Lies

1 Oneshot


Notas iniciais
Olá pra quem se interessou e veio ler.
Bom, isso são frutos de uma pessoa entediada com a mente turbulenta.
Eu meio que me inspirei pra escrever ouvindo Lies - Marina and the diamonds, caso queiram algo pra ouvir durante a fic.
Espero que gostem :D

Não podia dormir, se dormisse sonharia. E se sonhasse, o sonho seria sobre estar perdendo-o. De novo e de novo, o mesmo em todas as noites. E sempre resultaria em acordar assustada, atordoada, sem saber aonde estava e o que estava ali. Sem saber aonde ele estava.
Nellie Lovett estava cansada desses pesadelos. Toda vez que pregava os olhos eles vinham caçá-la. Sonhava que Sweeney descobria toda a verdade, sonhava que ele se aproximava, de navalha na mão e um olhar assassino estampado em seu rosto, sem compaixão, sem piedade, apenas ele, segurando sua amiga, e pronto para matá-la. Sem mais tortas, sem mais sonhos, sem mais mentiras.

E sempre acordaria desesperada, olhando para toda a extensão de seu quarto, na expectativa de encontrá-lo esgueirando-se por algum canto. Porque ás vezes ele de fato estava, não porque tinha descoberto tudo, mas ás vezes, só em algumas noites especiais, o barbeiro descia as escadas, servia-se de uma dose de gim, entrava no quarto de Nellie e ficava por lá, de pé, esperando que a padeira acordasse e notasse sua presença. O que sempre acontecia pois o sono dela nunca era contínuo, era uma linha tênue e facilmente quebrada. Ela dormia e acordava diversas vezes. Talvez porque estivesse sozinha, talvez porque estivesse esperando por ele.

Sweeney Todd. O maldito barbeiro. Já era ruim como Benjamin, o garoto todo feliz com Lucy, sem dar um segundo de importância à padeira que sempre o havia amado. Ele nunca percebia, nunca se deixava perceber. Mas quando ele se foi, o vazio que se formou em Nellie não fazia deixá-la em paz. Sweeney Todd voltou em seu lugar. Mesmo rosto, mesmas lembranças, e a mesma velha mania de nunca reparar em Nellie Lovett.
Ela estava cansada. Cansada porque sabia que ele nunca a amaria, por mais que Nellie esperasse, por mais que dissesse a si mesma que as noites que ele passava em sua cama significavam alguma coisa ao barbeiro, e por mais que sempre tivesse tido esperança na vida. Estava cansada de suas mentiras. Deveria contar-lhe logo sobre Lucy, deixar que ele a matasse, seria melhor. Nada poderia ser pior do que essa agonia e a desconfiança de ter que esconder uma verdade.

Já que ele era tão covarde. Covarde, pois no fundo, sabia muito bem que era capaz de amar Nellie, mas tinha medo. Tinha medo de deixar seu passado pra trás, de esquecer aquela maldita coisa de cabelos loiros e medo de amar a padeira que sempre retribuiria esse sentimento. Ele tinha medo e Nellie sabia disso. Podia ver, toda vez que a agarrava pela cintura e a beijava como se quisesse matá-la daquele jeito, pra depois abrir os olhos e encará-la como um animal ferido. Amedrontado e indefeso. Não que ele tivesse algo de indefeso em si, nunca teria, mas o olhar quase a enganava. Parecia estar pedindo pra que ela o amasse mais ainda, como se isso fosse possível, e mesmo sabendo que não seria amada de volta. E como poderia ela resistir?

Virando para o outro lado da cama, a padeira ouviu o homem andar de um lado para o outro em sua barbearia acima. O som de seus passos costumava botá-la pra dormir imaginando coisas que poderiam ser, mas não eram. Fechando os olhos devagar, pensou se talvez de fato não tivesse de ser mesmo. Talvez Sweeney Todd estivesse destinado a amar Lucy Barker pelo resto de sua vida, e que Nellie Lovett estivesse do mesmo modo destinada a amar o barbeiro sem receber nada em retorno. Estava fadada, pensou, a morrer com o sobrenome de seu falecido marido, o qual nunca havia amado de verdade. E como seria capaz de amar Albert com Benjamin pregado em seu coração daquele jeito que por vezes era tão desagradável?
Apertou os olhos fechados. Tinha que parar de pensar naquilo. Esquecer, pelo menos por uma noite. Esquecer do barbeiro, e da mentira que tinha dito à ele. Aquilo estava a corroê-la, mas tinha que ser melhor assim. Era para o próprio bem dele.
Mentiras, mentiras.

Não, censurou-se, estou fazendo isso por ele.
Então por que o sentimento de culpa? Nellie não sabia a resposta.

Estava tão compenetrada que nem chegou a perceber que os passos tinham cessado. Também não chegou a perceber um som abafado de uma garrafa de gim sendo aberta em sua cozinha, minutos depois, e nem mesmo dos passos em direção ao seu quarto.
Notou apenas, quando Sweeney adentrou, e permaneceu na penumbra. A luz da lua que entrava pela janela não refletia sua silhueta, mas Nellie soube que ele estava ali. Chegou a se assustar um pouco, porém, quando ele aproximou-se com rapidez sem nenhum aviso prévio. Geralmente demorava muito pra fazer oficial sua visita. Sua presença tomou forma quando Sweeney veio até a frente de sua cama, o rosto ainda parcialmente escondido pelas sombras do quarto.

— Mrs. Lovett? — O barbeiro sussurrou, chamando-a. Sabia que estava acordada, nunca a chamava quando ela estava dormindo. Ele apenas observaria, esperando silenciosamente que Nellie acordasse e se desse conta do que estava acontecendo. Sweeney esperaria até a manhã chegar, se necessário fosse, e se o efeito do gim durasse até lá.
- Sim?
- Está chorando?

Nellie se assutou com a pergunta, e passou seu dedo indicador pela bochecha direita, descobrindo que um lágrima lhe havia escapado. Maldição. Não soube o que responder para Sweeney, e apenas enxugou a lágrima, permanecendo em silêncio. Censurando a si mesma por ser tão tola a ponto de chorar. Ele olhou-a com o cenho franzido, como se ela fosse um mecanismo que o barbeiro não entendia. Algo que precisava descobrir como funcionava.
— Claro que não, apenas bocejei há pouco e meus olhos se marejaram. Nada demais, querido. -Haveriam desculpas muito melhores, se ela tivesse tido mais tempo para pensar. Ou se não estivesse ocupada demais tentando soar animada como sempre soava quando ele estava por perto.

- Algo de errado lhe aconteceu? — Sim, Nellie pensou, tantas coisas. Mas nada que ela pudesse ou devesse dizer para ele. E só então percebeu que o homem estava se mostrando um pouco mais preocupado do que nunca tinha estado. Nellie deveria estar dormindo. Não, mas não podia estar. Se dormisse estaria tendo seus pesadelos, e não sonhos sobre um barbeiro preocupado com ela. Seria, então, verdade? Ele estava fazendo uma pergunta daquelas, quase como se estivesse se importando?

- Não, não aconteceu nada. Como poderia se você está aqui? — Ela sorriu, sabendo que que era a mais pura verdade, e esperando que lhe fossem ditas palavras que nunca seriam. A mulher tinha essa mania de declarações, vez ou outra, mesmo que sutís. Nellie Lovett percebia agora que era uma mentirosa. Mentia para Sweeney, mentia para Toby e mentia, mais do que pra todos, para si mesma.

O barbeiro não pareceu muito contente com a resposta dela. Mas afinal, Sweeney Todd nunca estava contente com nada que não se remetesse à sua vingança. Ela apenas imaginava como seria no dia em que ele matasse a praga maldita do juiz Turpin.
Mas não conseguiu pensar mais sobre isso, com os olhos dele sobre ela, e Sweeney beijou-a, ao se aproximar mais um pouco com um floreio. Não com rispidez, como costumava fazer sempre que bêbado, mas de um jeito lento, como nunca tinha feito. Um beijo lento e quase, Nellie pensou, quase carinhoso. Mesmo sob certo efeito do gim. Suas mãos, ao invéz de apertarem a cintura dela com força, tocaram-lhe o rosto devagar. Quase protetor. Quase, ela pensou novamente, como ele fazia com a Lucy.

Não, reprimiu-se, pare de pensar nela, ele está aí com você agora.

Cada vez mais perguntava-se se não estaria de fato sonhando. Sweeney Todd, sendo protetor? Esse tipo de coisa não acontecia, não com ela.

Quase mudou de ideia quando ele deitou ao seu lado, e colocou o queixo no topo de sua cabeça, sem fazer nada mais, dizer nada mais, sem tentar nada mais. “Talvez,” ela pensou enquanto abraçava seu torso, escutando o som pesado do coração do barbeiro contra sua orelha, “só talvez, ele esteja gostando de mim.”

Mas talvez fosse apenas outra mentira que contava pra si mesma.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!