Libélula Virtual.
2 Capítulo 2
Aglaë estava escondida em uma sala vazia, focada em seu inter-tablet. Fazia dois dias que tinha conhecido o menino ruivo, e não conseguia parar de pensar nele, ela ficava obcecada com as coisas muito rapidamente, e isso a ajudava a coletar muito mais conhecimento que as outras crianças, que perdiam o interesse rapidamente, mas era a primeira vez que sentia isso por alguma pessoa viva que ela tinha conhecido pessoalmente.
A algumas semanas ouviu um dos monitores sussurrar para o outro a senha do perfil deles, ela pensou como era descuidado, só porque era uma criança não significava que não poderia invadir a conta deles, afinal, era tão fácil.
Em apenas alguns minutos conseguiu entrar na conta de uma monitora que ela sempre considerou desatenta demais para checar o próprio histórico de visualizações, depois de alguns minutos tentando entender como a interface da área de monitores funcionava, começou a procurar pelos alunos do mesmo grupo que ele, e rapidamente identificou ele pela foto do perfil, clicando nela para conseguir mais informações.
Seu nome era Karcsi, ele nasceu em Y454 e tinha um histórico longo de punições por comportamento violento e desacato a monitores. Ela era cinco anos mais nova que ele, e quando o conheceu ele parecia enorme, mas ele tinha uma estatura comum para um menino de dez anos. Foi deixado no orfanato aos quatro anos, tinha notas boas em Programação e História, mas estranhamente, era péssimo em Matemática básica e Idiomática, no restante das disciplinas ele estava na média. Ele era fisicamente saudável, mas tinha uma série de transtornos psicológicos que foram apontados pelos programas de psicologia, mas isso não era importante, aqueles programas também sempre davam vários transtornos com nomes estúpidos para ela, e pelo que ficou sabendo, quase todos no orfanato e fora dele tinham algum problema neurológico, era irrelevante.
Ela continuou checando as informações dele, lendo e relendo, e aproveitou para checar as informações sobre os outros estudantes. Não eram informações muito protegidas pois afinal, eram só fichas de órfãos e de funcionários do governo de baixo escalão. Quando ela viu, o tempo tinha passado e já estava anoitecendo, logo ela teria que ir para a cama antes do aviso final, ou seria castigada. A sorte é que os monitores nunca pareciam se importar com ela, pois não dava problemas e não irritava eles, apenas por isso já tinha alguns pontos a mais que não gostaria de desperdiçar.
Ela apenas salvou a foto dele de perfil e foi vestir seu pijama para dormir. Essa noite ela sonharia com cabelos de fogo e olhos de furacão. Então soltando um risinho involuntário, dormiu abraçada ao travesseiro cinza. Essa seria uma semana muito divertida.
Quando ela acordou no outro dia, ouviu monitores falando sobre uma invasão no sistema, um deles apenas riu e deu de ombros, e como ela imaginava, ninguém se importava.
Ela já não queria tentar falar com nenhuma outra criança, e estava se acostumando a ser ignorada, preferia assim. Era muito melhor que ser intimidada, e ela se considerava com sorte. Logo faria seis anos, e queria passar seu aniversário com as arvores da floresta e seus amigos imaginários, mesmo sabendo que eles não eram reais, é bom imaginar alguém falando com você as vezes, é divertido.
Depois de terminar suas tarefas diárias, foi até o refeitório e pegou seu prato planejado. Hoje o mingau vitaminado tinha um gosto picante, diferente da maioria dos dias, que era quase agridoce. Ela gostou da mudança, e enquanto comia, começou a jogar um jogo que conseguiu comprar com alguns créditos que ganhou por trabalhos extras, era um jogo destinado a crianças mais velhas, mas ela aprendeu como jogar ele rapidamente.
Um pouco antes dela conseguir completar a primeira vase, ouviu um barulho brusco a sua frente, alguém tinha sentado perto dela, o que era estranho, tendo em vista que todos do grupo dela só se sentavam em uma mesa, e ninguém fazia amizade com crianças de outros grupos, por motivos que nem ela entendia, muito menos com ela. Levantando o olhar lentamente, não ficou tão surpresa por quem estava lá.
— Porque entrou nos meus arquivos e como fez isso? – Karcsi foi claro e brusco, ele obviamente estava se controlando pelo fato dela ser uma menina tão nova, mas ela não deixou de imaginar que não teria a mesma sorte se fosse outra pessoa.
— Como sabe que fui eu? – Ela ficou genuinamente curiosa.
O menino apenas olhou para o lado, como se estivesse pensando em uma desculpa, então virou para ela novamente e disse com sinceridade.
— Não é da sua conta, mas é da minha se tem alguém usando pequenas menininhas idiotas para descobrir sobre mim, agora me diga, quem te fez entrar lá? Não importa a ameaça que recebeu, eu posso fazer muito pior. Se for sincera prometo fazer essa pessoa sofrer tanto que nem vai se lembrar de você, agora... se tiver que mentir, terá consequências. – Enquanto ele falava ela apenas admirava o rosto dele em silencio, ouvindo cada palavra e absorvendo cada mudança gradual de entonação, ele era como um personagem de um livro, e mesmo que ela fosse cuidadosa com o temperamento dele, ela ainda não sentia medo. E optando pela verdade, como sempre, ela disse em uma voz constante, mas suave e entendível.
— Ninguém me mandou fazer nada. Desculpe se olhei seus arquivos, mas fui eu. Não é difícil assim entrar na conta de um monitor sem poder fazer isso, é só saber a senha, e isso eu sabia faz tempo, mas acho que deve ser difícil saber exatamente que pessoa estava olhando isso, e você sabe. Como fez isso? – Ela disse, então ficou em silencio, esperando alguma reação dele, independentemente do que ele fizesse, ela era uma criança esperta e sairia correndo até uma área que fosse mais vigiada se ele demonstrasse alguma reação violenta, mas diferente do que ela imaginou, ele apenas levantou as sobrancelhas, em uma expressão que era bem fácil de ler, ele estava perplexo por ela ter conseguido isso, mas acreditava nela e agora estava pensando o que fazer. Porque sempre achavam que ela era boba? Ela não era.
— Pelo visto a menininha boba não é tão boba assim. Bem, eu vou te deixar um aviso, da próxima vez que fizer isso, vai se arrepender. Então é melhor se comportar, vou estar de olho em você. – Ele disse isso em um tom quase que suave, então começou a comer o próprio mingau. Ela queria muito falar mais alguma coisa, mas não sabia o que poderia falar agora. E antes que ela pudesse pensar em algo, ele terminou de comer, e dando um último olhar direcionado a ela, saiu do refeitório.
Ela soltou a respiração que nem sabia que estava prendendo e tentou se concentrar na própria comida. Ela não imaginou que alguém descobriria isso. Teria que ser mais cuidadosa, se um menino de dez anos conseguiu descobrir, então ela estava menosprezando a todos daquele lugar, exatamente como uma criança normal faria. Ela não poderia agir como uma criança normal, ela era mais que isso, acreditava nisso com todas as forças, ela tinha que ser especial, outro pensamento era inadmissível.
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