Libertar
1 Capítulo único
Notas iniciais
O corpo dela foi encontrado algumas horas depois. Ninguém entendeu o motivo. Lágrimas não foram poupadas.
Mas o choque foi com certeza algo a ser discutido.
O dia do funeral foi o pior. O telefone tocava o tempo todo, sem resposta. Não queríamos consolo. A dor não iria embora após algumas palavras solidárias. Ela acharia um lugar em nós para viver e se aninharia ali, numa recusa a ir embora, não fazendo exceções a desconhecidos comovidos.
Toda aquela gente que ao menos falava com ela. Todas aquelas pessoas, sem a menor ideia do que aconteceu. Ridículo.
Quem não presenciaria o funeral de Raven Walter Smith?
A morte dela parecia uma polêmica sem fim no colégio. Seu rosto estampava todos os folhetos distribuídos, todos os anúncios feitos. Seu nome era pronunciado por dezenas de bocas. Chamavam por ela.
Quem diria que uma Raven morta realizaria o sonho de popularidade da Raven viva. Se ela tivesse sabido disso, talvez partiria antes. Mas talvez já soubesse. Não podemos entender Raven, nunca. Acima de tudo, não podemos entender uma morta.
As semanas se arrastaram com olhares de pena, palavras reconfortantes e discursos de como ela era uma ótima garota, como quereria que todos nós fôssemos fortes.
Mas Raven não era assim.
Aquilo não tinha nada a ver conosco.
Descobri isso depois de dois meses de sua partida. Ela já era um fantasma, um nome dificilmente dito. Era engraçado, tudo isso. Essa hipocrisia imensa.
Muito antes disso, fui autorizada a entrar no quarto dela, mas não pude. Tive medo.
Apenas depois crio coragem para entrar em seu quarto. Ele está igual à antes, como se ela tivesse acabado de arrumá-lo, organizar os CDs em ordem alfabética, limpar seus livros. Mas a atmosfera está diferente. Um cheiro de mofo impregna o quarto e não posso deixar de pensar que aquele cheiro havia se acumulado após sua morte. Meu olhar se direciona para algo em cima de sua escrivaninha, um livro fora do lugar. Tem uma capa marrom, na qual traz consigo os dizeres:
Para minhas protetoras
No mesmo momento, sei o que ela quer dizer. Na sétima série, conhecemos Raven. Ela era um ano mais nova, mas a mais madura de todas nós. Mesmo assim, o caminho para total maturidade tinha algumas pedras nas quais tropeçar, e assim foi com nossa estimada amiga.
Algumas meninas riam dela em seus quilinhos a mais e o par de óculos quadrados, agredindo-a não apenas verbalmente, como fisicamente. Quando a conhecemos, acabamos com isso. Se chegassem perto dela, iriam provar do próprio veneno. Sempre que dizíamos isso a ela, Raven ria e acabou por nos apelidando de Protetoras.
Meu coração aperta. Como toda suicida que se preze, Raven deixara algo. Um livro. E era para nós, todas nós, as que tanto choraram por ela.
Sem pensar, agarro o livro e o guardo no bolso do casaco, ignorando o quão egoísta estou sendo com sua família. Saberiam eles daquele livro? Nenhum de nós foi forte o bastante para entrar no quarto dela, mas seria eu a primeira a corromper essa fraqueza?
Desço as escadas correndo, quase me esquecendo de me despedir da Sra. Walter. Os pais dela estão se separando. Nada mais os prendia ao casamento.
Ligo para Veronica, Emily e Myra respectivamente, pedindo para me encontrarem na minha casa em meia hora. Não digo o motivo, e elas não perguntam.
Alguns minutos mais tarde, estamos nós quatro sentadas em uma roda. A ausência dela naquela roda de cinco está implícita, mas ninguém toca no assunto, e é melhor assim.
Tiro o livro de meu casaco e o coloco no meio da roda, alisando a capa escura; nossas respirações estão pesadas.
Ao abri-lo, sua caligrafia é reconhecida imediatamente por nós quatro, que suspiramos. Seria uma carta?
Todas nós nos amontoamos para lê-lo, passando as mãos pelo papel avidamente, como se alguma de nós fosse roubá-lo sem que tivéssemos lido tudo naquele livro. Estamos amassando-o. Mas não importa. As palavras são valiosas demais para nos importarmos.
Queridas Myra, Beatrice, Emily e Veronica,
Fiz este diário há um ano, onde despejei meus sentimentos e desejos mais secretos, que nem mesmo vocês algum dia saberiam.
Se estão lendo isso agora, eu provavelmente consegui ou fui uma tremenda descuidada. Mas acho improvável que isto aconteça.
De qualquer modo, vocês estão chocadas e com raiva, com toda a certeza. Com saudade, talvez. Nunca se sabe até que ponto vocês sentiriam falta, já que sou insuportavelmente irritante, como Myra me disse uma vez.
Na verdade, este diário contém apenas alguns de meus relatos, porque sinceramente, os outros não eram da conta de ninguém. Desculpe.
De qualquer modo, não pensem que as estou culpando ou morri de amargura. Estou bem aqui para contar-lhes a guerra em que vivi. E isto não tem nada a ver com ninguém. É uma guerra contra mim mesma.
O texto acaba ali. Respiro fundo, tentando não entrar em pânico. O que temos em mãos são anotações de uma garota morta. Cogito por um instante fechá-lo e simplesmente devolvê-lo em seu lugar, mas Veronica já está virando a página.
12 de janeiro de 2012
Houve tempos em que a escuridão era temida por mim. Não mais. Agora ela é meu refúgio, onde posso sentir minhas lágrimas sem vê-las. Posso olhar para o escuro e apenas chorar.
Há exatos três meses, eu estava completa e indescritivelmente apaixonada por um garoto. E ele também estava apaixonado. Mas não por mim. Jason estava apaixonado pela imagem que fez de mim. E isso nem era o pior de tudo.
No começo, mal dei atenção ele. Pensava em outras coisas, como a ilustre briga entre meu irmão e meus pais, a qual não fiz nada para impedir, mas logo falarei disto. O importante é que a partir daí eu já estava desmoronando. Eram os primeiros destroços de mim mesma.
Mas monte o seguinte cenário: uma Raven extremamente fragilizada e seus livros de química na biblioteca da escola numa sexta feira à noite. Sozinha. Chorando.
Eu estava estudando, é verdade, e isso não deveria fazer alguém chorar na maioria das vezes. Mas, veja bem, eu não funciono sob pressão. Então depois de ouvir os berros de minha mãe e de Charlie repetidas vezes em minha cabeça e tentar estudar química ao mesmo tempo, simplesmente me debulhei em lágrimas. Eu estava tão frustrada. Tão cansada.
Foi quando senti alguém sentando do meu lado. Quem seria louco o suficiente para vir à biblioteca da escola numa sexta à noite? Exceto eu, claro. Tentei enxergar por entre as lágrimas que embaçavam minha visão, e reconheci olhos amigáveis olhando para mim. Jason sorria gentilmente, afagando meus cabelos.
― Está tudo bem. Tudo bem, Raven.
Isso só fez com que eu chorasse ainda mais, soluçando e tremendo. Deus, o que havia de errado comigo?
― Você quer conversar sobre o que aconteceu?
Balancei a cabeça negativamente. Nem em um milhão de anos eu contaria o que estava escondendo de todos, até mesmo de minhas amigas, para um garoto qualquer. Não. Então, como fiquei simplesmente parada, os olhos inchados, as lágrimas escorrendo por meu rosto, ele me abraçou. Simples assim. E nunca me senti mais protegida do que naquele momento.
Depois de secar minhas lágrimas, ele me ofereceu uma carona para casa e eu obviamente aceitei. Estava completamente caída por ele. Quando paramos em frente à minha casa, não consegui desgrudar meus lábios dos seus. Foi assim. Leve e simples, nada parecido com as histórias que contei para Emily. Ou para Myra. Ou até mesmo para Veronica e Beatrice. Foi algo natural.
E bem ali, em frente à minha casa, o lugar onde fui destruída, Jason me pediu em namoro.
Todas nós paramos de ler por um momento, absorvendo aquele pequeno texto. Foi assim que Raven começara a namorar Jason? As histórias dela eram bem mais emocionantes, nas quais ela sempre estava em alguma festa e os olhares deles se cruzaram e a noite acabou com os dois se agarrando no banheiro feminino. Na época, eu havia acreditado cegamente nela, mas agora aquela história parecia ridiculamente falsa. Até porque Jason tinha todo aquele jeito fofinho e Raven não era de frequentar festas, além de tudo sozinha. Mas para mim pareceu a legítima história do começo do namoro dos dois. Jason nem ao menos desmentiu quando comentamos isso a ele certa vez. Imagino por quê.
Também há essa coisa de briga do irmão dela com os pais. Aquilo era novo para todas nós. Raven não tinha dito nada, mas depois de três idas a casa dela com a ausência contínua de seu irmão, perguntei a ela o que acontecera. Lembro-me de sua hesitação, mas logo depois deu um daqueles seus sorrisos que te fazem acreditar prontamente no que quer que ela tenha a dizer. Disse que ele iria passar o próximo verão com a avó deles e voltaria apenas semestre que vem. Explicações dadas, fato esquecido. Eu achava que podia confiar nela.
Até agora.
Myra vira a página, e o silêncio nos acolhe em meio às palavras dela.
21 de maio de 2011
Estou escrevendo sentada em frente à porta do banheiro, o mesmo lugar onde estava quando ele foi embora.
Jason e eu fomos ao parque depois da aula. Ele parecia querer me contar algo há algum tempo, mas tive medo do que ele poderia me dizer. Eu não poderia perder duas pessoas importantes em menos de seis meses. Mas por fim constatei que precisava ouvir, querendo ou não. Então aceitei o convite de Jason e fui retribuída com aquele sorriso que aprendi a amar.
Depois, deitados um ao lado do outro, sentindo o calor do sol e ouvindo nossas próprias respirações, eu não podia deixar se pensar o quanto estava cansada. Os últimos meses haviam sido o inferno em si. Minha existência para meus pais parecia tão significante quanto às revistas de moda que eu lia. Eles nem ao menos prestavam atenção em mim. Além disso, eu me sentia sozinha quando estava com minhas amigas. Elas sempre pareciam sair sem mim e eu não fazia ideia do que elas falavam na maior parte do tempo. Eu também ficava irritada com seus problemas ridículos, como o fato de alguma delas não ter um namorado ou que os pais tinham cortado a mesada. Tudo isso parecia ridículo, comparado ao que eu sentia, mas me mantive quieta o tempo todo. O problema de toda essa coisa de amizade era que você nunca sabe até que ponto seus amigos serão fiéis a você. Quando você se mostra fragilizada ou com qualquer emoção que não estejam acostumados, as pessoas se afastam de você.
E tudo o que você pode fazer é voltar ao normal e fingir que nada aconteceu. Que nada está acontecendo. Quando reassumi a meu posto de adolescente ai-meu-deus-não-acredito-que-ele-me-chamou-pra-sair, voltei a ser incluída nas conversas. Não que eu me importasse. Eu só queria que elas estivessem ao meu lado quando eu precisasse, eu só queria alguém para me ouvir. Então Jason apareceu. As coisas melhoraram. Não totalmente. A dor, eu podia senti-la, profunda e violentamente em algum lugar de mim. Mas quando estava com ele, permitia-me um pouco de paz.
― Tem algo que queira me contar?
A princípio, pensei que essas palavras haviam saído de minha boca, mas então percebi que Jason tinha perguntado exatamente o que eu vinha me perguntando. Tinha algo que eu queria contar a ele?
Fechei os olhos, pensando no que deveria responder. Sim, tinha várias coisas que eu queria contar. Mas como? Ficar ao seu lado e fingir que nada aconteceu era torturante, mas era muito melhor do que precisar contar.
Respirei fundo duas vezes. Então era isso. Eu contaria a ele a nem um pouco feliz história de meu irmão.
Então comecei. Ele não me interrompeu nenhuma vez. Era um ótimo ouvinte, e enquanto eu falava, podia sentir o peso saindo de meus ombros. Ele ainda estava lá, mas bem mais leve.
Ele era quatro anos mais velho. Sempre fora o tipo preguiçoso, tirava notas baixas, dormia nas aulas, ficava em detenção inúmeras vezes por ano. Meu irmão não era o maior exemplo para mim.
Meus pais brigavam. Gritavam. Colocavam-no de castigo, tiravam seus direitos, mas ele não parecia se incomodar. No fim, ele acabava ganhando o que queria. Não tinha limites. Recusava-se a fazer faculdade e saía todas as noites para voltar dias depois.
Ele parecia tão seguro de si, parecia saber exatamente o que estava fazendo. Parecia acreditar que o futuro esperaria por ele, e também comecei a acreditar nisso. Eu era uma pessoa extremamente influenciável. Talvez seja por isso que acabei sendo a garota que influenciava os outros.
Então voltemos até o dia onde eu estava preparada para o banho, quando meu sonho mais ousado era ser a garota mais popular, ser uma versão feminina de meu irmão. Quando as memórias dos primeiros beijos que troquei ainda me faziam corar. Quando eu ainda era pura o suficiente para acreditar que tudo estava bem.
Eu resmungava com minhas amigas por mensagens sobre não ter o que vestir para uma festa. Lembro-me de dizer que odiava minha vida, e Beatrice me repreender, dizendo que aquilo não era verdade. E não era. Não naquele momento.
Mas então ouvi uma porta batendo num estrondo, e depois apenas silêncio. Mesmo sem ouvir coisa alguma, aquilo foi a pior coisa que eu poderia algum dia ouvir. Agachei-me em frente à porta trancada do banheiro, tentando entender. Nada me ocorreu. Fiquei imóvel, sentindo o silêncio insuportável me rodear e me acolher. Ele era uma fina camada de gelo que eu tive medo de quebrar. Mas alguém quebrou. Minha mãe berrava a plenos pulmões.
― O que é que você estava pensando? ― berrava. ― Você, seu vagabundo ridículo, não é mais meu filho – fez uma pausa, e logo depois voltou a berrar ― Não encoste em mim!
― Mãe!
Eu deveria ter ajudado. Eu deveria... Minhas mãos estão tremendo, não consigo escrever. Eu estava tão confusa, ajoelhada no chão frio do banheiro, ouvindo tudo aquilo. Coisas caíam no chão, meu pai gritava, meu irmão gritava, minha mãe chorava.
― Saia daqui antes que eu chame a polícia, moleque! Você não é meu filho.
― Pai, por favor, eu não...
Sua voz parecia exposta, vulnerável. Meu irmão, meu irmãozinho estava sendo humilhado na sala de sua própria casa, e tudo o que fiz foi ficar parada, ouvindo.
― Saia! ― Meu pai parecia furioso. – Eu não o quero aqui! Não quero saber dessa criança. Vá embora se ainda tem um pouco de respeito por aqueles que te criaram.
Houve um silêncio momentâneo, no qual consegui apenas distinguir minhas lágrimas caindo em minhas pernas dobradas. Patética. Aquela garota ajoelhada no chão, ouvindo sem ver. Há aquela expressão “o que os olhos não veem o coração não sente”. Bem, é mentira. Eu podia sentir aquele momento com todo meu coração sem ver coisa alguma. E, pela primeira vez, senti-me sozinha, perdida no redemoinho do reconhecimento.
Eu entendi.
Charlie engravidara uma garota.
Ouvi o barulho de portas se fechando, e soube que ele tinha ido embora. Ele não foi mencionado no jantar. Nunca mais o vi.
Quando contei a Jason, ele foi paciente. Não interrompeu, e também não se importou com minhas lágrimas durante o relato. No fim, ele pegou minha mão e me deu apoio. O vazio que eu sentia estava menor.
Acho que as coisas estão começando a melhorar.
Charlie.
Lembro-me dele, com seus cabelos cor de areia e olhos brilhando em sua própria loucura. Era lindo e perigoso. Tudo o que adolescentes procuravam. Mas ele jamais olhou para qualquer uma de nós. Havia um acordo silencioso entre ele e Raven. Não mexa com meus amigos que não mexerei com os seus.
Se penso melhor, não me lembro de tê-lo visto no enterro de Raven. Talvez os Smith tenham o impedido, mas não parece de seu fetiche fazer algo assim. Espero explicações nas próximas páginas.
30 de julho de 2011
Hoje Jason e eu comemoramos nosso aniversário de seis meses de namoro. Na verdade, nossa comemoração deveria ter sido feita semana passada, mas nós dois não tínhamos pressa.
Ele me levou a um restaurante de comida mexicana, que eu na verdade odeio, mas o ambiente era gostoso de se ficar, e podíamos ver o céu de onde estávamos sentados, nos dando uma visão privilegiada do breu de fora.
Pedimos tacos e comemoramos com tequila ao som daquela música mexicana horrível. Não me lembro de me divertir tanto quanto nessa noite.
Ao fim da noite, Jason inclinou-se em minha direção, o álcool já subindo em nossas cabeças.
― Eu amo você.
Sorri para a única estrela que pairava no céu, sentindo, pela primeira vez, esperança.
― Eu também amo você.
Ouço suspiros vindos de minhas amigas, e eu sei o que elas estão pensando. O romance de Raven e Jason era muito maior do que podíamos imaginar. Raven sempre contava histórias de festas entre ambos, e nossas fofocas sempre terminavam em alguém comentando sobre a vida sexual dos dois. Ela não negava nada.
Mas o que ela escrevia era muito mais puro. Natural. Simples. Clichê. Não havia nada picante ou alucinante como o que falávamos, o que não combinava com Raven.
Então pude reconhecer.
Não sabíamos nada sobre nossa melhor amiga.
31 de outubro de 2011
Podemos marcar este dia como “O Declínio de Raven”. O que acha?
Hoje é 31 de outubro. É Halloween, o dia em que as pessoas se vestem como personagens de filmes de terror e vão de casa em casa, pedindo doces ou travessuras.
Travessuras para a Raven este ano.
Mas para entendermos, voltemos duas semanas, o sábado que conseguiu mudar tudo.
Eu estava feliz já que não era convidada para muitas festas, e aquela seria a festa do ano, a festa de James Storan, o cara mais lindo do 2º ano.
Coloquei um vestido preto, um salto alto que escapava de meus pés e deixei Veronica exagerar na maquiagem. Quando terminou, me analisou franzindo o cenho.
― Pena que você é comprometida ― disse. ― Porque todos vão querer você.
E ela estava certa. Jason passou a festa toda abraçado a mim, num gesto protetor. Ou quase a festa toda. Em certo ponto, ele relaxou e afastou-se para pegar uma bebida para nós dois. Foi quando aconteceu.
Os garotos estavam juntando um grupo de meninas dispostas a jogarem um jogo de perguntas qualquer.
― Ei, Raven. Vem jogar com a gente.
Não sei o que estava pensando. Todos ali estavam bêbados e eu nem ao menos tinha bebido. Mas, por algum motivo, aceitei entrar na brincadeira.
O jogo era o clássico Verdade e Desafio, mas sem a parte da verdade, só o desafio, todos com certa malícia. Ponderei sair do jogo, e foi nesse momento em que a garrafa parou em mim. Lembro-me de xingar mentalmente em todas as línguas que eu conhecia.
― Raven ― ao ouvir meu nome sendo chamado foi quando percebi que o próprio James Storan falava comigo, olhando em meus olhos. ― Eu desafio a você a tirar o vestido.
É claro que fiquei completamente corada. O cara mais lindo de todos estava me pedindo para tirar a roupa e eu estava hesitando. Mas eu tinha um namorado. Não ficaria apenas de roupas íntimas na frente de todos, inclusive James.
― Vamos lá, Raven ― estimulou Sarah, a garota famosa por vender drogas. – Eu não vim até aqui escondida de meus pais para uma garotinha arregar de primeira por algo tão bobo. ― Riu e levou aos lábios um copo em que todos estavam bebendo.
Garotinha? Peguei o copo e virei seu conteúdo em minha garganta sem mesmo sentir o gosto. Meu corpo pegava fogo. Sem pensar, abri o zíper de meu vestido e o joguei longe. As pessoas à minha volta comemoravam, mas eu não as ouvia. Minha visão estava turva, meus pensamentos embaralhados. Sentia pela primeira vez o caos dentro de mim, sentimentos de chamas e uma loucura incandescente.
― Muito bem, Sarah ― ouvi alguém dizer, e percebi que a garrafa apontava para ela. ― Já que está escondida do papai e da mamãe, te desafio a mandar uma foto da festa para eles dizendo “o que sua filha faz aos sábados? Melhor festa de todas!”.
Sarah riu, pegou o celular do bolso e tirou uma foto. Mas não o guardou. Como pude ser tão estúpida?
― Você está linda esta noite ― dizia James.
― Não estou vestindo nada.
― Por isso mesmo.
Já sentia frio sem meu vestido, e era notável que todos os garotos olhavam para mim. Por um minuto insano, senti-me desejada. Eu sei, ridículo, uma garota seminua numa festa cheia de gente drogada e bêbada não era particularmente incomum. Mas foi bom ser o centro das atenções.
Ah, a velha e egoísta Raven. Ainda vive em algum lugar de mim, sabe? Características assim não somem facilmente. Na verdade, elas nunca vão embora. São as piores características que definem quem você realmente é. E não há nada que possamos fazer, porque estamos nos afogando em nossas próprias mágoas e ressentimentos. Sentindo aquele tipo de emoção aterradora, que destrói, envenena, mata. Foi um dos motivos de ter sufocado a mim mesma.
Então James virou-se para mim, e fez a última coisa que eu sonharia em todos meus anos escolares.
Ele me beijou.
Não era nada parecido com os beijos de Jason, suaves e gentis. Não, os beijos de James eram intensos. Quase violentos, e devo dizer, cheios de mãos bobas. Eu deveria ser uma boa garota e impedi-lo de beijar-me daquele jeito. Deveria impedi-lo de percorrer suas mãos por meu corpo tão livremente.
Sim, caso esteja se perguntando, eu o fiz. Empurrei seu corpo inclinado sobre o meu e limpei o batom borrado em meu queixo. Mas foi muito tarde. Um flash fora disparado naquela noite, mas estava ocupada olhando para nada além de mim.
O resto da noite resumia-se em borrões, vislumbres de bebidas, a sensação de barba malfeita arranhando minhas bochechas, corpos se chocando, o cheiro de suor.
Achei que tudo ficaria bem. Jason não saberia da sessão de beijos no jogo do Desafio, nem minhas amigas. Tinha esperança de que todos naquela roda ― inclusive James Storan ― estivessem chapados demais para lembrarem qualquer coisa sobre a garota de roupas íntimas bebendo junto com eles.
Como sempre, eu estava errada.
Hoje, mais cedo, cheguei atrasada à escola. Os corredores já estavam vazios, e minha única companhia era um zelador arrancando furiosamente cartazes das paredes.
Parei momentaneamente para observar alguma besteira do colégio nos panfletos. Mas não foi isso que vi. A imagem exibida naquele cartaz era a de um casal se beijando. Se você pensou que a garota da foto estava apenas de roupas íntimas, ponto para você. Se você pensou que ambos se beijavam em meio a uma festa, dois pontos para você.
Como? Como aquela foto fora tirada? Como isso podia estar acontecendo comigo?
Mas o que realmente doeu foi a frase, quase maior que a própria foto, letras berrando palavras horríveis, palavras que me corromperam de tal modo que não pude olhá-las.
“Não alimente vadias”.
Dei alguns passas para trás. O zelador pareceu notar minha existência e me lançou um olhar de compaixão. Ele tinha pena de mim.
― Olhe só para ela. Patética.
Sarah estava parada há alguns metros de mim, rindo. Ria em seu próprio sadismo, atiçando todos ao seu redor. Eram em média quinze pessoas rindo, divertindo-se à custa de Raven Walter Smith.
Minha garganta apertou, mas não chorei. Não choraria ali. Eu sabia, sabia que acabaria desmoronando, só estava adiando o momento. Mas ninguém pode adiar o próprio desmoronamento.
Eu sentia medo por mim mesma. Mas só havia um nome em minha mente. Jason.
Avistei sua cabeleira loira no fim do corredor, olhos quebrados, olhos que antes me olharam com tanta doçura, miravam-me sem realmente me ver.
― E aí, Jason? ― alguém disse. Quem? Não importava. Talvez importasse se a ocasião fosse outra. Mas eu só podia ver seus olhos, tão familiares, tão distantes de mim. ― O que fará com ela?
― Não alimente vadias! ― alguém gritou. Ouviu-se a repetição das palavras incansavelmente. Cada uma delas me sufocava. Eu estava sufocada. Sufocada por lágrimas retidas.
Uma porção do colégio gritava. A outra observava, silenciosa.
Jason aproximou-se bruta e rapidamente, provocando tremores de horror em todo meu corpo.
― Por quê? ― foi a pergunta.
Não respondi. Mesmo se quisesse, não conseguiria.
Ele agarrou meus ombros, chacoalhou-me.
― Me responda! ― ele gritava. Agora nossa plateia estava em silêncio. Eu queria gritar. ― Nunca pensei que... por Deus, Raven, o que aconteceu com você?
Ele me soltou. Não desista de mim, Jason, por favor.
― Por que não responde? ― murmurou. ― Droga! Você é mesmo uma... Perdeu sua língua? Será que eu a encontro em algum lugar na boca daquele cara?
Doeu. Mas eu não conseguia sentir. Era como um sonho. Não podia ser real. Abri a boca.
― Não... não fale comigo. Não fale nada.
Virou-se e foi embora.
Não desista de mim, Jason. Eu queria gritar.
Mas ele já estava longe.
Emily curva-se e começa a tremer. Pode estar chorando ou apenas em um sofrimento realmente violento, não saberia dizer. Emily chorara muito no enterro de Raven, e realmente achei que não haveria mais lágrimas da parte dela. Mas lá está Emily, contorcendo-se de dor, o diário em mãos.
Myra está espantada. Veronica parece estar passando mal. E eu só quero sair dali. Pegar aquele diário e picá-lo em pedaços. Esquecer-me de Raven, Jason, Sarah e James. Droga. James comparecera ao enterro dela. Até tinha feito uma cara convincente de tristeza. Como ele podia ter a audácia de fazer aquilo, sabendo que ele mesmo matara Raven? Minhas mãos tremem.
Deus.
Eu me lembro daquele dia. Logo nos portões da escola podíamos ver panfletos daquele casal tão incomum, e aquela frase suja. A princípio não entendi a quem eles queriam atingir, então percebi que a tal garota em seu conjunto de sutiã e calcinha preto era minha melhor amiga. Foi aí que as coisas fugiram do controle.
Lembro-me de tê-la visto olhando os cartazes, tão espantada quanto qualquer um de nós. Lembro-me de ter sentido uma espécie de raiva egoísta por nem ao menos saber daquele beijo. Que tipo de amiga era Raven, que nem ao menos contava o que acontecia com ela? Lembro-me de acreditar em seus sorrisos e promessas depois do ocorrido. Eu realmente acreditava que ela sentaria e se abriria para nós. Acreditava que ela nos deixaria consertá-la.
Mas, como sempre, estava errada em relação a ela.
3 de novembro de 2011
Há algo diferente.
Algo mudou nos corredores dessa escola. As pessoas tão almejadas por mim, agora não passavam de palavras ao vento, algum incômodo qualquer. Todos viviam vidas ridículas. Todos ali pareciam mais uma ocupação inútil de espaço.
Algumas das mentes fechadas dali olhavam para mim. Ora, eu era apenas mais uma garota ridícula apelidada de vadia por trair o namorado. Quão normal era aquilo no colegial?
Ah, mas eu poderia julgar cada uma daquelas almas sujas, assim como faziam comigo. Poderia jogar uma a uma naquele tornado de insanidade que eu chamava de vida. Afinal, a palavra insanidade parece muito apropriada para mim nesse momento.
Devo ter chorado nesses dias. Devo ter sofrido. Mas eu só lembrava do sangue, tão vermelho e vívido, manchando minha pele, amaldiçoando-a. Algumas cicatrizes nunca podem ser fechadas.
Mas eu podia sentir. Podia sentir meu estômago revirado de dias sem comer. Podia sentir as olheiras cavadas embaixo dos olhos. Sentia a garganta arranhada. Mas eram tantas sensações. Fragmentos de sentimentos e emoções, tão fortes e frágeis. Tão intensos.
Veronica trombou comigo no caminho de uma aula qualquer, derrubando meus livros no chão. Achei que ela simplesmente me ignoraria e pisotearia minhas coisas, como qualquer um ali faria. Mas ela se abaixou e pegou meu material, um sorriso torto em seus lábios.
― Você não retornou nossas ligações.
Minhas protetoras tentaram me ligar algumas vezes nos últimos dias. Ignorei-as assim como fiz com meus pais. Por três dias, permiti-me esquecer que o mundo existia. Eu não lidava bem com a dor, e não quis senti-la. Sou fraca demais para isso.
― Achei que não havia nada para falar. ― Tirei a franja recém-cortada dos olhos, tentando decifrar sua expressão. Num momento de inconsciência, devo ter aparado meu cabelo, resultando numa franja torta. Não me dei o trabalho de consertá-la.
Não sabia o que Veronica pensava de mim, o que falava pelas minhas costas. E não tinha certeza se queria saber.
― Nada para falar? Por Deus, Raven, você acha que depois do que aconteceu não há nada para falar? ― Seus olhos eram tempestuosos. Raiva. Ressentimento. Eram os sentimentos egoístas de minhas amigas. ― As pessoas a chamam de vadia e falam atrocidades sobre você! Não sabemos ao menos como defendê-la!
Era bom ouvir aquilo. Saber que alguém ainda se importava comigo. Mas algo se contrastava com o amor que eu sentia por minhas protetoras. Medo. E se elas me interpretassem mal? E se me abandonassem, assim como Jason fez? Como meu irmão fez?
Eu estava cansada de ser abandonada.
― Bem, não há sentido algum em me defender. Aposto que vocês até acreditaram por um momento que eu era de fato uma vadia, não é?
― Raven, não foi isso...
― Não me importo. Se quiserem se juntar ao coro de não alimente vadias, se quiserem jogar pedras em mim... não me importo. Vá, corra, conte a todos que a ridícula da Raven apareceu na escola. Conte a eles que cuspi palavras em você. Nunca me importei com nenhum de vocês de qualquer modo.
Eu não era assim. Agressiva, vingativa, rancorosa. Eu era doce e queria que os outros se sentissem bem comigo. Mas essa era outra Raven. O que sou agora é tudo o que mais abominei.
Sou fraca.
Desvio os olhos do papel e encaro Veronica. Ela pisca freneticamente, como se estivesse confusa. Sua cabeça parece a ponto de entrar em combustão.
― Por que não nos contou? ― pergunto. Ela fica alguns segundos a mais sem dizer nada, e por fim olha para mim.
― Ela disse todas aquelas coisas... achei que ia ficar com raiva de... ― Veronica passa a soluçar e balbuciar palavras desesperadamente. ― Ela parecia tão mal! Quero dizer... nossa Raven... ― Lágrimas e soluços. É incrível a quantidade de lágrimas que havíamos derramado por uma só garota. ― Ela era tão viva, tão iluminada... era o centro de nós todas. Ela sempre sabia o que dizer, sempre... sabia o que sentíamos. Meu Deus, meninas, como pudemos deixar isso acontecer?
Só posso notar que estou chorando quando as lágrimas rolam até minha calça, formando grandes manchas d’água no tecido.
Nada parece certo naquele diário. Raven não era aquele tipo de garota que escrevia tão caprichosamente nas folhas de caderno palavras ácidas e dolorosas. Não podia ser.
11 de novembro de 2011
Eu poderia citar muitos acontecimentos que provariam a falsidade de Myra em relação a mim.
Talvez como seus olhos pareciam faiscar todas as vezes que eu falava sobre Jason. Eu não reparava, mesmo sendo tão óbvio. Mas o que podia fazer? Eu estava apaixonada.
Continuei indo para a escola, mesmo sem nenhum propósito. Não assistia às aulas, não conversava com minhas amigas. Só ficava ali, uma presença pálida e vulnerável em meio ao pátio apinhado de estudantes. O coordenador tentou me ver algumas vezes depois da reclamação dos professores por minha quantidade de faltas na aula. Na maioria das vezes, eu passava as aulas sentada na pia do banheiro.
Agora, no fim da semana eu já estava disposta a não ir mais ao colégio. Meus pais tinham desistido de perguntar o que havia de errado, e eu não me importaria em levar um sermão por matar aula.
Não me importaria nem se me expulsassem de casa assim como fizeram com Charlie. Não engravidei, não fiz nada de errado.
Só beijei um garoto.
Isso me custou mais do que deveria, é verdade. Mas eu não fiz nada de absurdo, nada obsceno. Sou uma adolescente, deveria viver.
Bom, no momento, morrer parece muito mais convidativo do que viver nessa miséria.
Andei pensando nisso: morrer. A ideia não me amedronta mais como fazia antes. Acho uma ótima saída, para falar a verdade. A dor pararia.
No último horário, aula de biologia, ou qualquer coisa assim, resolvi ir para casa mais cedo. Já estava disposta a abandonar aquela escola. Não esperava encontrar ninguém no caminho. Mas ouvi vozes familiares.
― Você tem certeza disso? ― Era uma garota. Aproximei-me silenciosamente, e reconheci os cabelos escuros de Myra. Ela conversava com um garoto alto, loiro. Jason.
― Não.
― Então tente.
O que se seguiu depois daquilo é um tanto doloroso de escrever. Não tenho certeza de que quero reviver o momento.
Ele curvou-se em direção a ela, e ficou assim por algum tempo. Estava beijando-a.
Fiquei tão atordoada que não soube como reagir. Acabei por virar e correr, mas estava tonta demais. Caí no cimento, num baque dolorido. Os dois se separaram e olharam em minha direção. Pareciam espantados. Sem dizer nada, levantei-me, e os encarei sem medo. Não sei onde achei controle, mas minha voz saiu fria e firme.
― Não quis atrapalhá-los. Por favor, continuem.
Eu queria correr, mas observava seus rostos culpados com um pouco de prazer. Eu estava cada vez pior. Estava me afogando, mas ainda sim conseguia gastar meu pouco oxigênio para rir de minha vingança.
― Você se acha muito melhor que nós, não é? ― Myra perguntou. Ela tinha dado um passo à frente, parecendo nervosa. ― Jason e eu não fizemos nada diferente do que você não tivesse feito. Como era aquela frase escrita nos panfletos...
― Myra ― Jason interrompeu.
― Vamos, Raven, me ajude, quais palavrinhas as pessoas estavam gritando, hein? Me diga.
Desviei o olhar. Não podia deixá-la me vencer. Não podia.
― Me diga se você é melhor do que eu! Me diga se é melhor do que Jason! Por acaso estou sem roupas? Hein? ― ela berrava.
― Cale a boca!
Os dois olharam para mim, espantados. Aparentemente, ninguém conhecia meu novo eu. Nem mesmo eu conhecia.
― Se algum de vocês se aproximarem de mim novamente, eu mato os dois. Os dois.
O olhar de Jason doeu ainda mais.
― Meu Deus.
Myra está pálida e seus olhos transmitiam algo desagradável. Ela parece estar passando mal.
― Eu matei a Raven.
― Do que você está falando? ― Emily pergunta.
― Você leu essa droga? Matei a Raven, deixei que as minhas palavras venenosas a fizessem engasgar até sufocar. Fui eu. Ela já não estava bem, e teve essa coisa do Jason...
Volta a chorar, mas ninguém a consola. Não sabíamos nada sobre Myra e Jason juntos, e Raven não dissera nada. Há um certo sentimento pairando ali. Não consigo decifrá-lo por um momento, mas depois entendo. Traição.
Quantos segredos havíamos mantido umas das outras após a morte de Raven? Como nossa protegida pôde nos afastar de tal modo?
― Sempre gostei de Jason. Então ele começou a namorar Raven e eu não sabia mais o que pensar. Cheguei até a ignorar os dois, para ver se conseguia esquecê-lo. Mas eu não conseguia. Raven nos contava aquelas histórias românticas, e vocês... vocês ajudavam. Criavam um milhão de suposições e acontecimentos que nem ao menos aconteceram! Eu sentia tanta... ― interrompe-se, as palavras entaladas em sua garganta. – Inveja.
Ninguém diz nada. Nada a ser dito, nada a ser feito. Raven está morta. Nenhuma desculpa, nenhuma lágrima, nada a traria de volta.
― Eu fui uma péssima amiga, reconheço isso. Mas sou humana. Quando vi a chance... eu a agarrei. Encontrei Jason e me aproximei dele nos dias em que Raven estivera ausente. Achei que poderia substituí-la.
Lanço a Myra um olhar irritado.
― Olhe para mim, Myra. Só não acabo com você agora mesmo porque preciso saber o que minha protegida tem a dizer. Mas guarde minhas palavras: você nunca, em hipótese alguma, irá substituir Raven ― cuspo as palavras de uma vez só, jogo-as em seu colo e não espero para ver o efeito. Desvio o olhar para as folhas do caderno.
25 de dezembro de 2011
É Natal.
Há um ano eu provavelmente estaria em êxtase. Era a única noite que minha família jantava em harmonia. Comíamos peru e biscoitos amanteigados. Depois do jantar, Charlie e eu sentávamos em frente à janela, nossos pés se tocando, e assistíamos a neve cair. Eram noites lindas.
Hoje está tão frio que mal consigo escrever. Meus dedos estão gelados demais, minha cabeça lateja, talvez pelo excesso de cafeína. Meu corpo inteiro treme, coberto inutilmente por cobertores; está frio demais. De qualquer modo, o aquecedor está desligado propositalmente. É mais uma de minhas torturas contra mim mesma. Talvez congele até morrer.
Pouco importa como estou agora.
Em breve não estarei coberta ou descoberta no agora, tampouco no amanhã. Não importará.
Hoje de manhã procurei meus pais. Já fazia algum tempo que vinha pensando em Charlie, e se meus pais poderiam dar uma trégua ao menos no Natal. Talvez um jantar com meu irmão fosse trazer Raven de volta. Trazer-me de volta, penso agora. Mas eu e aquela garota à porta do banheiro, no dia em que ele se foi, somos diferentes demais. Ela não voltará mais.
Encontrei mamãe na cozinha, preparando o bolo de nozes que sempre comíamos. Era o preferido de Charlie. Isso acendeu em mim uma fagulha de esperança, quase nula, mas estava lá. Ela sentia tanta falta dele quanto eu. Ela ligaria para ele, Charlie voltaria e eu teria novamente um conforto em minha casa. Talvez ele oferecesse a mim palavras amigas; eu me confortaria nelas. Foi com esse pensamento que ajudei minha mãe a preparar a massa, despejando o que restava de minha força de vontade na mistura de nozes e ovos.
― Mãe?
― Me passe o leite, por favor.
― Charlie vai comemorar conosco?
Suas mãos tremeram, deixando a colher cair. O ruído da colher se chocando com o chão foi a única coisa que ouvi por segundos. Ela desviou o olhar para mim, e tive minha resposta antes de qualquer palavra sair de sua boca. Charlie não viria. Foi um erro perguntar.
― Não vejo um motivo para aquele garoto comemorar o Natal conosco. Ele não é da família. Ao menos sei quem ele é. Você não deveria continuar pensando nele.
Cada palavra doía em mim como se eu não as esperasse. Eu sabia que meus pais desprezavam Charlie, mas nunca soube até onde eles iriam. Faz quase um ano desde o dia em que eles o expulsaram dali. Um ano que seu quarto permanecia vazio, todas suas coisas arrumadas, aguardando sua volta. Mas ele não voltou.
Meu sangue ferveu.
― Por quê? Por que você e papai continuam essa encenação patética? Por que, meu Deus, vocês fazem isso com seu próprio filho? O filho que vocês criaram, amaram, ensinaram a ser a droga de um ser humano! Isso é doentio.
Mamãe era inabalável.
― Charles não é nosso filho. Criamos uma criança decente, inteligente e esforçada. Pouco me importa quem essa criança se tornou, não é problema meu.
― O que está acontecendo? ― gritei. Não sei se perguntei a ela, a mim mesma ou a qualquer um, qualquer um que pudesse me ouvir, me explicar. Como minha vida se tornara aquela massa confusa de tragédias e dores?
O que está acontecendo?, eu continuo me perguntando. Não entendo. Eu era feliz. Fui uma adolescente de acordo com o manual: acreditei na eternidade das amizades bobas, fiz incontáveis besteiras, vivi a vida superficialmente, construí uma reputação no colégio, e até cheguei a experimentar uma paixão bem sofrida. Como tudo isso se transformou em... nada?
Não entendo.
É tão estranho. Ser tudo o que me neguei a ser, o que jurei que nunca seria. Sinto-me tão fraca, tão covarde. Estou abandonada. Não há a quem culpar, a não ser a mim.
Eu provoquei tudo isso a mim mesma.
Tenho uma última esperança.
Procurarei Charlie.
Preciso sair daqui. Fechar esse diário, correr para longe, nunca mais olhar para nenhuma daquelas pessoas que fizeram Raven sofrer tanto. Não sou obrigada a ler isto. Não preciso saber o que fez minha amiga ser destruída, não preciso me lembrar do que vi e ignorei.
As palavras de Raven me sufocam de tal modo que tenho que me curvar, procurando ar. Estou tendo um ataque de pânico. Sei disso porque já entrei em pânico diversas vezes. Uma delas foi quando encontraram o corpo de Raven.
― Podemos continuar depois ― alguém diz. Não, não podemos. Temos que terminar. É isso o que digo a ela.
A próxima página é virada, e o ar me falta novamente.
13 de janeiro de 2012
Lembro-me da maioria dos amigos de meu irmão. Eram barulhentos, mal-educados e cheios de acne. Mas eu gostava deles. Eram legais de um jeito muito diferente.
Quando meu irmão era mais novo, ele tinha um melhor amigo. Os dois faziam mil planos para quando saíssem do colégio: iriam eles e suas futuras namoradas morar em uma cidade grande e virariam jogadores de futebol profissionais ou qualquer coisa do gênero.
O nome dele era Isaac.
Era três anos mais velho que eu, e vivia me lançando olhares e sorrisinhos. Nunca tentou nada, é claro. Charlie o mataria. Mas era um pequeno segredo meu e dele. Era divertido ser independente de meu irmão por apenas alguns momentos.
Há algo que eu escondi de Charlie com tudo o que podia; tinha medo do que ele faria se soubesse.
Num desses dias em que Isaac e Charlie passavam o dia jogando vídeo game, Isaac parou discretamente na porta de meu quarto. Eu tinha quinze anos, ele dezoito. Parece uma diferença gritante agora, mas na época ele era tão infantil quanto eu. Ele pegou um pedaço de papel e colou com durex na maçaneta da minha porta, certificando-se de que eu via todos seus movimentos. Depois saiu, tão silenciosamente quanto entrara.
Quando olhei no bilhete, era um número de telefone. O número de telefone do Isaac.
Nunca liguei para ele, mas guardei o papel em minhas coisas, como um prêmio. Um garoto mais velho gostava de mim. De qualquer modo, jurei que jamais ligaria para ele, em qualquer circunstância.
Há alguns dias quebrei o juramento.
Ele não pareceu reconhecer minha voz de imediato. Ela estava de fato diferente; rouca, fraca e ligeiramente esganiçada. Não poupara minhas cordas vocais nos últimos meses.
― Sou eu, a Raven. Lembra de mim? Raven Walter Smith?
Silêncio do outro lado da linha. Estaria eu estragando tudo novamente? Eu não sabia. E não queria saber.
― Estou... ― Minha voz falhou. ― Procurando Charlie. Não sei se você sabe... ― Tossi. ― Charlie não volta para casa há um ano. Seria legal... seria legal se...
― Você está bem, Raven? ― perguntou.
Não, Isaac. Não estou bem. Estou péssima. Minha vida não tem mais valor algum.
― Só estou gripada. E então? Sabe onde está meu... irmão?
― Por que eu te diria qualquer coisa? Já faz um ano, Raven. Se realmente estivesse preocupada com seu irmão, você teria o procurado antes.
Quis gritar com ele. Quis pegar o telefone e jogá-lo do outro lado do quarto. Quis quebrar tudo o que achasse pela frente. Mas eu estava tão cansada disso. De ser uma miserável, ficar implorando o tempo todo por migalhas de atenção e carinho. Eu só queria minha vida de volta.
Então descartei minhas duas últimas palavras.
― Por favor.
Foi o suficiente para que Isaac saísse da defensiva e voltasse a ser o garoto que colara seu número em minha porta. Ele sempre fora muito doce e amigável, e quando me contou tudo o que sabia sobre o paradeiro de Charlie, não pude deixar de captar seu carinho por mim. Só complicou tudo um pouco mais. Principalmente depois de suas discretas indiretas, que gentilmente ignorei.
― Que bom que ligou, Raven. Achei que depois de tanto tempo você nunca ligaria...
Ele deveria saber. Eu nunca mais me permitiria a ser cobiçada, desejada, amada ou até mesmo olhada por alguém. As cicatrizes que Jason deixara em mim estavam bem ali em minha pele para me lembrar.
Desliguei o telefone antes que Isaac tentasse algo mais, talvez algum convite para o cinema. Eu não aceitaria, e seria uma situação particularmente desconfortável.
Isaac não sabia muito. Segundo ele, Charlie estava morando na periferia da cidade, num lugar onde um... amigo dele morava. Ele não sabia o que tinha acontecido depois disso, Charlie não retornara as ligações, nem o procurara nos últimos meses. Mas Isaac tinha o endereço.
Procurei o endereço na Internet, e tudo o que achei foi um beco sem saída cheio de lixo. Não duvidava que meu irmão estivesse num lugar desses. Charlie era dependente demais para continuar uma vida sozinha com dignidade. Patético.
O trajeto até lá era longo e confuso, cheio de ruas sem saída e placas mal sinalizadas. Demorei meia hora a mais do que deveria para chegar lá, me perdi diversas vezes.
Parei o carro numa rua deserta, perto do beco em que meu irmão estava. Melhor deixá-lo numa rua, do que num beco. Andei o resto do trajeto a pé, rezando para que não fosse abordada no caminho. Não fui; meus últimos resquícios de esperança estavam ajudando. Afinal, a esperança é a última que morre. Ou talvez não.
Observei aquele monte de lixo. O beco era nada mais que um espaço entre a traseira de dois prédios velhos. Havia lixo amontoado na caçamba, cobertores rasgados, memórias perdidas. Tudo naquele lugar parecia errado. Olhei em volta, procurando qualquer sinal de vida que pudesse encontrar.
Silêncio.
É difícil lembrar do que pensei naquele momento. Talvez estivesse esperando que meu irmão aparecesse e me abraçasse, como nos velhos tempos.
Isso não aconteceria.
Avistei uma escada de incêndio que dava para as janelas do prédio à minha direita. Era minha única chance. Talvez Charlie estivesse ali.
Testei o primeiro degrau, e a escada não cedeu. Animada com sua firmeza, subi os poucos degraus restantes até a janela mais próxima. Estava quebrada, pedaços de vidro perigosamente apontados em minha direção. O dano parecia ser obra de uma pedra ou um punho fechado. Tive um péssimo pressentimento sobre aquele lugar. Eu estava me perdendo novamente.
Passei pelos cacos de vidro, tomando o dobro de cuidado para não ser arranhada. Aterrissei no carpete mofado num baque surdo, esperando o apartamento estivesse vazio para que eu pudesse entrar no prédio sem escândalos.
Clique. Clique.
Uma arma carregada estava sendo apontada para minha cabeça. Em minha frente, uma mulher trêmula estendia o revólver, ameaçando-me. Mas eu podia ver em seus olhos que ela não atiraria em mim.
Levantei os braços, e dei alguns passos para trás.
― Quem é você? O que quer?
― Charlie... Charles Smith?
― Quem é você?
Eu? Quem era eu? Não fazia ideia.
― Sou a Raven. ― Senti-me infantil. Boba. Mas o que mais eu diria? Meu nome é Raven. É tudo o que sei sobre mim.
O olhar da mulher se suavizou. Lentamente foi baixando a arma.
― Se quer Charlie Smith, posso levá-la. Mas preciso lhe avisar. Aqui não é lugar para garotas como você. Faça o que tem que fazer, e depois vá. Pode sair pela minha janela, se quiser. Esse é um lugar traiçoeiro. Não ande sozinha. Não diga seu nome verdadeiro. Espero que Raven não seja seu nome verdadeiro, garota. Você tem sorte que Alfredo não está aqui... ― interrompeu-se. Pareceu perceber que falava demais. ― Ande. Ele está no 201. Não fale, não olhe para ninguém. Só vá.
Fiz o que ela disse. Andei pelos corredores desviando de olhares curiosos ou maliciosos. Enfim parei em frente à porta do número 201. Meu irmão estava atrás dela. Aquele era o momento.
Bati três vezes na porta, torcendo para que ele estivesse lá. Enquanto esperava, contei os segundos que fiquei ali de pé. Um, dois, três...
Depois de trinta e dois segundos, a porta foi escancarada. Vi-me frente a frente com um homem barbudo, fedendo à bebida barata. Olhei para ele, indecisa. Ele estava acabado, com olheiras cavadas embaixo dos olhos e pele ressecada.
― Por favor... ― Eu não estava esperando por isso. Não sabia o que fazer diante daquele homem estranho. Teria eu errado o apartamento? ― Eu precisava falar com... Charles Smith. Ele está?
O homem me encarou por algum tempo. Voltei a contar. Um, dois... Nove segundos depois, ele voltou a falar.
― O que aconteceu com você, Raven?
Demorei alguns segundos para absorver as seis palavras ditas por ele. Observei-o com mais atenção. Por trás da máscara de cansaço, pude ver o que restou de meu irmão. Seus olhos azuis, tão familiares, agora apagados. Ele parecia tão mais velho do que realmente era. O mundo fora mais cruel com ele do que comigo. Talvez... Talvez pudéssemos apoiar um ao outro.
― Posso entrar?
Ele suspirou e abriu a porta o suficiente para que eu passasse.
― O que está fazendo aqui?
Como responder a aquela pergunta? "Ah, Charlie, não o vejo há quase um ano e percebi que estar viva na verdade é a pior coisa que já me aconteceu. Você já teve esse sentimento?" Não iria acontecer.
― Senti sua falta.
Sua expressão neutra pareceu vacilar. Minhas palavras causaram o efeito desejado.
― O que você quer?― Sua frieza me surpreendeu.
― Não... Vim pedir nada. Só queria conversar. Como está o bebê? ― era a pergunta errada, mas a fiz mesmo assim. Um erro. Charlie explodiu.
― Um ano, Raven! ― Berrou. ― Estou vivendo esse pesadelo há um ano e você nem se deu o trabalho de vir aqui. Agora você aparece na minha porta, com cara de quem não dorme mais do que duas horas por noite e cicatrizes por todo seu corpo. ― Devo ter ficado espantada, pois ele continuou. ― Sim, não pense que não percebi essa bobagem que você fez. Você deve se achar muito pior que qualquer um, não é? Acha que seus problemas são os piores de todos. Acha que ninguém jamais sentiu o que está sentindo agora.
"O que aconteceu? Seu namorado não respondeu o 'eu te amo'? Tirou uma nota ruim na prova de matemática? Cresça, Raven! Olhe onde estou! Olhe o que a vida me deu! Eu por acaso tenho alguma cicatriz? Não puni a mim mesmo por tudo o que aconteceu, eu tenho amor próprio. Depois de tudo que aconteceu... O bebê nasceu, se realmente quer saber. Mas a família da mãe acabou comigo. Eles não aceitaram. Fui acusado de pedofilia, mesmo a garota estando a poucos meses de completar dezoito anos. Onde minha querida irmãzinha estava, hein? Diga-me, Raven, onde você estava quando eu passava as noites numa prisão?
"A família de Isaac pagou um advogado. Devo a eles mais do que jamais devi a ninguém. Mais do que jamais deverei a qualquer Smith! Então vá embora. Não quero ter minhas mãos sujas mais uma vez."
Sem perceber, comecei a chorar. Todas aquelas coisas... Eu não imaginava. Não podia imaginar. Mas Charlie não tinha o direito de dizer todas aquelas coisas sobre mim. Ele não fazia ideia do que estava acontecendo comigo.
― Você está certo. Talvez eu não tenha amor próprio, Charles. Mas o que faço com meu corpo é somente da minha conta. Não vim aqui pedir conselhos de como sentir pena de mim mesma. Disso eu sei bem. Só queria um ombro amigo, uma mão que pudesse me puxar da miséria, assim como Isaac fez com você. Confiei apenas em você para isso. Mas agora eu vejo. Eu não deveria perguntar a ninguém. Já sei o que quero, o que sinto. Não há ninguém que possa me ajudar.
― Egoísta!
A palavra veio tão rápida e alta que me assustei. Em poucos segundos, Charlie gritava a última palavra que eu gostaria que fosse dita em relação a mim, mas cada vez mais parecia verdadeira.
Egoísta. Covarde. Fraca.
Sou tudo o que nunca quis ser.
Há mais uma página. Uma última página e perdemos nossa amiga novamente. Quantas vezes é possível perder alguém?
A dor de perdê-la está viva e fresca. Posso sentir o arrependimento por todo meu corpo. Por que não a ajudei? Por que não fomos mais insistentes?
Agora é tarde. Não podemos modificar o passado.
Olá.
O que leram neste diário foram alguns dos relatos do que passei e senti. Em certas vezes eu reagi mal a alguns acontecimentos e escrevi com muita raiva e rancor. Mas, por favor, saibam que não culpo nenhuma de vocês pelo que fiz e farei comigo mesma.
Sempre achei que quando alguém estivesse prestes a fazer o que farei, essa pessoa teria consciência de todos seus atos e de sua vida.
Bem, eu não.
Sinto-me deliciosamente insana. Minha decisão não é um impulso de uma garota desesperada, tampouco um apelo para que alguém finalmente me note. Estou doente. Tenho frequentes ataques de pânico. Não consigo sair de casa. Odeio-me mais um pouco a cada olhada no espelho. Não me reconheço mais.
Estou presa em mim mesma. Eu me perdi em algum lugar dessa maré de insanidade, e eu não voltarei. Mesmo que me internem, mesmo que todas as malditas pessoas que causaram cada uma de minhas cicatrizes se desculpem, mesmo que eu sorria e coma todo meu café da manhã, eu nunca mais voltarei.
Estou presa.
Preciso libertar-me.
Espero que não julguem mal minha decisão. Espero que não se culpem, não chorem por mim. Eu ficarei bem.
Por isso, eu liberto vocês. Antes, não tive chance de libertar a mim mesma. Charlie tirou isso de mim. Mas eu posso salvar vocês, que tanto me protegeram.
A Protegida finalmente retribui.
Myra, Emily, Beatrice e Veronica, eu as liberto. Liberto-as de mim mesma, do fardo que teriam de levar por causa da amiga morta.
Myra, não a culpo. As coisas que escrevi sobre você foram cruéis e ocultei a maioria. Desculpe-me. O que aconteceu foi somente culpa minha. Não sintam raiva dela, Myra só estava pensando em sua própria felicidade.
Veronica, me desculpe. Não deveria tê-la tratado do modo que a tratei. Você estava do meu lado quando precisei e eu recusei sua mão estendida.
Beatrice, você foi minha segunda mãe por todos esses anos. Cuidou de mim e me deu conselhos quando eu nem sabia que precisava deles. Espero que não esteja se culpando por nada. Eu causei isso a mim mesma.
Emily, eu lembro como você chorou no enterro de seu avô. Não quero que chore por mim. Eu amo seu sorriso. Sorria enquanto estiver livre e sorria porque está livre. Sinta a liberdade.
São poucas as coisas das quais tenho certeza agora. Uma delas é a sensação de liberdade.
Quase posso senti-la correndo em minhas veias.
Espero que estejam tão livres quanto eu.
Sou um pássaro voando.
Voando, e dizendo adeus. Sem olhar para trás.
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