Lie To Me
1 Lie to Me
Notas iniciais
A luz amarelada do abajur, o único foco de claridade da sala de estar, iluminava bem seus olhos dourados por trás do vítreo fino dos óculos, o rosto impecável, os cabelos loiros e os lábios perfeitos. E estes eram os mesmos pelo quais as mentiras escapavam, sorrateiras, quase que imperceptíveis. Deslizavam cuidadosamente pelos lábios aveludados, como palavras macias, que não machucavam ou incomodavam. Mas não passavam de nada, a não ser a distorção completa dos fatos.
Os orbes castanhos miraram a xícara vazia, a qual o ruivo mexia, arrastando os dedos, inquieto. Não agüentava mais aquilo. Não suportava mais aquele sentimento de que todas as coisas que Uruha dizia ser uma invenção. Pensava ele que era uma espécie de eufemismo, mas não era. Ruki sabia que não. E isso o destruía por dentro.
Não era uma coisa recente, pelo contrário. E não se tratava só das palavras.
Tudo, exatamente tudo que o loiro fazia pelo pequeno parecia uma encenação, apenas para eles camuflassem o que parecia ter se perdido ao decorrer dos anos em que passaram a morar juntos. Cada toque, gesto, atitude, palavra, frase e olhar... eram falsos, todos eles. Era como viver uma ficção, como se aquilo fosse uma história que se lê em livros, mas que não acontece de verdade com casais normais.
Era como viver numa mentira. A cada segundo, a cada minuto. Todos os dias. Por meses, e agora, por anos.
Já estava farto.
- Eu te amo, meu pequeno.
Essa frase. Ele não a dizia com frequência, entretanto. Embora não visse um rastro sequer de algo que pudesse faltar com a verdade nela, por que então, apesar de verdadeira, não era suficiente para livrá-lo de suas suspeitas? Parecia dura, fria. Como se ele tivesse que tê-la mastigado antes de pronunciá-la. E foi isso o que mais doeu.
Ruki sentia seus olhos marejarem, e seu peito arder com o choro que subia à garganta. Abaixou o rosto, virando-o para que Uruha não pudesse vê-lo. Detestava mostrar sua fraqueza perante a frigidez do loiro, ainda mais por ele ser a causa de tudo.
Pôs a xícara de qualquer jeito sobre a mesa de canto, e levantou-se abruptamente, movendo-se o mais rápido que podia dali.
As lágrimas escorriam interruptas por sua face, mas agora ele não ligava. Estava do lado de fora de casa, no jardim de trás desta. A brisa fria e as nuvens negras traziam uma tempestade, e isso, talvez, fosse a única coisa que o agradasse no momento. Estava longe dele.
Então era isso? Era essa sua vida? Porque se “sim” fosse a resposta, ele queria poder doar o que lhe sobrava para uma pessoa que realmente pudesse aproveitá-la, porque esta já não o agradava mais. Não a queria mais.
As coisas haviam tomado outro rumo. Uruha não era mais o mesmo. Não era mais aquela pessoa carinhosa, gentil e que deixava ser importunado por Ruki no meio do trabalho, quando escrevia, apenas porque o pequeno sentia falta de si.
Eram apenas conhecidos, se podia chamar-se assim. Ou, vai ver, nem isso.
Se o ruivo ousasse interrompê-lo por estes dias, teria quase certeza que ele soltaria algo como “O que você quer? Eu estou ocupado, agora.” ou “Depois eu falo com você.” e mesmo assim, não falaria nada em seguida.
Porém, Ruki não se sentia mais na intimidade de fazer ou falar qualquer coisa sobre qualquer assunto que fosse com Uruha.
Limpou as lágrimas que ainda escorriam com a manga comprida da blusa, mas elas ainda não cessavam. Parecia que só iriam acabar quando desidratasse, porque duvidava que algo agora fosse capaz de amenizar sua dor no momento.
De súbito, sentiu um calor, um peso leve em suas costas e em seu ombro esquerdo. Algo envolvia sua cintura e eram... braços? Estava sendo abraçado...?
- Por que está fugindo de mim, Taka? – a voz doce tivera o mesmo efeito de sempre sobre o corpo do pequeno. Arrepios o percorreram, ainda mais com a aproximação repentina. Mas isso... não mudava nada.
- Me solte, por favor. – Já não conseguia conter a angústia que transbordava, e isso fora perceptível para Kouyou.
- Não chore. – disse, suave. Mas havia algo errado em sua voz. Algo como “preocupação”. – Por favor.
- Eu não quero... – Ruki parou ou sua voz não sairia. Respirou fundo, tentando manter-se firme. – Eu não quero ser envolto por suas mentiras. Não quero fazer parte delas. Então, por favor, me solte.
Uruha não esperava por essas palavras, e isso o havia atingindo... uma facada no ego, uma decepção para consigo mesmo. Seus braços afrouxaram ao redor de Ruki, e o ruivo logo moveu-se, parando de frente à bela estatueta de porcelana.
A face desta encontrava-se até surpresa. Os olhos dourados estavam levemente arregalados, embora sua expressão demonstrasse a mesma apatia de sempre.
- Se você não... – Aquilo era duro para o pequeno. Ele sabia o poder daquelas palavras, mas não podia se arrepender ou temê-las. Não suportava mais carregar tudo como uma carga pesada sobre seus ombros. Teria que ser dito. – Se você não sente mais nada por mim, então vamos terminar aqui. Eu não... – Iria desmoronar novamente. Seus olhos voltavam a transbordar. – Eu não quero mais que isso seja um fardo. Não era pra ser assim. Se está sendo, não há porque continuar.
O loiro não pronunciara uma palavra. Um ruído sequer. E isso deu a entender para Ruki que ele não se importava.
E, mais uma vez, sentiu raiva. Sentiu a cólera por parecer o único imbecil que se preocupava com a relação que tinham. Ou que um dia tiveram.
Moveu-se, passando vagarosamente por Uruha e sem dizer nada. Iria arrumar as malas e ir pra algum lugar. Para a casa dos pais, de Aoi, de qualquer pessoa. Qualquer lugar parecia melhor do que dividir o espaço com ele.
- Eu nunca menti quando disse que te amava. – rebateu pelo ombro. – Não menti quando disse isso há cinco minutos. E não estou mentindo agora.
Ruki parou, ainda de costas. A chuva começara a cair, forte, abundante. Mas nenhum dos dois se moveu.
- E como eu vou ter certeza disso?
- Você não vai. A não ser que confie em mim novamente.
- E por que eu faria isso?
- Porque eu confio em você.
- Eu queria que isso fosse o bastante.
- Não deveria ser?
- Deixou de ser... Quando você até mesmo evitou olhar nos meus olhos, com medo que a verdade escapasse pelos seus próprios, que me traía.
- ...
- E eu também te amo. Mais que tudo. E queria que isso também fosse o suficiente.
Uruha se virou, pondo-se na frente de Ruki. Os olhos dourados fixos nos orbes negros, admirando-os. Os rostos estavam próximos, a ponta de seu nariz arrastava delicadamente na do outro, acariciando-o.
- O que seria suficiente, então?
- Eu... não sei.
- Será que você consegue distinguir o gosto da mentira em meus lábios...? – indagou, selando-os gentilmente. – Notar a falsidade que envolve nossas línguas...?
As mãos do loiro apoiaram-se firmemente na nuca do menor, as línguas se entrelaçavam no roçar dos lábios. Ali, ele não tinha aquela sensação ruim, aquela cólera ou angústia das blasfêmias de Uruha. O que estava sentindo agora, era algo que não sentia há muito tempo.
A sensação de ter alguém que se importa com você, aquela que te protege de qualquer coisa que possa te ferir.
A sensação de amar... e de ser amado de volta.
Talvez isso fosse o suficiente.
-
Mas... As coisas melhorariam, então?
- O que deveríamos fazer agora? – perguntou, a voz rouca e fraca. Aninhou-se mais ao peito nu e alvo de Uruha, aconchegando-se, enquanto este acariciava suas madeixas. – Você acha que ainda podemos continuar com isso?
- Taka... Eu...
- Eu não me importo com ele. Não ligo para quem seja. Essa conversa não é sobre ele. É sobre nós. Eu preciso saber, Kou. – murmurou. E agora, ele encarava o rosto do loiro. Parecia, pela primeira vez, perdido. – Preciso saber se você vai continuar a me machucar sem se importar. Porque eu preciso saber até onde eu... posso aguentar.
- Eu não quero te machucar. Eu nunca quis.
- Se não pode me prometer que não irá mais me machucar, assim... Como espera que eu confie em você?
- Eu não espero... mais. Eu não quero que você confie em mim, porque eu não mereço a sua confiança. Quero que esse relacionamento acabe.
- O quê...?
- Só assim eu vou ser capaz de te amar sem te machucar ao mesmo tempo.
- Eu nunca vou deixar de te amar.
- Eu também não, Taka. E é por isso que não podemos mais continuar juntos. – ele moveu o rosto, tocando rapidamente os lábios de Ruki com os seus. – “Que ama... não machuca.”
- Então... é esse, o nosso final? Ele não é... exatamente como esperávamos, era?
- Nem todo final feliz acaba com um casal, dois filhos e um cachorro... – Ruki sorriu.
- Talvez você esteja certo.
O ruivo moveu-se novamente, beijando a tez do pescoço de Uruha. O loiro, por sua vez, pegou a mão do pequeno, beijando as costas desta, entrelaçando os dedos.
- Se não for exigir demais... eu posso lhe pedir um favor? – Indagou o mais alto, olhando atentamente nos orbes negros. – Nunca mais fuja de mim, está bem? – O menor sorriu.
- Está bem.
Notas finais
Espero que tenham gostado~ Reviews são sempre bem vindos x3
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