Libertação (Cameron Briel)
1 Prologo
Notas iniciais

O sol incomodava seus olhos que queriam permanecer fechados, Lily sabia que a janela escancarada tinha somente um significado, sua colega de quarto já tinha saído para sua corrida matinal. Era curioso o fato de sempre antes de sua corrida Raquel abrir as janelas e as cortinas, talvez soubesse que ela amava a sensação morna em sua pele ao acordar e a sensação de renovação que a preparava para um novo dia.
Mantendo esse pensamento, levantou-se em um salto revelando seu pijama de flores que era, como sua colega havia dito certa vez “ fofinho”. Tinha sido um presente de sua avó antes da sua mudança para a Faculdade de Artes Crimson Roses. Pensando bem, isso tinha acontecido a quase sete meses, sentia saudades de sua avó e de seus pais, talvez ligasse mais tarde para saber como estavam.
Após a higiene matinal, ajeitou a cama como de costume e abriu o guarda roupa no mesmo momento em que Raquel entrou desejando-lhe um sonoro bom dia, e em resposta abriu um largo sorriso.
Sua amiga era sempre exuberante, seus cachos perfeitos lhe alcançavam os ombros e haviam ganho recentemente uma tonalidade dourada que combinava perfeitamente com sua pela negra e olhos dourados, sim, seus olhos deviam ser dourados pois não conseguia pensar em outra cor para eles principalmente quando estavam próximas.
Raquel de Oliveira era brasileira e estudava dança, música, teatro e sabe-se lá mais o que. Era absurdamente simpática e comunicativa, não falava muito sobre sua família apenas que possuía muitos irmão e irmãs que a muito tempo não os via.
— Você não vai se atrasar para aula? Sabe como a Sra. Carter reage mal à atrasos – Questionou Raquel tirando seus tênis de corrida.
— Sei sim. – Abriu o estojo que continha seu violino sobre a cama afim de confirmar que estava em ordem, estendeu o arco em direção a amiga e pousou a outra mão na cintura – Srta. Oliveira, sabe que horas são? Posso saber o motivo de nos agraciar com sua presença em horário por si estipulado? As aulas na minha sala começam as 8:00 e não as 8:01 como pode perceber...
— Espero que não se repita ou teremos que alterar os horários somente para que a Srta. chegue a tempo. – Completou Raquel aos risos, balançando os braços no ar também imitando a professora. Ambas riram.
Ao olhar para o relógio preso a parede, Lilly constatou que se quisesse evitar ser repreendida teria que se apressar, vestiu sua calça skinny preta, um suéter branco, calçou uma sapatilha baixa, revisando mentalmente os objetos, estojo com o seu violino, celular, bolsa, prendedor de cabelo para prendê-los durante a aula, tudo certo.
— Que suéter é esse Lilly? – Perguntou sua colega apontando para as costas da outra. – Têm umas asas desenhadas aí atrás.
—Ah, isso – Virou apontando para si – Ganhei de aniversário, não gostou?
— Na verdade, achei linda – sorriu de canto – Vou tomar banho antes que também me atrase. – Apontou com o olhar o relógio.
— Merda! – Bateu a porta estrondosamente atrás de si resmungando um “tchau” apressado e correndo pelos corredores.
Os quartos tanto dos dormitórios femininos como masculinos eram divididos da mesma forma, no terceiro andar ficavam os quartos, no segundo haviam algumas salas acústicas para o livre uso dos alunos e no térreo a recepção e uma área comum pouco usada com projetores, televisão e aparelho de som. Eles ficavam nas extremidades do prédio principal que acomodava a administração, diretoria e coordenação geral de eventos no quarto andar, nos inferiores além das diversas salas de aula havia um estúdio de gravação liberado somente com agendamento prévio, uma ampla biblioteca e voltado para o jardim interno o refeitório. No centro do jardim interno havia o teatro principal.
O terceiro andar do seu dormitório parecia tão distante da terceira sala a direita no segundo andar do prédio principal, que se arrependia profundamente por não ter aberto mão dos minutos de contemplação que tivera ao acordar. Chegou ofegante ao seu destino em tempo de constatar ter chegado 2 minutos adiantada, resfolegou antes de entrar na sala para não revelar que havia corrido, imaginou que muitos que se voltaram a porta quando entrou, percebiam seu esforço, devia estar corada, mas não atrasada o que era o mais importante.
Tomou seu lugar ao lado de Sarah e tratou de preparar seu instrumento, primeiro ajustou os fios do arco e deu início a aplicação do breu no exato momento em que a Sra. Carter irrompeu pela porta. Ela era uma mulher de meia idade, cabelos loiros que eram sempre mantidos presos em um coque alto e bem feito, seus olhos eram de um azul quase translúcido.
— Vejo que não teremos atrasos hoje.- Parou os olhos alguns segundos em 2 ou 3 alunos, incluindo Lilly que terminava o preparo do arco. – Mas tenho certeza que alguns chegaram segundos antes de mim.
Como uma pessoa podia ser tão chata? Não era implicância, mas a Sra. Carter era uma "adoradora” da perfeição e não aceita nada aquém disso, era seu costume interromper a execução musical com um simples arquear das sobrancelhas que diziam sem palavras que estava uma droga. Já lecionava a mais tempo do que se lembrava, e sabia que suas exigências eram possíveis de alcançar, muitos artistas que compunham hoje importantes orquestras ou assim como ela ensinavam, tinham chegado ao que descrevia como quase perfeição. Evitava diferenciar os calouros dos veteranos em trato musical, sabia que as vezes podiam lhe surpreender.
Era realmente desconfortável chegar encima da hora, e Lilly se culpava muito por isso, os outros a olhavam de soslaio tentando apressá-la, pareciam não perceber o trato e carinho que ela ministrava a seu violino. Ele era preto brilhante, havia sido um presente de seu avô materno 3 meses antes de sua morte e 1 mês depois ela seguia para Crimson Roses. Afinou o instrumento com facilidade e se posicionou.
— Vejo que estão prontos. Então vamos dar início a aula.
Fale com o autor