Lifeless

2 Desastre em andamento


Ao chegar em frente a porta de seu lar, Aliza, a irmã mais velha dos dois, abriu sua bolsa feminina que de tão nova, ainda tinha aquele cheirinho de coisa nova que qualquer um perceberia ao cheirar, então procurou a chave de casa, mas como toda a rua estava escura por ainda ser muito cedo, tornava-se difícil de ver dentro da bolsa, se tornava mais difícil porque a chave era fina e não estava presa a nenhum chaveiro, quem dera estivesse presa à um chaveiro, talvez boa parte de todas as coisas ruins que aconteceriam tivessem sido evitadas. Depois de uma pequena busca que durou três minutos ela achou a chave que estava dentro de um bolso no interior da bolsa, Rick já estava impaciente, era muito tempo para pegar uma simples chave.

As três e vinte e cinco Aliza abriu a porta, e os fatos a partir daqui começam a acontecer muito rápido, as quatro e vinte cinco aquela casa já não teria mais o mesmo ambiente que parecia ser tão acolhedor como antes, os dois irmãos entravam agora na casa, fazendo o mínimo de barulho possível.

–Aliza, eu não sei você, mas eu estou morrendo de fome, eu preciso comer algo antes de dormir. – Rick cochicha com uma cara de quem precisa de comida urgentemente.

–Nossa garoto, para de fazer essa cara, ela assusta, mas já que tocou no assunto, eu também estou com fome, acho que não vou conseguir ter um cochilo bom se não fizer um rango agora. – Aliza cochicha de volta enquanto caminha com o irmão até a cozinha.

Os dois começam a ouvir um barulho um pouco baixo vindo da sala, eles vão até ela que fica encostada à uma escada em forma de "L" que leva ao primeiro andar onde todos os quartos ficam, o de Aliza, o de Rick e uma para os seus pai, e a cozinha, quando chegam a sala percebem que é só o aparelho televisor ligado.

– Que medo, mas aposto que o papai deve ter esquecido de desligar ou deixou ligado para espantar algum ladr... – Aliza estava falando quando é interrompida.

– Aliza, olha na TV, aquilo que o Stevie falou, a notícia sobre o fugitivo do manicomio! – Rick diz e sua expressão facial muda, a boca cai um pouco, talvez fosse fome, mas qualquer um diria que foi medo.

– Nossa, eu pensei que ele estivesse brincando, ter um cara desses solto por aqui é realmente de me trazer calafrios, não colocam nem uma foto dele para saber como ele é, para se caso vermos logo podermos fugir. – Aliza diz com medo e indignação por não colocarem uma foto do sujeito no noticiário, mas a fome ainda era maior que tudo isso e ela voltou a se dirigir a cozinha.

–Aliza, você vai fazer um sanduíche né? Prepara um pra mim também, por favor. – Rick diz com uma voz tão amigável que consegue até convencer a irmã.

Os dois ali embaixo começam a comer seus sanduíches enquanto assistiam a qualquer coisa que passasse na TV e só faltava meia hora para tudo dar errado, quem dera eu pudesse avisá-los de algo, eu diria para eles fugirem agora pois eu não suporto a ideia de dois jovens ainda tão novos passarem por tudo o que eles vão passar, mas infelizmente não há meio de avisá-los.

Os dois terminam de comer e sobem para seus quartos, o de Rick fica perto da escada e do lado direito do quarto de seus pais, ele logo dá boa noite para Aliza e entra em seu quarto, já o de Aliza fica à esquerda do quarto de seus pais, ela então caminha para seu quarto, mas no caminho ela ouve alguns gemidos vindo do quarto de seus pais, a porta do quarto deles estava meio aberta, ela pôs sua cara ali no espaço entre a porta e a parede e viu duas sombras de pessoas se movimentando em cima da sombra da cama, que estavam visíveis na parede entre a cama e o guarda-roupa e o único ponto acessível com a porta meio aberta.

–Eles devem ter tirado a noite para fazer sexo, já que acham que eu e o Rick ainda não chegamos. – Aliza pensa para si mesma e apesar de ter odiar ter pensado nisso, a ideia horrível dos dois fazendo isso não lhe saia mais da cabeça.

Ela então volta a caminhar para seu quarto, o adentra e tranca sua porta, anda até seu guarda-roupa que não tinha a parte de baixo, era do tipo que começava no próprio chão, tira seu pijama e se troca ali mesmo, estava tão cansada que até deixou o banho para algumas horas mais tarde, se deita em sua cama e no mesmo momento dorme, mas só conseguiu tirar um pequeno cochilo de no máximo quinze minutos, pois um barulho que ela com certeza podia dizer que veio do quarto de seus pais a acordou.

Aliza saiu de seu quarto e foi ao de seus pais, mas quando ela chega em frente a porta, seus olhos crescem de um jeito que parecia expulsar as pálpebras de perto deles, sente uma enorme vontade de gritar, mas preferiu não fazer isso, suas pernas começaram a tremer tanto e por pouco ela não urina em suas próprias calças, o que ela viu foi uma poça de um brilho tão avermelhado como o escarlate escoando por de baixo daquela porta meio aberta, a ideia de entrar no quarto e ver o que estava acontecendo passou rápido pela sua cabeça, mas logo foi negada.

Decidiu então correr para o andar de baixo e quase tropeçava em cada degrau daquela escada que ela subia e descia todos os dias rapidamente, mas nesse momento aquela escada parecia ser tão longa, correu direto para o telefone e abriu os braços, parecendo mais que queria abraça-lo e não usá-lo, quando o tirou do gancho e o pôs no ouvido, viu que ele não fazia nenhum barulho, percebeu que a linha tinha caído, ou provavelmente alguém a tivesse cortado, seu desespero foi tão grande que ela correu direto para a porta de frente da casa, mas a porta estava trancada e era daquelas que mesmo pela parte de dentro da casa teria que usar a chave para abrir.

–Droga, cadê a chave? – Aliza repetia tantas vezes enquanto esperava que uma hora lembrasse.

Ela então pensou que estaria pendurada pelo chaveiro naquele prego que havia em cima de sua cama, esquecendo que aquela chave não estava presa a um chaveiro, ela subiu as escadas e viu que aquela poça que escorria, com certeza era de sangue e que já estava bem maior que antes, andou rapidamente ao seu quarto, mas viu que a chave não estava ali, mais uma vez ia em direção as escadas, mas ouviu o mesmo tipo de barulho que tivera ouvido anteriormente, apesar de estar com medo acumulou forças e bateu na porta do quarto de seu irmão

–Rick, abre essa porta, abre essa porta agora! – Aliza tentava falar com um tom de voz normal, mas enquanto aquele barulho se repetisse ela não conseguiria, começou a gritar, repetindo a mesma frase.

Mas seu irmão não abria a porta, não importa o quanto ela gritasse, ela correu para o seu quarto.

–Eu posso te ouvir e já irei até você. – Uma voz que era um pouco grave e que parecia rouca, mas ao mesmo tempo difícil de ser detalhada foi ouvida, mas não era conhecida.

Aquela voz lhe meteu tanto medo que Aliza correu chorando para seu quarto, trancou sua porta enquanto olhava para os lados, pensou em pular a janela de seu quarto, mas era daquelas totalmente de vidro e deixava qualquer um do lado de fora ver o interior de seu quarto se não tivesse aquelas persianas cobrindo ela.

Apesar de ser uma garota muito inteligente, Aliza era também uma garota muito medrosa, pensou em usar seu abajur que tinha comprado com tanto carinho para gastar menos energia enquanto lia seus livros toda noite para quebrar a janela e pular para o lado de fora, mas a altura era grande, e o barulho talvez só atraísse mais rápido o dono daquela voz que tinha lhe dado tanto medo, ela pensou também em se esconder de baixo da cama, mas era o primeiro lugar que ele iria procurá-la, sem sombra de dúvida, o que lhe restou foi aquele guarda-roupa, ela entrou nele e pegou a maioria das roupas presa aos cabides e se cobriu com elas, ficou ali por uns dez minutos, até ouvir o barulho de algo colidindo com sua porta.

– Onde está você? Estaria... de baixo da cama? – O dono daquela voz fala enquanto se põe a bagunçar a cama da garota, tanto por cima quanto por baixo.

– Aqui ela não está! Onde mais ela poderia ter se escondido, afinal aqui só há essa cama e esse guarda-roupa. – O dono da voz fala enquanto parece soltar uma risada, mas eu diria que era muito estranha para uma risada.

Ele vai direto para o guarda-roupa e o abre, mas se desaponta ao ver que ali só há um monte de roupas bagunçadas.

–Ela não está aqui, para onde ela foi? – O dono da voz se retira do quarto e começa a procurá-la em outra parte da casa, ou até mesmo a ir embora, foi o que Aliza pensou.

Aliza nunca se sentiu tão aliviada na sua vida, ela começou a derramar lágrimas como nunca tinha derramado antes, mesmo com medo e embaixo de todas aquelas roupas, mas de repente, as roupas que estavam em cima dela, foram jogadas por todo o quarto.

–Brincadeira, eu sabia que você estava aqui, eu tinha ouvido sua respiração. – Uma pessoa com os olhos vermelhos fala e Aliza percebe que era a mesma voz de antes, aquela que lhe deu tanto medo.

–Quem é você? O que é você? – Aliza pergunta soluçando tanto em lágrimas que sua fala quase não saia.

–Quem sou eu, você pergunta, eu sou Jôe, já o que sou eu, você quer saber, eu sou apenas mais um e agora... você também será só mais um – Jôe fala enquanto agarra Aliza pelo braço e pelo pescoço, ele a estava sufocando, apertava tão forte que a marca de seus dedos criavam feridas onde estava sendo apertado, mas nada podia ter sido feito para evitar, ele era forte demais mesmo tendo braços tão finos.

Aliza fecha os olhos como se nunca mais fosse enxergar com eles novamente. Porque ela não tinha posto aquela chave em um chaveiro? Isso talvez tivesse sido evitado, ela era tão jovem, tão bonita, tão inteligente, eu gostaria de terminar essa história aqui, já é coisa de mais para ser lido, mas tenho o dever de dizer já que cheguei até aqui, que felizmente algumas semanas depois algumas pessoas a viram andando em um lugar bem distante dali, mas infelizmente eu informo a vocês que pelo menos um pedaço dela havia ido embora naquela noite, pois naquele exato momento Aliza havia morrido.