Library
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Minha vida sempre foi um pouco conturbada. Eu sempre consegui me meter em problemas e tinha um fiel amigo para enfrenta-los comigo. O ensino médio foi assim: duro e cheio de confusões. Com longas visitas a sala do diretor e algumas suspensões.
Agora, na faculdade, eu decidi mudar.
Atualmente Rony namora Hermione, e por isso, nosso trio se aquietou um pouco mais. Também tinha o fato de todos sermos de cursos diferentes. Rony entrou em engenharia mecânica, com a bolsa para esporte – sabemos que ele não é um gênio em matérias gerais – Hermione passou em medicina, com bolsa integral pelas belas notas que tem. Era de se esperar. E eu, entrei em historia. Sim, historia.
Um curso que exige muita leitura e dedicação, coisas que eu não era acostumado. O único lugar que eu poderia me enfurnar sem arranjar problemas – ou ficar distraído até com o canto dos passarinhos – era a biblioteca universitária. Bem, eu achei que não iria ficar distraído... Mera ilusão.
Um “belo” dia chuvoso, perto das provas do primeiro período, eu corri para me abrigar na biblioteca e só sair de lá quando tivesse decorado toda a revolução cubana. Não era muito difícil, já que era uma parte que me atraia muito, principalmente por motivos políticos. Entrei contente, e fui logo em direção às prateleiras de historia, aquelas vastas e altas prateleiras... Altas de mais. Não, eu não era alto, fui muito mal nutrido na primeira infância e isso atrasou meu crescimento, e agora tenho mísero um metro e sessenta e três. Baixo de mais para um homem e até para certas mulheres. E para minha falta de sorte, o livro estava a duas prateleiras acima de onde meu braço alcançava e nenhuma escadinha a vista.
Olhei profunda e tristemente para o livro e comecei a pular, para tentar alcança-lo. Quando eu iria fazer mais uma tentativa – provavelmente falha – uma mão branca e com belos dedos longos o tirou da prateleira. Virei um pouco meu rosto e me deparei com profundos olhos negros, me encarando sem mostrar emoção alguma. Os olhos vinham acompanhados de um rosto extremamente branco, que era emoldurado por uma cascata de cabelos negros, meio molhados, provavelmente pela chuva. Seu nariz era um pouco grande, admito, mas combinava estranhamente com ele, e tinha as sobrancelhas franzidas, que dava um ar de eterna irritação.
— Obrigado. — Engoli em seco e peguei o livro de sua mão. O homem deu um passo para trás e eu pude olha-lo melhor. Ele usava um sobretudo preto, molhado pela chuva e calças escuras. O preto lhe caia bem.
— Claro. — E se virou, indo embora, me deixando muito impressionado e talvez com cara de bobo.
Oh sim, esse homem me fez uma grande primeira impressão. Além de ser extremamente diferente de todos e ter uma personalidade arrogante, ele tinha uma energia magnética. Eu nunca tinha ficado interessado em ninguém... Até aquele fatídico dia.
Agora, aqui estou eu, na biblioteca, entre as prateleiras, olhando de longe para o bibliotecário mais temido da universidade. Severus Snape. Para descobrir seu nome foi um sufoco, tive que procurar – escondido – entre alguns documentos no balcão, na troca de turnos. Sim, sou um homem apaixonado e então eu faço loucuras... E até coisas fora da lei.
Não, ele não me nota e se me nota, não parece se importar muito com minha existência. E eu estou, como todos os dias, parado em uma prateleira o encarando pelas frestas entre os livros.
Essa minha paixão já está no terceiro mês.
Respirei fundo e escolhi algum livro que possa me interessar. Jaja era a mudança de turnos e não fazia sentido permanecer lá. Peguei algum livro sobre a origem da filosofia e me dirigi ao balcão. Lá estava ele, lendo um novo livro ‘Sexualidade e a psicologia do amor’ de Freud. O livro da semana. Sim, ele lia cerca de um livro por semana, ou até dois, dependendo do numero de páginas... Eu já disse que era um homem apaixonado?
Aproximei-me e encostei o livro devagar, não querendo tirar a sua concentração. Com movimentos elegantes, ele marcou o livro e se virou para mim, levantando uma sobrancelha curiosamente.
— Você por aqui de novo? — Perguntou, com um timbre irônico. Ahh, como eu adorava aquela voz. Sempre sussurrada, perigosa. Mas devo admitir, aquela pergunta me pegou de surpresa.
— Co-como? — Gaguejei vergonhosamente. Eu sentia que estava totalmente corado e confuso. Ele abriu um sorriso ferino e um calor nada inocente percorreu meu corpo.
— Você por aqui de novo. — Ele repetiu, mais devagar, como se tivesse falando com uma criança ou com alguém com sérios problemas. Ok, agora ele me achava um retardado.
— Ahh sim, eu preciso desse livro. — Péssima resposta Potter, péssima resposta, agora sim que ele acha que você é um retardado. Snape olhou para o livro em cima do balcão e franziu as sobrancelhas, contrariado.
— Você já alugou este. — Agora seu tom era desconfiado. E eu gostaria de poder me enterrar em um poço bem fundo.
— Já? E... Eu gostei. — Sim, eu definitivamente não sei articular bem as palavras. Ele me olhou de novo, com uma expressão mais desconfiada e anotou meu nome no sistema.
— E para devolver em sete dias. Espero que dessa vez você possa aprecia-lo melhor. — E depois se voltou para o seu livro, ignorando minha existência.
Ok, definitivamente não foi uma boa impressão que eu passei. Eu me sentia um pouco diminuído e envergonhado. Um tanto quanto triste. O homem que eu venho observando por meses achava que eu não sabia apreciar um bom livro. O homem que eu venho observando também achava que eu não sabia falar direito. Parabéns Potter, você realmente é um ótimo conquistador de corações...
Meu deus, isso não era de mim. Cadê o corajoso e destemido Harry Potter do ensino médio? Que se metia em encrencas com Rony e passava a perna no Malfoy? Que namorou com as duas meninas mais bonitas do colégio e também com o menino mais bonito... Depois de Malfoy, que não queria saber da minha existência.
Eu realmente preciso tomar uma atitude, ou Hermione não vai aguentar mais ouvir meus lamentos. Rony já tinha desistido.
Respirei fundo e andei de novo até o balcão, de cabeça erguida e o peito estufado... Mas cada vez que eu chegava mais perto daquela figura altiva, eu perdia a coragem. Quando cheguei no balcão, eu tinha até esquecido meu nome.
Notando minha presença, Snape se virou e me encarou, curioso e desconfiado. Fechou seu livro na pagina marcada e me deu total atenção, olhando para mim esperando alguma reação de minha parte.
— Sim? Algum problema? — Sua voz não estava nada paciente. E deus, o que eu fiz? Cheguei até aqui e perdi toda minha coragem? Agora sim que ele vai me achar um retardado. Reaja Potter, reaja.
— Então, eu gostaria de saber... — Minha garganta estava tão seca, e só piorava com seu olhar pesado sobre mim. — Se você... Gosta de café.
— Se eu gosto de café? — Ele levantou as sobrancelhas com um ar divertido, até mesmo surpreso.
— Sim... Você gosta? — Corei ainda mais. Eu nunca tinha tido problemas em chamar ninguém para sair, mas ele... Ele me fazia parecer uma adolescente virgem.
— Eu gosto de café. — Respondeu ironicamente. Olhei para seu rosto por mais alguns segundos, e ele parecia impaciente com algo.
— Você gostaria... Er... De tomar um café? — Respirei fundo mais uma vez e levantei a cabeça, com confiança. — Sabe, tomar um café comigo. Depois do seu turno.
Ele abriu um pequeno sorriso e se encostou na cadeira, me analisando pensativamente. Eu estava começando a ficar desiludido, o seu silencio era uma resposta negativa? Deveria. Claro que um homem como ele deveria ter pretendentes melhores, com mais inteligência e com certeza da idade dele. Ou quem sabe eu o julguei errado e ele goste de mulheres? Oh deus, isso não poderia ficar mais humilhante.
— Então você quer sair comigo? — Ele parecia bem curioso. — Você sabe que eu tenho uns bons anos a mais que você, não sabe?
— Sim senhor. — Respondi rapidamente, não queria que ele pensasse de mais. — E sim, eu quero sair com você. — Ele pareceu mais convencido agora sobre minhas palavras.
— Não sei o que um menino jovem ia querer comigo, mas estou curioso. — Descruzou os braços e voltou a fechar a cara, deixando a expressão zangada que sempre carregava. — Ok Potter, eu irei tomar um café com você.
— Sério? — Dei um grande sorriso para ele e Snape pareceu ficar vagamente desconcertado. Meu coração batia forte contra meu peito e minha cabeça estava inundada de pensamentos felizes. — Pode ser hoje? Após seu turno.
— Não, eu sou professor, eu tenho que ir para a aula. — Explicou. Oh, ele era professor? O que ele fazia como bibliotecário? — Mas na quinta feira eu não dou aula.
— Então está combinado! Quinta depois do seu turno. — Eu queria dar pulinhos de felicidade ou fazer alguma dancinha, mas me contive. — Eu vou estar lhe esperando.
— Ótimo... Bom dia e boa leitura, Potter.
Me despedi dele animadamente e quando cheguei ao lado de fora, percebi que ele havia me chamado pelo nome... Como ele sabe meu nome?! Ele sabe meu nome! Ou pelo menos meu sobrenome. O que é uma grande coisa. E se eu voltar lá para dentro e... Não. Se contenha. Quinta feira você vai poder conversar com ele o quanto quiser.
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