Lies
5 Morango ou Tutti Frutti?

"Fighting!" — pensou Lee Minho, tentando reunir coragem.
Respirou fundo, estufou o peito e passou as mãos pelos cabelos, ajeitando-os com um toque ensaiado de confiança. Mas, por dentro, ele sabia que encarar Han Jisung não seria nada fácil.
Sua mente começou a repassar todas as vezes que havia furado com Han, deixando-o esperando enquanto deveria estar trabalhando no projeto. Em vez disso, optando por ir para a casa de Changbin jogar videogame sem o menor peso na consciência, pelo menos até agora. Han nunca o perdoaria.
A relação entre eles sempre foi péssima. Se ao menos fossem dois desconhecidos, tudo seria mais fácil — mas não, estavam presos numa relação insuportável. Lee Know não tinha a menor afinidade com Han e, para piorar, achava o garoto insuportavelmente chato, sem graça, metido e entediante. Se precisasse passar mais de um minuto conversando com ele, tinha certeza de que pegaria no sono.
Mas agora tinha um objetivo. Precisava vencer aquela aposta idiota. Depois que conseguisse um encontro com Han, poderia sair de cena sem olhar para trás.
Foi então que viu o quão ridículo estava, encolhido atrás de uma parede, olhando feito um espião amador enquanto esperava Han se aproximar do portão da universidade.
Respirou fundo, endireitou a postura e limpou a garganta. Quando Han finalmente apareceu, Lee Know reuniu toda a sua falsa confiança, ajustou o passo com precisão quase coreografada e, de cabeça erguida, seguiu em sua direção.
— Bom dia, Jisungie! — Disse com um sorriso enorme e alegre.
Jisung o olhou da cabeça aos pés com sua típica feição debochada.
— O que você quer, Lee Minho?
— Só quero te desejar um bom dia, meu caro colega mais inteligente do campus… e então… como está sendo o seu semestre?
— É alguma pegadinha?
— Não, não. Eu só acho que você é uma pessoa brilhante e quero conversar um pouco contigo.
— Ah você me acha brilhante? — Han cruzou os braços — Então, me fala, por que me acha brilhante? Já leu alguma pesquisa científica que fiz? Já assistiu algum seminário meu? Você sabe em que tipo de projeto estou trabalhando?
— Mas é claro que eu sei — Ele nem fazia ideia.
— Então me diz sua opinião. O que você gosta nas minhas pesquisas?
— Hum, acho que seria mais interessante se a gente conversasse sobre isso em um lugar mais descontraído. Que tal almoçarmos juntos amanhã? — Lee Know piscou os olhos de forma fofa, sabia que um dos seus pontos fortes eram seus grandes olhos amendoados. Ninguém resistia.
— Tá com conjuntivite? — Han fez careta ao ver Lee Know piscando os olhos de forma estranha.
— Hã? Não não… é que está muito claro hoje — Lee Know sorriu sem graça.
— Sobre o seu convite pra almoçar comigo… eu já sei o que você quer.
— Sabe? Quer dizer, eu não quero nada. Só quero conversar melhor com você.
— Lee Minho, eu não sou idiota. Você é o cara popular da universidade e eu sou o nerd. Só está falando comigo porque quer algo. Quer que eu faça algum trabalho pra você ou que te ajude em alguma matéria, não é? Fique sabendo que eu não sou bobo. Se quiser ajuda eu vou cobrar por isso. Tenho meus preços.
Lee Know viu ali uma ótima oportunidade para se aproximar de Han.
— Você me descobriu — Ele ergueu as mãos em sinal de rendição — Preciso da sua ajuda com… inglês, isso inglês. Preciso fazer um curso mas ele está em inglês… então por isso preciso da sua ajuda.
— Não posso te ensinar a falar inglês, não tenho tempo pra isso. Mas posso te ajudar com seu curso, claro que isso não vai ser de graça. Me passe seu telefone de novo, eu exclui. Eu te mando o valor e os horários vagos em minha agenda. Você terá que se adaptar aos meus horários, sou muito ocupado.
— Ok ok — Lee Know entregou o celular para Han que rapidamente digitou seu número e devolveu o celular.
— Agora preciso ir, vou chegar na aula dois segundos atrasado por sua culpa.
Han estava atravessando a rua quando Lee Know o chamou.
— Jisungie?
— O que é? — Han olhou para trás, impaciente.
— Eu… é… posso te ligar?
— O quê? — Han franziu a testa, não tendo ouvido nada por causa do barulho dos carros ao redor.
Foi tudo rápido demais.
Lee Know desviou o olhar por um instante e seu coração parou ao ver um carro vindo em alta velocidade na direção de Han. O motorista, distraído com o celular, não viu o garoto parado no meio da rua.
— HAN! — Lee Know gritou, o corpo se moveu antes mesmo que sua mente processasse a situação.
Num impulso rápido, agarrou Han pela blusa e o puxou com força, caindo ambos na calçada no último segundo, escapando por pouco do carro que passou zunindo pela rua. Mas então, o tempo congelou.
Han, ainda atordoado, piscou algumas vezes antes de perceber o que havia acontecido. Seu corpo estava colado ao de Lee Know. Pior ainda, suas bocas também estavam coladas.
Um beijo acidental.
Os olhos dos dois se arregalaram ao mesmo tempo. Ficaram ali, imóveis, paralisados pela surpresa. Lee Know nem percebeu que seus braços ainda estavam ao redor de Han, um reflexo instintivo. Tudo aconteceu tão rápido que sua mente ainda tentava protegê-lo.
Mas então, como se a ficha tivesse caído de repente, Han deu um pulo e se levantou, o rosto em puro pânico.
— O que... o que foi isso?! — gaguejou, ainda tentando processar o fato de que quase foi atropelado e, logo em seguida, beijado por Lee Know.
Lee Know, por outro lado, ainda estava jogado no chão, tentando entender se aquilo realmente tinha acabado de acontecer ou se ele tinha batido a cabeça forte demais.
— O-obrigado, você s-salvou minha vida — Han sentiu seus lábios dormentes e um estranho frio na barriga, odiou isso. Estendeu a mão para ajudar seu herói a se levantar — Você está bem? Se machucou?
— Estou bem. Só bati as costas, mas não é nada demais. Fico aliviado que eu tenha conseguido te puxar a tempo — Lee Know tocou os próprios lábios sentindo latejar levemente.
— Você bateu as costas? — Sem pensar muito, Han virou Lee Know e puxou sua blusa para ver se ele tinha se machucado — Lino, você se machucou! — Disse choroso ao ver a enorme mancha avermelhada e roxa em sua pele.
— Está tudo bem, não foi nada — Lee Know o tranquilizou ao ver sua cara de choro — Você me chamou de Lino?
— Isso não é importante agora, a gente precisa ir na enfermaria. Tá doendo muito? — Han colocou a mão levemente no hematoma. Tentou conter a vontade de chorar, afinal de contas quem tinha se machucado não estava chorando. Lee Know, vendo sua preocupação, se aproveitou da situação e deu um gritinho rouco de dor.
— Hannie, você pode ir comigo? Está doendo muito — pediu manhoso. Lee Know sabia fazer ceninha quando precisava.
— Claro que posso. Vem cá, se apoia em mim — Han se sentiu um pouco envergonhado com aquele pedido — Mas isso não tira o fato de que eu ainda não gosto de você. Só vou te tratar bem porque salvou minha vida e estou em dívida com você.
Lee Know passou um braço ao redor do pescoço de Han, deixando-se ser apoiado enquanto caminhavam, mesmo que, na verdade, ele estivesse perfeitamente bem. Mas, já que a situação tinha essa oportunidade, por que não aproveitar um pouco? Fingiu um leve mancar, apenas para tornar tudo mais convincente.
Disfarçadamente, olhou para Han. O garoto mantinha uma expressão séria, focada, como se cumprisse uma missão de extrema importância. Era quase cômico. Ele não apenas o ajudou a andar, mas parecia incumbido pela responsabilidade de salvar um soldado ferido em pleno campo de batalha.
E, por algum motivo, Lee Know não achou isso tão irritante quanto normalmente acharia.
Jisung sempre levou tudo a sério, seja um trabalho, uma responsabilidade ou até mesmo uma simples tarefa do dia a dia. Antes, Lee Know via isso como algo insuportável, uma obsessão por controle e perfeição. Mas, ali, sendo carregado por ele como se sua vida dependesse disso, via que essa característica de Han tinha um certo... charme.
Ele avançava com determinação, brigando com qualquer um que ousasse atrapalhar seu caminho. Seu foco era claro: levar Lee Know até a enfermaria o mais rápido possível.
Lee Know, por outro lado, apenas observava, divertindo-se. Havia algo quase heróico na maneira como Han o ajudava, como se fosse seu dever sagrado protegê-lo a qualquer custo. Por um instante, uma ideia absurda passou por sua mente: Han parecia um príncipe encantado. Lee Know se sentiu uma verdadeira princesa.
O pensamento o fez sorrir, mas o que veio a seguir o pegou ainda mais desprevenido.
O cheiro do cabelo de Han invadiu suas narinas. Doce e levemente frutado. Morango ou Tutti Frutti? Lee Know franziu a testa, confuso e irritado consigo mesmo por estar, de repente, tão interessado na fragrância do shampoo do seu até então inimigo natural.
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