Lies

27 Conflito



Seungmin arremessou a latinha de cerveja vazia na direção da lixeira, mas errou feio. O reflexo já comprometido pelo álcool fez a latinha quicar no chão antes de rolar para debaixo do sofá. Ele riu da própria falta de coordenação, apoiando-se em Changbin para não tombar de lado.

— Acho que você já bebeu o suficiente — Changbin tentou pegar a garrafa da mão dele, mas Seungmin segurou com firmeza, fazendo um beicinho teimoso.

— Só mais uma — protestou, balançando a garrafa como se tentasse hipnotizá-lo. — Eu mereço!

Changbin suspirou, cruzando os braços. Já era a oitava latinha de cerveja, e por mais que tentasse impedir, Seungmin fazia birra como uma criança mimada pedindo sorvete. A diferença era que, em vez de açúcar, ele estava se entupindo de álcool.

— É sério, você já bebeu demais.

— Para de ser chato — disse Seungmin com a voz enrolada.

— Acabou a cerveja, você já bebeu tudo — Changbin mostrou o fardo vazio.

— Compra mais, pede pelo aplicativo — Seungmin implorou.

— Não, chega de cerveja por hoje.

— Mas você disse que iríamos beber até esquecer o nome, eu ainda lembro que me chamo Seungmin — Ele deu uma risada idiota e Changbin balançou a cabeça negativamente.

— Não achei que você fosse levar isso tão a sério, mocinho — Changbin apertou de leve seu nariz.

— Não faça isso — Seungmin afastou a mão de Changbin com um olhar desafiador. — Eu não sou mais criança.

— Às vezes parece que é — retrucou Changbin, arqueando uma sobrancelha.

Seungmin o encarou, os olhos pesados de álcool e desejo, como se quisesse fechá-los e se render ao momento. Então, um sorriso travesso surgiu em seus lábios.

— Uma criança faria isso? — murmurou antes de se impulsionar e sentar no colo de Changbin, apoiando os joelhos no sofá, ficando de frente para ele.

Changbin congelou, sua respiração ficando irregular quando as mãos de Seungmin deslizaram para seu rosto, segurando-o com firmeza. Seus polegares roçaram sua pele quente antes que Seungmin tomasse seus lábios com um beijo intenso e faminto.

Os lábios de Seungmin eram quentes e macios, movendo-se contra os dele com uma fome contida. Changbin prendeu a respiração quando sentiu a língua dele invadir sua boca, explorando cada canto com uma ousadia inebriante. O sabor de cerveja e soju se misturava ao gosto de Seungmin, deixando Changbin completamente rendido.

Quando se afastou minimamente, Seungmin não resistiu e deu mais um selinho provocador, mordiscando de leve o lábio inferior de Changbin antes de sussurrar contra sua boca:

— Viu? Nada infantil nisso.

Changbin, ainda tentando recuperar o fôlego, segurou sua cintura com firmeza, os dedos pressionando a pele quente por baixo da camiseta. Seus olhos se escureceram com algo que Seungmin reconheceu como desejo puro e intenso.

— Você não sabe no que acabou de se meter, Minnie… — Changbin sussurrou antes de puxá-lo para mais um beijo, dessa vez repleto de uma paixão desenfreada que Seungmin ansiava sentir.

Cansados, fizeram uma pausa daqueles beijos intensos para recuperar o ar.

— Eu amo você. Muito — disse Seungmin com um sorriso embriagado — E não é como amigo, na verdade nunca foi. Eu sempre te amei, Bin. Sempre quis você como meu namorado, não me contento em ter você só como amigo. Você não tem noção do quanto eu sonho em te beijar assim, te abraçar, te amar a noite inteira, dormir e acordar com você. Eu não aguento mais guardar isso pra mim. Eu quero você.

Changbin o olhava fixamente, seus pensamentos confusos e seu coração acelerado.

— Todo esse tempo você sempre gostou de mim dessa forma?

— Sempre. Não teve um dia que eu não desejei você.

Changbin o afastou, fazendo ele se sentar no sofá.

— Não sei se posso fazer isso, Min. Eu também tenho esses sentimentos por você. Eu só fiquei confuso por muito tempo, mas agora eu consigo ver claramente que o que sinto por você não é só amizade. Olha, eu amo o Lino, mas com você é diferente — Changbin olhou brevemente para ele e então voltou a olhar pro chão — Mas eu não posso fazer isso.

— Por que não? Se nós dois nos amamos, por que não podemos ficar juntos? — Seungmin soluçou, estava nitidamente se esforçando para continuar acordado.

— Esse não é um assunto que devemos ter agora. Quando você estiver sóbrio nós conversamos.

— Eu estou bem. Estou sóbrio — disse com a voz enrolada seguida de outro soluço.

— Não, não está. Quero conversar sobre nós quando você estiver realmente lúcido. Não quero mal entendido, quero dizer claramente tudo que sinto por você e quero que compreenda.

Seungmin deslizou os dedos pela pele quente de Changbin, os olhos fixos em seus lábios entreabertos. Parecia não ouvir nada do que o amigo dizia, seu próprio pensamento era um turbilhão de desejos reprimidos. O álcool talvez tivesse deixado ele mais solto, ou talvez ele estivesse apenas cansado de se segurar.

— Quero tanto te beijar… — murmurou, quase num suspiro.

Changbin sentiu um arrepio percorrer sua espinha. O olhar de Seungmin era intenso, carregado de algo que ele nunca tinha visto antes. Seu coração martelava contra o peito.

— É melhor não, Minnie. Se eu continuar te beijando não vou conseguir me segurar e não quero fazer nada com você assim.

— Mas eu quero — Seungmin tentou beijá-lo mas Changbin o afastou.

— Minnie, não. Você está bêbado.

Seungmin fechou a cara e se jogou no sofá de braços cruzados.

— Eu só queria curtir a noite com você, como dois amantes apaixonados.

— Nós vamos fazer isso quando você estiver bem — Changbin tocou seu rosto — Vá tomar um banho, você precisa descansar. Amanhã nós conversamos sobre isso.

…

Quando Seungmin finalmente adormeceu, Changbin se levantou em silêncio, pegou suas coisas e saiu no meio da madrugada. O quarto parecia sufocante, e sua mente, um turbilhão. Estar perto de Seungmin mexia com ele de um jeito que tirava seu foco, embaralhava seus pensamentos e despertava sentimentos que ainda não sabia como lidar.

O relógio marcava quase cinco da manhã quando ele chegou em casa. Exausto, mas incapaz de dormir, tomou um banho frio na tentativa de clarear as ideias. Deitou-se na cama, revirando-se de um lado para o outro, buscando conforto em um sono que não vinha.

Seungmin era tudo o que ele queria, mas para dar esse passo, precisava encerrar um ciclo primeiro. Não podia mergulhar de cabeça sem antes resolver o que ficou para trás. Era hora de tomar uma decisão. Precisava fechar um capítulo antes de começar outro no livro da sua vida.

Sem conseguir dormir, Changbin levantou-se às seis da manhã, vestiu um moletom, calçou os tênis e saiu para caminhar. O ar fresco da manhã e o nascer do sol pareciam trazer uma clareza que sua mente inquieta tanto precisava. Durante o percurso, seus pensamentos começaram a se organizar, como se cada passo ajudasse a colocar as coisas no lugar.

Por volta das oito, já de volta em casa, ligou o notebook e pegou o celular. Respirou fundo antes de digitar a mensagem para Cherry. Precisava conversar com ela, ser sincero sobre o que havia acontecido entre ele e Seungmin.

Não demorou para a resposta chegar. Cherry, surpresa com a mensagem tão cedo, perguntou se algo tinha acontecido. No fundo, Changbin sabia que aquela conversa mudaria tudo. Mas era hora de encarar a verdade.

— Está tudo bem, Bin?

— Sim… quer dizer, não muito.

— O que houve?

— Preciso te contar algo.

— Estou livre, quer conversar agora?

— Preferia contar isso pessoalmente ou pelo menos por uma call.

— Sabe que não me sinto confortável pra isso.

— Sim. Me desculpa — Changbin suspirou.

— Tudo bem. Podemos conversar por aqui mesmo.

— Ok… Cherry, você sabe que eu odeio mentiras e que sempre tentei ser sincero. Sempre te contei muitas coisas que não conto pra mais ninguém. A verdade é que eu fiz algo que não me orgulho nesses últimos dias. Eu… não sei como dizer isso, na verdade não tem um jeito melhor de dizer, mas… eu… fiquei com outra pessoa.

Cherry, no caso Seungmin, demorou alguns segundos para digitar e aqueles segundos pareciam uma eternidade para Changbin.

— E você gosta dessa pessoa?

— Eu… sim… eu gosto dessa pessoa. Me desculpe por não ter sido sincero com você, mas a verdade é que eu estava confuso. Esse sentimento sempre esteve dentro de mim, mas eu demorei para perceber.

— Então você o ama?

— Amo, eu o amo — Changbin estranhou um pouco aquela compreensão — Sei que você está chateada, sei que eu fui um bosta mas não consegui evitar de me apaixonar por ele e antes de mais nada achei certo te contar sobre isso.

— Não dá pra mandar no coração e eu não posso te obrigar a gostar de mim. A única coisa que posso fazer é te deixar ir e desejar que você seja feliz com a pessoa que você realmente gosta.

— Me perdoe por isso…

— Bin, está tudo bem. Eu estou feliz.

— Feliz?

— Sim, por você ter se encontrado. Por você amar alguém. Mas… agora preciso sair.

— Cherry, obrigado e mais uma vez me desculpe.

— Tudo bem, agora trate de ser feliz com a pessoa que você ama. Diga isso a ele.

Changbin passou a tarde inteira se martirizando. Estava feliz por saber que Seungmin o amava da mesma forma, mas ao mesmo tempo sentia um peso no peito por ter terminado com Cherry. Mesmo que o relacionamento deles fosse virtual, ele sabia que do outro lado da tela havia uma pessoa real, com sentimentos genuínos. Odiava-se por não ter sido um namorado melhor, mas no fundo entendia que havia tomado a decisão certa. A verdade podia doer, mas era sempre melhor do que uma mentira confortável.

Mais tarde, combinou com Seungmin de ir até sua casa. Precisavam conversar, esclarecer tudo o que sentiam e decidir o que viria a seguir. Quando chegou, Seungmin ainda estava no banho, mas, como já tinha a chave do apartamento, entrou sem precisar esperar.

Enquanto caminhava até a sala, um sorriso escapou ao ouvir a voz do amigo cantando no chuveiro. Era impossível não se sentir bem ao escutá-lo cantar tão leve e despreocupado. Mas, no fundo, Changbin sabia que aquela conversa poderia mudar tudo entre eles.

— Minnie, cheguei! — Falou da porta do banheiro.

— Já to saindo — Respondeu Seungmin.

O sorriso de Changbin se desfez gradualmente à medida que seus olhos percorreram o quarto de Seungmin, até se fixarem no notebook aberto sobre a mesa. A tela iluminada exibia uma conversa familiar, familiar até demais. Curioso, ele se aproximou, seu coração começando a bater mais rápido.

Foi então que viu. Sua própria foto de perfil.

Seu olhar se arregalou, fixando-se nas mensagens que conhecia tão bem. Cada palavra trocada, cada confidência, cada detalhe que ele havia compartilhado ao longo dos meses... tudo estava ali.

Uma onda de choque percorreu seu corpo quando, de repente, tudo se encaixou. Seungmin era Cherry.

Esse tempo todo, a pessoa com quem ele desabafava, com quem compartilhava suas angústias, sonhos e até mesmo seu coração... não era uma garota do outro lado da tela. Era Seungmin.

Notas finais
Boa tardeeeee :3 Eita que agora o Bin descobriu da pior maneira... ai ai...