Life Of Death - Ritual das Quatro Luas
3 Primeiro Dia
QUATRO DIAS MAIS IRONICOS PARA REALIZAR COLHEITAS
1-Aniversario do falecido.
2-Natal (já que neste dia Ele nasceu)
3-Páscoa (já que neste dia Ele voltou dos mortos)
4-Finados (tem ironia maior?)
Acordei e me arrumei para o primeiro dia de aula. Usei minhas roupas de sempre. Zack também usou uma roupa do mesmo estilo. Aparentemente naquela escola não se usava uniforme. A escola chamava Stovington Highschool, e era como qualquer escola colegial da América. Armários, salas de aula, torre do relógio, pátio imenso com uma única arvore no canto. Coisas assim.
Zack me levou para a sala de aula. Sentei-me ao lado dele, pois não conhecia ninguém e estava nervoso. Ele me disse para relaxar. Dei-me o trabalho de não tirar o capuz, pois assim me sentia um tanto quanto invisível. A primeira aula era Álgebra. Lembro-me de quando Bhaskara me ensinou álgebra em troca da vida dele. Aprendi muitas coisas e em troca ensinei a ele que a Morte sempre cumpre seu trabalho. Mas por algum motivo tive branco. Era como se nunca tivesse aprendido nada daquilo na lousa. Ocorreu-me uma idéia: talvez, por ter me feito humano, só saberia o que um humano da minha idade deveria saber. Parece que eu estava correto. Naquela aula aprendi muitas coisas que já sabia.
Pensei que ninguém ia me notar, mas faltando cinco minutos antes do primeiro sinal a professora olha pra mim e diz:
-Vejo que temos um aluno novo. Venha aqui na frente e se apresente. Qual é o seu nome? De onde você é? Em que escola você estudava.
-Me chamo Azrael Mávet. – realmente não sabia o que dizer. Então comecei a enrolar. – Eu sou de Heavenfield (é claro que essa cidade não existia) e me mudei pra cá a pouco tempo. Eu... eu.. eu estudava na... – fechei os olhos. Eu não estudava em lugar algum. E se eles soubessem disso, quem sabe o que ia acontecer comigo. Eu precisava dizer algo. Então me veio a luz: — Eu estudava em casa.
-Á... educado em casa? Que tradicional. Azrael? De onde esse nome me soa familiar?
-Azrael é o Anjo da Morte professora. – respondeu uma garota no fundo da sala. – Quer dizer... Arcanjo da Morte.
-Sério!? – a professora disse surpresa. – que nome mais estra... interessante!
O sinal bateu e fui me sentar. Tive que me apresentar varias vezes o que foi cansativo e entediante. Mas no intervalo eu pude descansar. Zack me convidou para sentar com ele junto à árvore. Ouvi então uma voz:
-Então o garoto com o nome da Morte é teu amigo, Zack? – era a garota da sala de aula que sabia sobre meu nome. Ele tinha cabelos de um ruivo metálico, longos e lisos que alcançavam a cintura, seus olhos eram pretos e tinha sardas (não daquelas feias e em grande quantidade, mas das pequenas e fofas) sobre o nariz e a bochecha. Ela usava saias de prega de um azul acinzentado, uma blusa de manga curta branca amarelada e tênis. Sobre seu rosto havia um óculos de armação fina e prateada. – Olá, meu nome é Elise Callaghan, mas me chame de Éli. Prazer em conhecê-lo, Azrael.
-Ei, pode me chamar de Azry. E o prazer é meu Éli. Você é muito inteligente. Sabe até que o Azrael é um Arcanjo e não um Anjo.
-Sou fascinada por essas coisas mitológicas e teológicas. Principalmente coisas relacionadas ao Ocultismo ou Demonologia. – ela então acrescentou. – Só estudo, não pratico.
-Ela é mesmo inteligente. – Zack então disse. – Mas ainda assim não é um gênio. Só quando se tratam de história ou essas coisas de monstros e tal.
-Disse o moleque mais burro da sala.
-Eu não sou burro! Semestre passado nem fiquei de recuperação!
-Passou raspando... – ela virou os olhos. – Nem sei por que sou sua amiga.
-Vocês dois parecem se odiar. – eu comentei. Zack então me corrigiu:
-Não exatamente. Só brigamos às vezes.
-Por “às vezes” ele quer dizer quase sempre. Mas fazer o que? Sou amiga desse tapado desde o jardim de infância.
Espero que eles não me tratem do mesmo jeito que se tratam, pensei. Mas era bom finalmente ter amigos. Apesar de eu ter muitos irmãos, nós anjos não conversamos muito. Eu principalmente raramente encontrava alguém pra conversar, considerando que meu trabalho era 24/7 e sem direito a férias. Sem falar que entre os anjos, eu não era muito bem visto.
-Azry, já que você é novo aqui você podia sair com a gente à noite. – Éli me propôs. – Sábado à noite (era quinta feira) vai ter uma festa muito boa aqui na cidade. Não uma festa exatamente, mas uma...
-...Festival da Lua Nova. – Zack interrompeu. Perguntei o que era aquilo. – Essa cidade mantém muitas tradições culturais, especialmente religiosas e místicas. O Festival da Lua Nova era um...
-...É um Festival que ocorre em toda a oitava Lua Nova do ano. Antigamente, na época da fundação da cidade, esse festival cultuava o morrer e renascer, e o poder do espírito. Eu te explico mais no festival, isso é se você for.
-É claro que ele vai! Você vai né, Azry? Além do mais, já que você já ta ficando na minha casa, você num vai ficar sozinho. Meu pai e minha mãe também vão.
Eu realmente não sabia se devia ir. Jamais tinha ido a uma festa, e estava com medo de fazer algo que estragasse todo esse negocio de ser humano. Mas na hora em que fui recusar três coisas aconteceram:
1-O céu escureceu muito de repente e o ar se tornou pesado.
2-Um som muito estranho cortou o ar. Era como um zumbido intenso e agudo misturado com um sussurro e algo similar ao barulho de um trem brecando durante uma corrida em alta velocidade.
3-O vento soprou forte demais.
Ninguém pareceu notar o acontecimento. Era de se esperar, já que nenhum humano normal poderia perceber aquilo tão intensamente quanto eu. No máximo eles se perguntariam de onde veio a sombra e teriam uma sensação estranha, mas para a minha surpresa Zack se virou para mim e disse:
-Nossa! Como ficou escuro de repente. E que raio de zumbido é esse? Ta ouvindo? – ele, com certeza, podia ver e ouvir mais do que um humano normal devia. Aquilo me intrigou. – O que será que ta acontecendo.
-Ele está vindo. – respondi seriamente olhando para o céu preocupado.
-O que? Quem está vin... – Éli parou de falar repentinamente. Estava totalmente paralisada. Todos estavam. O Mundo estava paralisado. O Tempo parou. A grande luz que pairava no céu desceu até o centro do pátio como um raio, mas tocou suavemente o chão. E então ela diminui vagarosamente e no lugar onde caiu estava uma mulher loira de cabelos cacheados e vestido branco longo, descalça. Aproximei-me dela e falei:
-Há quanto tempo. – minha voz estava tão séria que me assustei. Não falava daquele jeito a dois dias, quando deixei de ser anjo. – O que te traz aqui, Gavri’el?
-O que sempre me traz a Terra dos Homens, Azra’il. – ela disse solenemente. – Sou o Mensageiro do Senhor, e vim aqui lhe trazer uma mensagem.
-Bela forma você escolheu Gavri’el. – comentei. Gabriel geralmente toma a forma de mulheres, apesar de ser referido como homem na maioria dos lugares em que aparece. Ela é um dos poucos anjos dosexo feminino. Mas isso não a impede de aparecer como homem para alguns. – Qual é a mensagem do Senhor?
-Azra’il, vim aqui para lhe avisar que amanhã tu realizaras a primeira Colheita como humano. Pegue o teu Livro e nele verás a data, à hora, o local e quem deveras ceifar. Ah sim, Azra’il, também lhe trago um aviso importante. – a voz dela era serena, e isso me deu arrepios. – Sabes muito bem que um anjo não pode andar entre os vivos sem tomar por posse um corpo. Estou aqui sem um corpo porque aqui é o Limbo então posso tomar a forma que bem me convém aqui. Mas tu estas no Mundo dos Homens e não tomaste posse de ninguém. Caíste aqui e se fizeste humano, e por isso está fadado ao destino dos humanos. O destino que tu trazes a todos. Morte. Mas fique bem avisado, não estás aqui apenas porque pedistes, mas sim porque tens uma missão a cumprir. Se morrer, falharas e serás provavelmente castigado por isso. Lembre-se que não podes ceifar tua própria alma. E quanto mais tempo passar como humano, mais humano se tonaras e menos anjo serás. Já está sentido os efeitos da humanidade, correto?
-Que missão é esta, anjo? – eu perguntei. E estava mesmo começar a me sentir mais humano do que anjo, pois toda a minha vida como anjo agora era apenas uma lembrança em forma de sonho.
-Não sei. O Senhor não me contou.
-Mas como posso cumprir algo que não sei? – perguntei irritado. – E que me acontecera se morrer?
-Não tenho como responder. Sabes muito bem que nosso Pai, como diz o ditado, escreve certo por linhas tortas. – Ela então ficou séria e sombria. – E se morrer... provavelmente irás para o Vazio.
O mencionar do Vazio me fez tremer. Aquele era o pior lugar que alguém podia parar. Pior até mesmo que o Inferno. Gabriel então sorriu para mim e disse:
-Devias ir ao Festival da Lua Nova. Ouvi dizer que é uma ótima comemoração. E talvez ache as respostas que procure lá. – ela então fez a Foice se materializar na frente dela e me entregou dizendo – Aqui está. Espero que ainda lembre como usar. – ela então olhou para o lado. – Esta cidade... com certeza tem muitos segredos. – e então abriu suas asas brancas como a neve e ascendeu e sumiu.
Retornei ao meu lugar original antes de o tempo para e fiz minha Foice desaparecer. Na hora que tomei minha posição original o tempo correu novamente.
-...do? – Éli terminou sua frase, sem ao menos perceber o que havia transcorrido a pouco. Apesar de que para ela, não havia se passado nem um ictossegundo.
-Ninguém. – disfarcei. Então mudei rapidamente de assunto dizendo. – Adoraria ir ao Festival da Lua Nova. Para conhecer a cidade direito.
-Está feito então. A gente se encontra lá.
Voltamos para a sala de aula e sentamos os três próximos. Em menos de um dia já éramos grandes amigos. Mas ainda assim, nenhum deles sabia nada sobre mim. Sobre minha natureza e sobre minha atividade extracurricular que era trabalhar com colheitas. Colheita de almas.
Ao voltar da escola naquele dia pensei: Não só estou cheio de dever de casa como também tenho que ceifar almas em volta do globo. Isso vai ser mais complicado do que pensei. E com certeza é...
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