Libertação (Cameron Briel)
50 Paixão, incumbência e morte.
Notas iniciais

A luz estava acesa o que o fazia imaginar que ela devia estar acordada. Será que estava pensando nele? Claro que não, os pensamentos dela seriam sempre endereçados a outro, o General.
Não entendia o porquê daquelas constatações sempre o ferirem. Era uma dor quase física, tão dolorosa como ter uma estaca fincada em seu peito, que podia sentir as farpas se alojando em seu coração, sempre que sua mente evidenciava o quanto era desprezado. Ainda assim, continuava ali, a observando.
O perfume inebriante de jasmim parecia ter impregnado em sua pele, e seus dedos ainda se lembravam do toque aveludado e suave da pele dela, era como se o simples fato de respirar o remetesse a ela.
Seu desejo era de atê-la em seus braços e pedir para que explicasse se aquela dor que sentia em seu peito iria passar, ou o porquê de ainda se sentir sufocado mesmo após tê-la sentido, úmida e apertada em torno dele, e o mais importante, o que era aquela sensação acolhedora que sentia sempre que a via.
Será que ela poderia explicar que inferno estava acontecendo a ele?
Será que ela poderia explicar o porquê de suas asas enegrecidas sempre o levarem para junto dela?
Que porra estava acontecendo com ele afinal?
Será que...?
Adam fechou os olhos com força controlando um palavrão que quase proferiu, sua intenção não era se mostrar surpreso mesmo que só tenha sentido a presença daquela víbora, então, engoliu o espanto e vestiu sua melhor máscara de indiferença antes de se virar para a pessoa que furtivamente parou a suas costas.
—Você tem ideia do quanto isso é patético, Adam? – Alexia estalou a língua contra o céu da boca. – Adam, Adam. – Ela estreitou a distância que os separava em passos elegantes deixando seu quadril se mover de um lado ao outro sensualmente, enquanto ampliava seu sorriso de escárnio. – Me pergunto o que todos acham nessa garota mortal. – Ela parou ao lado dele sem o olhar.
—Não sei do que você está falando.- Ele manteve o olhar desinteressado na construção a sua frente.
—Não me subestimei Adam. – Alexia agitou a mão atraindo um Anunciador de sua própria sombra formada pela luz do luar. – Você está apaixonado pela garota do Cameron. – Ela gargalhou sonoramente antes de sumir dentro da escuridão desforme do Anunciador invocado.
—Apaixonado? – Adam repetiu incrédulo.
(...)
Permaneceu olhando para suas mãos cruzadas sobre a mesa enquanto sua mente vagava livremente, sentia nitidamente o olhar questionador de Alexia sobre si, mas precisava analisar aquela situação.
Lúcifer abriu a gaveta inferior do lado direito em sua mesa de escritório. A gaveta correu livremente até que fosse possível avistar ao fundo um estojo aveludado preto, que foi retirado cuidadosamente antes de ser disposto sobre o tampo da mesa.
Ele abriu o estojo lentamente revelando um punhal dourado que parecia reluzir ao toque suave dos seus dedos longos. Se lembrava do quão difícil tinha sido adquirir aquele objeto. Seu intuito inicial era utilizá-lo contra Lucinda em uma de suas reencarnações, mas por alguma razão não o fez, no entanto, aquele parecia um ótimo momento para isso.
—Alexia. – Ele ergueu o os olhos gélidos o suficiente para cruzar com o olhar estreito dela.
—Sim, meu senhor. – Ela estava pronta para receber suas novas ordens.
—Você vai usar isto. – Foi a vez dele estreitar o olhar, e deixar sua voz se tornar mais grave e ameaçadora. — Para destruir a alma da Lilly.
Um sorriso perverso curvou os lábios de ambos.
(...)
Achava curioso como os mortais se envolviam com assuntos que não era de seu real interesse, mas se fosse diferente não teria tido hesito em disseminar aquele boato, isso tinha acontecido a alguns milhares de anos e ainda assim tinha seus méritos no que estava acontecendo.
Alexia fuçou o bolso de seu sobretudo retirando o punhal dourado o erguendo no ar o observando brilhar sob a luz solar, sabia que iria apreciar o momento em que transpusesse o peito daquela garota estúpida lentamente, de como seria sentir o sangue ainda quente correndo em suas mãos enquanto o brilho de seu olhar se apagasse, talvez ela gritasse de dor, ou poderia morrer no silêncio de um único suspiro, não faria diferença, pois Lúcifer teria sua vingança, pois a partir dali tudo iria mudar.
Ouviu um farfalhar falho de asas, mas parecido com um pássaro ferido que lutava para se manter no ar e em seguida um baque surdo. Cameron continuava imóvel e gemia hora ou outra tentando conter a dor que sentia, suas asas brancas que pareciam reluzir feito diamantes estavam mescladas com algumas penas douradas com listras pretas em seu interior. As asas dele se ergueram de uma forma retorcida fazendo-o gritar, mas logo caíram moles a seu lado. Ele relaxou a face sobre o chão e continuou aquela lamúria irritante de dor que a estava incomodando, Alexia decidiu que iria se aproximar, mas um galope vindo do lado leste deles chamou sua atenção.
Era uma jovem de no máximo dezesseis ou talvez dezessete anos, ela usava um vestido verde água comprido com mangas que lhe cobriam metade dos braços, os cabelos pretos, que em algum momento estiveram presos em uma trança lateral estavam se soltando aos poucos. Ela saltou de sua montaria afoita, Alexia notou o rosto avermelhado da garota em um misto de choro e esforço, os lábios naturalmente rosados entreabertos facilitando a saída apressada do ar, mas o estranho é que ela parecia ter encontrado o que procurava.
A menina caminhou receosa para próximo do anjo caído e praticamente desacordado pela dor agoniante, e se ajoelhou ao lado dele tocando levemente sua face.
—Cambriel. – A garota sussurrou antes de deixar as lágrimas lavarem seu rosto.
Alexia continuou observando a cena absorta “Então era essa a garota”, constatou mentalmente retirando a adaga dourada do bolso de seu casaco.
—Uma pena. – Proferiu deixando seu esconderijo.
Alexia a observou atentamente, o vestido verde água esparramado em torno daquele corpo esguio e sua mente a remeteu até aquele dia. “ Lilian”, esse era o nome daquela menina.
O curioso era que Lilian não parecia totalmente surpresa com aquele enorme par de asas que se desfraldavam das costas dele, ela estava genuinamente preocupada com Cameron.
—Cambriel, por favor, acorda.- Os dedos pequenos corriam pela face desfalecida do anjo de maneira delicada. A menina estava perdida no trato com o corpo pesado e as amplas asas largadas no chão.
—Você devia se preocupar consigo mesma, Lilian. – Ela se divertiu com a reação assustada daquela menina, que se colocou mesmo de joelhos frente ao corpo do anjo como se o protegesse.
—Alexia! – Ela estava confusa, talvez estranhando o traje e o cabelo agora curto que Alexia exibia.
—Não estou aqui para conversar Lilian, estou aqui para te matar. – Concluiu simplesmente admirando o olhar espantando reluzir nos olhos da garota.
—Se afaste dela, sua vadia! – Ambas deixaram o olhar surpreso alcançar o anjo caído, agora levemente erguido com as asas ainda estendidas no chão feito um manto mesclado, era evidente o esforço de Cameron em se erguer.
—Ah Cameron...-Alexia pausou a fala gargalhando de maneira sádica. – Você foi tolo o suficiente para se clivar em seu passado? – Ela girava a adaga entre os dedos. – Isso será melhor do que imaginei.
—Se afaste dela ou juro que vou..- Suas asas pareciam pesadas junto a seu corpo pois ele se erguia como se tivesse pedras presas ao corpo.
—Vai o quê, Cameron? Você está preso aí, e quer saber? Isso só torna as coisas mais divertidas. – Ela ergueu a lâmina que brilhou.
—Vai se foder, sua vadia! – Esbravejou Cameron tombando de joelhos.
—Cambriel. – Lilian sussurrou tentando ampará-lo.
—Cale-se! — Brandou Alexia se movendo rapidamente na direção dele, sua intenção era tortura-lo e ela era muito boa nisso, mesmo ciente de que não o mataria.
Contudo um som perfurante tomou seus ouvidos enquanto sentia a lâmina se enterrando naquele corpo frágil, fazendo o liquido quente escorrer por sua mão enquanto tingia o vestido verde água de rubro.
—Lilian!
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