão no ar em um movimento brusco.
— Você sabe por que, eu disse hoje de manhã... — Natalie respondeu com um suspiro curto, por um momento pareceu cansada.
— Você não devia gostar de mim. — Adverti, ainda andando de um lado para o outro sem conseguir encará-la.
— Por que eu não devia gostar de você? — Cruzou os braços e tombou um pouco a cabeça.
— Você ainda pergunta? — Ergui um pouco a voz, incapaz de manter meus pés parados. — Já viu minha vida? Eu não sou ninguém, Natalie, eu mal terminei a escola. Eu sou só um caipira fodido...
— Para. — Me interrompeu, erguendo a mão na minha frente, porém sem me tocar. — Você pode não se achar bom o bastante, mas eu não me importo, porque eu acho que você é sim. Todo mundo tem passado e demônios debaixo da cama, seja lá quais forem os seus, eu...
— Você não pode lidar com eles. — Deixei claro, cortando a frase dela no meio.
Eu mesmo não podia lidar com os meus próprios demônios, Natalie jamais conseguiria.
— Talvez você deva deixar eu mesma decidir isso. — Deu de ombros, como se fosse algo perfeitamente simples.
— Talvez eu não queira te contar.
Nos calamos, eu parei de andar, Natalie suspirou, meneando a cabeça como se eu fosse incapaz de entender o que ela queria. Talvez eu fosse mesmo...
Deu dois passos na minha direção, ergueu a mão no intuito de tocar meu rosto, mas hesitou um instante antes de fazê-lo.
— Eu não estou pedindo pra você compartilhar seu passado comigo, Daryl, se você quiser eu vou estar aqui pra ouvir e apoiar, mas não é o seu passado que eu estou pedindo... — Colocou as duas mãos no meu rosto finalmente, me fazendo encará-la e olhando fundo nos meus olhos. — Eu estou pedindo o presente. Hoje. Só isso. Um dia de cada vez.
— E se eu não poder te dar isso? — Devolvi, a voz tremendo e os punhos fechados.
Natalie soltou meu rosto e deu de ombros, meneando a cabeça.
— Então ainda seremos amigos... colegas... conhecidos... O que der pra ser. Eu não posso te forçar a gostar de mim, Baby Dix, eu só posso te dizer que eu gosto de você.
Por que tinha que ser tão difícil? Por que Natalie não podia simplesmente desistir? Por que ela tinha que ser tão boa em me fazer acreditar que aquilo daria certo.
— E se eu te contasse alguma coisa terrível, você desistiria? — Joguei, dando as costas, talvez assim ela se desse conta que meu passado não era tão colorido quanto o dela.
— Todo mundo tem passado, Daryl, eu nunca vou te julgar pelo seu, eu prometo.
Parei onde estava, para vê-la com mesma expressão calma. Eu sabia o que as promessas dela significavam, mesmo assim eu não podia simplesmente contar as coisas que eu escondia até de mim. Segurei a maçaneta, alternando meu olhar entre Natalie e minha própria mão.
— Eu não quero que você vá, Daryl, mas também não posso te forçar a ficar. — Levantou as duas mãos, dando um passo pra trás. Ela estava desistindo, finalmente. — Então se realmente quiser ir, eu ainda vou estar aqui amanhã.
Franzi as sobrancelhas, aquilo não parecia desistência...
— Esperando por mim? — Perguntei confuso.
— Sempre. — A resposta foi rápida e cheia de certeza.
Natalie não estava desistindo, ela estava me dando espaço.
Abri a porta e dei um passo pra fora, o corredor escuro me recebeu, eu só tinha que descer as escadas e ir. Olhei pra trás e Natalie ainda estava no mesmo lugar.
Eu nunca poderia contar a ela, ou a ninguém, o tinha acontecido comigo, mas talvez eu não precisasse... Talvez as coisas acabassem quando ela visse apenas uma parte de toda a verdade. Esse foi o meu pensamento quando eu voltei para o quarto e fechei a porta, mesmo que no fundo minhas mãos tremendo me mostrassem que eu ainda tinha esperanças.
— Eu quero te mostrar uma coisa... — Declarei baixo, a voz mal saindo da minha garganta.
Natalie assentiu brevemente, mas sua expressão dizia que ela não estava entendendo nada, principalmente quando eu tirei a camiseta. As sobrancelhas dela franziram, enquanto eu segurava a peça nas mãos e me virava, dando a ela uma visão total das minhas costas.
Silêncio. Eu prendi minha respiração e podia ouvir meus próprios batimentos. Ninguém jamais tinha me visto daquele jeito...
Cerrei os punhos enquanto, pela visão periférica, eu podia ver os pés descalços de Natalie se aproximando, o carpete deixava tudo ainda mais silencioso.
O pesadelo de mais cedo me assombrava, ao mesmo tempo em que eu queria que Natalie dissesse alguma coisa, eu tinha medo. Aquele era o fim, o precipício no fim da curva. Ela nunca aceitaria aquilo...
Um segundo pareceu uma hora.
Senti os dedos de Natalie tocarem minhas costas e eu arrepio gelado subiu pela minha espinha. As mãos dela, sempre quentes, estavam frias.
— Ainda acha mesmo que eu sou bom o bastante? — Indaguei amargamente, a raiva escorrendo por cada uma das minhas palavras.
— Claro que você é. — As mãos dela deslizaram pela minha pele e Natalie me envolveu em um abraço, encostando a cabeça nas minhas costas.
As palavras me pegaram de surpresa, não era o que eu esperava. Talvez eu tivesse ouvido errado, me desvencilhei de Natalie, para encará-la de frente.
— Eu tenho uma cicatriz também, lembra? — Comentou, como se soubesse da minha confusão mental.
— Uma. E não são como essas... — Retruquei de pronto, afinal uma coisa não tinha nada a ver com a outra.
Vesti a camiseta e respirei fundo, Natalie me encarava calada, mas havia algo em seus olhos... Era novo e poderoso, não era dó, eu conhecia dó muito bem, pessoas com dó nunca me olharam daquela maneira. Na verdade, eu não me lembrava de alguém ter me olhado daquela forma, nunca.
Ela me abraçou outra vez, forte, apertado, como se aquilo fosse bem mais que um simples abraço,
— O problema não são apenas as marcas que as cicatrizes deixaram na sua pele, o problema é a marca que deixaram no seu passado, não é? — Questionou baixinho e foi como se ela pudesse ler minha mente.
— Você disse que não perguntaria...
— Eu não vou. — Me cortou rapidamente. — Se você nunca quiser me contar, eu nunca vou perguntar, prometo.
A apertei mais forte, nunca ter que contar e, mesmo assim, não sentir que seria um fantasma entre nós, era um alivio sem tamanho, como se o peso do mundo fosse tirado das minhas costas.
Ficamos abraçados ali no meio do quarto por muito tempo, eu apertava Natalie contra o meu corpo, como se isso fosse provar a mim mesmo que ela era real, e que não sumiria de uma hora pra outra, como um sonho bom do qual somos obrigados a acordar. E ela me segurava da mesma forma, como se pudesse me proteger do mundo, como se precisasse me mostrar que ao lado dela sempre seria um lugar seguro.
Ergueu um pouco a cabeça e me beijou, doce, leve e carinhosamente, não mais que um toque dos lábios.
Não houveram mais perguntas, eu não falei mais no assunto e Natalie respeitou isso, sugerindo que terminássemos nossa noite vendo um filme, seguindo até o móvel onde a TV ficava, abrindo uma gaveta e tirando um DVD de lá. Sacudiu a caixinha, me mostrando a capa.
"Rei Leão" dizia o título, era esse animal que tinha ali.
— É um desenho... — Constatei, um tanto confuso. — Desenho é coisa de criança.
— Rei Leão não é um simples desenho, é um clássico! Vamos assistir, cantar Hakuna Matata e chorar na morte do Mufasa.
— Homens não choram. — Afirmei, encarando o chão.
— Seja lá quem te disse isso, é um belo mentiroso. Todo mundo chora, é uma reação natural do corpo, se os homens são chorassem teriam nascido sem glândulas lagrimais. — Explicou de nariz erguido, como se fosse uma professora ou algo assim.
Me mantive em silêncio e Natalie colocou o DVD. Se jogando na cama logo em seguida, arrumando travesseiros e cobertas, batendo no lugar vazio ao seu lado, me convidando.
Ainda fiquei parado ali, de pé, pensando que eu realmente não merecia alguém como Natalie Cooper na minha vida, mas, ao mesmo tempo, desejando que ela sempre estivesse ali pra mim.
Quando me sentei, ela passou as pernas por trás de mim, colocando alguns travesseiros pra que eu encostasse, de modo que eu poderia assistir ao filme praticamente deitado em seu colo, enquanto ela afundava os dedos no meu cabelo e acariciava minha cabeça.
Eu sequer me lembrava da última vez que alguém tinha feito carinho em mim, ou me tratado daquele jeito, era como se... eu fosse um garoto outra vez.
Enquanto o leãozinho chorava a morte do pai, lágrimas escorriam dos meu olhos também, mas eu sabia que não tinha nada a ver com o filme... Eu estava chorando por mim mesmo. Por tudo que eu tinha guardado.
Foi naquele momento que eu decidi, que Natalie Cooper era mesmo o meu lugar seguro.
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