Libertação (Cameron Briel)
56 Fiquem longe dela
Notas iniciais

Os sentimentos pareciam se recusar a habitar seu interior, mas isso tinha mudado quando “ele’ chegou no inferno. Havia sentido admiração, desejo, paixão, mas amor? Não sabia dizer. Sempre se questionou se isso teria importado.
Ele tinha se tornado do círculo interno de Lúcifer, e havia sido marcado passando a ocupar alguns patamares acima dela.
“Cameron”, aquele nome tinha um poder sobre ela inferior somente ao de seu soberano, Lúcifer.
Alexia se lembrava da sensação de tê-lo dentro dela, de como ele se movia com volúpia fazendo-a sentir um emaranhado de prazerosas sensações. O corpo atlético dele que sempre que se encaixava ao dela fazia-a arfar e suplicar para que continuasse, para que se enterrasse dentro dela, para que a fodesse com força, rápido e cada vez mais profundo.
Aquilo teria sido amor?
Não. Isso era luxuria, no entanto, ele tinha sido o único a domá-la daquela forma. Somente ele a tinha feito suplicar por cada toque e em troca, ela se entregava de todas as formas que ele desejasse. Ele não era carinhoso, e Alexia não esperava que fosse, então, ele era sempre duro e forte, como ela queria.
Quando ela tinha se tornado desinteressante?
Ela havia sido um arcanjo antes da caída, e a milênios era um demônio de confiança do Estrela da Manhã, e mesmo assim, parecia valer menos que uma mortal.
Ele poderia tê-la tido por toda a eternidade, mas ainda assim...Alexia trincou os dentes irritada. Ela imaginava qual teria sido o momento exato em que ele a deixou, mas esse pensamento sempre trazia à tona outra questão. Quando Cameron tinha sido realmente dela? “Nunca”, sua mente sustentava todas as vezes em que se questionava.
Cameron era tão desejável e tórrido, quanto indomável, sempre tinha o que queria quando e como queria, e ela tinha sido exatamente isso, algo que ele havia tido.
(...)
Sua voz saiu trêmula revelando seu espanto. Não conseguia identificar o intruso em seu quarto, no entanto, sua presença provocava calafrios de medo. A voz masculina era grossa e muito áspera.
Lilly ouviu os passos lentos do invasor seguindo cada momento mais para perto de si e sentiu seu coração palpitar acelerado, e sentiu um cheiro forte de fumaça e enxofre que lhe causava tontura e náusea. Logo, dedos longos de unhas enegrecidas tentavam tocar sua face, enquanto um sorriso amarelo reluzia nos lábios retorcidos dele em um sorriso debochado.
—Sugiro que se afaste dela, agora! – A luz foi acesa fazendo com que seus olhos ardessem, mas Lilly sabia que se tratar de sua amiga.
Raquel parecia diferente, seu olhar estava iluminado por um brilho extremamente dourado e sua postura imponente a tornava ainda mais encantadora, mesmo usando aquele tom de voz amedrontador.
—Traidora! – Rosnou ele irritado.
Lilly conseguia ver nitidamente o homem em pé próximo a sua cama, ele era alto e extremamente esguio, os olhos muito escuros opostos à sua pele pálida, que deixava suas veias azuladas a mostra. Raquel parecia uns três palmos menor que ele, mas isso não parecia amedronta-la.
—Um conselho, fique longe dela. – Enfatizou Raquel autoritária.
O homem deu um passo a mais na direção de Lilly e estendeu a mão para tocá-la e no segundo seguinte, ela sentia o liquido morno e escuro caindo em sua perna. A mão pálida e ossuda do homem tinha sido transposta por um lápis, que pelo que tinha entendido tinha sido arremessado por Raquel.
Lilly olhou para a amiga assombrada recebendo uma piscadela em resposta, voltando novamente sua atenção para o outro que arrancava o objeto lentamente de sua mão, trincando os dentes visivelmente irritado.
Sem aviso ele saltou para cima de Raquel que o recebeu com um soco violento cravando em seguida algum outro objeto pontiagudo no homem, que aumentou o grito ainda mais irritado. Ele tentou prender seus dedos longos entorno do pescoço frágil de Raquel, mas ela foi ágil o suficiente para se esquivar e torcer o braço direito do agressor.
Lilly podia ouvir o som de ossos se quebrando, e se lembrou da vez em que viu Cam agredido aqueles dois homens na boate. Sua amiga parecia tão forte e ágil, que ela não conseguia esconder seu espanto.
Enquanto o homem se contorcia no chão próximo a porta, segurando o braço que estava em um ângulo estranho, Raquel jogava um casaco sobre ela sem lhe dar tempo de vesti-lo pois a arrastou para a janela segurando-a pela mão.
—Raquel não vamos conseguir sair por aqui, amenos que... — Aquele pensamento parecia estranho agora que o verbalizava, e não conseguiu terminar a frase.
—Voando? – Completou a outra em tom risonho. – Pelo visto Cambriel é muito mais reservado do que imaginei. -Lilly pensou em questionar sobre o que exatamente a outra estava falando, mas antes mesmo que seu raciocínio ordenasse tudo, Raquel já tinha saltado com ela pela janela segundos antes de desatar suas asas azuladas. – Roland vai nos ajudar, nós só... – Houve um estampido alto, e as duas começaram a cair. Raquel tentou segurar a amiga durante a queda, mais o máximo que conseguiu foi amortecer o encontro violento delas contra o chão.
Raquel se ergueu quase que imediatamente olhando para uma direção na rua que parecia deserta, mas Lilly também avistou uma silhueta tão alta e pálida como aquele homem que estava em seu quarto.
—Você não deveria se envolver nisso Raquel. – A voz dele era rouca e áspera. – Só nos deixe leva-la.
—Já estou envolvida Bao, ela é minha amiga. – Raquel mantinha os olhos estreitos e os lábios trancados em uma linha, ignorando o sangue que escorria por uma de suas asas.
Lilly sentia o sangue escorrendo de algum ferimento em seu braço esquerdo, além de um ardor nos joelhos esfolados pela queda, mas sua atenção estava naquela tensão praticamente palpável e no fato dela parecer ser a pivô daquele impasse.
—Não seja estúpida. – O homem do quarto apareceu novamente atrás delas, agora com suas asas negras abertas. As penas eram pontiagudas feito lanças e estavam gastas. O braço retorcido estava pendurado ao lado do corpo como se fosse apenas um objeto inanimado, que não lhe causasse incomodo algum. — Nós precisamos, e vamos levar a vadia do General e... – Ele se calou olhando vacilante para sobre a cabeça das duas.
—Se a próxima palavra que sair de sua boca Abner, for uma ameaça a ela, sugiro que cale a boca ou serei obrigado a me intrometer. – Ela conhecia aquela voz sedutora que naquele instante parecia ameaçadora.
—Qual o seu interesse nisso Adam? – Bao questionou irritado.
—Meu interesse? – Adam plainou até próximo a Lilly, pousando de modo que ela ficasse protegida entre seu corpo e o de Raquel. Ele cravou seus olhos penetrantes nos dela. – Prefiro guarda-los comigo. — Proferiu desviando o olhar para Abner.
—Vocês ficaram tempo demais com os mortais, mas devem saber como as coisas são diferentes no inferno. – Bao brincou com o revolver prateado que tinha em uma das mãos, o mesmo usado para ferir Raquel. – Recebemos ordens, e não estamos dispostos a pagar por falharmos. – Ele deu mais um passo em direção ao grupo fazendo com que tanto Raquel quanto Adam tomassem uma postura defensiva.
—O que você veio fazer aqui afinal? – Raquel questionou Adam entre dentes.
—Não interessa o que me trouxe aqui. – Ele olhou novamente para Lilly. – O que interessa, é que tem mais deles chegando, e nós não daremos conta de todos. – Concluiu revezando o olhar entre Bao e Abner.
—Acho que Roland não vai demorar em sentir o que está acontecendo. – Raquel usou o mesmo tom baixo de antes.
—Assim espero. – Finalizou Adam olhando para Lilly de soslaio.
(...)
Avaliou sua pintura com o olhar estreito e estranhamente enfadonho, e suspirou insatisfeito com o resultado de sua pintura, o fato, era que não conseguia dizer o por que tinha acordado na madrugada, mas como não tinha conseguido retomar o sono, optou por descer para o ateliê para não acordar sua esposa.
Daniel apanhou a pintura recém-concluída e a depositou em um canto reservado para as obras que poderiam ser descartadas, provavelmente ele a mostraria para Lucinda antes do veredicto.
—Você está bem Dani? – Ele não se espantou com a chegada abrupta de sua esposa.
—Não consigo dormir, só isso. E você, o que faz acordada a essa hora? – Questionou enquanto limpava as mãos em uma toalha.
—Também não consegui. – Lucinda sentou em uma cadeira próxima ao cavalete vazio.- Pode parecer estranho, mas não consigo deixar de pensar em nossa filha.- Ele encarou Lucinda por alguns segundos, o suficiente para perceber a mesma preocupação que devia brilhar em seus próprios olhos.
—Eu também. – Daniel não quis enfatizar o quanto estava preocupado com Lilly ao ponto de não conseguir dormir, e quando o fazia, tinha pesadelos terríveis com a filha. – Amanhã ligamos para ela. – Concluiu expressando sua inquietude.
—Hum hum. – Concordou Lucinda compartilhando da mesma preocupação com a filha.
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