Libertação (Cameron Briel)
32 Encontro, oração e busca
Notas iniciais

Ninguém a tinha alertado o quão doloroso seria a transição. Sentia uma dor aguda sempre que batia suas asas, e até mesmo tocá-las era doloroso, mas estava disposta em trazer aquele demônio idiota de volta caso contrário não se chamaria Raquel.
“ Não manejava os Anunciadores com a mesma maestria de Roland ou Cam, mas possua habilidade suficiente para retorcê-lo na forma que desejava, o que quase sempre era somente um buraco pelo qual conseguisse passar. Resmungou em tom sofrível enquanto tentava abri-lo o suficiente para passar soltando um suspirou cansado assim que alcançou seu objetivo.
Raquel não sabia dizer ao certo a última vez em que tinha sido convocada, talvez quando o Estrela da Manhã planejava reescrever toda a existência. Certo que naquela vez muitos haviam sido convocados e ela não tinha sido uma exceção.
Assim que transpôs pelo anunciador percebeu que estava em um restaurante, as paredes tinham um tom agradável de dourado, um grande espelho talhado em madeira ocupava uma das paredes seguindo o mesmo tom. O lugar era iluminado por lustres que imitavam velas deixando o lugar com um ar aconchegante e a única mesa disposta no ambiente estava forrada com uma toalha de linho branco, com somente duas cadeiras forradas em seu entorno.
Notou que estavam sozinhos e sentiu as pernas trêmulas quando os olhos azuis gélidos caíram sobre ela, e teve certeza que parou de respirar quando ele lhe indicou a outra cadeira.
—Deseja me acompanhar no jantar? – Questionou ele enquanto cortava delicadamente um pedaço do bife ao ponto e suculento em seu prato.
—Muito obrigada, mas não. – Respondeu se remexendo desconfortável na cadeira.
—Imagino que deva se perguntar o motivo de minha invocação, e como deve saber, prefiro ser sucinto em certos assuntos. – Colocou a carne entre os lábios lentamente enquanto seus olhos se cravaram nela de uma forma que a fez se congelar em seu lugar.
—Eu sei.
—Soube que você tem talento em manipular os sonhos. Isso é verdade? – Inquiriu interessado.
— Não exatamente, eu consigo vislumbrá-los brevemente, mas não tenho talento suficiente para manipulá-los. – Responde sem graça.
—Isso já seria o suficiente. Gostaria que você monitorasse o sonho de um humano e apenas me informasse sobre o conteúdo deles. – Lúcifer sustentava um olhar enigmático. — Você poderia testar seus poderes em sua colega de quarto por exemplo, apenas para que possamos nos certificar da sua eficácia. O que me diz?
—Claro.
—Ótimo. Façamos assim, você me mantém informado sobre seu desenvolvimento.- Ele estreitou o olhar. – Caso se mostre eficiente, posso lhe garantir que saberei lhe recompensar.
—Farei o que me ordenou.
—Não foi uma ordem, Raquel. – Sorriu sem humor.- É somente um pedido. – Alargou o sorriso falso que não chegou em seus olhos.
(...)
Ela estava à beira de um penhasco observando o mar bater violentamente contra as pedras, suas asas estavam dobradas e se comparavam a um manto negro a suas costas. As penas eram pontiagudas em um degrade que seguia do dourado ouro até o preto das pontas que pareciam desgastadas.
Raquel estava ciente que muitos demônios não tinham condição de recusar uma ordem de Lúcifer, mesmo que essa tenha sido disfarçada de pedido, imaginava se sua percepção não a tinha enganado, pois teve a nítida impressão que Lúcifer estava interessado nos sonhos de sua amiga.
—Não sei o que você planeja, mas não vou foder com a vida da minha amiga por você. – Bradou estendendo suas asas. – Rogo que tome para ti minha existência e juro que ao seu lado sempre irei permanecer. – Deixou-se cair de joelhos com lágrimas correndo pelo rosto.
Primeiro o silêncio e logo sentiu uma dor cruciante lhe invadindo a fazendo cair de bruços sobre o chão pedregoso. ”
Isso tinha acontecido antes da invocação de Cam. O Trono a tinha aceito de volta, porém o processo era lento e doloroso, as penas de suas asas traziam um tom desbotado e sem vida, algumas já tinham sido substituídas por outras largas e macias em um tom azul muito claro, formando uma ligação irregular e grotesca entre elas. Sentia um grande desconforto enquanto se obrigava a movimenta-las, mas não se abateria pela dor, era um ex-demônio afinal, e já estava acostumada com a dor.
“ Jogou-se na cama assim que Lilly entrou no banheiro, ela tinha chegado no momento em que teve um curto vislumbre de Adam nos sonhos da amiga e achou melhor acordá-la da maneira estabanada de sempre, agora tentava analisar o porquê disso tudo. Procurava por razões, mas sua mente gritava insistente “Verdes”, então Raquel se lembrou, não tinha sido sua intenção mais na tarde antes de irem à festa de Roland ela tinha visto algo nos sonhos da amiga, um par de orbes verdes muito profundos e reluzentes, “Cam”, Era o olhar de Cam que ela tinha visto no sonho, como tinha sido desatenta, Lilly já sonhava com ele antes de conhece-lo. O que isso poderia significar? “
Raquel estava realmente intrigada pela chegada de Adam, ele era um dos melhores senão o melhor manipulador de sonhos que ela já conheceu, seu poder era intenso e alcançava distancias consideráveis quando ele tinha um foco específico e o que tudo indicava, Lilly era seu foco. Acreditava que o fato de Lilly ter sonhado com Cam antes de conhece-lo pode indicar alguma coisa, mas não conseguia ligar os pontos, talvez o próprio Cameron soubesse de alguma coisa e ela iria encontra-lo a qualquer custo.
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