Liebesleid

1 Capítulo Único: O amor está no ar...


Notas iniciais
Olá leitores, espero que estejam bem!

Essa fanfic está sendo repostada aqui no Nyah!, mas foi publicada pela primeira vez no Spirit Fanfics, por ocasião do tema especial de Dia das Mães do ProjetoDesafie-se.

Boa leitura a todes!

CAPÍTULO ÚNICO

Você acha que consegue esquecer? (Kaori Miyazono — Your Lie in April)

Quanto mais se aproximava da data especial, Saki Arima roía as unhas dos dedos pequeninos em busca de ideias para presentear sua mãe Tsubaki.

Seu hábito de balançar as pernas dependuradas quando se sentava no sofá da sala retornou com gosto, diante da ansiedade experimentada pela menina frente a tamanho impasse em tão tenra idade.

Enquanto apoiava as mãozinhas no queixo pensativa, os sons de piano invadiram os ouvidos da garota de seis anos, preenchendo toda a casa. Era comum que seu pai tocasse naquele horário da tarde, afinal era um pianista profissional e precisava treinar todos os dias.

Desde que a menina nascera, essa rotina era típica e o interesse pelo instrumento vez ou outra aparecia também, já que era uma forma de estar mais perto de Kousei. Ao ouvir a sonoridade agradável, Saki teve uma ideia.

一 E se...É claro! O piano! Como não pensei nisso antes? 一 questionou a si mesma em murmúrios, dando uma batidinha na própria testa.

Enquanto Kousei tocava o Estudo Op.10, nº 6 em E-Flat Minor de Chopin distraidamente, a menina entrou no quarto que recentemente foi transformado em sala de música pelos pais, após se mudarem de cidade por conta de um novo contrato de Tsubaki com outro time de beisebol.

A mãe da menina havia saído para fazer compras e repor os mantimentos da casa, e provavelmente voltaria direto para preparar o jantar. Até lá, a pequena Saki esperava convencer o pai a ajudá-la em sua surpresa com discrição.

Apesar da ansiedade que a consumia, não pretendia interromper a execução musical de seu pai, julgando que seria adequado aguardar o término. Ao apreciar os sons melódicos e tristes das notas musicais que ressonavam do piano sentiu seu peito apertar. Era absurdo, mas sentia vontade de chorar.

Lágrimas começaram a descer pelo rosto da menina sem que ao menos percebesse. Ao escutar pequenas fungadinhas de nariz, Kousei saiu de seu estado de transe suscitado pelo mergulho naquela melodia que executava com maestria, cessando sua breve apresentação individual e particular.

Ao se virar ainda sentado no banco, reparou a presença de Saki que estava chorosa. Arregalou os olhos em preocupação e ficou de pé rapidamente.

一 Filha, o que aconteceu? 一 questionou aflito.

A menina apenas se lançou nos braços do pai antes de respondê-lo. Kousei estava um pouco rígido ao acolhê-la, pois começou a se preocupar ainda mais por conta da ausência de pronta resposta.

一 Papai, essa música que estava tocando é tão triste... 一 disse finalmente, com a vozinha embargada.

Kousei piscou os olhos e vagueou em pensamentos durante alguns segundos em busca de compreensão. Foi impossível não se lembrar de Emi Igawa abrindo o berreiro em sua primeira apresentação. Nunca esqueceria daquela memória. Tinha sido assustador, ao ponto de deixá-lo pensando “será que toquei tão mal assim?”

Concluiu que sua filha havia se emocionado como Emi, o que não era tão ruim assim. Isso significava que estava tocando com vontade, transmitindo emoção, tal como Kaori exortava em um abril já distante, ou quando sua ex-mestra falava que era preciso deixar-se levar pelos impulsos, sem confundir humildade com desinteresse.

Afinal, a música o libertou. Já não era o antigo metrônomo humano. Sua filha emocionada em seus braços era mais uma prova disso. Desfez o semblante de preocupação ao perceber que não era nada tão grave e afagou os cabelos da menina.

一 Muitas melodias de Chopin são tristes mesmo. Sua mãe também sempre comenta isso. 一 disse com um sorriso largo.

O rosto da menina se iluminou ao contemplar aquele sorriso e receber o aconchego. Viu que aquele instante seria o momento ideal para pedir ao pai que a auxiliasse com os preparativos da surpresa de Dia das Mães que faria para Tsubaki.

一 Papai?

一 Hum...一 observou-a em seguida como incentivo para que prosseguisse.

一 Eu queria preparar uma surpresa de “Dia das Mães” para a mamãe. Você me ajuda?

Não havia quase nada que Kousei fosse capaz de recusar diante daqueles olhinhos pidões e carinha tão fofa. Além disso, tinha certeza que Tsubaki gostaria de um gesto de carinho por parte da pequena. Desde que se tornou mãe, sempre se emocionava com pequenas surpresas em datas especiais.

一 É claro que sim! Já pensou em alguma coisa?

一 Sim! Queria tocar uma música bem bonita para mamãe. Você me ensina?

Kousei ficou surpreso com o pedido da filha. Embora ela já tivesse demonstrado interesse por piano algumas vezes, era evidente que seria mais talentosa em outras atividades, especialmente em esportes, já que se destacava ao ar livre como a mãe.

一 Com certeza 一 afirmou. 一 Mas primeiro precisamos escolher a música 一 Kousei deixou a filha próxima ao piano e dirigiu-se a uma prateleira lotada de partituras.

O Arima estava indeciso sobre qual escolher, então ora pegava uma pasta, ora colocava de volta no lugar. No entanto, mal sabia que até mesmo quanto a isso a menina já sabia o que escolheria.

一 Papai 一 disse chamando a atenção. 一 Quero tocar essa daqui 一 estendeu a pasta para Kousei, entregando-a.

O pianista ficou em choque quando leu o título da partitura e se atentou aos detalhes da capa da pasta. A música escolhida era Liebesleid de Kreisler, no arranjo para piano de Rachmaninoff, a preferida de sua falecida mãe. Também foi essa música que ensaiou semanas a fio para tocar com Kaori no concerto de gala do Concurso de Música Towa.

Era uma música muito especial que lhe lembrava de sua mãe. Todos os dias ele a ouvia como canção de ninar. Era a música que ressonava dentro dele mesmo quando era incapaz de ouvir os sons do piano. Tinha o cheiro de sua mãe e inspirava uma série de sentimentos, sobretudo, o de gentileza.

一 Algum problema, papai? 一 a menina indagou preocupada.

Ela percebeu que o pai havia ficado mais calado que o normal. Não conhecia a relevância dessa música para Kousei, até porque era muito pequena para que chegassem a ter tido oportunidade de conversarem sobre Liebesleid.

一 Nenhum 一 respondeu finalmente. 一 Mas como escolheu essa música?

一 A tia Hiroko tocava essa música nas férias e eu achava muito bonita. Uma vez ela me contou que esse arranjo é uma canção sobre amor.

Kousei havia viajado com Tsubaki no ano anterior e deixado a menina durante alguns dias sob os cuidados de sua antiga mestra de piano, ocasião em que esse fato provavelmente aconteceu.

“Parece ironia do destino, mas a neta com o mesmo nome da avó, terá o mesmo favoritismo musical”, ele pensava.

Quando Tsubaki estava grávida, Kousei sugeriu que a criança tivesse o mesmo nome de sua mãe, caso nascesse uma menina. Embora ela tivesse pensado em outras possibilidades, acatou a sugestão do marido.Sabia da relação difícil que ele teve com a mãe por conta do piano, mas enxergou esse gesto como pura manifestação de perdão, de cura após tantos percalços que Kousei teve na música.

一 Então...acho que já podemos começar a ensaiá-la. O que acha?

一 Vamos! 一 respondeu a menina animada. 一 Temos que aproveitar que a mamãe não voltou. Sempre que ela sair, vamos tocar.

As semanas de abril transcorreram de forma amena, e todas as tardes que Tsubaki saía, pai e filha tocavam Liebesleid para que tudo ficasse perfeito no Dia das Mães. Saki melhorava a cada treino, o que surpreendia Kousei.

Poderia ser só uma visão de sua mente, mas o fato é que já via cores a partir da melodia tocada pela filha. Conseguia contemplar o florescer da primavera. A verdade é que a música não o permitia esquecer dos sentimentos que experimentou aos 14 anos, quando seu mundo escuro se iluminou.

Foi naquela época que entendeu que era amado por sua mãe, Kaori,Tsubaki, Hiroko... Enfim... por muitas pessoas. Seu mundo não era vazio. Não precisava ter medo de enfrentar qualquer desafio pelo caminho. Era um músico de verdade, por isso seus sentimentos sempre o moveriam adiante.

O dia tão esperado do mês de maio se aproximava e Kousei notou que Saki já executava o arranjo de Rachmaninoff melhor do que ele. Não conseguia esconder os sorrisos de satisfação com os feitos da filha. Ficava contente só de pensar no quanto Tsubaki ficaria feliz com aquela surpresa.

Quando finalmente chegou o Dia das Mães, Kousei reparou que a filha parecia nervosa a respeito da apresentação que haviam planejado para Tsubaki. Parecia receosa em cometer algum equívoco que pudesse estragar a surpresa.

Minutos antes do horário esperado para a apresentação que se iniciaria com a chegada de Tsubaki dos exames médicos de rotina, percebeu que a filha parecia trêmula.

一 Saki, está nervosa? 一 indagou.

一 É claro, papai. E se eu errar alguma coisa ou a mamãe não gostar? 一 a menina questionou insegura.

一 Filha... 一 Kousei se abaixou para que ficasse na mesma altura que menor. 一 Até os maiores músicos sempre ficam nervosos antes de todas as suas apresentações, mas mesmo assim sempre subimos no palco. Algo nos move para frente…

一 Até mesmo você?

一 É claro, não sou diferente dos outros 一 riu. 一 Você só precisa ter um motivo que a leve tocar, certo? 一 disse dando uma piscadela

一 Acho que entendi. Vou seguir em frente e tocar pela mamãe!

Kousei sorriu com a resposta da filha. Ela aprendia lições importantes numa velocidade impressionante. Era impossível não sentir orgulho dela.

Meia hora mais tarde, Tsubaki entrou em casa, e ao ingressar na sala de estar, foi vendada por Kousei conforme combinado com Saki. Conduziu-a até o patamar superior cuidadosamente por conta dos degraus. Quando a música chegou em seus ouvidos, ficou evidente para o Arima o quanto sua esposa já estava surpresa com a melodia.

一 Kousei, se não é você… Não me diga que...一 Tsubaki indagava enquanto se aproximavam da sala de música.

一 Veja você mesma 一 disse retirando a venda dos olhos da esposa.

A surpresa surtiu o efeito esperado e Tsubaki ficou emocionada. Kousei abraçou-a por trás e nos minutos seguintes, apenas apreciaram a execução musical.

一 Eu arriscaria dizer que Saki já está tocando melhor que você 一 sussurrou em tom de provocativo.

一 A Saki é maravilhosa mesmo, mas acho que sua avaliação com otorrino não deve estar em dia, pois não tem ouvido muito bem 一 disse embarcando na brincadeira.

Tsubaki riu baixinho. Kousei gostava de fazer provocações assim como ela.

一 Mas como foi sua consulta? 一 questionou, ainda mantendo o tom de conversa em sussurros.

一 O de sempre… Estou bem mas não poderei participar do próximo campeonato. Recebi uma recomendação de licença.

一 Por quê?

Ela hesitou em responder. Não achava que aquele momento fosse a ocasião, já que não desejava desviar o foco da surpresa planejada por Saki, mas decidiu que não conseguiria deixar o assunto fora de pauta.

一 Digamos que talvez um outro pianista esteja a caminho…

Kousei ruborizou e engoliu seco. Não sabia se havia compreendido bem, então achou melhor confirmar.

一 Você está grávida?

一 Sim...De 15 semanas.

O Arima não conseguiu se conter de animação com a notícia e capturou os lábios da esposa com um beijo. Saki, por sua vez, percebendo os burburinhos dos pais e os beijos trocados, parou a execução musical de forma abrupta.

一 Ei, vocês dois! Parem com essa melação toda aí atrás! 一 disse a garota indignada.

Os dois paralisaram e trocaram olhares. Kousei não se conteve e começou a dar risadas, o que imediatamente contagiou as outras duas.

Saki desistiu de voltar ao piano e correu até a mãe para felicitá-la pela data.

一 Feliz Dia das Mães, mamãe 一 disse abraçando-a.

一 Obrigada querida. Fiquei muito contente com a surpresa.

O amor parecia estar no ar e Kousei, só de olhar para as duas, sentia-se aquecido. Deu-se conta que era genuinamente feliz.

Liebesleid já não estava só no toque das teclas do piano conforme a partitura. Definitivamente estava no ar e preenchia todo o seu ser.

Notas finais
Espero que tenham gostado.

Beijos e até a próxima!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!