Aquela voz... Karina não a ouvia desde que estava para se formar no colégio. Quase sete anos desde a última vez em que havia pousado seus olhos em Pedro Ramos. Os mesmos olhos castanhos e cabelos desgrenhados, porém mais curtos que antigamente.

“Karina Duarte, quem diria?” Ele se aproximou com Annie em seus braços, aquele sorriso que o fazia fechar os olhos. “E quem é essa mocinha?”

“Minha afilhada, Anabella.” Ela respondeu gaguejando e puxando a menina para si. “O que eu já falei sobre sair correndo desse jeito, hein?”

“Desculpa, tia.” A baixinha sorriu travessa. “Agora posso ir ver as coisas?”

“Devagar, está bem? E com cuidado para não trombar em ninguém.” Pediu a loira, colocando-a no chão e vendo a afilhada sair correndo.

“Quantos anos?” Perguntou Pedro, fazendo Karina ter que encará-lo.

“Cinco, hoje.”

“Eles costumam ficar mais mandões e exigentes nessa idade, querendo organizar a festa inteira sozinhos.” Contou o rapaz, rindo. “Então se prepare, porque ela vai querer fazer tudo diferente do que você propuser.”

“Você virou expert em crianças?” Questionou a loira, ouvindo uma gargalhada.

“Fiz algumas matérias de pedagogia, para ser honesto. Preciso ter algum conhecimento para poder administrar a loja e lidar com o público alvo imprevisível.”

“A loja é sua?” O rapaz assentiu.

“Meu padrinho a fundou antes mesmo de eu nascer e dedicou sua vida à ela; nunca se casou ou teve filhos, já que dedicou todo o seu tempo ao negócio. Quando ele morreu, dois anos atrás, eu herdei tudo isso.”

“Mas e a música? Sua família?” Karina não conseguiu controlar a curiosidade.

“Meus pais e minha irmã estão morando em São Paulo, ele acabou reabrindo o Perfeitão por lá. E eu desisti da música alguns anos atrás, logo que comecei a faculdade. Eu adorava tocar e tal, mas infelizmente prazer não paga as contas.” Ele explicou, sorrindo amarelo. “Mas preciso admitir que me encontrei com a loja. Os tampinhas me fazem bem.”

“Sei como é... Ah, como sei.” Suspirou a loira, sem encará-lo.

“É a filha da Mari, não é? Da Mari e do Franz.” Karina concordou. “O João me contou; sinto muito pelo que aconteceu com o Franz, de verdade. Não cheguei a conhecê-los bem, mas o João falava muito bem dos dois e me contou o que você e a Jade fizeram. Uma atitude muito nobre, se me permite dizer.”

“Foi a coisa certa a se fazer, só isso.” Ela pareceu sem graça com o elogio. “Mas você falou do João; tem tido notícias dele? eu sou enteada da mãe dele e quase não tenho notícias do cara.”

“Ele está bem. Me ligou ontem, aliás.” Pedro riu. “Desde que ele e a Fabi foram para Nova York, para ele fazer engenharia da computação na Universidade Columbia, eles...”

“Pedro, eu sei o que ele está fazendo por lá, não sou tão desinformada assim.” Os dois riram juntos.

“Bom, então eis aqui algo que você não sabe: a senhoria será titia, Karina.” Ela arregalou os olhos e abriu a boca em um perfeito O. “Pois é, reagi da mesma forma. O cara mal para em casa de tanto que estuda e trabalha, e ainda sim conseguiu engravidar a Fabi.”

“Não é preciso muito para essa façanha, sabe como é.”

“Sei bem, obrigada.” A loira corou ao ouvir aquilo. “Hã, e da Sol? Você sabe alguma coisa?”

“Não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe.”

“Hum, percebi mesmo que você tinha certa raiva de mim.” Ele comentou, recebendo uma revirada de olhos. “Mas isso você vai gostar de saber: ela também teve um bebê, pouco depois da Mari ter a Anabella.”

“Como é que é?” A voz da jovem se ergueu algumas oitavas.

“A Fabi reagiu da mesma forma. Adicionei o Wallace no Facebook algum tempo atrás e descobri. Eles na verdade tem três filhos até o momento.”

“Três? Virou chocadeira?” Ela estava chocada. “E a tal carreira de cantora? A carreira brilhante que ela teria? Meu Deus, o quanto ela importunou a Mari com isso.”

“É a Lei de Neutróns: tudo o que vai, volta.”

“É Newton, gênio. E está certo, é bem feito para aquela sem noção.” Karina corrigiu o rapaz aos risos, enquanto procurava Anabella com os olhos. Encontrou-a revirando os convitinhos, o rostinho irritado por não achar o que queria.

“Você vai me bater se eu disse que você está muito bonita?”

“Eu não bato em ninguém há muito tempo, moleque, pode ficar tranquilo.” Ela corou levemente, sorrindo de lado. “E você também não está de se jogar fora.”

“Não deixe seu namorado te ouvir falando isso.” Ele jogou verde, recebendo uma gargalhada.

“Sem namorado, Ramos. Sou livre como um passarinho, atarefada como uma formiga. Meu relacionamento mais sério é com a Annie.”

“Fantástico. Te pego às oito.”

“Você o quê?” Ela guinchou, enquanto ele começava a se afastar.

“Eu vou entrar no meu carro, dirigir até a sua casa, esperar você entrar no meu carro e nós vamos a algum lugar bem maneiro. Entendeu agora?” Ela balançou a cabeça, ainda meio desorientada. “Maravilha... Hey, Annie... Que tal uma ajudinha do tio Pedro?”

“Só eu posso chamá-la de Annie, moleque.” Gritou a loira, assim que encontrou a voz.

“Por enquanto, esquentadinha, por enquanto.” Ele rebateu, pegando a menina no colo e saindo andando, enquanto a moça tentava controlar as batidas do coração.

Já no escritório da GND, Jade também reencontrava um fantasma de seu passado. Um fantasma muito bonito e charmoso, tinha que admitir.

“Ricardo Cobreola.” Suspirou a jovem, chocada.

“Jade Gardel, você por aqui?” Perguntou ele, afundando as mãos nos bolsos da calça.

“Bom, essa empresa é minha, não tinha muito mais onde eu estar.”

“Você virou organizadora de casamento?” Ele se surpreendeu, sentando na cadeira à sua frente e cruzando as mãos sobre a mesa. “E sua carreira de bailarina?”

“É uma longa história. Fiz algumas escolhas mais sérias e realistas, e cá estou eu.” Ela indicou sua mesa com as mãos, sorrindo de lado. “Mas me diga... Ariana Borges? Santa paciência a sua.”

“Isso é coisa que se diga para o noiva de uma das suas clientes?” Questionou Cobra, rindo divertido.

“Olha, meu querido, depois de três reuniões com aquela hiena esganiçada, as meninas da recepção fizeram uma aposta sobre como era o noivo dela. Todas perderam, porque os lances foram de um gordo desesperado à um velho cafona.” Ela relatou, seu sorriso maldoso. Ele sorriu amarelo, baixando a cabeça. “Xii, vagabundo fazendo pose de coitadinho? Tem algum coisa errada.”

“Várias, dama.” Admitiu ele.

“Fecha a porta que eu abro meu depósito secreto de bebidas.” Ela sussurrou, pulando de sua cadeira. Cobra riu, indo até a porta e a fechando. “Vodca, tequila, uísque?”

“Pode ser vodca.” Ele pediu, vendo-a pegar duas garrafinhas pequenas. “Não sabia que você bebia.”

“Acrescentei álcool na minha dieta há alguns anos, sabe como é... Tem horas que um bom porre é um santo remédio. E nesse momento, você tá precisando praticamente de uma curandeiro.” Ela entregou a garrafinha para ele, indicando uma pequeno sofá ali no canto. “Muito bem, Cobra, desembuche.”

“Lembra quando eu larguei o treino e voltei para a casa dos meus pais? Que eu queria ajudar eles dois e os meus irmãos?” A jovem concordou. “Bom... Eu ajudei meu pai a conseguir um bom emprego, em uma cidade maior na região onde morávamos. O plano era esperar eles se estabilizarem para eu poder voltar para o Rio. Acontece que as coisas começaram a ir rápido demais para não duvidarmos. E não tardou para a Ariana entrar na história.”

“Posso brincar de adivinhação? Ela era filha de algum chefão da empresa e se interessou por esse vagabundo mal acabado?” Ele nem riu da provocação, apenas concordou com o olhar perdido ao longe, bebericando sua vodca.

“Você já percebeu que ela é o pior tipo de patricinha mimada, não é? O papai logo começou a ajudar e promoveu o meu; e obviamente, logo ela veio atrás de mim. Eu a dispensei, e juro que fui muito educado. No dia seguinte o pai dela já encrencou com o meu e percebemos quais eram as regras do jogo.”

“E se sujeitaram a elas? Ou melhor, você se sujeitou a alguma regra?”

“Jade, quando eu cheguei lá minha família estava quase passando fome. Eduardo Borges é o cara mais influente de toda aquela região, manda e desmanda com um estalar de dedos. Se ele pegasse birra com a minha família, meu pai não conseguiria nem vender garrafinha de água na rua que a polícia já daria um jeito de enquadrar ele.” Explicou o antigo lutador, frustrado.

“Olha, já ouvi motivos loucos e absurdos para as pessoas se casarem, mas você conseguiu superar todos.” Comentou a dançarina, impressionada.

“Meu sogro sutilmente me forçou a isso, sabe como é? Já que ele também é meu patrão.”

“Você está trabalhando?” Guinchou a morena, surpresa.

“Me formei em direito dois anos e meio atrás. Sou um dos principais advogados da companhia do meu sogro, enquanto meu pai se especializou em administração e é um dos cabeças nisso.” Contou, mexendo na garrafinha. “Minha irmã está estudando contabilidade e meu irmão fazendo técnico em administração; os dois também vão trabalhar para os Borges, e assim ele vai ter o comando de toda a minha família.”

“Vagabundo, eu só posso dizer que tenho muita pena de vocês.” Suspirou Jade, lançando um olhar solidário para o amigo. Ele sorriu agradecido, virando mais um gole.

“E você e o Lírio? Já estão casados ou também está organizando a festa?” Perguntou, tentando mudar de assunto.

“Nós rompemos alguns anos atrás, quando ele foi para São Paulo. Ele está noivo da Joaquina, atualmente.” Ela desviou o olhar de Cobra enquanto falava.

“Caramba... Vocês já estavam juntos há o que, uns dois anos quando eu sai daqui? Não imaginei que algo assim iria acontecer.”

“Hã, aconteceu uma pequena mudança inesperada nos planos...”

E pelos minutos seguintes ela narrou tudo o que havia acontecido nos últimos anos: a gravidez de Mari, o apoio que ela e Karina lhe deram, a morte de Franz, a decisão de morarem juntas, a partida de Lírio...

“Você e a Ka parecem gostar mesmo da tampinha.” Comentou o rapaz, vendo a foto das três amigas com a criança no colo.

“Ela é como um anjo, entende? Um raio de luz ou algo assim, não sei descrever. Ela nos faz sorrir até nos melhores dias; e francamente, às vezes parece até que ela é um pouco nossa filha.” Respondeu a moça, um sorriso apaixonado no rosto.

“Às vezes eu paro e penso se nós dois poderíamos ter dado certo.” O comentário inesperado a surpreendeu, fazendo-a suspirar e encará-lo com pesar.

“Cobra, nós conversamos sobre isso naquela época. Eu estava com o Lírio havia anos, como você mesmo disse, e logo que começamos a nos envolver você foi embora. Você prometeu que iria voltar para nos acertarmos, mas não voltou. E eu amava o Lírio, não duvide disso.”

“Eu não duvido que você amava o Lírio, mas eu sei que também sentia algo muito forte por mim. E você pode negar o quanto quiser, eu sei a verdade desde aquela tarde na coxia da Ribalta.” Ele se levantou, deixando a garrafinha e o porta-retratos sobre a mesa. “Acho que o tempo da nossa reunião acabou, eu preciso ir.”

“É melhor mesmo.” Concordou a morena, sem sequer encará-lo. Ele saiu a passos duros do escritório, batendo a porta atrás de si. Jade suspirou, se levantando e voltando para o armário de bebidas. “Acho que preciso de outro drink.”

Quando finalmente deu 17h, Jeff deixou Anabella na agência e seguiu para sua quitinete, para poder se arrumar e ir encontrá-las para jantar na pizzaria favorita da afilhada. A criança contava sobre seu dia de maneira eufórica, enquanto Karina dirigia no caminho para casa.

“E então nós fomos para a loja de coisas para festa; e mamãe, tinha tanta coisa linda lá. E eu escolhi tudo para a festa e a madrinha conseguiu um encontro.” Tagarelava a criança, feliz da vida.

“Encontro, Ka? Com quem?” Mari perguntou, já que Jade parecia alheia a tudo.

“Pedro Ramos.” Respondeu a loira, mortificada.

“Como?” Jade saiu do transe depressa, gritando junto de Mari.

“Ele é o dono da loja e nos encontramos quando a Annie trombou com ele. Nós conversamos um pouco e ele me chamou; melhor dizendo, praticamente me intimou a sair com ele.” Explicou a jornalista, corada.

“E ele me deu todas as coisas da festa de presente, sabia, mamãe? Eu convidei ele para vir, mas como convidado. Porque ele vai na festa das outras criança para se vestir de palhaço e brincar com elas, não é legal?”

“Claro que sim, querida.”

“Bom, então alguém resolveu invocar espíritos do passado. Ricardo Cobreola apareceu no meu escritório hoje de manhã, porque ele é o noivo de Ariana Borges.” Contou Jade, suspirando e recostando a cabeça no encosto do banco.

“O Cobra?” Questionou Karina, interessada. Afinal, não é todo dia que um dos seus melhores amigos da juventude reaparece.

“Da Ariana Borges? Que raio de castigo divino é esse?” Perguntou Mari, rindo.

“Ah, caipirinha, o buraco lá é muito mais embaixo do que podemos imaginar. Afinal, ela é uma princesinha mimada pelo papai.”

“Daqui a pouco vamos ter um reencontro do pessoal da Fábrica, não é possível.” Riu Karina, parando o carro na garagem da casa. Como seu carro era o maior, haviam deixado os de Jade e Mari no estacionamento perto da empresa, para não ficarem na rua durante a noite.

“Quero é saber quem vai ser o gatinho do meu passado que vai reaparecer.” Mari brincou, enquanto as quatro desciam do carro.

“Ele aparece todos os dias na hora do café para pegar sua filha e levar para a escola; você só precisa baixar a guarda e dar uma chance para vocês.” Karina foi dura e sincera, enquanto ela e Jade iam para dentro de casa com Annie.

“Quem me dera fosse fácil.” Suspirou Mari antes de segui-las.

Notas finais
PRONTO SUAS DESESPERADA, PEDRO E COBRA CHEGARAM PARA ALEGRAR A VIDA DE TODAS. E chegaram chegando, né gente? Enfim, tá aí o capítulo, to morrendo de sono, então ficamos com as notas por aqui. Lembrem de curtir a page no face, ok? See you ;* https://www.facebook.com/fanficswaalpomps