Libertação (Cameron Briel)
16 Sentindo a falta dele
Notas iniciais

O céu já tomava o tom alaranjado dos fins de tarde, Lilly estava novamente sentada no parapeito interno da janela de seu quarto com seu violino repousando em seu colo, como vinha fazendo durante vários dias. Tinha deixado de contar por quantos vinha repetindo aquele ato.
Observar o céu enquanto tocava lhe trazia um pouco de conforto, às vezes, conseguia esquecer a dor dilacerante que sentia e que muitas vezes a fazia chorar.
“ Não conseguia partir o olhar, Cam a olhava fixamente, mas diferente de tantos olhares que já tinham trocado, nesse existia tanta dor, ele parecia partido. Estaria ferido? Sua maior vontade era se levantar e abraça-lo, ver se estava bem, mas suas pernas lhe traiam assim como sua voz que parecia presa em um nó na garganta. Quanto tempo tinha se passado? Ele continuava calado e sustentando aquele olhar e ela sentia seus olhos arderem, sabia que estava prestes a chorar pois de alguma forma a dor dele a afetava de uma maneira que não compreendia.
—Lilly! – O olhar que ambos mantinham foi partido com o grito alto de sua amiga, que estava de pé na porta acompanhada de Roland. Raquel correu até ela e a envolveu em um abraço confortante, mas tanto naquele momento quanto agora, era difícil digerir o que aconteceu a seguir. – O que ele te fez? – Raquel havia dito aquilo em voz alta chamando a atenção de Cam, que automaticamente deixou seus olhos caírem sobre ela. Lilly também odiou a amiga naquele momento e não se preocupou em esconder aquele fato em seu olhar. Cam não tinha feito nada além de protegê-la.
—Ele não...- sua voz morreu em sua garganta quando foi interrompida por Cam que ainda calado, se levantou rapidamente de onde estava e seguiu pela porta com a mesma velocidade que o tinha visto precipitar-se sobre seus agressores. Ele cochichou alguma coisa para Roland e sumiu pela porta.
—Cam – Tentou se erguer novamente, mas seu corpo parecia entorpecido, seus olhos arderam ainda mais e as lágrimas caíram furiosas por seu rosto e então, chorou copiosamente nos braços de sua amiga. “
Tinha tentado ligar para ele naquela mesma noite sem sucesso, assim como tem repetido todos os dias, Cam parecia ter sumido. Alguns dias ela caminhava a esmo pelas ruas e em quase todas se via parada a frente da fraternidade de Roland, seu coração tinha a tola esperança de encontra-lo ali.
Agora, sentada novamente em sua janela, imaginava se esse vazio que sentia em seu peito, essa dor cortante que por muitas vezes a despertava no meio da noite ou se essa ávida vontade que tinha de somente ouvi-lo ou talvez o ver nem que por um segundo, seriam indícios de que estava apaixonada. A paixão era um sentimento que sempre desejou conhecer, mas agora, estava com medo. Medo do aperto esmagador que sentia em seu peito sempre que pensava nele ou se lembrava de sua voz sedutora, da sua mão quente presa a sua, da maneira que seus lábios se curvavam quando dava aquele sorriso de canto que lhe fazia perder o fôlego, e seus lindos olhos verdes esmeraldas. Estava com medo de não voltar a vê-lo.
Ela alisou seu violino carinhosamente, não iria tocá-lo essa noite. Essa noite iria somente, sentir saudades dele.
Raquel não tinha chegado. Lilly a evitou nos primeiros dias, mesmo vendo o arrependimento nos olhos da outra não conseguia evitar de pensar que tudo poderia ter sido diferente, atualmente conversavam, mas o ressentimento ainda era latente.
A tarde já tinha sido superada pela noite que avançava rapidamente, ela estava há algum tempo deitada mirando para o teto, o sono sempre vinha, e hoje para sua sorte, veio depressa.
“ Estava novamente flutuando por sobre o que já sabia ser uma celebração, desta vez seguiu a linda ruiva até o rio, se preparando para o turbilhão de emoções que provavelmente a assolaria, caso o sonho decorresse como da outra vez. Estava realmente certa, ver Cameron olhar para aquela mulher com os olhos cheios de devoção a torturava, agora mais do que da outra vez.
Assim que a ruiva o alcançou, enroscou seus braços em torno de seu pescoço e Lilly desejou que pudesse ser vista e talvez ouvida, assim a mandaria tirar suas mãos dele. Cam enroscou as mãos a dela e ambos fecharam os olhos. Lilly observou por mais tempo a cena, Cameron devia amar aquela mulher. Sentiu vontade de chorar com essa constatação, Cameron não poderia ser dela?
Ouviu o som de passos se aproximando e se virou o suficiente para avistar uma silhueta masculina se aproximando, o homem trajava uma longa túnica branca em contraste com a pele bronzeada e trazia em uma das mãos um grosso pergaminho.
O jovem era alto, seus cabelos loiros passando das orelhas e seus olhos eram, violetas? Seu pai? Tinha certeza que aquele homem era seu pai anos mais jovem, se lembrava da foto sobre a lareira da sala em sua casa, que retratava seus pais quando jovens abraçados de frente ao mar. Esse era Daniel, seu pai, tinha certeza. Ele parou junto a Cam e a ruiva.
—Como vai você, Dani? – A voz da ruiva era suave e melodiosa. Ela havia dito Dani, Lilly imaginou ter acertado em sua suposição, porém a cada momento esse sonho ficava mais estranho. O que seu pai jovem estaria fazendo em seu sonho?
Daniel “jovem” se ajoelhou a lado do casal e desenrolou o pergaminho cuidadosamente, parecia algum documento importante escrito em algum idioma que ela não conhecia.
—Esta parte aqui. – A ruiva apontou para uma linha no texto – Diz que seremos casados perto do rio – ela se virou com olhar suplicante para Cam – Mas você sabe que quero casar no templo, Cam.
“Casar”. Lilly sentiu aquela palavra ressoar em sua mente, Cam iria se casar com aquela mulher? Então, ele devia amá-la. Imaginava como um simples sonho conseguia afetá-la. Não tinha nenhum controle sobre o que ocorria ao seu redor e mesmo assim, sempre acabava sentindo as lágrimas correndo por seu rosto além daquela sensação dolorosa em seu peito.
Olhou novamente para os dois homens a tempo de notar um olhar cumplice ser trocado entre eles, pareciam esconder alguma coisa da mulher.
Cam alcançou novamente a mão da mulher carinhosamente e Lilly se lembrou do toque quente e suave da mão dele na sua, e que agora estava segurando a de outra.
— Meu amor. Eu já te disse que eu não posso. – Ele realmente a amava, Lilly sentia aquele aperto sufocante novamente em seu peito.
—Você se recusa a se casar comigo sob os olhos de Deus? – A mulher antes calma parecia furiosa. – No único lugar onde minha família irá aprovar nossa união! Por quê? – A voz dela se elevou alguns tons e seus olhos reluziam, ela parecia controlar o choro.
—Eu não vou pôr os pés lá dentro. – Cam apontou para a construção branca com telhado de madeira, aquele devia ser o tal templo.
—Então você não me ama. – A voz da mulher estava embargada, ela iria chorar a qualquer momento.
—Eu amo você mais do que jamais imaginei ser possível, mas isso não muda nada. – Lilly sentiu aquela sensação dolorosa em seu peito e lágrimas correrem por seu rosto, era tão doloroso saber que Cam amava aquela mulher. Por que? Ela imaginou que não deveria merecer ser amada por ele.
Lilly sentia que estava respirando com dificuldade e seu coração parecia querer saltar pela boca, não conseguia entender o que esse sonho queria dizer ou o porquê de tudo lhe ferir desse jeito. Queria tanto acordar, queria tanto voltar a vê-lo novamente, queria tanto ser amada por ele. No segundo em que esse pensamento escapou de sua mente, percebeu os olhos de Cam seguirem de encontro aos dela, ele não parecia vê-la, mas de alguma forma aquele olhar a atingiu e seu coração atrasou uma batida. Ele poderia amá-la algum dia? “
Acordou consternada e olhou ao redor notando que ainda era noite, e a Raquel não tinha chegado. Seguiu até a janela que estava aberta sentindo a brisa fria a atingir em cheio fazendo-a se arrepiar. O céu estava límpido. Com as costas da mão ela limpou o rosto ainda úmido pelas lágrimas e após um suspiro cansado se debruçou levemente na janela.
—Queria tanto te ver. – Lamentou baixinho em tom suplicante.
Naquele momento ouviu um som abafado parecido com o farfalhar de asas e acompanhou o ruído com o olhar até alcançar o alto do terraço do dormitório a frente. O som parecia vir daquela direção. Estava distante e o escuro da noite não ajudava, mas poderia jurar ter visto um rastro dourado cortar o céu no sentido oposto ao de sua janela.
Foi muito rápido e o risco ficou no céu apenas alguns segundos. O que poderia ter sido? Talvez estivesse ficando louca, o melhor seria fechar a janela e voltar a dormir, e assim o fez, fechou a janela e seguiu para a cama esfregando as mãos pelos braços gelados.
Amanhã seria um novo dia.
Um dia a mais sem ele.
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