Libido

1 Capítulo 1


Ao auge de meus quinze anos, fim de dezembro. Hoje decidi passar essa noite fria no calor de algum abraço desconhecido, não pensei com muita concordância. Irá eu pensar bem? Bem, eu nem sou ninguém. Sou é um desastre pra coisas como, por exemplo, tudo. Então decido não levar à sério nada do que faço, simplesmente comprometo-me a continuar sendo assim — não sendo.

Procurando uma balada sem o ritmo de Franz Ferdinand encontro um lugar que não comparecia há muito tempo, o Harley, pub de meu velho amigo Bob, um aposentado traficante de ópio.

O barulho externo tem ardido meus ouvidos, há tempos não vinha no Harley beber um absinto, preciso me acostumar novamente com a batida Crystal Castles — levemente folk — rotineira do lugar.

Bob serviu-me sua bebida mais forte, apoiei um dos cotovelos no balcão e observei as pessoas se embriagando loucamente pelo salão escuro.

"Hoje está lotado, não é, Rafaela?" Bob disse, sorrindo. Ótimo para seu lucro diário. Acariciou meus cachos desordenados como se dissesse as boas vindas, novamente.

"Sim. Fico feliz." Sorrio de volta, brindando minha dose amarga à sua água gelada com gás. Bob foi para os bastidores de seu pequeno show alcoólico (o balcão de seu minibar).

Resolvo beber só um copo de absinto, e permito-me descansar em uma das mesas. Hoje foi um longo dia — será essa, provavelmente, uma longa noite.

"Sozinha?" Disse-me uma pequena menina assim que sentou-se à minha mesa.

"Não mais." Eu respondi. "Posso saber seu nome?"

"Marina." E sorriu.

"Rafaela." Bob notou minha companhia e deixou sobre a mesa duas doses de tequila e um pouco de limão. Não ligamos muito, apenas nos olhávamos.

Bebemos algumas e dividimos a conta. Por fim, às quatro da manhã, saímos do Harley com os joelhos estremecidos e as garrafas penduradas nos dedos quase que mortos.

Só de pensar no que ela me trouxe — vontade de continuar sendo — uma grande libido me fisgou naquele tempo que passei com Marina. Seu jeito magricela e seus cabelos longos traziam-me algo novo — como a sua presença. Mas tão velho quando os allstars que carrego em meus pés que há muito caminham, sua presença trazia um cheiro vernizado de madeira de algo muito antigo, que havia esquecido em mim há algum tempo — um sentimento. Algo rústico, tão belo e tão natural. Com tanto conteúdo a ser estudado, afinal.

Ela me olha com mistério e não esconde sua curiosidade. Marina tem treze belos anos.

"Talvez te encontre amanhã, na mesma mesa." Ela disse, deixando seu rosto colado ao meu.

"Deixemos combinado, então." Eu disse, encurtando nosso pouco espaço.

"Quem é você..." Não interpretei como uma pergunta, então apenas fechei os olhos, e seus lábios se colaram aos meus de um jeito bem comum.

"Divide um pouco desse barulho que você tem aí dentro." Eu disse sem pensar no que ela iria dizer.

"Eu acho que gosto de você, quem sabe quando amanhecer..." Ela piscou e virou na avenida mais longa, ajeitando sua bolsa pequena e seu vestido curto de brim. Seus tênis faziam uma trilha sonora comum à madrugada, uma dica de que estava indo embora. Eu só não queria acreditar.

Quem sabe isso dê certo, ou não, o futuro pertence à ele mesmo e não sou eu que mudarei isso — não agora.

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