APENAS UM PEQUENO PEDIDO:

Não morram muito, porque isso me da um trabalho danado. Não morram especialmente nos fins de semana e feriados, porque daí não posso me divertir. Um arcanjo também precisa de descanso.

Atenciosamente: Azrael.

Ver aquele nome me gelou a alma (se é que tenho) e arrepiou meus cabelos. Não acreditava que teria que ceifar justo o garoto que estava me dando abrigo e também amizade. Era ma sorte de mais. Então me ocorreu que como era aqui perto, eu talvez pudesse evitar.

Atravessei a janela e cai no chão com força, mas não doeu ou simplesmente não liguei para a dor. Retornei do Limbo assim que toquei o solo e subi na bicicleta. Pedalei feito um louco. Foi horrível, pois para alguém que tinha acabado de “aprender” a respirar, ficar ofegante é uma terrível sensação. Sem falar de tudo mais que estava sentindo naquele momento que nunca havia sentido: calor, cansaço, dores musculares, suor, coração batendo tão rápido que chegava a doer, e aquele medo e angustia.

Mas foi como se todos os meus sentidos estivessem aguçados. Minha habilidade sobre a bicicleta havia melhorado do nada e conseguir desviar e passar por entre carros como se já fizesse aquilo desde quando inventaram a bicicleta. Lembro-me de quando ceifei o inventor da bicicleta, Karl Drais. Ele já não era mais o barão que um dia fora pois estava pobre. Não é pra menos, já que a bicicleta dele não tinha pedais. Quem iria comprar uma bicicleta sem pedais? Brincadeirinha! Ele ficou pobre por causa da Revolução Francesa. Trágico jeito de ficar pobre... não tão trágico quanto morrer, é claro.

Continuando...

Pedalei o máximo que pude, até minhas pernas parecerem gelatina. E então finalmente cheguei até o local onde logo ocorreria o terrível acidente. Uma construção, com grandes guindastes, vigas e tijolos. Já estava anoitecendo, o que dava ao lugar uma aparência assustadora.

-Zack! Você esta ai!? – chamei aos gritos. Nenhuma resposta.

Entrei na construção. Estava deserta. Comecei a procurar, pois tinha mais vinte minutos até o acidente. Procurei por todo o andar térreo da estrutura, mas não o achei. Resolvi subir até o primeiro andar. A construção era apenas o esqueleto de três andares do que, provavelmente, seria um shopping ou um prédio de escritórios no futuro. Havia grandes pedaços sem chão e pedaços que tinham apenas uma tabua de madeira para se andar. Grandes panes e redes funcionavam como paredes e divisórias.

Zack!? Aqui é o Azry? Onde você esta?

Nenhuma resposta novamente. Estava preocupado. O Livro dizia que ele iria morrer de traumatismo craniano após ser atingido por um grande bloco de concreto na cabeça. Iria doer muito, e tudo isso daqui a 10 minutos. Tinha que me apressar.

Não importa o quanto chamasse, ele não respondia. Subi para o segundo andar que estava ainda mais incompleto que o primeiro. Tinha que tomar cuidado para não cair. E chamava e chamava sem respostas, até que ouvi um som.

-Zack?É você? – sem respostas, mas o som soou mais alto.

Comecei a vasculhar o segundo andar inteiro, mas não achei a origem do som. Subi para o terceiro andar. Nunca tive medo de altura até aquele dia. Não havia chão, somente vigas e taboas. O vento estava forte.Agora podia reconhecer o som, era um choro baixo. E a origem do som era uma sombra encolhida no canto do edifício contra o sol. Dirigi-me até a sombra e vi então o que era.

-Zack!? Você está chorando?

-Eu num tô chorando! – o tom da voz dele dizia o contrario. – Vai embora!!

-Zack!? O que houve? Por que você ta chorando?

-Eu já disse pra você ir embora! – ele gritou. Podia sentir o ódio na voz dele. – Eu não quero falar com você!!

-Zack? Eu fiz alguma coisa de errado?

-Agora vai fingir que num sabe, é? – ele se virou para mim. Seus olhos estavam vermelhos. — Você sabe muito bem o que você fez! Eu vi você roubando a minha bicicleta! Você ia fugir com ela! E nunca mais voltar!

-Não Zack! Você entendeu errado. Eu não ia fugir. Só ia... ia...

-Você é igual a todos! Abandonam-me! Ninguém quer ficar perto de mim! Todos me odeiam! Pensei que você era diferente! Mas estava errado! VA EMBORA!!!

-Zack, vamos sair daqui! A gente conversa em um lugar menos perigoso! – faltava apenas 5 minutos.

-EU DISSE VA EMBORA!!! – E então o vento soprou muito forte e o boné de Zack voou longe. Ele tentou pegar e eu tentei segura-lo, mas não adiantou. Ele caiu.

-ZAAACK!!!!

Olhei para baixo. Ele ainda devia estar vivo, pois ele só iria morrer com o concreto na cabeça. Tinha que descer, mas tinha que ser rápido. Fiz uma loucura: pulei.

Durante a queda eu me transportei para o Limbo e usei a minha foice para segurar no primeiro andar. Com isso amorteci a queda e pousei levemente no chão. Voltei ao Mundo Mortal.

Ajoelhei-me do lado do Zack. A respiração dele estava fraca. Não pensava em mais nada, apenas segurei a mão dele e disse:

-Zack! Seu idiota! O que pensou que estava fazendo?

-Azry... você não ia... me abandonar... ia?

-Claro que não. Apesar de termos nos conhecido antes de ontem, você é meu amigo. Jamais te abandonaria. – Meus olhos ardiam e minha visão ficou turva. Nunca me tinha acontecido aquilo antes. Foi estranho. Estava chorando.

-Sabe... Azry... Eu... – ele tossiu sangue. – Eu... nunca tive amigos... só... a... Éli... e meus pais... sempre trabalhando... Azry... você foi... meu primeiro amigo... e acho que o ultimo.

-Não diga isso Zack! Ainda não é sua hora! Sua hora? Ó não! – me lembrei. Era a hora e nós ainda estávamos na construção. Zack era alvo fácil para o bloco de concreto. – Zack! Tenho que tirara você daqui! Rápido!

-Azry... Eu to com mede... de morrer...

-Você não vai morrer! – eu chorava muito. – Eu prometo!

-Será... que dói...?

-Não. – respondi sinceramente. – Não dói. É só como... tirar um cochilo.

-E... como... você... sabe? Já... morreu.. alguma... vez?

Fechei meus olhos.

-Nunca morri... mas já levei muitos deste mundo. Zack, eu sou o Anjo da Morte.

-Muito... engraçado... Azry... só porque... você tem o nome... – ele tossiu mais sangue. – da Morte.. não quer... dizer... que.. que.. você é a Morte... – ele sorriu. Um sorriso fraco e sem brilho.

-Zack... sinto muito... logo nos veremos de novo, amigo. – era à hora e não tinha conseguido tira-lo da construção. Olhei para cima. E o lugar onde havia fincado a foice estava cedendo. Um grande bloco de concreto se soltou e começou a cair. Tentei puxar o Zack, mas foi em vão. O bloco lhe acertou a cabeça. Ele nem gritou, se mexeu ou gemeu; apenas parou de respirar. O bloco se partiu em dois e pude ver o rosto de Zack. Seus lisos cabelos loiros estavam agora vermelhos pelo sangue. Seu rosto banhando de sangue ainda estava sorrindo.

-É agora. – suspirei. E então, já não estava mais entre os vivos. – Zack, eu prometo que não vai doer. Pelo menos conversaremos uma ultima vez.

Então ergui minha foice pronto para ceifá-lo. Mas na hora que foi desferir o golpe uma grande luz brilhou no céu sobre minha cabeça. E uma pomba branca como a neve e muito maior que uma pomba normal voou sobre a minha cabeça e pousou sobre um no trator que estava logo à frente. Ela tinha uma aura de luz e sobre sua cabeça havia uma pequena chama laranja.

Aquela visão me causou mais choro do que a morte de Zack, pois era tão bonita que todo o resto do mundo ficou cinza e escuro. Soltei minha foice e ela desapareceu antes de tocar o chão. E eu me ajoelhei e tomei posição de oração. A Pomba ficou imóvel apenas me olhando nos olhos.

-Senhor!! Fale comigo! – eu chorava mais que um bebê faminto. – Por que estas aqui nesta hora tão sombria?

Mas sem respostas. A Pomba simplesmente me encarava. Coloquei minha testa contra o chão, implorando por respostas. Mas a Pomba simplesmente abriu as asas e levantou vôo. Ergui meus olhos e vi que na porta do trator onde a Pomba havia pousado estava uma inscrição incandescente.

Filho,

o que esta escrito no Livro não pode ser mudado por ninguém,

somente por mim que sou Filho dos Homens e Filho de Deus.

E agora lhe concedo um Milagre,

uma Intervenção Divina.

-Intervenção Divina? – então notei, para minha surpresa, que já não estava mais no Limbo e sim no Mundo Mortal. Ouvi então Zack tossir ao meu lado. Ele estava limpo e curado sem nenhuma marca de ter caído ou levado uma “concretada” na cabeça. Nunca fiquei tão feliz na minha vida. – Zack! Zack! Você está vivo!!

-O que foi que houve?

Contei tudo que havia se passado. Ele lembrava vagamente dos fatos até sua morte. Contei sobre tudo, sobre minha verdadeira natureza, sobre eu virara humano, sobre o Livro, a Colheita, sobre a Intervenção Divina, tudo.

-Mas por que eu ressuscitei?

-Não sei... – responde seriamente. – Ninguém pode saber. Deus escreve certo por linhas tortas.

-Tem razão.

-Vamos pra casa?

-Espere! Tenho que te contar algo.

Zack me contou que o pai dele, por ser médico, e a mãe dele, por ser empresaria, jamais passavam o tempo com ele. Ele também não tinha irmãos ou amigos, a na ser a Éli, para lhe fazer companhia. Disse que não tinha amigos porque ele não era muito inteligente e era considerado um idiota pelos valentões, que batiam nele sempre e que só mesmo a Éli o entendia. Disse que quando eu apareci, ele achou que finalmente teria um amigo, e por causa do meu jeito de vestir e minha aparência sombria ele achou que os valentões parariam de pegar no pé dele.Mas quando ele me viu saindo com a bicicleta dele ele achou que eu estava fugindo e me seguiu. Mas então ele me perdeu de vista e resolveu votar pra casa cortando caminho pela construção. Mas ele então percebeu que eu jamais voltaria e ficou triste e resolveu ficar sozinho escondido no alto da construção, como sempre fazia quando estava triste. Quando ouviu minha voz o chamando, ficou tão feliz e bravo que já não sabia mais o que pensar e então chorou e daí morreu.

-Zack... me desculpe se fiz você pensar que estava indo embora e causei tua morte.

-Haha! Nada demais! Eu to bem agora! Certo?

-Certo!

-Que barulho é esse?

Então eu ouvi o barulho. Era como um gemido ou um choro. Mas não era desse mundo, mas sim do Limbo.

-Zack? Você pode ouvir isso?

-Posso! Por quê!? Você não pode?

-Mas você não devia ouvir isso. Venha! Segure minha mão!

-Ã!? O que? – eu segurei a mão dele e puxei ele para o Limbo. – AAAA! O que foi isso?!

-Você esta no Limbo agora! E não é a sua primeira vez!

-Estou me sentindo mal... – ele estava sentindo o que todos os vivos sentem quando vão para o Limbo pela primeira vez. Mas como ele estava fraco ele vomitou.

-Que nojo!

Então elas apareceram. A origem dos choros e gemidos.

-Azry? – ele ainda estava verde de enjôo. – O que são isso?

-Sombras! Almas que não foram ceifadas e então foram se enfraquecendo até desaparecerem! O que sobra são os fragmentos da alma, sofrendo eternamente nesta forma de Sombra! São só as emoções ruins das pessoas, caçando mais almas pra se juntarem a eles! Temos que acabar com eles logo!

-NÓS temos!? Eu to fora! Num tenho nem arma Como posso matar uma sombra?!

-Eu cuido disso. – disse fazendo aparecer minha foice. E as Sombras estavam mais pertos, apenas a três metros de distancia. – Fique ai parado! Se elas se aproximarem, corra! – e eu avancei com fúria.