Lies
10 Não envolva sentimentos

— É uma boa pergunta — Respondeu Lee Know tentando pensar em alguma resposta.
— Se é uma boa pergunta, então responda — Han cruzou os braços — Por que você estava me espionando?
— Porque eu tô apaixonado por você — Disse Lee Know rapidamente, foi a primeira coisa que veio à sua mente.
Han descruzou os braços e suavizou a expressão, quase deixou escapar um sorriso mas caiu em si.
— Apaixonado por mim? — Perguntou desconfiado.
— Eu não consigo parar de pensar em você desde aquele beijo…
— Beijo? — Han o interrompeu.
— Acidente, feliz acidente — Lee Know sorriu Lee Know respirou fundo, mantendo o olhar fixo em Han, como se estivesse prestes a fazer uma grande confissão.
— Eu tenho pensado em você e… tive vontade de te conhecer melhor.
Han franziu a testa, claramente pego de surpresa.
— O quê?
— Por isso eu estava te espionando. — Lee Know deu de ombros, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
Na verdade, ele sabia que essa desculpa era absurda, mas, considerando suas opções, parecia a melhor forma de sair daquela situação sem parecer um completo lunático. Além disso, estava muito curioso para ver como Jisung reagiria.
Han piscou algumas vezes, tentando processar a informação.
— Você… você tá falando sério? — Sua expressão oscilava entre desconfiança e confusão.
Lee Know manteve a pose, sustentando o olhar.
— Claro.
Han ficou em silêncio por alguns segundos, encarando-o como se tentasse decifrar alguma pegadinha escondida ali.
Lee Know apenas sorriu de canto.
Han engoliu em seco. Ele odiava admitir, mas Lee Know sabia exatamente como mexer com a cabeça dele. Mas não iria transparecer isso.
— Hum… — Han o olhou com as sobrancelhas arqueadas e os braços cruzados.
— E o que me diz? Eu acabei de me declarar pra você... — Lee Know achou estranho como dizer aquilo o deixava tímido, era uma farsa não tinha porquê se sentir assim — Eu… gosto de você.
— Tá bom.
— Tá bom? — Perguntou Lee Know indignado.
— Você quer que eu fale o que? “Obrigado”?
Lee Know colocou a mão no coração como se tivesse infartando.
— Como você é insensível.
— Ué, você gosta de mim, não gosta? Azar o seu. O golpe tá aí, caiu porque quis — Han deu de ombros.
— Hannie, seu pequeno insensível, sem coração, tenha piedade de um pobre homem apaixonado — Lee Know choramingou tentando parecer fofo — Podemos ter um encontro e nos conhecermos melhor, o que acha?
— Encontro com você? Não.
— Mas Hannie eu…
— Gosta de mim? É isso que estava tentando dizer? — Han cruzou os braços, mantendo um tom desafiador. — Não me leve a mal, mas isso pra mim é vago. Se você realmente gosta de mim, me convença disso. E então eu penso se quero sair com você ou não.
Lee Know arregalou os olhos por um segundo, surpreso com a resposta ousada. Mas logo um sorriso confiante surgiu em seus lábios.
— Esteja preparado, Jisungie! — apontou para Han com determinação. — Eu vou provar meus sentimentos por você e, de quebra, vou te conquistar!
Sem esperar resposta, virou-se dramaticamente, batendo o pé no chão com uma postura imponente, como se estivesse saindo de cena em um filme de romance exagerado.
Han observou sua saída teatral e mordeu o lábio para segurar o sorriso. Queria manter a seriedade, queria fingir que aquilo não tinha mexido com ele… mas, no fundo, seu coração batia acelerado.
— Estarei esperando… Lino.
…
Changbin balançou a cabeça em total descrença enquanto Lee Know narrava, com entusiasmo exagerado, tudo o que tinha acontecido no restaurante com Han.
— Você é impossível, sério — resmungou, cruzando os braços. — Se jogar no lixo?! Inventar que é namorado dele na frente do chefe?! Você tem noção do nível de loucura que isso foi?
Lee Know apenas sorriu, satisfeito.
— Se eu fosse o Han teria chamado a polícia. Você é louco? Ficar stalkeando ele e ainda por cima ser descoberto de forma tão humilhante.
— Você mandou eu ir lá — Lee Know cruzou os braços, emburrado.
— Bom saber que você faz o que eu mando.
— Lino — Seungmin largou o livro que estava lendo para participar da conversa —, eu te passei o endereço do trabalho do Han, mas não achei que você fosse espionar ele, sei lá, achei que você seria mais sutil.
— Sutilidade é algo que não existe na Linolandia — Disse Changbin — E agora, gênio? Ele acha que você realmente está apaixonado por ele? Não era pra ser assim, era pra você só ter um encontro com ele, não era pra envolver sentimentos. Que merda, Lee Know!
— Calma, eu só disse isso pra justificar eu estar espionando ele, era a desculpa mais plausível que eu achei naquele momento.
— Não sei, não estou gostando disso. E se ele acreditar? E se ele achar que você realmente está apaixonado por ele e começar a ter sentimentos por você?
— Você acha que ele pode ter sentimentos por mim? — Lee Know sorriu.
— Isso não é hora de sorrir, Lino. É sério. É melhor parar com isso, deixe essa disputa boba pra lá. Odeio envolver sentimentos, com isso não se brinca. Você não concorda comigo, Minnie?
Seungmin engoliu seco.
— S-sim eu c-concordo.
— Não se preocupem, está tudo sob controle. Eu não vou me apaixonar por ele de verdade e nem ele por mim, ok? Eu só quero ver no que vai dar. Estou curioso sobre ele. Só isso.
— Curioso? Por que? Esse interesse nele não é normal, Lee Know. Você está apaixonado por ele?
— Que droga, Bin! Já falei que não.
— Se isso der merda não diga que eu não avisei — Changbin deu de ombros.
…
Já era fim de tarde quando Lee Know caminhava pelo corredor da universidade, espiando de sala em sala com um olhar atento. Ele estava em busca da sala do clube de dança. Segundo informações de Seungmin, Han fazia parte tanto do grupo de composição quanto do de dança, mas, como não era tão fã de escrever músicas, escolheu se dedicar aos passos e coreografias para perseguir seu crush.
Lee Know nunca tinha se interessado tanto por clubes da universidade, mas agora… bem, tudo que envolvia Han de repente parecia interessante.
Quando finalmente encontrou a sala certa, seu olhar se iluminou.
Ali, parado no batente da porta, estava Jisung, distraído, mexendo no celular.
Lee Know sorriu de canto. Agora era a hora perfeita para agir.
— Jisungie!
Han o olhou, surpreso.
— O que faz aqui, Lee Minho?
— Vim te ver — Lee Know sorriu.
— Que bobagem — Han conteve o sorriso e deu um soquinho leve no abdômen de Lee Know — É sério, o que veio fazer aqui?
— Estou falando sério. Eu queria te ver. Senti saudades.
— A gente se viu ontem.
— Então. Não aguento ficar 24 horas sem te ver. Preciso da minha dose diária de Hanxicilina, meu antibiótico que combate a infecção chamada saudade que multiplica e cresce.
Jisung riu e se odiou por isso.
— Esse antibiótico em excesso pode causar efeitos gastrointestinais. Você pode ficar enjoado.
Lee Know se aproximou, perto o bastante para sentir a respiração quente de Han.
— Eu nunca me enjoaria. Na verdade pode causar dependência.
— Não precisa chegar tão perto — Han o empurrou ao sentir seu rosto corar — Um metro de distância, ok? Você ainda não disse o que veio fazer.
— Vim participar do clube de dança.
— Você? Sério?
— Não, eu só tô aqui por puro interesse. Quero ficar perto de você. Já falei que vou te conquistar.
— Vai precisar de muito mais que frequentar uma aula de dança.
— Tenho tudo planejado, Jisungie. Logo logo você estará nos meus braços me dando vários beijinhos.
Han deu risada.
— Adoro seu senso de humor e sua autoestima. Bom, já que você veio exclusivamente por minha ilustre pessoa, vou cuidar de você. Quero ver se conseguirá me acompanhar.
— Sou praticamente uma máquina. Você vai se apaixonar pelos meus movimentos perfeitamente coordenados.
— Quero só ver.
— Isso não é sobre dança — Lee Know piscou para ele. Han deu um tapinha em seu ombro e virou o rosto, tentando disfarçar seu sorrisinho malicioso.
Depois de preencher a inscrição no clube, Lee Know seguiu Jisung até o grande salão de dança. O ambiente era espaçoso, com espelhos cobrindo toda a parede e um piso laminado perfeito para os movimentos.
O professor reuniu todos para um breve aquecimento antes de começarem a coreografia do dia. Han, como havia prometido, escolheu Lee Know como parceiro de treino.
Assim que foram para o centro do salão, Lee Know já começou a se preparar, alongando os braços de forma concentrada.
Han observou a cena com um sorriso discreto.
— Já dancei street dance por muito tempo, e modéstia a parte, sou muito bom nisso.
— Street dance? — Jisung deu risada e então ficou de frente para Lee Know — Não vamos dançar street dance.
Com suavidade, Han colocou as mãos no peito de Lee Know, mantendo um contato visual intenso. O toque inesperado o fez congelar no lugar, como se seu corpo tivesse esquecido como se mover.
As mãos de Han subiram lentamente, deslizando até seus ombros, e então, num movimento fluido, ele envolveu os braços ao redor do pescoço de Lee Know, puxando-o para um abraço firme.
Mas o que realmente o desestabilizou não foi o gesto em si. Foi o olhar de Han, tão próximo, tão fixo no seu. Lee Know mal conseguia respirar.
— Han...? — sussurrou, a voz quase inaudível.
Han se inclinou levemente, aproximando-se de seu ouvido antes de murmurar:
— Abrace minha cintura — A voz baixa e rouca enviou um arrepio pela espinha de Lee Know — Faz parte da coreografia.
Tentando ignorar o calor repentino subindo pelo seu rosto, Lee Know moveu as mãos hesitantes e as pousou suavemente na cintura de Han, sentindo a respiração dele se misturar com a sua.
A música continuava tocando ao fundo, mas naquele momento, para Lee Know, parecia que tudo havia silenciado, exceto o som acelerado do próprio coração.
Jisung se aproximou ainda mais, seus rostos agora separados por apenas um palmo de distância.
— Está nervoso? Sentindo borboletas no estômago? — Han sorriu de lado, os olhos brilhando com um misto de provocação e algo mais profundo. — Agora que está tão perto de mim... acha que realmente sente algo?
Lee Know engoliu em seco. O coração disparado, as mãos suando levemente.
— Consigo te ver melhor... — sussurrou, o olhar preso ao de Han. — Consigo ver cada detalhe do seu rosto... e isso está me deixando ainda mais apaixonado.
As palavras escaparam sem filtro, as mais sinceras que já disse.
Han não desviou o olhar, apesar da inevitável timidez. Apenas sustentou o olhar intenso, a respiração levemente alterada.
— E o que você mais gosta no meu rosto?
Lee Know sorriu, o nervosismo misturado com um calor diferente.
— A pintinha na sua bochecha... me dá vontade de beijá-la.
— Então beija.
Foi como se o mundo ao redor tivesse desaparecido. Só existiam eles, presos naquela bolha de tensão e desejo.
Lee Know se aproximou lentamente, os olhos fixos nos de Han até o último segundo. Então, com delicadeza, pousou os lábios sobre a pintinha na bochecha dele, em um beijo suave e inesperadamente demorado.
Os olhos de Han se fecharam involuntariamente ao sentir o calor do toque. O próprio Lee Know ficou surpreso com a sensação, o cheiro doce de Han, a pele macia sob seus lábios, o jeito como seu coração parecia querer saltar do peito.
Aquele sentimento, aquela sensação, não era mentira. Era real.
— Já namoraram o bastante? — Disse o professor de braços, cruzados e batendo os pés — Hora da aula, deixem pra namorar em casa.
Lee Know e Han desviavam o olhar para o chão sempre que seus olhares ameaçavam se encontrar. Durante toda a aula, evitaram se encarar, o nervosismo tomando conta de ambos.
Cada toque parecia carregar um peso diferente. Lee Know percebia que, sempre que segurava Han com um pouco mais de firmeza, ele tremia levemente, como se sua pele reagisse ao menor contato.
Por outro lado, Han notou algo curioso, Lee Know estava quente. Sua temperatura corporal parecia mais alta que o normal, e toda vez que seus corpos se aproximavam nos movimentos da coreografia, ele sentia aquele calor invadir o espaço entre eles.
O silêncio entre os dois não era desconfortável, mas carregava algo indefinível. Algo que, até aquele momento, nenhum dos dois ousava colocar em palavras.
…
Felix suspirou, olhando para a tela do celular pela décima vez. A barra de notificações continuava vazia, nenhuma mensagem, nenhuma ligação.
Chan estava atrasado.
Ele havia prometido buscá-lo no trabalho, já que o carro de Felix estava no conserto, e os dois tinham um jantar romântico planejado para aquela noite. Mas, até agora, nada.
Felix tentou ignorar a impaciência crescente, dizendo a si mesmo que Chan provavelmente estava preso no trânsito ou lidando com alguma emergência. Ainda assim, a ansiedade começou a se instalar.
— Ele não vem? — Perguntou Hyunjin, preocupado.
— Pelo visto, não — Felix queria esconder seu desânimo, mas em vão, Hyunjin o conhecia muito bem.
— Está acontecendo alguma coisa? Você me parece inquieto esses dias.
— Chan está estranho comigo.
Hyunjin controlou-se para não alterar-se.
— Ele fez alguma coisa com você?
— Não não, claro que não. Channie é um amor de pessoa e me trata com muito amor e respeito. Mas… algo não está certo. Sinto que ele está um pouco distante, até parece que está me evitando.
— Será que ele está com algum problema?
— Não sei. Nós somos muito abertos um com o outro. Apesar de cada um ter sua privacidade, não escondemos nada importante um do outro. Mas eu sinto que ele está diferente, só não sei o que é.
— Será que ele tá te traindo? — Hyunjin se levantou abruptamente — Eu juro que eu mato ele.
— Pare de ser besta — Felix o segurou e Hyunjin se sentou novamente.
O telefone de Felix tocou e rapidamente ele atendeu.
— Channie? Está tudo bem?
— Sim, me desculpe Lix. Houve um imprevisto na empresa e precisei ficar pra resolver.
Hyunjin revirou os olhos, nem precisava ouvir pra saber o que Bang Chan estava dizendo.
— Tudo bem, meu amor. Nos vemos amanhã.
— Prometo te recompensar, meu Lix.
— Não deixe de se alimentar e descanse.
Bang Chan e Felix se despediram, enquanto Hyunjin olhava com sua típica cara de nojo.
— Ele tá mentindo — Afirmou Hyunjin.
— Eu sei.
— Você sabe? E vai fazer o que?
— Nada.
— Nada? Como assim, nada? Felix, e se ele estiver te traindo?
— Não acho que seja isso. Não parece ser isso. Sinto que o Chan me ama como sempre amou. Mas sinto que o problema não é em relação a nós, parece ser algo externo. Acho que o Channie está com algum problema, mas não se sente a vontade para me contar no momento.
— E você está bem com isso? Não te incomoda?
— Claro que me incomoda. Me preocupo com ele, mas não posso simplesmente obrigar ele a falar comigo. O que posso fazer é esperar e deixar claro que estou do lado dele.
— E se sua intuição estiver errada?
— Nesse caso, eu terminaria com ele. Channie é livre pra ficar com quem quiser e eu não sou dono dele.
— Só não quero te ver sofrer — Hyunjin suspirou e segurou a mão de Felix — Sabe que pode contar comigo pra qualquer coisa, né?
— Sim, Hyun. Eu sei — Felix fez carinho no rosto de Hyunjin.
…
Bang Chan estacionou o carro em frente à casa de Ruby, apertando o volante com força enquanto esperava.
Segundos depois, a porta se abriu, e Ruby saiu às pressas, segurando o filho no colo. Sua expressão carregava um peso evidente. Preocupação e exaustão, talvez até um pouco de desespero.
Chan não hesitou. Abriu a porta do passageiro, dando espaço para que ela entrasse rapidamente.
— Como ele está? — Perguntou Chan olhando para o filho que dormia no colo da mãe.
— A febre está muito alta — Ruby estava com a voz embargada — Avisou pro seu namorado? Isso pode demorar um pouco.
— Sim, avisei — Respondeu Chan sem graça, Ruby achava que Chan tinha falado sobre tudo aquilo com Felix.
— Agradeço a Deus por Felix ser uma pessoa tão boa e compreensiva.
— Sim. Ele é… bem, agora vamos levar esse garotão pro hospital.
Chan sentiu um aperto esmagador no peito. Estava mentindo para a pessoa que mais amava, e esse peso o sufocava cada vez mais.
Enquanto dirigia apressado para o hospital, ficou em silêncio, perdido em seus próprios pensamentos. Sua mente girava em torno de uma única pergunta: por que estava fazendo isso?
No fundo, sabia a resposta. Ele simplesmente não estava confiando em Felix. E isso doía.
Felix sempre foi sua âncora, sua certeza em meio ao caos. Então por que agora ele hesitava? Por que temia contar a verdade?
Talvez Felix entendesse. Talvez fosse compreensivo. Mas… e se não fosse?
Era esse risco que Chan não conseguia encarar.
E, por isso, continuava naquele caminho de mentiras, mesmo sabendo que, mais cedo ou mais tarde, teria que enfrentar as consequências.
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