Lie - Extra
1 Você pode me entender? (Extra)
Notas iniciais
Antes de começar a ler tenho um aviso IMPORTANTE:
Esse extra se passa entre os capítulos 9 (Confissão) e 10 (Inveja é uma forma incompetente de se admirar), por isso TEM O POV DO ENVY SOBRE LOGO EM SEGUIDA QUE O CAPÍTULO 9 TERMINA. Se precisar, volte na fanfic original e dê uma relida no finzinho desse capítulo.
Agora, devorem o extra, seus pervos. Vou contar isso como um capítulo normal, de modo que só semana que vem vocês terão o próximo *evil laugh* >:3
Kissus, e SAYONARA NE.
Extra Chapter: você pode me entender?
Envy POV.
Depois de lhe dar um sorriso — um sorriso que veio bem de dentro, o que me extremamente raro -, virei-me para a saída deixando o homúnculo de longos cabelos castanho-claros para trás. Assim que eu estava a alguns passos da porta, espreguicei-me longamente, sentindo os lábios formigarem por alguns segundos. Deixei escapar um sorriso.
- Ela é uma boa garota. — disse uma voz atrás de mim. Eu parei imediatamente, arregalando os olhos e dando uma espiada. — Ela é muito bonita, tem uma personalidade forte... Só é uma pena que não é confiável! — ele soltou uma risada curta.
Fiquei sério e me virei para ele, baixando os braços e deixando-os cair ao lado do corpo.
- Do que está falando, Greed? — perguntei.
Ele soltou um sorriso afiado como uma faca — não parecia mais o rosto do extrangeirozinho de Xing que ele fora há apenas alguns segundos atrás.
- Do quê, não, Envy. De quem. E de quem mais, seu idiota, se não da Lie?
Eu engoli em seco e estreitei os olhos.
- O que tem ela?
Ele soltou uma risada alta. Rezei para que Lie, que ainda estava na cela de onde Marcoh acabara de fugir, não escutasse.
- O que tem ela, imbecil? — repeti.
- Ora, ora, Envy, não se faça de tolo. Eu vi o beijo que você deu nela agora mesmo. Como foi? — ele tentou imitar minha voz. Isso me irritou e muito. — "Lie, eu posso tentar uma coisa?". Essa foi a pior coisa que você poderia ter dito, mas é visível que ela gosta de você o suficiente para cair como um patinho.
Eu trinquei os dentes, cerrei os punhos e dei um passo em direção a ele.
- Ei, é melhor parar com isso. — rosnei.
O sorriso de Greed apenas pareceu aumentar.
- Por quê? O que você vai fazer? Aqui você não tem espaço suficiente para se transformar naquela coisa de que você se orgulha tanto de chamar de "sua forma verdadeira". Ei, era de se esperar que depois de ver aquilo a Lie nem chegasse a se interessar por você, não é? Aparentemente eu estava errado...
Eu ergui o braço, desferindo um soco nele, mas o mesmo desviou, socando-me no abdômen. Droga, primeiro Lie e depois Greed... Daqui a pouco eu vou estar com um buraco na barriga. Acabei me ajoelhando com o golpe, não por ter-me ferido, mas porque eu estava ocupado absorvendo tudo o que Greed dissera até então. Ele ergueu uma sobrancelha, estranhando.
- Vamos, levante-se! Você não deveria ser tão patético quanto parece.
Eu trinquei os dentes e me ergui de uma vez, acertando em cheio meu punho em seu queixo. Ouvi o doce estalido de seu maxilar se deslocando e sorri. Greed se ajeitou e notei alguns rápidos feixes alquímicos cicatrizarem o ferimento.
- Bem melhor assim — ele sorriu.
Eu sorri também por um minuto, mas então fiquei sério.
- Acha mesmo que a Lie gosta de mim?
Ele lançou um leve olhar ao outro lado do corredor.
- Acho sim... Mas posso até estar redondamente enganado, o nome dela é "mentira", afinal de contas, não é?
Suspirei. Por que aquilo me deixava decepcionado, intrigado e... bem, o pior de tudo, incomodado? Ela é apenas outra droga de homúnculo que outro humano burro — aparentemente chamado Luke — criou. Entretanto, há poucos minutos, quando a beijei, foi como se todas as minhas preocupações se esvaíssem e não houve mentiras nem segredos entre nós. Foi o mesmo no estômago de Gluttony, embora, naquele momento, eu estivesse rodeado de sensações alternativas — como o fato do Pirralho-kun e o moleque de Xing estarem nos olhando. E teve aquilo de que logo depois ela me deu um golpe com tanta força que quase me fez querer chorar. Ok, eu não quis chorar, só estou usando uma comparação hiperbólica.
De qualquer forma...
- Você gosta dela, não é? — perguntou Greed, notando meu silêncio.
Corei e instantaneamente meu orgulho falou mais alto.
- Não! É claro que eu... — entretanto, ele não parecia acreditar. Eu me espreguicei constrangido e olhei para a parede ao lado. — Ok, talvez eu goste um pouco dela. E daí?
Ele sorriu.
- Ah, meu caro amigo, Envy. — ele murmurou. — Nesse momento, quem o inveja sou eu. Oh, que engraçado, estou invejando a própria Inveja!
Eu franzi o cenho.
- Por que você me inveja, Greed?
- Porque, se você não notou até agora, inveja e ganância são coisas muito parecidas. Você inveja aquilo que você quer ter. Você cobiça aquilo que os outros têm e que você gostaria de ter. Resumindo, você inveja o que cobiça e cobiça o que inveja.
Eu o fitei por alguns segundos.
- O que você quer dizer com isso? Quero dizer, o que isso tem a ver com a Lie?
- Se você tem capacidade de fazer essa pergunta, então entendeu o que eu quis dizer. — ele estreitou os olhos já miúdos. — Eu a quis no momento em que a vi.
Eu trinquei os dentes e dei passos largos até ele, pegando a gola de sua camisa.
- Fique longe dela.
Ele sorriu mais ainda, mostrando os dentes afiados.
- Ora, vamos lá, Envy. Você sabe que meu interesse é puramente físico. Eu acabaria magoando-a caso ela se apaixonasse por mim. No seu caso, entretanto, é mais provável que você saia magoado!
Eu trinquei os dentes e o soltei enraivecido.
- Cale a boca!
- Tudo bem, tudo bem! Só quero que note uma coisa: o que eu estou te falando não passa da verdade. Uma coisa que você nunca terá certeza se ela vai falar.
O encarei por mais alguns segundos, então virei-me e comecei a me distanciar. Ele podia dizer o que quisesse. Greed também não era o cara mais confiável por ali.
Lie POV.
- Envy, você é um IDIOTA! — gritei.
- Cale a boca! — ele retrucou.
Tínhamos saído numa missão dada pelo Pai. A missão era simplesmente para que seguíssemos os irmãos Elric para uma cidadezinha campestre não muito longe da Central e ficássemos de olho em seus movimentos, até porque se havia algo de importante para eles irem até lá, provavelmente nos interessaria.
O único problema era que estava chovendo.
- Argh! — rosnei quando pisei noutra poça de lama enquanto corríamos pela cidadezinha cujo nome era Light Waves. — Minhas botas! Envy, se elas se estragarem de vez eu juro que te faço engoli-las!
- Lie, pare de reclamar, droga! Eu arranjo novas para você se for o caso. Agora temos que nos concentrar em arrumar um abrigo, não estou aguentando mais essa chuva! E só parece tender a piorar!
- Por que não pensou nisso antes?!
Ele parou e se virou para mim, empurrando meus ombros.
— Como você acha que eu poderia prever que choveria?!
- Você deveria pensar nessa possibilidade, não acha, Senhor “Pode Deixar Que Eu Organizo Toda a Missão”?
Ele ficou me observando por alguns segundos, mas graças à chuva que ficava cada vez mais densa, não consegui distinguir sua expressão. Eu coloquei, cansada, a mão no ombro dele e balancei.
- Enviee — falei. — Anda, arruma algum lugar para a gente ficar!
Ele soltou um suspiro irritado.
- Estou fazendo o que posso, se você não notou. — ele olhou ao redor, virando-se. — Ahhnn... Vamos ver... — ele soltou uma exclamação. — Tem uma hospedaria ali.
- Ótimo! — falei. — Ah! Ótimo, ótimo, ótimo! Vamos, se transforme em alguém que não pareça uma palmeira ambulante.
Ele me olhou, censurando.
- Palmeira...?
Só aí notei o que eu falei e comecei a rir.
- Ah, ok, eu estou brincando — eu puxei seu braço em direção ao letreiro que parecia um tanto opaco graças à chuva. — Vamos logo!
Espreitamo-nos até a porta da hospedaria e demos uma boa olhada no atendente atrás do balcão, nas pessoas ao redor e tudo mais. Havia uma grande escada rústica em madeira escura e meio úmida graças a todas as pessoas que deviam ter passado por lá molhadas apenas essa noite. Entretanto, não havia nenhuma chave no painel atrás do atendente.
Por um minuto, quase perdi a esperança de passar a noite num lugar quentinho e seco, mas o homem no balcão se virou e colocou uma chave no número duzentos e quatro, então saiu para a entrada de funcionários.
- É a nossa chance — falei. — Transforme-se nele, anda!
- Tá, tá, calma!
Num instante, não era mais Envy ao meu lado e sim o balconista da recepção. Ele entrou na hospedaria e passou para trás do balcão. Eu entrei logo atrás, disfarçadamente, tentando não marcar presença. Envy me lançou um olhar e começou a subir as escadas. Fui junto com ele.
- Onde fica o duzentos e quatro? — sussurrei, esperando que um casal animado passasse por nós.
- Deve ser por aqui... — murmurou, subindo para o segundo andar. — 200, 201, 202, 203... 204 — ele parou diante da porta de madeira escura e fez uma mensura rápida, entregando-me a chave com um sorriso maroto ocupando sua face. — Damas Misteriosas primeiro.
Eu dei uma risada baixa e tomei a chave de sua mão, abrindo a porta.
- Ahh, estou doida para me secar. — murmurei.
Abri a porta e entrei.
Mas não podia ser. Ahh, não, simplesmente não podia. Droga.
- Oh-ou — murmurei. Senti que Envy parava do meu lado e olhava o quarto também. Agora ele era Envy de novo, e não o balconista.
- Oh-ou — repetiu.
Eu bufei e entrei mais no quarto, parando ao lado do armário.
— Melhor fechar e trancar isso aí, senão o cara vai dar por falta da chave e nos expulsar daqui.
Ele me olhou como se quisesse que eu cooperasse.
- Lie — disse.
- O que foi?
Ele não precisou dizer nada. Seu olhar de desconforto em direção à cama de casal no meio do quarto era evidente.
- Envy, não é uma porra de uma cama que vai me impedir de ficar num lugar seco e quentinho. É minha maior aspiração momentânea, então, por favor. — falei.
Ele me olhou por alguns segundos, revirou os olhos, bufando e entrando. Ele se virou e trancou a porta enquanto eu corria até o banheiro e puxava uma toalha. Eu não tinha nenhuma roupa seca, mas como sou um homúnculo, não fico resfriada. Tomei um banho apenas para me esquentar e vesti as roupas mesmo molhadas — exceto a jaqueta, pois não havia condições de vesti-la agora — e saí, puxando uma coberta da cama e me enrolando nela.
Quando Envy terminou o banho, eu estava na varanda do quarto, olhando o que havia para ser visto: pingos gordos de chuva caindo tão rápido que quase impediam a visão do que havia depois. Ele parou ao meu lado e apoiou-se no parapeito também.
- Amanhã teremos que começar a procurar os Elric. — resmunguei. — Perdemos a pista deles depois que a chuva começou a ficar mais forte.
Ele soltou um suspiro cansado.
- Você gosta bastante desses dois, não é?
- Dos Elric?
- Não, Lie. Não estamos falando dos Elric. — ele ironizou.
- Ah, desculpe. — revirei os olhos. — E não é que eu goste deles.
- Então o que é?
Eu pensei por um momento, fazendo um biquinho com os lábios.
- Hmmm... É que eles me entendem.
- Como assim?
Eu baixei o olhar.
- Você não entenderia. É algo... humano... demais. Eles também perderam alguém especial: a mãe deles. Enquanto eu perdi o Luke.
Ele ficou quieto. Depois de alguns segundos, achei que estava quieto demais. Olhei para ele, mas seu rosto estava sombrio por trás dos cabelos ainda úmidos.
- O que foi? — perguntei.
- Você diz que eu não entenderia — ele murmurou e se espreguiçou. — Mas você também não me entenderia. Você falou sobre isso ser algo "humano" quase que com receio. Não entende por que eu odeio os humanos.
- E por que você não me faz entender?
Ele olhou para mim, hesitante por um minuto. Depois seu olhar voltou a ficar sombrio e ele olhou para a parede de chuva.
- Você pode ter inveja de um pássaro porque ele consegue voar? — antes que eu pudesse responder, ele continuou. — Ou de uma pedra, porque ela não pode sentir, chorar...? Você invejaria uma borboleta por ela ser tão livre? — ele soltou um suspiro e baixou os braços, apoiando-se no parapeito. — Se você já invejou tantas coisas simultaneamente, você me entende.
Eu o encarei por alguns segundos.
- Você nos inveja? — perguntei. — A mim e aos Elric? Porque, mesmo que essas pessoas não estejam mais conosco, tivemos alguém especial?
Ele me olhou com o cenho franzido e a expressão de irritação.
- Hein, você escutou o que eu acabei de dizer?
- Sim — murmurei, compreendendo a resposta. — Desculpe-me.
Ele balançou a cabeça e olhou para a chuva novamente, colocando uma mão no quadril enquanto com a outra se apoiava no parapeito.
- Ei, Lie. — ele falou. — Você mentiria para mim?
Ergui os olhos para ele, entretanto, Envy não me encarava. Talvez estivesse com medo de ler uma mentira em meu olhar. Como se isso fosse possível agora que aquele idiota já me conquistara. Eu me aproximei alguns passos, deixando o lençol cair pelos meus ombros até parar na dobra de meus cotovelos, ergui a mão e puxei o rosto dele para que olhasse em meus olhos.
- Você vai acreditar na resposta que eu te der? — perguntei.
Eu pude ver a hesitação em seus olhos.
- Eu quero acreditar — ele respondeu em voz baixa.
A partir daí, não sei se era eu que comandava os movimentos de meu próprio corpo. Eu fiquei na ponta dos pés e mantive nossas bocas a centímetros uma da outra. Fechei os olhos, mas notei que os dele continuavam abertos por um instante.
- Acreditar ou não, isso depende apenas de você — eu murmurei.
No momento seguinte, quase que como se aceitando meu convite a acreditar, ele acabou com o pequeno espaço que havia entre nós e uniu nossos lábios. Imaginei que estivesse havendo uma explosão na minha boca quando nossas línguas se tocaram, pouco a pouco. A sensação dele em mim era calma, mas ficava mais intensa a cada segundo. Meus braços deslizaram-se para o peito dele e senti seus músculos fortes pelas palmas de minhas mãos. Ele também me envolveu num abraço e senti seu calor tão próximo a mim que quase me esqueci de respirar.
Eu sorri por entre o beijo e, passando meus braços pelo seu pescoço, pulei envolvendo a cintura de Envy com as pernas. Ele deu risada também, parando por um minuto para beijar meu pescoço.
- Que se dane agora se for mentira ou verdade — ouvi-o sussurrar.
Ele me carregou para dentro. Eu quase já não sentia mais frio tendo em vista que estava abraçada a Envy. De repente ele parecia muito quente e confortável, mais até do que a cama sequinha atrás de nós. Ele me baixou lentamente e eu senti os lençóis encostarem-se às minhas costas ao mesmo tempo em que o corpo de Envy encostava-se ao meu gradativamente. Entre os beijos, eu me empurrei mais para o centro da cama e ele continuou vindo até pregar os lábios aos meus novamente.
Isso está ficando perigoso, uma voz na minha mente me alertou. Entretanto, uma parte de mim não queria escutar. E coincidentemente essa parte estava sendo bastante convincente... Era a parte que sentia todo o corpo de Envy contra o meu, a parte que sentia-o apalpar-me intensamente, implorando por mim enquanto eu implorava por ele.
Naquela hora eu não queria que houvesse nenhuma mentira nos impedindo de continuar. E eu praticamente não dava a mínima para o fato de estarmos no meio de uma missão. Eu só queria que aquele homúnculo ardesse em mim como somente a verdade era capaz de fazer. E de acordo com o olhar dele alguns minutos antes, eu tinha certeza de que havia verdade nesse relacionamento.
Entretanto, aquela outra parte de mim que continuava sã — e não entorpecida pelo desejo — começava a falar cada vez mais alto a ponto de eu não conseguir ignorá-la completamente. E quando as mãos de Envy desceram para minha saia, coloquei minhas mãos sobre as dele e interrompi o beijo, fitando seu olhar de confusão.
- O que foi? — perguntou.
Eu mordi o lábio, indo contra tudo o que eu estava querendo agora.
- Acha que devemos fazer isso?
Ele deu uma risada alta.
- Se devemos? Não se preocupe, se você for boa mentirosa o suficiente, ninguém vai des...
- Envy — murmurei. — Não estou perguntando por nenhum fator externo. Pergunto por nós dois.
Ele me encarou por alguns segundos.
- Eu quero fazer isso — respondeu finalmente. — Talvez não tenhamos outra oportunidade.
Assenti. Eu te amo, pensei. Mas não consegui proferir as palavras. Eu te amo, seu homúnculo invejoso, odiável, idiota, tagarela e ingênuo. Aquelas palavras, as três primeiras, não conseguiam sair de jeito nenhum e eu não entendia o motivo. Medo, talvez? Intimidação? Nós faríamos aquilo, certo? E durante o tempo que eu vivi com os humanos, eu cheguei a memorizar o conceito de nunca fazer isso com uma pessoa que não amo.
Só que eu nunca fiz sexo com Luke.
Eu franzi o cenho e mordi o lábio com força de novo. Lie, imbecil! Duas partes de mim discutiam, em conflito direto: uma me perguntava como eu podia pensar em um homem enquanto estava na cama com outro. A outra me questionava como eu poderia trair Luke dessa maneira. Envy pareceu ver a angústia em meu olhar e murmurou:
- E eu invejo esse cara também — suspirou.
Arregalei os olhos para ele.
- Quem? L-Luke?!
Ele assentiu.
- Você o amava, não é?
Eu assenti devagar. Entretanto, a reação dele foi a que eu temia: ele se ergueu de cima de mim e sentou-se ao meu lado, na cama. Eu me ajoelhei, olhando-o, já com o estômago revirado por ter falado a verdade. Argh, é por isso que prefiro mentir: a verdade machuca as pessoas. Dói até mais do que a própria ideia de uma traição. A mentira é uma das armas mais mortais que existem.
- Envy — murmurei. — Não, por favor. E-Eu quero fazer isso, quero mesmo.
- Pois é, eu também quero, esse é o problema. — ele rosnou, levantando-se. — Mas você não quer realmente fazer isso comigo, não é? Se você pensou nele. Eu vi no seu olhar, Lie, não tente negar.
Eu balancei a cabeça.
- Envy, foi sem querer!
Ele trincou os dentes — o que deixou seu maxilar ainda mais definido, não pude deixar de notar — e deu um passo até mim, segurando meu pulso com força.
- Não foi sem querer. Ou pode até ter sido, mas só o fato de sua mente ter vagado para ele significa que você não queria que fosse eu aqui. — ele bradou. — Quem eu preciso ser para você? Hein?!
Antes que eu pudesse responder, ele se transformou... Envy se transformou em Luke. Meus olhos se arregalaram e eu senti uma dor imensa em mim. Não só de culpa porque ter Luke em minha frente novamente — mesmo que só aparentemente — era no mínimo impressionante. Mas a dor era também por raiva. Por que Envy estava fazendo isso comigo? Tudo bem, eu cometera um erro e fora um erro involuntário, mas ele precisava... Precisava trazer à tona que...
Senti que meus olhos viravam uma enchente de lágrimas enquanto eu olhava, sem expressão, para aqueles olhos azuis que havia anos me fitavam com aquela expressão de confusão e mágoa. No momento que notou as lágrimas, a expressão dele se modificou para incredulidade, como se ele notasse o que estava fazendo. Envy se transformou novamente em si mesmo e soltou meu braço, ajoelhando-se na cama também e me olhando nos olhos.
- Ei, eu... — murmurou. — Lie...?
Eu não conseguia impedir o choque que me assolava. Luke... Envy... Será que eu teria que escolher? Droga, Luke era uma lembrança apenas! A resposta era óbvia, mas por que eu não conseguia decidir em voz alta? Vendo que o pouco que dizia não fazia efeito, Envy me puxou consigo e me abraçou.
- Ei, não chora, vai. De novo não. — falou. — Sabe que eu não sou bom com palavras.
Eu mordi o lábio com força e o abracei também.
- Desculpa, Envy! — soltei. — Aconteceu, não posso apagar meu passado! Eu gostaria, acredite!
- Entendo — ele murmurou. — Anda, para de chorar, boba.
— Não, você não entende. Escuta — eu me desentrelacei dele e coloquei as mãos em seus ombros. — Eu entendi como você está se sentindo, mas vamos tentar de novo, tá? — limpei as lágrimas com o braço, entretanto, não dava para disfarçar minha voz. — Vamos tentar de novo. Juro que não vou pensar em mais nada, só em você. Tá?!
Ele me olhou atentamente.
- Posso confiar em você, não é?
Eu assenti.
— Sempre pôde. Só você pôde.
Ele sorriu e se aproximou, permitindo que nossos lábios se tocassem novamente.
Resumindo a história, acho que no fim das contas a cama não foi um problema como achamos que seria.
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