Life Is Worth Living
14 Marcas.
Notas iniciais
Quando eu propus a Blaine o que ele achava de sermos pais, ele ficou estático por um instante e eu logo achei que havia feito a pior besteira do mundo por ter tido aquela ideia. Até que ele praticamente pulou em cima de mim me abraçando e começou a tagarelar sobre como teríamos nosso filho, todos os detalhes, qual seria o sexo, o nome, até em qual faculdade nosso filho ou filha estudaria um dia.
Foi extremamente adorável vê-lo tão feliz daquele jeito.
No dia seguinte, Blaine me levou café na cama junto com um cupcake com uma pequena vela de aniversário e eu fiquei confuso.
— Não é meu aniversário, amor... Ou eu me esqueci do nosso aniversário de namoro, primeiro beijo, casamento? Desculpa, amor! Eu sou um péssimo marido!
— Kurtie, amor, acalme-se... Esse bolinho é para comemorar o tempo que você está sem nenhuma crise e já toma os remédios só quando necessário.— Kurt sorriu tímido e Blaine o entregou o bolo — Só me perdoe porque eu não lembro exatamente quanto tempo você já está melhor.
— Eu também não contei, meu amor. O importante é que eu não te decepcionei. Obrigado.
— Você nunca me decepciona, Kurt… Eram apenas preocupação e medo de ficar sem minha alma gêmea outra vez.
Kurt sorriu e cortou o cupcake ao meio depois de apagar e retirar a vela e entregou a segunda metade para Blaine que deu uma mordida assim como o castanho fez.
Ficaram juntos, aninhados na cama pelo resto da manhã já que era o início do final de semana.
— Vou fazer algo para o nosso almoço, alguma sugestão?
— Estou com vontade de comer uma lasanha ao molho branco cheia de queijo.— Kurt disse com um sorriso travesso — O que acha de você preparar a massa enquanto eu faço o molho?
— Melhor ideia, impossível!
Kurt pegou a mão de Blaine e os dois foram até a cozinha preparar tudo. O que era para durar cerca de trinta minutos, acabou durando mais porque sempre que tinha chance, eles trocavam alguns beijos os fazendo estarem todos sujos de farinha do bolo que eles decidiram fazer depois.
Agora ambos estavam sentados na mesa na cozinha, procurando alguns orfanatos na internet enquanto esperava a lasanha ficar pronta.
— Esse é perto daqui, o que acha de começarmos por ele?
— Por mim parece ótimo!
Eles anotaram o endereço no telefone de um deles e foram almoçar deixando o notebook de lado. Comeram conversando sobre como queriam seu filho e todos os outros detalhes sobre como fariam o quarto da criança e escola.
[...]
Decidimos por adotar, pois como eu fui órfão de mãe, não queria que outra criança tivesse a mesma vida. Sei que infelizmente eu não estaria “salvando” todas as crianças órfãs do mundo, mas estaria pelo menos ajudando a diminuir aquela situação.
Assim que chegamos ao orfanato, fomos recebidos por uma senhora que nos mostrou as adoráveis crianças. No meio da visita, a senhora teve que sair para atender um telefonema e nos deixou sozinhos no pátio onde algumas crianças brincavam correndo de um lado para o outro.
— Amor, tá tudo bem? Você não parece muito bem.
— É só que eu fico mal por todas essas crianças abandonadas aqui sem o amor dos pais, mesmo que elas tenham um lar e alguém para cuidar delas, mas não é a mesma coisa.
— Você tem razão, mas é para isso que estamos aqui. Vamos conseguir uma linda criança para poder compartilhar nosso amor de pais.— Disse Blaine dando um beijo na bochecha de Kurt — Amor, eu vou pegar um pouco de café e volto já. Você quer?
— Quero sim, obrigado.
Kurt foi para o jardim do orfanato enquanto Blaine foi buscar o café e se sentou no único banco que havia ali.
Ao seu lado, tinha um garoto jovem sentado com fones no ouvido e olhos fechados.
O castanho se sentou e o menino não fez nenhum movimento, talvez estivesse dormindo. Kurt olhou na direção do parque onde havia crianças brincando juntas e rindo. O que acabou provocando um sorriso no castanho que logo se fechou quando viu algo no garoto ao lado.
Assim como ele, o menino também possuía marcas em seus dois pulsos, porém eram únicas e pareciam mais profundas e recentes. Os olhos do castanho se encheram d'água por ser um garoto tão novo e já com aquelas malditas marcas.
— O que você tá olhando?
— D-desculpa…
— Espero que não seja outro assistente social ou psicólogo pra encher o meu saco.
— Não, eu vim com meu marido aqui para adotar uma criança…
— Certo. As crianças estão lá, me deixe em paz.— o garoto reparou nos olhos marejados de Kurt — Que inferno, eu não aguento mais isso. Eu não quero sua pena, ouviu? Pare de chorar!
— Eu não estou chorando por pena.— O garoto ficou confuso e então Kurt subiu a manga da sua camisa revelando suas cicatrizes — Eu também passei por isso e sei como é odiar ver alguém com pena de você.
— Me desculpe por ser tão estúpido. É porque desde quando fiz isso, a Claire vem mandando psicólogos e especialistas para tentar me tratar e isso me irrita.
— Tudo bem...— Kurt arrumou suas mangas e estendeu uma mão para cumprimenta-lo — Meu nome é Kurt Hummel-Anderson.
— Todrick, mas pode me chamar de Tody.— Ele respondeu apertando a mão de Kurt de volta — Posso te perguntar o motivo das suas cicatrizes?
— Bullying no colégio. Eu era o único assumido de lá e como não tinha minha mãe para desabafar, nem amigos e não queria ocupar meu pai com mais nenhum problema, comecei a fazer isso. Achava que aqueles idiotas da escola tinham razão me dizendo que eu era um estorvo, um inútil para todo mundo, logo ninguém ia sentir minha falta se sumisse. Mas então, meu pai descobriu e junto com meu amigo, que hoje é meu marido, conseguiram me livrar daquilo e por isso estou melhor a um bom tempo…— Kurt deu um pequeno sorriso — E você?
— Eu perdi minha família inteira em um acidente. Estávamos voltando de viagem e então um caminhão desgovernado bateu de frente com o nosso carro. Meu pai e minha irmã caçula morreram na hora e eu e minha mãe fomos para o hospital, porém lá minha mãe não resistiu aos ferimentos e então sobrei apenas eu. Como ainda tenho 15 anos e não tenho mais nenhum parente, como avós ou tios, me mandaram para esse orfanato.— Tody deixou uma lágrima escapar, mas logo a afastou — Todos sabem que ninguém adota alguém com a minha idade, inclusive eu. Por isso, eu resolvi simplesmente tirar minha vida já que não tinha mais ninguém. Seria mais fácil.
— Eu sinto muito pela sua família, Tody...
— Obrigado.— Tody sorriu tímido.
— Amor, aqui está o seu café…— Blaine chegou entregando a xícara para Kurt e reparou que o castanho estava conversando com o menino ao lado — Olá!
Blaine o cumprimentou e então Tody apenas o olhou acenando com a cabeça e saiu andando com as mãos no bolso e seus fones no ouvido outra vez. O moreno ficou confuso e se sentou ao lado do marido.
— Quem era ele?
— Todrick...— Kurt desviou o olhar do garoto andando sozinho e encarou o moreno — B, ele fez o mesmo que eu…
— Não entendi, meu amor… O que ele fez?
— Os pulsos…
— Ah… Você quer ir embora? Podemos voltar outro dia ou procurar outro orfanato.
— Eu quero adota-lo.
— Mas amor, ele já é um adolescente, será que ele vai aceitar?
— Eu não sei, nós podemos conversar com ele, mas eu sinto que se Tody continuar aqui, ele vai morrer. Não quero que ele cometa o mesmo erro que eu quase cometi tempos atrás.
— Tudo bem, mas antes você precisa me prometer uma coisa…
— O que?
— Que você vai se cuidar também. Não quero que se afunde completamente na dor dele e esquecer de você, okay? Nós vamos conseguir adotá-lo e salvá-lo, mas para isso eu preciso de você forte e firme comigo, tudo bem?
— Okay, eu prometo.— Kurt colocou a xícara de lado e abraçou Blaine — Obrigado, não sei o que seria da minha vida sem você.
— Eu apenas te amo, Kurt. Às vezes sou até um pouco egoísta, pois eu não deixo você cair porque não quero ficar sem você. Mas também não quero que você desperdice sua vida, que é algo tão precioso, por culpa de terceiros, não vale a pena. Aliás, a vida vale a pena ser vivida, mesmo que às vezes não pareça, ela vale.
Kurt sorriu em meio a lágrimas pelas belas palavras do marido e lhe deu um abraço dessa vez acompanhado de um beijo casto.
— Vem, vamos falar com Claire sobre o… Qual o nome dele mesmo?
— Todrick.
— Isso. Todrick, nosso futuro filho.
Os dois foram de mãos dadas até a sala de Claire que terminava de falar no telefone. Kurt e Blaine se sentaram em frente a mesa da mulher que desligou o telefone e deu um sorriso para eles.
— E então, encontraram alguma criança no perfil de vocês?
— Sim.— Kurt respondeu com um largo sorriso.
— Que ótimo, mas uma criança terá um lar! E quem é? Vocês conseguiram que ele ou ela dissesse o nome?
— Sim, o nome dele é Todrick.
— Oh…
No instante em que Claire fechou o sorriso e trocou de feição, um nervosismo dominou Kurt e Blaine logo segurou firme a mão dele tentando o acalmar.
— O que a senhora quer dizer com "oh…"?
— É que… Os senhores têm certeza de que querem o Todrick? Não tem nenhuma outra criança que tenha encantado o coração de vocês?
— Não…— Blaine se pronunciou — Nós queremos o Todrick. Qual o problema com ele? Tody nos disse que ele estava aqui esperando para ser adotado, mas não acreditava muito nisso, pois já estava numa idade fora dos padrões de preferência.
— Sim, mas…— Claire coçou a cabeça tentando encontrar palavras e então abaixou a voz para explicar — Todrick é… problemático.
— O que a senhora quer dizer com problemático?!— Kurt perguntou já suspeitando da mulher.
— Ele teve um problema a umas duas ou três semanas atrás. Estamos tentando tratá-lo desde então, mas ele não aceita nenhum tipo de tratamento e está com um comportamento agressivo por conta disso. Talvez não seja uma boa ideia adota-lo agora, seria pegar um problema desnecessário para a vida de vocês.
Kurt e Blaine não queriam acreditar no que acabaram de ouvir. Como aquela mulher, que era praticamente a mãe daquelas crianças naquele momento, falava assim de um de seus "filhos"? Um problema desnecessário?
Blaine se aprontou para falar, mas Kurt tomou à dianteira e começou a falar antes surpreendendo até mesmo o moreno.
— Minha senhora, por mais de dez anos eu me trato com remédios, antidepressivos, entre outros tipos por conta do mesmo problema do Todrick. Eu era o único gay assumido daquele inferno que chamavam de escola, ouvindo coisas cada vez piores todos os dias de babacas preconceituosos que se achavam o dono do mundo e da verdade, quase me joguei no telhado da escola, cortei meus pulsos de forma tão profunda que fiquei em coma sem certeza se eu ia ou não voltar e eu também me recusava a se tratar. Porém, mesmo com tudo isso, meu pai nunca me chamou de "problemático" ou se referiu a mim desse jeito que a senhora se referiu a Todrick. Se a senhora não sabe, você é como uma mãe para essas crianças, elas só tem a senhora para ampara-las, você é a única fonte de amor e afeto que elas têm e é desse jeito que a senhora as trata só porque uma delas tem um problema?! A senhora alguma vez já perguntou se Todrick queria apenas uma droga de um abraço ao invés de ser rodeado por psicólogos e psiquiatras? A senhora alguma vez tentou pelo menos dizer para ele que tudo ficaria bem, mesmo que fosse mentira, apenas para tentar confortar o coração dele? Eu aposto que não! Então, por favor, a senhora faça o que for preciso para dar entrada nesses malditos papéis porque eu quero tirar Todrick daqui. Eu quero que ele seja o nosso filho, independente dos defeitos dele, eu o quero como meu filho.
Kurt levantou da cadeira seguido de Blaine e foi caminhando para porta, porém parou antes de sair.
— A senhora deveria agradecer, pois eu estou lhe fazendo o favor de tirar um "problema desnecessário" de suas mãos. Mas como agradecimento, espero que a senhora trate melhor essas crianças que estão aqui, okay? Isso aqui não é um pet shop e elas não são apenas animais abandonados que você castra, dá comida e banho enquanto espera alguém vir e adotar. Aliás, até esses animais abandonados devem receber mais carinho que essas pobres crianças estão recebendo aqui. Agora se nos dá licença... Passar bem.
Kurt saiu da sala junto com Blaine ainda pasmo com o discurso do marido. Ele estava sem palavras com essa reação incrível e forte do castanho.
— Meu amor, isso foi impressionante! Eu estou tão orgulhoso de você!
— Não foi nada, eu apenas fiquei irritado com o jeito que ela disse sobre Todrick. Ela o tratou como um estorvo e ele não é. Aliás, preciso falar com ele.
— Claro, vamos.
— Droga, com toda essa confusão eu me esqueci de dar nossos dados necessários para a papelada. Amor, será que você poderia…
— Claro! Eu te encontro no nosso carro. Boa sorte com Tody…
— Obrigado B.
Eles trocaram mais um selinho e cada um foi para um lado.
Chegando ao jardim outra vez, Kurt encontrou Todrick sentado na grama baixa encarando as crianças ainda brincando.
— Posso sentar do seu lado de novo?
— Tem certeza que você não é um psicólogo?
— Pode ficar tranquilo, eu não sou psicólogo e nem psiquiatra ou assistente social.
— Tudo bem, pode sentar…— Tody tirou o fone dos ouvidos enquanto Kurt se sentou ao seu lado — Porque você se sentou do meu lado de novo?
— Quero conversar com você.
— Ah, sabia que tinha alguma coisa…
— Tody, acalme-se, eu já estive no mesmo barco que você, se lembra? Não vou te levar para nenhum especialista a força ou te encher com isso. Só você pode dizer quando quer e se quer aceitar ajuda de alguém, não é algo que se impõe a ninguém.
— Então o que quer tanto conversar comigo?
— Serei bem direto... Eu quero te adotar. Nem Blaine e nem eu queremos tomar o lugar do seu pai ou da sua mãe, apenas queremos te dar um lugar melhor para morar, te dar uma vida melhor, não aqui seja completamente ruim, mas é diferente viver em uma casa e em um orfanato. Então… O que me diz?
— Eu… Eu posso pensar?
— Claro! Eu e Blaine podemos esperar o tempo que for. Já pedimos a entrada dos papéis, mas se você não quiser, nós cancelamos tudo e não vamos mais te incomodar, okay?
— Tudo bem.
— Aqui está meu telefone se você quiser conversar. Pode me ligar a qualquer hora que eu te atendo, okay?— Kurt lhe entregou um pedaço de papel com seu número anotado — Até mais, Tody.
— Até mais, Kurt...
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