Embora faltassem três meses para as férias de Junho, Ronnie sentia como se faltasse apenas três dias. Isso porque a preocupação e a vontade de que o tempo se arrastasse fazia com que ele passasse bem mais depressa para ela. E quando se tem que fazer uma escolha em um determinado período de tempo, isso faz com que ele passe três vezes mais rápido. E isso tirava seu sono, por muitas noites, pensando se estaria mesmo preparada para voltar para o lugar onde mudou sua vida, onde teve que ser responsável pela primeira. Para ela era muito difícil, mas para Blaze, Scott e Will, especialmente Will, era uma coisa simples. Imersa em seus pensamentos, o celular dela tocou. Era Blaze.

-Oi, Blaze.

-Olááá. Não sei se você sabe mas hoje é sábado, e sábado é dia de... – Blaze falou muito animada, esperando que Ronnie completasse sua frase do outro lado da linha com o mesmo entusiasmo.

-Sábado é dia de festa. – Ela falou forçadamente.

-Ei! Não estou te reconhecendo, será que eu liguei errado?

-Sou eu, Blaze. Pode falar. Desculpa, eu estava distraída. Qual é a festa de hoje? – Ela respondeu esperando que a amiga não percebesse sua melancolia.

-Ok. Sabe a boate nova que vai abrir hoje a noite? Minha mãe é amiga dos donos, e eu ganhei dois ingressos. Vamos lá?

-Uau, Blaze. A que horas vai ser?

-Às oito. Vai chamar o Will?

-Não sei. O que você acha? – Ela perguntou, ainda em dúvida, embora soubesse que acabaria chamando ele.

-Ah, você que sabe. Mas ele vai ter que comprar o ingresso.

-Ok, então. Eu passo aí umas sete e meia.

-Tá bom. Ah, e vê se ajeita essa carinha de tristeza, que eu nem to de vendo, mas dá pra perceber daqui.

Ronnie riu.

-Tudo bem, vou me esforçar, beijo.

Depois de desligar, discou logo o número do namorado e o convidou para a abertura da boate. Ele disse que levaria Scott, para não ir sozinho, e não fazer Blaze segurar vela sozinha.

Às sete ela já estava arrumada e de saída para pegar Blaze em casa. Chegaram exatamente às oito, e a festa tinha acabado de começar. Logo elas encontraram os amigos de Blaze da faculdade. Conversaram um pouco, até que Ronnie viu Will chegar com Scott. Ela pediu licença aos amigos de Blaze que acabara de conhecer e saiu para falar com ele.

-Oi, meu amor. – Ela deu um selinho. – Oi, Scott.

-Oi, Ronnie. – Ele respondeu.

Blaze estava deslumbrante, tinha os cabelos enrolados num penteado lindo. Ela estava com uma maquiagem leve, mas a boca chamava bem a atenção pela cor vermelho intenso. O seu vestido era azul marinho colado no busto e soltinho embaixo. Logo que apareceu para falar com os garotos, fez a respiração de Scott ser interrompida.

-E então, vamos sentar e beber alguma coisa? – Ela chegou com um drink na mão e indicando uma mesa vazia.

-Ok, só não vá exagerar, hein? – Will brincou, já se direcionando à mesa puxando a namorada pela cintura.

Scott não conseguiu se mover, estava com os olhos vidrados em Blaze.

-Você não vem? – Ela perguntou, pondo-se bem na frente dele.

Ele riu para ela e disse, inconscientemente:

-Você está linda.

Ela riu e agradeceu pelo elogio, andando para os amigos que já estavam sentados. Ele foi logo atrás.

-Então, quais são as novas? – Ela perguntou, puxando assunto e sentando-se com Scott na mesa.

-Ah, você não sabe? Ronnie e eu vamos nos casar. – Will brincou e riu, beijando a namorada e deixando os dois amigos constrangidos.

-Ér, vocês vieram para cá pra ficarem se beijando? Isso aqui é uma boate, vamos nos divertir, galera. – Scott disse, quebrando o clima dos dois e fazendo Blaze agradecer em silêncio.

-Então vamos! – Will disse no mesmo instante e puxou Ronnie para dançar.

De novo, Blaze e Scott ficaram sozinhos, um do lado do outro.

-Você quer dançar? – Ele a convidou.

-Ah, será um prazer. – Ela concordou, levantando-se da mesa.

Foram para o meio da pista de dança, tinham perdido o casal de amigos de vista, mas assim eles teriam mais privacidade e ninguém seguraria vela. Scott passou a mão pela cintura de Blaze pela primeira vez e começou a dançar com ela. Ele dançava bem, e ela se sentia feliz. No embalo da música, os dois foram se soltando, ele com aquele jeito brincalhão a fazia remexer cada vez mais. E eles riam, riam olhando um no olho do outro, cada um querendo que aquele momento jamais acabasse. E a dança fluía, e em pouco tempo, se tornaram a atração da boate, todos os olhavam. Até que a música acabou, e ele deu um abraço e um beijo no rosto dela. Cansada pela agitação, ela falou ofegante:

-Vou buscar uma água. – Ele assentiu e ela foi até o balcão.

Uma vez no balcão ela pediu a água, quando Blaze pensou que estaria tudo bem, alguém colocou a mão no seu ombro e falou o nome dela. Ela se virou para ver quem era. Era David, um colega de classe arrogante por quem ela sentia ódio e nojo. Mas isso não o impedia de a querer a qualquer custo. E para piorar situação, ele estava completamente embriagado.

-Ah, é você. Está me perseguindo? – Ela falou, irritada.

-Uau, Blaze. Você está de arrasar hoje. – Ele disse com um sorriso que ela detestava.

-Me deixa em paz, David. Vai procurar tua turma. Me esquece!

-Não Blaze, você está enganada, eu vi você dançar, e agora te quero mais que nunca. – Ele se aproximou dela e segurou seu braço.

-Qual foi a parte do ‘me deixa em paz, David’ você não entendeu?

-Ah, para com isso, Blaze. Você se faz de dura, mas quer ficar comigo, não quer? – Ele se aproximou ainda mais, a segurando com força, a forçando ficar perto dele também.

-Eu nunca vou ficar com você!

Ele tentou a agarrar, ela virou o rosto, com força.

-Se você não me soltar, eu vou gritar e os seguranças vão te prender.

-Aí, cara. Ainda não percebeu que ela não te quer?

Blaze reconheceu a voz na mesma hora, era Scott que falou por trás de David. Este virou o rosto, e apertou o braço dela mais forte, a fazendo soltar um gemido.

-Solta ela, agora. – Scott disse, se controlando ao máximo.

De fato, David obedeceu, mais ele a largou e a empurrou, a fazendo tombar e cair em uma mesa. Isso foi o estopim para que toda a paciência e o controle de Scott fossem pelos ares. Uma fúria sem tamanho se apoderou dele. Por reflexo, deu um passo a frente pronto para dar um soco na cara de David. Ele reuniu toda a força que tinha no punho esquerdo e deu uma bofetada tão grande no adversário que ele caiu no chão. Por sorte, antes que ele se erguesse novamente e revidasse, os seguranças da boate, que foram avisados logo que Scott apareceu para defender Blaze, chegaram a tempo e o detiveram. Will e Ronnie chegaram um segundo depois. Will segurou Scott apenas por precaução, pois ele estava firme, satisfeito com o que tinha feito, enquanto David era retirado da festa lutando contra os seguranças e prometendo revidar. Ronnie ajudava a amiga a se levantar, e a consolava porque ela estava chorando. Ela a acompanhou até o banheiro feminino, enquanto Will acompanhava Scott nas explicações daquele soco para os outros seguranças.

No banheiro, Blaze chorava muito.

-Amiga, ele me persegue, e me machucou muito. Se Scott não tivesse aparecido...

-Calma, calma.- Ronnie enxugou suas lágrimas e a abraçou.

Assim que elas saíram, quando ela estava mais calma, Will abraçou a amiga e disse mais palavras de consolo.

-Cadê o Scott? – Ela perguntou ansiosamente para Will.

-Ele está lá fora. Como ele reagiu agressivamente, vou obrigado a sair da boate, mas ele está bem. Vamos para casa? Essa festa já deu por hoje.

-Tá bom. Mas será que eu posso ir com ele? Quer dizer, se ele puder me deixar em casa... É que eu, bem... Acho que...

Will riu e balançou a cabeça positivamente, caminhando abraçado com ela até a saída e dizendo:

-É claro que ele vai te deixar em casa, meu anjo. Ou então eu vou ter que apelar pra força bruta como ele fez.

Isso a fez sorrir, mesmo que não estivesse no clima.

Lá fora, Will soltou Blaze e pegou na mão de Ronnie e indo deixá-la no carro antes que ele fosse para o seu.

-Fica bem, ta? – Ronnie disse se afastando deles e sendo puxada pelo namorado.

Quando finalmente ficaram a sós, ele a conduziu até o carro sem dizer uma só palavra. Primeiro a colocou no banco do passageiro e depois deu a volta no carro e sentou no do motorista. Só depois ele perguntou com delicadeza:

-Como você está?

-Eu estou bem. Mas, posso fazer uma pergunta?

-Sim, o que você quiser saber.

-Por que fez aquilo?

Essa pergunta o fez parar para pensar. De fato, ele não sabia porque fizera aquilo. Porque a defendeu com tanta precisão. Mas como precisava dar uma resposta, ele respondeu:

-Acho que não agüento ver um cafetão idiota perto de uma mulher.

Não era bem o que ela queria ouvir, mas tudo o que podia dizer era:

-Muito obrigada. Ninguém jamais fez isso por mim.

Então ele sorriu e ligou o carro. Durante o trajeto todo, eles ficaram em silêncio. E chegando na porta da casa dela, ela virou-se para ele, agradeceu novamente e deu outro beijo no rosto. Quando ela ia saindo do carro, ele se deu conta que precisava falar alguma coisa, fazer alguma coisa.

-Blaze! – ele a chamou, quando ela já estava com a mão na porta para abri-la.

-O que foi? – Ela virou-se freneticamente, esperando ansiosa o que ele tinha a dizer.

Mas ele não conseguiu dizer nada, quando olhava para ela, ele congelava, não conseguia pensar em nada.

-Eu, é... Quero que saiba que... – Ele começou a gaguejar, enquanto ela esperava por uma frase completa, até que ele finalmente soltou:

-Boa-noite, durma com os anjos. – Ele riu, e ela paralisou no sorriso dele, que ela achava tão lindo, sem se dar conta que não era bem aquilo que queria ouvir.

-Boa-noite. – Ela disse e saiu do carro.

Quando ela entrou em casa, ele finalmente entendeu porque a defendeu naquela noite, e porque não conseguia falar direito quando a via. Ele finalmente se deu conta de que estava apaixonado por ela.